• Sonuç bulunamadı

7. TARTIŞMA

7.1. Türk ve Suriye Uyruklu Kadınların Demografik ve Obstetrik Bulgularının

A substituição de Fernando Henrique Cardoso por Celso Amorim não causa mudanças significativas no processo de reestruturação paradigmática na política externa brasileira. O padrão de comportamento fala mais alto, e a direção continua a mesma, por mais que tenham surgido diferenças pontuais.

O que chama a atenção logo no início da gestão de Celso Amorim, é o resgate da tradicional idéia de “desenvolvimento”, tão presente no discurso diplomático brasileiro dos períodos anteriores, mas ausente desde o fim da década de 1980. A rejeição a qualquer tipo de alinhamento também é mantida. No mais, como pretende-se demonstrar logo adiante, com Amorim à frente do MRE, o processo de integração

regional ganha maior dimensão e importância, sem abandonar a postura universalista brasileira nas relações internacionais.

[...] a Política externa do Governo Itamar Franco não precisa de rótulos; ela é voltada para o desenvolvimento do País, para a afirmação dos valores democráticos e é uma Política externa de

cunho universalista. É uma Política externa sem alinhamentos

outros que não aqueles que estejam ligados à ética e aos interesses do povo brasileiro”.

[O Brasil] não tem vertentes exclusivas, excludentes. A inserção do Brasil no quadro internacional é, pode-se dizer, uma inserção estelar, que de se dirige em vários sentidos (grifo nosso) (AMORIM, 1993, p.36).

Tratando mais especificamente do conceito de alinhamento, pode-se considerar que, com Itamar, ele manteve-se marginalizado. Se na gestão de Lafer o conceito de não- alinhamento ganhava cada vez mais nitidez, com Itamar Franco ele é mais bem definido e aplicado. Paralelamente, ao longo do período, nota-se uma maior valorização do conceito de autonomia, constantemente afirmada, e manifestada por meio de posturas próprias e muitas vezes divergentes dos ideais e pretensões de Washington.

De fato, o governo Itamar Franco logrou desdramatizar o relacionamento entre Brasília e Washington mantendo ao mesmo tempo posturas – particularmente no terreno político- diplomático – que preservavam a autonomia do Brasil frente às premissas orientadoras da ação norte-americana. A posição a respeito da intervenção do Haiti e as menagens referidas a Cuba foram claros exemplos nesse sentido (HIRST e PINHEIRO, 1995, p.16-17).

Certamente a postura brasileira frente à questão cubana é emblemática do não- alinhamento e autonomia do Itamaraty, na medida em que contraria de modo frontal as orientações de Washington.

O próprio Celso Amorim (1994, p.38), discursando na 49ª Assembléia Geral da ONU apregoa que “o isolamento político, econômico e comercial, além de injustificado, somente contribui para aumentar o sofrimento do povo cubano [...]”. No mesmo sentido, Sardenberg (1993, p.85) – Representante Permanente do Brasil junto à ONU, divulgando o documento final da III Conferência Dos Chefes de Estado e de Governos dos países Ibero-americanos – realizada em 15 e 16 de julho de 1993 - afirma que, em seu parágrafo 98 definiu-se a “necessidade de eliminar a aplicação unilateral, por

qualquer Estado, com fins políticos, de medidas de caráter econômico e comercial, sobre outro Estado”.

No mais, os choques e atritos existentes entre Brasil e Estados Unidos manifestaram-se ainda no campo comercial, com destaque para o tema da propriedade intelectual. A insatisfação brasileira com algumas posturas norte-americanas pode ser notada com extrema clareza no artigo assinado por Amorim (1993a, p.185-187). Logo no início, o autor aponta inúmeras questões que, se antes eram motivo de discórdia com os EUA, hoje teriam sido solucionadas pelo Brasil. Entre elas, cita: a democracia, direitos humanos, meio ambiente, liberalização econômica, desarmamento e não-proliferação.

Apesar de todas essas mudanças, que, na realidade, aproximam o Brasil dos valores defendidos pelos Estados Unidos, parece haver uma forte percepção de que as relações bilaterais mudaram para pior. Há um sentimento generalizado no Brasil de que somos vistos pelo público norte-americano muito mais como um ‘problema’ do que como parceiro digno de confiança. Grande ênfase é colocada em contenciosos comerciais, em aspectos específicos da situação dos direitos humanos ou das questões ambientais, sem a contrapartida das medidas tomadas [...] Abrimos nossa economia, mas não nos foi concedido, a não ser muito marginalmente, melhor acesso para nossos principais produtos de exportação no mercado norte-americano [...] Nosso compromisso firme com a não-proliferação e o desarmamento não tornou nosso acesso à alta tecnologia mais fácil. [...] é importante ter presente que cooperação e segurança no hemisfério também dependem da preservação e da melhoria das relações baseadas na confiança mútua entre o Brasil e os Estados Unidos.

Por fim, referindo-se a sua recente visita aos EUA, Amorim (1993a, p.187) expressa sua crença de que “Brasil e Estados Unidos estão prontos para uma parceria madura”. Tal colocação permite que se deduza que, se algo conserva potencial amadurecimento, é porque ainda carece desse quesito, ou seja, de forma mais direta, permite que se entenda que, sob a ótica do Ministro das Relações Exteriores, as relações Brasília / Washington ainda careciam de maturidade naquele momento.

