3. BULGULAR VE YORUM
3.1. Birinci Alt Probleme İlişkin Bulgular ve Yorum
3.1.2. Türk Müziği Ses Eğitimcilerinin Görüşlerine İlişkin Bulgular ve Yorumu . 86
(2005-06)
Após a renúncia de Bánzer por motivos de saúde, em agosto de 2001, Bolívia entrou em um período de instabilidade política que a levou a ter quatro presidentes no período de cinco anos. Em meio a pressões constantes de grupos sociais e contínuas dificuldades com a implantação de políticas econômicas, houve um arrefecimento das operações de erradicação: a área erradicada saiu do patamar de 11,8 mil hectares (2001) diminuindo continuamente para menos da metade, chegando a pouco mais de 5 mil hectares (2006). A área líquida cultivada aumentou na proporção, aumentado em 50% de 17,7 mil para 26,6 mil hectares, como que demonstrando a inutilidade do grande esforço repressivo do Plano Dignidade. Para compensar a redução dos programas de erradicação, o governo aumentou o número de apreensões de
cocaína e destruição de laboratórios. Prisões e detenções aumentaram 66%, de um total de 12.104 (1997-2001) para 20.148 (2002-06). O número de laboratórios de processamento de coca destruídos aumentou 2,5 vezes, saltando de 4.623 (1997-2001) para 12.011 (2001-06).
Em vista da dificuldade em fechar 15 mercados ilegais de venda da folha de coca no Chapare, em novembro de 2001, Quiroga lançou um decreto pelo qual autorizava a apreensão de todo coca transportada ou desidratada que fosse encontrada na região e ordenava a prisão e julgamento dos envolvidos na atividade delituosa. O decreto provocou intensos protestos de cocaleiros que forçaram o governo a reverter a aplicação da erradicação forçada no na região dos Yungas e a reduzi-las no Chapare. Paralelamente, o governo boliviano iniciou um programa bienal com os EUA para expandir o tamanho da sua Fuerza Especial de Lucha Contra Narcóticos (FELCN) e suas unidades operacionais especializadas. O programa estabelecia como metas: expandir em mais de 15% o quadro de pessoal da Força; reformar da infraestrutura existente e construir 14 novas bases em todo o país; construir uma rede nacional de comunicações; estabelecer um sistema de bancos de dados e compartilhamento de informações e modernizar equipamento operacional e material de escritório (USA. DEPARTMENT OF STATE, 1988-2011).
Após um breve e conturbado período de 14 meses na presidência, Sánchez de Lozada apresentou sua renúncia, em outubro de 2003, em meio a protestos provocados, em grande medida, por questões econômicas. O sucessor, García Mesa, assumiu a direção da Coordinación del Consejo Nacional de Lucha contra el Tráfico Ilícito de Drogas (CONALTID), o órgão máximo para definição e execução das políticas de repressão ao tráfico ilícito de drogas e substâncias contorladas. Em vista da grande mobilização dos cocaleiros em marchas e protestos, sua atuação no órgão foi pautada pela negociação e apaziguamento de conflitos por meio de concessões. O Plano Dignidade foi substituído por uma nova estratégia quinquenial para o período de 2004 a 2008 e um programa integral de desenvolvimento alternativo foi elaborado de forma a permitir a participação de instâncias municipais nas decisões do governo nacional sobre seu desenvolvimento, implantação e monitoramento.
A persistente produção ilícita refletia a falta de opções socioeconômicas de uma população rural de aproximadamente 300 mil camponeses vivendo em condições de pobreza ou miséria, que via o cultivo ilícito de coca como ocupação econômica estável. Os programas
de desenvolvimento alternativo que vinham sendo implantados na região do Chapare desde a década de 1980 ainda não haviam sido capazes de produzir efeito significativo nas condições de vida da população local.
