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Türk Kökenli Kadınların Kişisel ve Demografik Özellikleri

BÖLÜM 4. ALMANYA'DA TÜRK KÖKENLİ KADINLARIN ÇALIŞMA

4.6. Araştırmanın Bulguları

4.6.1. Türk Kökenli Kadınların Kişisel ve Demografik Özellikleri

A abdicação do imperador foi vista pelos coevos como uma revolução. Evaristo da Veiga comparou a queda de D. Pedro I com a do monarca francês, Carlos X, deposto menos de um ano antes: “A nossa revolução gloriosa em nada teve que invejar os três dias de Paris.”370 Para Lopes Gama, a “nobre Revolução de 7 de abril” contou com o “voto da Nação” e foi “tão geralmente aplaudida que nenhuma só província se declarou contra ela”.371 Este vocábulo, revolução, esteve no centro do debate político empreendido entre 1831 e 1834.

Os coevos tinham, contudo, diferentes projetos de futuro para essa nova nação, o Brasil. Depois da “nobre revolução de 7 de abril”, o rumo que o Estado nacional deveria trilhar não estava definido. Essas pessoas, portadoras de distintos projetos de futuro, interpretaram, cada uma ao seu modo, a “nossa gloriosa revolução”. Segundo Marco Morel, cada uma das três grandes tendências políticas existentes na corte no início das regências, isto é, restauradores, moderados e exaltados, enxergaram a revolução de 7 de abril de um modo peculiar. Os exaltados acreditavam que abdicação havia sido uma revolução, mas que o processo revolucionário estaria apenas em seu início e deveria ser aprofundado. Eles clamavam por mudanças mais profundas, como por exemplo, a remoção das barreiras censitárias para o exercício formal da cidadania política. Já os moderados pregavam que a revolução ocorrera e já estava concluída, sendo que era preciso seguir estritamente dentro do caminho da legalidade, ou seja, obedecer aos preceitos constitucionais para efetuar qualquer tipo de modificação política e social. Para os moderados, a revolução já havia acabado, havia ficado no passado. Por fim, os restauradores não aceitaram a Revolução de 7 de abril e pretendiam retornar à situação

369 Algumas das reflexões e sínteses encontradas neste capítulo foram inicialmente realizadas em trabalho

anterior. Aqui elas foram revisadas e ampliadas. Cf. Ariel Feldman. O império das carapuças.

370Citado por Marco Morel. O período das regências, p. 21. Para o entendimento das transformações

ocorridas no mundo atlântico entre 1776 e 1848 como um processo revolucionário único ver: Robert R. Palmer. “A revolução”, in: C. Vann Woodward (org). Ensaios comparativos sobre a história americana. São Paulo: Cultrix, 1972 [1968]; Eric J. Hobsbawm. A era das revoluções Rio de Janeiro : Paz e Terra, 2006; Jacques Godechot. “A Independência do Brasil e Revolução no Ocidente”, in: Carlos Guilherme Motta. 1822: dimensões. São Paulo : Perspectiva, 1986.

371 O Carapuceiro nº 63 (20/jul/1833). Lopes Gama também se refere à abdicação de D. Pedro I como a

“Revolução de 7 de abril” em O Carapuceiro nº 52, 55, 68 e 75 (1833). Sobre a caracterização do 7 de abril como uma revolução, cf. Marco Morel. “As idéias mudam com os lugares: o Brasil entre a França, a Península Ibérica e as américas na crise dos anos 1830-1831”. Cadernos do CHDD (Centro de História e Documentação Diplomática), nº especial, Brasília, 2005; Augustin Wernet. O período regencial, 21-24; Arnaldo Contier. Imprensa e ideologia em São Paulo, pp. 13-15; Ilmar Mattos e Márcia de Almeida Gonçalves. O império da boa sociedade: a consolidação do Estado imperial brasileiro. São Paulo : Atual, 1991, pp. 19-30.

que existia anteriormente, entronizando D. Pedro I outra vez. Restaurar, para esse agrupamento, significava regenerar a monarquia. Para eles, a revolução de 7 de abril não havia sido legítima. 372

A abdicação, portanto, foi entendida como uma revolução pelos contemporâneos, mas de diferentes formas. Lopes Gama, por sua vez, elaborou uma interpretação peculiar daquilo que deveria ser a “revolução” no Brasil. Este capítulo tem como objetivo central analisar a forma pela qual Frei Miguel entendia que a revolução de 7 de abril deveria prosseguir. Como já vimos, ele acreditava que tal revolução havia sido legítima, pois contou com o “voto da Nação” e foi “tão geralmente aplaudida que nenhuma só província se declarou contra ela”.373 Contudo, depois de efetuada “nobre Revolução de 7 de abril”, que caminho o Brasil deveria seguir? A revolução estaria concluída para Lopes Gama, tal qual postulavam os moderados fluminenses? Ou a revolução precisava ser aprofundada, como pretendiam os exaltados? O padre jornalista elaborou suas próprias respostas para esses questionamentos.

