PAINTING IN THE CONTEXT OF ISLAMIC MYTHOLOGY AND AESTHETICS
5. TÜRK MANZARA RESMİNDE KAVRAM YA DA METAFOR OLARAK SU
Muitas vezes o santo é visto como um indivíduo sobre-humano, diferente, estranho, sisudo, sôfrego, expressando um semblante contemplativo e tristonho e um olhar cheio de
24 Mons. Nicodemos, Alagoa Grande, 17 de agosto de 2011.
misericórdia para com os pobres, o modelo dos santos retratados nas imagens dos altares católicos. Por todas essas características altruísticas, o santo é mantido como alguém que possui virtudes natas ou predestinadas, inalcançáveis ao pobre ser humano cheio de defeitos e vícios. Nisso cria-se uma cultura da “graça”, do pensar, ou da crença que o salvador do mundo morreu na cruz para nos salvar dos nossos próprios pecados:
12 Pois como o pecado entrou no mundo por um só homem e, por meio do pecado, a morte; e a morte passou para todos os homens, porque todos pecaram…[...] 15 Entretanto, o dom da graça foi sem proporção com o pecado. Pois, se pelo pecado de um só toda a multidão humana foi ferida de morte, muito mais copiosamente se derramou, sobre a mesma multidão, a graça de Deus, concedida na graça de um só homem, Jesus Cristo (Romanos. 5:12-15).
Ou seja, somos todos filhos de Adão, todos segundo a concepção cristã, carregam o pecado original desde o seu nascimento devido à herança de Adão e Eva, e, além deste, existe o pecado de nascer da carne. Para algumas denominações, o ser humano nasce de um ato de pecado através do sexo: “Eis que na culpa fui gerado, no pecado minha mãe me concebeu” (Salmo 51: 7). Até aí somos todos criaturas de Deus. Mas, é pela graça do único filho de Deus altíssimo, Jesus, que todo aquele que o aceita como seu salvador e nele crê terá a vida eterna. Essa é uma das doutrinas canônicas do cristianismo.
A herança do estoicismo é bastante presente na vida dos santos católicos e também na pregação de Frei Damião. A resignação pelos sofrimentos humanos e a extirpação das paixões são pontos cruciais do estoicismo e que podem ser vistos no discurso de Frei Damião.
O santo para os católicos é aquele que através de suas virtudes e obediência à Igreja é, depois de sua morte, beatificado e canonizado através de complexo processo aberto pelos correligionários do candidato a santo, na busca de provas de milagres atendidos pelo bem- aventurado. Isso não quer dizer que a massa devota da religiosidade católica popular espere que a Igreja reconheça o santo que eles mesmos elegem para sua devoção. O povo consagra, elege e santifica os seus santos independentemente da aprovação da santa madre Igreja Católica.
O catolicismo popular deflagrado em devoção de santos não canonizados ainda pelos cânones da Igreja é um exemplo de que boa parte dos santos católicos se faz no meio do povo antes da aceitação do Vaticano. Temos como exemplo o santo popular Padre Cícero do Juazeiro no Ceará e Frei Damião, outro santo popular fruto do catolicismo popular de massa, especialmente da massa rural nordestina. Claro, nem todos os santos surgiram da crença
popular, mas essa força popular deve ser considerada importante no estudo do cristianismo católico como um fator que também tem um peso configurador do seu compósito.