5.6. Morales (2006-2010)
A eleição de Evo Morales, líder da confederação de cocaleiros, em 2005 resultou do amadurecimento de um lento processo de insatisfação popular contra as elites políticas bolivianas e do esgotamento do projeto de “democracia pactuada”63. Ao longo dos anos de mobilização popular contra os governos que se projetaram no espaço político boliviano desde a redemocratização na década de 1980, os cocaleiros tornaram-se um dos principais grupos de resistência tanto à política antidrogas quanto às políticas econômicas neoliberais64. Sua mobilização levou à criação de um novo partido de esquerda, o Movimiento al Socialismo (MAS) que ganhou importantes eleições locais em 1999 e 2004.
Durante o governo Morales, os cultivos aumentaram a uma taxa média (constante, porém mais baixa que a dos antecessores) de quase 6% ao ano, o que elevou a área de cultivo líquido de 26,65 mil hectares (2006) para 32,75 mil hectares (próximo, mas ainda abaixo dos 38 mil hectares de 1998). O aumento regular foi acompanhado pela constância das políticas de erradicação com enfoque mais na negociação do que na aplicação da força: entre 2006-10, a área de erradicação totalizou mais de 30 mil hectares, 30% menor do que no período de 2001-05, com 45 mil hectares erradicados.
A mudança do enfoque da repressão ao narcotráfico não produziu um grande aumento no número de prisões e detenções: foram 19.428 presos ou detidos entre 2006-10, cifra apenas 4,5% maior do que os 18.593 entre 2001-05. A destruição de laboratórios e a apreensão de
63 O termo “democracia pactuada” é empregado por estudiosos do processo político boliviano para
designar o período que vai da redemocratização em 1985 até o ano de 2005, o mais longo período de estabilidade democrática na vida republicana do país. Para uma análise detalhada do modelo de presidencialista e do sistema partidário adotado na Bolívia durante esse período, ver (Presidencialismo parlamentarizado en Bolivia (1985-2005), 2005).
64 Os diversos movimentos de protestos e demandas, organizadas ou isoladas incluíam indígenas das
terras baixas da Amazônia e oriente em busca de direitos e território, a guerrilha do Ejército
Guerrillero Tupac Katari (EGTK), protestos contra privatizações, reforma educativa e lei de reforma agrária de 1996 e ocupações esporádicas de minas privadas. Para uma interpretação gramsciana sobre a mobilização de movimentos contestatórios na Bolívia, ver CUNHA FILHO (2009, p. 18-44).
coca ilegal e derivados elevou a um novo patamar as medidas de interdição: o número total de laboratórios destruídos aumentou 159%, de 8.816 (2001-06) para 22.882 (2006-10) e a quantidade total de produtos apreendidos na forma coca, cocaína e pasta quase quintuplicou, saltando de 1.645 para 7.822.
Morales executou um rompimento paradigmático com as posturas de governos passados não só por promover a legalização da coca e concentrar a repressão no tráfico ilegal de cocaína sob o lema “la hoja de coca no es droga”, mas principalmente por promover um esquema de controle comunitário denominado “control social” ou “racionalización” para regular a produção de coca e sua industrialização para fins legais. O modelo de controle social é uma alternativa ao modelo de militarização repressora ao cultivo de coca prevalecente, inovando as instituições e políticas públicas ao buscar atender simultaneamente o combate ao narcotráfico e a preservação da integridade de indivíduos e comunidades locais (FARTHING e KOHL, 2010).
O novo marco legal para controle dos cultivos de coca com participação social foi consolidado na Estratégia de lucha contra el narcotráfico y revalorización de la hoja de coca
2007-2010. A Estratégia estabelecia dois objetivos gerais: de um lado, buscava reafirmar a vontade determinação do governo em reduzir o potencial de produção de cocaína na Bolívia através de medidas efetivas de interdição, repressão e prevenção; de outro lado, pretendia reabilitar a imagem da folha de coca por meio da aplicação do controle social em sua produção, processamento e comercialização, ratificando o papel cultural e econômico que a folha cumpre na vida cotidiana da sociedade boliviana (CONALTID, 2007).