Outra pauta central do debate público no início das regências foi a reforma em sentido federal. Pouco depois de o primeiro imperador embarcar para Europa, a mudança na constituição já era o assunto mais discutido na imprensa, na Assembleia Geral e nas ruas. Os espaços públicos estiveram, sobretudo, ocupados com dois temas correlatos: a modificação do texto constitucional e a concessão de maior autonomia às províncias. Essas mudanças, contudo, poderiam ocorrer de diversas formas. Alguns pretendiam implantar o federalismo de uma forma revolucionária, isto é, não se levando em conta as leis estabelecidas. Outros pretendiam que a reforma constitucional fosse efetuada dentro dos limites que a própria Carta de 1824 estabelecia. Alguns indivíduos defendiam que as mudanças na lei magna da nação aprofundasse a Revolução de 7 de abril, estabelecendo, por exemplo, eleições diretas, rompendo com barreiras censitárias e acabando com a vitaliciedade do senado. Outros setores sociais, por sua vez, defendiam que as províncias recebessem maior autonomia administrativa sem que os preceitos básicos do sistema político estabelecido a partir de 1824 fossem alterados. O movimento federalista esteve, portanto, diretamente associado ao aprofundamento, ou

372 Marco Morel. O período das regências, p. 20-22. Já utilizada no capítulo anterior, outra formulação de

Marco Morel que terá grande importância nesse capítulo é a distinção entre três tipos de soberania, cada qual vinculada a uma das três tendências políticas da época. Exaltados, moderados e restauradores defendiam, respectivamente, a soberania do povo, da nação e do monarca. Cf. As transformações dos

espaços públicos, pp. 99-151.

ao não aprofundamento, da “nossa nobre revolução”. Revolução e federação eram assuntos intimamente associados.

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Primeiramente (subtítulo 3.1), serão elucidadas as formas pela quais os coevos enxergavam a ideia de revolução. Na sequência (3.2), será realizada uma narrativa da setembrizada e da novembrada, dois motins ocorridos no Recife durante o ano de 1831. Nosso intuito é o de demonstrar que o início das regências foi um período no qual as manifestações políticas extravasaram para as ruas de uma maneira inédita, numa nova maneira de exercício da cidadania. No subtítulo 3.3 será feita uma descrição analítica da principal fonte utilizada nesse capítulo, o jornal O Carapuceiro, unicamente escrito por Lopes Gama. Em seguida (3.4), iniciaremos a análise das fontes, esmiuçando a ideia de “revolução moral” defendida pelo Padre Carapuceiro. No subtítulo seguinte (3.5), procuraremos entender o desenho institucional proposto por Lopes Gama, o qual tinha como característica central restringir a participação política de setores sociais que não eram por ele considerados capazes de exercer essa participação. Na sequência (3.6), examinaremos a construção de um estereótipo social realizada por Frei Miguel, um estereótipo social que não teria as mínimas qualificações para exercer a cidadania política, seja em pleitos eleitorais, seja nas ruas, seja na imprensa.

Nesse momento, o capítulo irá se voltar para a análise das reformas constitucionais e a atuação pública de Lopes Gama nesse processo. Primeiramente (3.7) veremos como Lopes Gama, antes da abdicação, voltou-se contra qualquer modificação na carta de 1824, advogando a favor da manutenção de um Estado nacional de tipo unitário. Observaremos (3.8), que não só Lopes Gama, como boa parte da opinião pública brasileira, mudou radicalmente de postura após o sete de abril, passando a defender a implantação de reformas em sentido federal. Por fim (3.9), buscaremos analisar a dinâmica política pernambucana em torno das sociedades formalmente instituídas após a abdicação, notadamente a Sociedade Federal e a Sociedade Patriótica Harmonizadora, as quais atuaram num contexto de substituição da elite dirigente local arraigada nos cargos públicos desde 1824. Buscaremos, também, entender a importância e o sentido da atuação do Padre Carapuceiro dentro do movimento federalista pernambucano do início das regências.