Autonomia e universalismo

Conforme apontou-se anteriormente, no período em que Celso Amorim esteve a frente do Itamaraty, o conceito de autonomia também foi valorizado. A manutenção do padrão de comportamento diplomático brasileiro manifestou-se pela renovação do sentido pro- ativo / participativo assumido pela diplomacia na busca da autonomia, no ainda confuso cenário internacional emergente. “Como parte dessas oportunidades que esse mundo novo nos apresenta, há também que considerar a participação na formulação de uma Nova Ordem Internacional [...] Essa nova ordem está em construção, e um país como o Brasil certamente tem muito a dar a esta construção [...]” (AMORIM, 1993, p.38). Parece clara a visão dentro do Itamaraty de que, o caminho para a inserção internacional autônoma brasileira se daria pela participação efetiva nas questões e regimes internacionais. “ [...] em isolamento autárquico, nenhuma sociedade está hoje em condições de controlar e encaminhar o seu próprio destino [...] Em suma, participar e ativamente dos processos de globalização é algo que se pode fazer sem que se perca o sentido da escolha política” (LAFER e FONSECA Jr. 1994, p. 77)17.

Ainda dentro da discussão do conceito de autonomia pela participação, Hirst e Pinheiro (1995, p.11) afirmam que, dentro dos foros multilaterais e, em especial, nas Nações Unidas, o Brasil reverteu “o quadro de passividade” e imprimiu “maior visibilidade ao país frente à comunidade internacional. A partir de então, o esforço esteve conjugado ao objetivo de assegurar voz e voto no processo de reforma institucional da ordem internacional” (grifo nosso).

No plano concreto, ainda de acordo com Hirst e Pinheiro (1995, p.12), a postura mais propositiva e participativa do Brasil no cenário internacional fez-se sentir no desempenho significativo do Brasil na Conferência Mundial de Direitos Humanos (Viena, julho 1993). Com relação a ONU, o pleito brasileiro pela reforma e democratização de seus órgãos, em especial o Conselho de Segurança, ganhou maior destaque. No mais, o Brasil participou ainda de três operações de paz das Nações

17 No mesmo sentido, Barbosa (1994, p.104) afirma que, “ao lado de sua dimensão econômica, o peso internacional do Brasil é grande o suficiente para assegurar-lhe influência na discussão das chamadas

Unidas: duas na América Central (Onuca e Onusal) e uma na Àfrica (Unavem). No âmbito da OEA, o Brasil fez pressões no sentido de reintegrar Cuba à Comunidade e buscou uma solução negociada para a crise que instalou-se no Haiti.

O padrão de comportamento da diplomacia também pode ser sentido na manutenção da relevância do conceito de universalismo no discurso e na ação diplomática do período. Nesse sentido, o termo “global trader”18, que já na passagem de FHC a frente do Itamaraty era utilizado com freqüência, mostra-se ainda mais presente na defesa de uma forte diversificação das relações exteriores do Brasil.

O então secretário geral do MRE, R. Abdenur (1994, p. 37) por inúmeras vezes afirmou que “[...] o Brasil é, claramente, um país que possui interesses comerciais em todas as regiões do mundo”.

Celso Amorim, a exemplo de Fernando Henrique Cardoso, procurou difundir na sociedade brasileira como um todo, a importância da ação universalista da diplomacia brasileira, buscando assim, legitimidade e apoio para a execução da política externa sob seu auspício. Por conseguinte, encontra-se em quantidade significativa, artigos publicados em diversos veículos de comunicação, em que defende o universalismo, como por exemplo, nos casos citados abaixo a título de ilustração.

1- AMORIM, Celso. O Brasil e a África. Jornal do Brasil, 2 de fevereiro de 1994. 2- AMORIM, Celso. Relações Brasil - China. Correio Braziliense, 31 de março de 1994.

3- AMORIM, Celso. América Latina – União Européia: um novo diálogo. O Estado de

São Paulo. 9 de maio de 1994.

4- AMORIM, Celso. África da boa esperança. Jornal do Brasil, 13 de junho de 1994. No plano concreto, a preocupação e a orientação plural das relações exteriores do Brasil manifestam-se com clareza. De acordo com Hirst e Pinheiro (1995, p.18-9), o diálogo ‘questões globais’. Suficiente também para que colabore no fortalecimento do multilateralismo político especialmente dentro das Nações Unidas, e em tudo quanto se refira à paz e à segurança internacionais”. 18 Na definição de Barbosa e César (1994, p.307) “Um ‘global trader’ é um país que apresenta, tradicionalmente, elevado grau de diversificação nos seus fluxos geográficos de comércio, tanto na origem de suas importações, como no destino de suas exportações; sua pauta comercial (exportações mais importações) é diversificada, abrangendo um grande número de setores produtivos”.

Brasil – China passou por um considerável incremento. Em novembro 1993 foi assinado um protocolo de intenções sobre a ampliação do comércio bilateral de minério de ferro e sua exploração conjunta.

Com relação à Índia, o Brasil manteve relações favorecidas pelas crescentes similaridades entre ambos os países no campo da política e do comércio internacional. Em setembro de 1993, foi assinado um acordo na área de cooperação científico- tecnológica. O aumento do intercâmbio comercial Brasil – Rússia, desde 1992, também impulsiona a relação entre os dois países.

Por fim, no que diz respeito às relações com a África – relativamente enfraquecidas ao longo da década de 1980 - nota-se uma preocupação de revitalizá-las na era Itamar, quando o Brasil se aproxima da África do Sul e procura participar no processo de pacificação de Angola.

Benzer Belgeler