A Estratégia ampliava a área de cultivo legal no país para 20 mil hectares. O excedente deveria ser racionado de forma concertada com os produtores por meio da delimitação de “zonas de não expansão”, com base em um cato, unidade de cultivo correspondente a um terço de campo de futebol (1600m²). Para reduzir o excedente ilegal, previa-se a “transformação produtiva” de 4 mil toneladas para elaboração de diferentes produtos nutricionais e medicinais como infusões, farinhas, xaropes, pomadas e insumos agrícolas. Programas de cooperação internacional atuariam como mecanismos complementares para prospecção de mercados internos para os produtos legais derivados da folha de coca e para certificação por meio de “selo de qualidade ecológica”, enquanto, paralelamente, seriam
definidos critérios ambientalmente sustentáveis para o cultivo de coca (CONALTID, 2007, pp. 31-32).
A nova abordagem gerou atritos com o governo norte-americano que desaprovava a ampliação do cultivo lícito, a tolerância para com o aumento do cultivo (especialmente em Los Yungas) e a resistência em estabelecer regulação restrita dos mercados de coca.
Carente de legitimidade, a atividade de agências do governo dos EUA na Bolívia foi continuamente cerceada por autoridades e por movimentos organizados em uma série de episódios que culminaram em uma crise diplomática. Em junho de 2008, a equipe da USAID foi coagida a retirar-se do Chapare após ameaças de líderes sindicais dos cocaleiros. Em setembro, o governo boliviano negou autorização de voo dentro do país a um avião da DEA empregado no transporte de agentes norte-americanos e bolivianos em operações antidrogas, sob a alegação de que ele estaria sendo utilizado para atividades ilegais de vigilância.
Em setembro, o governo boliviano declarou o embaixador norte-americano persona
non grata, acusando-o de ingerência em assuntos domésticos por meio do apoio à oposição. A suspensão das atividades do DEA na Bolívia foi anunciada por Morales em novembro. O governo alegava que os agentes do órgão norte-americano atuavam como espiões políticos e conspiravam contra o governo65. Por meio de uma nota diplomática estabeleceu o prazo de 90 dias para a retirada de seus funcionários e dependentes.
Como resultado desse embate diplomático, em setembro de 2008, o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, determinou pela primeira vez que a Bolívia havia “visivelmente falhado” em aderir a suas obrigações com relação aos acordos internacionais sobre drogas. Em decorrência dessa avaliação, a Bolívia foi suspensa como beneficiária do ATPDEA e outros programas de cooperação dos EUA.
Contudo, mesmo com a extinção das atividades do DEA, a Seção de sobre Entorpecentes (NAS, na sigla em inglês), ligada ao Escritório de Entorpecentes Internacionais e Aplicação da Lei do Departamento de Estado, continuou a apoiar, em menor escala, programas e operação de erradicação da FELCN. A decertificação da Bolívia foi renovada
65 O govenro dos EUA alega que as acusações não têm fundamento e afirma que, até a expulsão do
país, o DEA prestava consultoria e fornecia contatos, inteligência e financiamento diretamente às Unidades de Investigação da FELCN.
pelo governo Obama em 2009 e em 2010, mas projetos e reabilitação e prevenção e atividades de formação para policiais, procuradores de Justiça, funcionários do governo boliviano e de organizações não-governamentais continuaram a ser realizadas com apoio dos EUA.
5.7. Conclusão parcial
A pressão diplomática dos Estados Unidos e as reiteradas operações militarizadas para erradicação forçada de cultivos na Bolívia não fizeram arrefecer a atuação dos movimentos cocaleiros ao longo do período estudado. Suas demandas voltadas para ampliação das áreas de cultivo legal e apoio no beneficiamento da folha se respaldavam em um discurso que diferenciava a folha usada para consumo tradicional (acullico) de seu produto derivado, o cloridrato de cocaína. Essa pauta orientou a atuação diplomática de Morales, que postulava a retirada da folha de coca da lista de substâncias controladas pela ONU, o que pôs em confronto com as diretrizes do governo norte-americano. A trajetória boliviana demonstra que a existência de um grupo social coeso, com ampla projeção nacional e raízes culturais, ainda que ligado a grupos historicamente alijados dos processos políticos pode encontrar formas de resistir a pressões internacionais e condicionar a implantação de políticas mais próximas às suas demandas.