3.1 - O velho e o novo significado do vocábulo revolução

Segundo Lúcia Maria Bastos P. Neves,

pelo menos até às vésperas da abdicação de D. Pedro, o conceito de revolução continuava, na mentalidade do período, a constituir predominantemente um processo, destinado pela providência divina, para flagelo dos povos, que resultava em mudanças maiores ou menores, violentas ou não, que quebravam o tempo físico e perturbava a natureza das coisas, ao cabo do qual, em uma perspectiva cíclica, retornava-se à situação anterior. (...) Na realidade, somente uma minoria procurava superar essa visão litúrgica do conceito, reconhecendo o potencial dos homens para interferir na vida pública em seu próprio proveito, mas sem conseguir, porém, desprender-se de uma perspectiva reformista.374

Neves admite que existiram, durante a década de 1820, setores sociais que procuravam conferir ao conceito de revolução uma conotação mais moderna, vinculada à ideia de progresso e a uma concepção teleológica de história. Para a autora, contudo, esses eram minoria. Ao fim e ao cabo, prevalecia, segundo Neves, a velha concepção que atrelava a ideia de revolução ao movimento dos astros, os quais depois de terminar um ciclo, uma rotação, retornavam ao lugar inicial. Prevalecia, nessa concepção, a ideia de restaurar uma situação anterior.375

João Paulo Garrido, por sua vez, notou que aqueles que empreenderam, entre 1820 e 1824, a separação do Brasil em relação a Portugal, procuraram caracterizar esse processo como uma revolução positiva, “que se diferenciava de outras por ter sido conduzida por um descendente da família real portuguesa, e resultando em uma ordem monárquica, o Brasil seria um caso único e superior, sobretudo, quando comparado aos seus vizinhos hispano-americanos (...)”. Para Pimenta, quando os coevos se valeram do termo “revolução” para caracterizar a independência, este se “tornava um conceito indicativo de profundas transformações, mas dentro de limites considerados ‘adequados’ por alguns grupos políticos.” Era a construção da ideia de uma “revolução positiva, associada a termos como emancipação, reforma ou regeneração,” ou seja, existia um forte vínculo do conceito de revolução à sua concepção clássica, cíclica, de

374 Lucia Maria Bastos Pereira das Neves. “Revolução: em busca de um conceito no império luso-

brasileiro (1789-1822)”, in: Jr. Feres & Marcelo Jasmin (org.). História dos Conceitos: diálogos transatlânticos. Rio de Janeiro: Edições Loyola, 2007, p. 140.

375 Hanah Arendt elaborou um dos estudos pioneiros que buscou verificar a transformação do significado

da palavra revolução. A filósofa percebeu que esse vocábulo, inicialmente, referia-se apenas ao movimento dos astros, mas às vésperas da Revolução Francesa passou a ser utilizado para indicar transformações profundas na sociedade. Sobre a revolução. São Paulo : Companhia das Letras, 2011 [1963].

retorno ao passado. Para Pimenta, por fim, a questão da manutenção da monarquia e dos laços dinásticos com o antigo império português forneceu à historiografia, notadamente a Varnhagen, a definição do processo de independência como conservador e, no limite, como “não revolucionário”. Em outros termos, foi uma construção conceitual duradoura, que prevaleceu até as primeiras décadas do século XX. 376

Como se percebe, o conceito de revolução carregava uma profunda marca negativa caso ele fosse utilizado em sua acepção moderna, isto é, teleológica, indicativa de progresso e de profundas transformações políticas e sociais. Nos dicionários da época, coexistiam os dois significados atribuídos ao vocábulo revolução, o antigo e o moderno: “na astronomia, giro dos astros”, no sentido figurado, “mudança política” e “transtorno.”377 O significado moderno, entretanto, era seguido pela palavra “transtorno”, indicando a conotação pejorativa atribuída às mudanças políticas revolucionárias. Revolução era, muitas vezes, sinônimo de tudo aquilo que havia de mais perverso na sociedade: sublevação, insurreição, guerra civil, anarquia, facção, jacobinismo, insubordinação, insurgência, motim, rebelião e revolta.378

Entretando, essa conotação negativa atribuída ao vocábulo revolução, se usada em sua acepção moderna, não perdurou por cerca de um século sem que houvesse acirradas disputas nos espaços públicos. No início das regências, como veremos, houve

376 João Paulo Garrido Pimenta. “A independência do Brasil como uma revolução: história e atualidade de

um tema clássico”. História da Historiografia, v. 3, Ouro Preto, 2009. p. 58. Tanto Neves como Pimenta pautaram suas reflexões nas diretrizes teórico-metodológicas estabelecidas por Reinhart Koselleck.