No que diz respeito à fama de santidade de Frei Damião, numa entrevista com Mons. Nicodemos, amigo de Frei Damião e idealizador do seu memorial, atualmente santuário, em resposta a uma pergunta a respeito do que atraía o povo a Frei Damião, ele respondeu:
Agora..., se conta, que isso começou em Itabaiana, aqui na Paraíba. Se conta que na década de trinta, Frei Damião foi convidado, o padre de Itabaiana, convidou pra que ele fosse ajudar numa semana santa. Que era muito serviço, tinha que atender muitas pessoas, e o padre de Itabaiana, foi ao Recife pedir a ajuda de um grupo de frades. Na época o superior não teve como mandar todos os frades que aquele padre pediu, aí mandou Frei Damião e mais um outro. E quando Frei Damião chegou lá, e o padre olhou assim pra ele e viu aquele fradizinho chocho, pequeno, magrinho, né! Aí olhou assim e disse..., “imaginou” e disse: - Esse aí não vai dar conta do recado. O que vai acontecer é que vai sobrar pra mim, eu é que vou ter que ficar no pesado a semana santa toda, porque esse frade ai não vai aguentar. Ele pensou isso, né, até comentou com outras pessoas; Frei Damião não soube disso logo. Só que Frei Damião chegou, e, chegou nesse ritmo que eu lhe falei. Então ele chegou lá, e começou o atendimento, as palestras, as pregações, e tudo que tinha para fazer ele tava ali... Se tinha uma missa ele era o primeiro a chegar e era o ultimo a sair. Se hoje era o dia para confissões ele era o primeiro a chegar, era o ultimo a sair. O padre confessava lá e não aguentava e..., doía a coluna e tal e não aguentava e saía, o outro saia e ele ficava. Ele ficava até enquanto tivesse a ultima pessoa. E aconteceu de às vezes ele passar quase a noite toda e o dia atendendo. E quando chegava a hora dele se alimentar ele dizia “Não, não tô com fome”. Ou quando chegava a hora de dormir ele ia pro quarto, no lugar de dormir na cama ele dormia no chão. E no outro dia quando alguém entrava no quarto a cama dele estava arrumadinha do mesmo jeito. E o padre foi ficando assim, impressionado com aquilo. Foi ficando impressionado e a conclusão foi de dizer assim “Esse homem parece que é um santo. Porque a resistência dele é admirável”. Depois a simplicidade, o jeito, a maneira como atende, como conversa. E começou..., e daí nasceu essa história, foi aí que começou em Itabaiana, essa história que esse homem só pode ser um santo. (Informação verbal) 26.
Podemos observar nas palavras de Mons. Nicodemos uma faceta do capuchinho que é muito característica dele: o trabalhador incansável e dedicado à fé. Essa sua característica é própria de sua humanidade sem nenhum traço divino, apesar de que no discurso acima o padre de Itabaiana tenha percebido todo esse esforço e dedicação do frade como sendo algo divino quando diz: “Esse homem parece que é um santo”. Mas, numa visão mais humanizada, essa característica que pode ser percebida como algo heroico, muitas vezes é sobreposta e/ou substituída por outra característica atribuída a ele que é o do milagreiro.
O lado de vida missionária de Frei Damião, de dedicação incansável, de vida sacerdotal é algo que se torna notável pelo caráter insólito de um sacerdote dedicado ao seu trabalho junto à população carente. Ao perceber tal dedicação e carisma não comuns, em
comparação a outros sacerdotes, o povo o tomou naturalmente por um santo. Completando o que abordamos no subitem 2.4 sobre o carisma do líder, tal carisma característico dos grandes líderes dotados de “dons sobrenaturais”, Weber (1982) chamou de liderança natural: “Os líderes naturais foram portadores de dons específicos do corpo e do espírito, dons esses considerados como sobrenaturais, não acessíveis a todos” (WEBER, 1982, p. 283).
Weber identifica o líder natural como portador de “dons sobrenaturais” não acessíveis a todos e que os devotos de Frei Damião consideravam o mesmo como sendo um santo e milagreiro. Ele mesmo dizia que essa fama de milagreiro era só “bondade do povo”. Não que Frei Damião tivesse tal pretensão. Mas foi o próprio povo que o revestiu de um caráter místico, milagreiro e mítico. É o mito, de que justamente se revestem os notáveis santos do povo; e que pela força da devoção popular perpetua-se mesmo depois de sua morte pela “força viva e verdadeira do mito”.
O mito é a repercussão de um arquétipo, modelo cósmico atemporal que um indivíduo toca, de que se reveste por assim dizer, em sua vida física humana no tempo cronológico. Frei Damião se tornou um mito ainda vivo. Sobre ele se falava que fazia muitos milagres. “O mito é uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada através de perspectivas múltiplas e complementares” (ELIADE, 2010, p. 11).
Frei Damião vestiu a camisa da simplicidade e da rusticidade do povo nordestino, ele incorporou e viveu com os pés firmes no solo arenoso e quente do sertão. Um dos votos de sua ordenação como capuchinho foi o da pobreza, algo que o tornava muito próximo da população empobrecida que estava sempre à sua volta e à qual se dedicava. Foi a realidade cultural do sertanejo, dos moradores rurais e seu histórico devocional que fez de Pio Giannotti, do monge capuchinho Damiano, Frei Damião, o mito para depois de a sua morte concretizar ainda mais a sua força na figura de Frei Damião, o ícone.