Futuro passado. A visão de Lopes Gama no jornal que escreveu em 1822 é convergente com o assinalado

por Pimenta. Cf. capítulo 1 dessa tese, subtítulo 1.5. Cf., ainda, sobre essa construção conceitual duradoura, a qual definiu o processo de independência como conservador e como não revolucionário, Wilma Peres Costa. “A independência na historiografia brasileira”, in: Istvan Jancsó (org.).

Independência: história e historiografia.

377 Luís Maria da Silva Pinto. Dicionário da Língua brasileira [1832], apud. Ivana Stolze Lima.

“Imprensa, língua e nação nas Regências”, in: Mônica Leite Lessa e Silvia Carla Pereira Brito Fonseca.

Entre a monarquia e a república: imprensa, pensamento político e historiografia (1822-1889). Rio de

Janeiro: Eduerj, 2008, p. 117. Antonio de Moraes e Silva também diferencia esses dois tipos de revolução, em um verbete que não sofreu modificação nas duas edições de seu Dicionário da Língua portuguesa. [1813 e 1823].

378 João Paulo Garrido Pimenta. “A independência do Brasil como uma revolução”, p. 56. Lopes Gama,

quase sempre, quando usou o vocábulo revolução, atribuiu uma carga negativa à palavra. Revolução foi sinônimo de estado convulsivo, insurreição, intempestividade e loucura. Conotações positivas atribuídas ao termo também são encontradas no discurso de Lopes Gama, mas sempre associando a palavra aos eventos de 7 de abril. Por fim, cabe ressaltar que o vocábulo também foi usado muitas vezes para definir a restauração de D. Pedro I no trono brasileiro, essa talvez uma das associações mais pejorativas que poderiam existir à época. Cf. Diário de Pernambuco nº 61, 69, 77 e 98 (1831); O Carapuceiro nº 52, 55, 63, 68, 69, 75 e 76 (1833); O Carapuceiro nº 4, 21, 29, 31, 36 e 48 (1834); Diário da Administração

uma tentativa, por parte de amplos setores sociais, de retirar a carga pejorativa que carregava a ideia de se promover mudanças bruscas na sociedade.379

3.2 - A ampliação dos canais de participação política

“(...)nasci e me criei no tempo da regência; (...) nesse tempo o Brasil vivia, por assim dizer, muito mais na praça pública do que mesmo no lar doméstico(...)” (Francisco de Paula Ferreira de Rezende, 1887).

O relato acima é uma memória escrita mais de quatro décadas depois do período regencial.380 Essas recordações, entretanto, refletem com sagacidade o que foi o início da década de 1830. Já vimos que a imprensa periódica nunca havia sido tão ativa quanto nesses anos. Nunca o Rio de Janeiro, nem tampouco o Recife, tinham visto tamanha diversidade de periódicos.381 A imprensa, quase que exclusivamente política, continuou sendo marcada pelo uso de uma linguagem agressiva. Como já foi observado, aquilo que era escrito estava intimamente relacionado com aquilo que era falado nas ruas. Violência escrita e verbal eram duas facetas da mesma moeda.

Em 5 de maio de 1831, foi recebida no Recife a notícia da abdicação. Segundo memórias de uma testemunha ocular, “foram muitos os aplausos e regojizos públicos; toda a cidade iluminou-se à noite e a percorreram grandes bandos de pessoas com escolhidas e alegres músicas”.382 O relato, de um antagonista dos colunas, silencia que foram realizados, em maio, diversos motins de rua com o intuito de tirar dos altos cargos governativos autoridades encasteladas no aparato político provincial desde 1824, sobretudo se fossem nascidos d’além mar.383

Alguns meses depois, contudo, é que as estreitas ruas do Recife presenciariam tumultos de maior proporção. Na noite de 14 de setembro de 1831, soldados do Quartel do Batalhão 14º iniciaram uma revolta que dominaria toda a cidade do Recife. Saíram de seu quartel, libertaram presos de várias cadeias públicas, atraíram para o motim

379 Outro importante conceito, história, sofria grandes mudanças semânticas no início da década de 1830,

o que indica que mais um conceito indicativo de grandes transformações sociais também estava em mutação. Cf. Valdei Lopes de Araújo. “A experiência do tempo na formação do império do Brasil: autoconsciência moderna e historicização”. Revista de História (USP), v. 159, pP. 105-132, 2008; João Paulo Garrido Pimenta e Valdei Lopes de Araújo. “História”, in: João Feres Júnior (org.). Léxico da

história dos conceitos políticos do Brasil. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2009, v. 1, p. 119-140. 380 Francisco de Paula Ferreira de Resende. Minhas recordações. Belo Horizonte : Imprensa Oficial,

1987[1887], p. 67. Ilmar R. Mattos relaciona esses três espaços – casa, rua e Estado – com a macro politica imperial. Cf. O tempo saquarema.

381 Cf. gráfico 1 e 2 na introdução dessa tese.

382 Antônio Joaquim de Mello. Biografia de Gervásio Pires Ferreira. Recife : Typ. de Manoel Figueroa de

Faria & Filhos, 1895, p. 268..

vários escravos sedentos por liberdade e grande parte da população pobre livre. O movimento não contou com a participação de oficiais de altas patentes. Apesar de terem dominado toda a cidade, os rebeldes não atacaram o palácio do governo, pois estariam muito mais preocupados, segundo relatos das autoridades, em saquear as casas comerciais e embriagar-se. Muitos portugueses foram espancados. No entanto, foi um movimento sem liderança. É assim que grande parte da historiografia enxerga a setembrizada, como um motim espontâneo.384

Todas as facções políticas se juntaram para debelar o movimento insurrecional. A participação de estudantes do Curso Jurídico de Olinda e de forças enviadas do interior pela elite foi essencial para restaurar a ordem na cidade. Apesar de estarem em grande número, os revoltosos não possuíam alto grau de organização e a repressão não tardou. Três dias depois do levante popular, a ordem estava restabelecida. Apesar de não haver consenso em relação aos números, pode-se dizer que foram mortos entre 100 e 300 rebeldes, contra cerca de 30 óbitos por partes das forças repressoras. Cerca de mil pessoas foram presas e enviadas para a distante ilha de Fernando de Noronha, sendo que grande parte dessa gente era constituída de militares de baixa patente que aderiram ao levante.385

Alguns autores tentam oferecer análises explicativas para o levante. Os argumentos são parecidos: soldos militares atrasados e ainda por cima pagos em moedas de cobre e castigos corporais excessivos nos quartéis. A falsificação de moedas de cobre atingiu níveis elevadíssimos no período aqui analisado. Tal moeda só era usada para pequenas transações comerciais. Quem saía prejudicado era aquele que recebia seu sustento em cobre, pois as casas comerciais passaram a não aceitá-las. Com a chegada do novo Comandante das Armas, o Brigadeiro General Francisco de Paula Vasconcelos, que chegou do Rio de Janeiro para substituir Lamenha Lins, deposto após o 7 de abril, instalou-se maior disciplina dentro dos corpos militares, e castigos corporais foram aplicados com mais vigor. O novo comandante também estabeleceu um horário para o

384 Manuel Correia de Andrade. Movimentos nativistas em Pernambuco, pp. 73-100; Idem. A Guerra dos Cabanos. Rio de Janeiro : Editora Conquista, 1965, p. 22-25; Jeffrey Mosher. “Chalenging Autority: Political Violence and the Regency in Pernambuco, Brazil, 1831-1835”. Luso-Brazilian Review,

XXXVII. Board of Regents of the University of Wisconsin System, 2000, pp. 38-42.; José Otávio.

Violência e repressão no nordeste. João Pessoa : Grafset, 1985.

385 Manuel Correia de Andrade. Movimentos nativistas em Pernambuco, pp. 73-100; Idem. A Guerra dos Cabanos, p. 22-25; Jeffrey Mosher. “Chalenging Autority”, pp. 38-42.

fechamento dos quartéis: oito horas da noite. Era o mesmo horário que fora imposto para o toque de recolher dos escravos um mês antes. 386

Dois meses depois dos acontecimentos de setembro, ocorreu outro levante. Desta vez, muito menos sangrento e articulado por uma facção política determinada, isto é, por parte do grupo que no final do primeiro reinado se opôs aos colunas. Lopes Gama que, como veremos, posicionava-se veementemente contra a transformação da rua em palco político, apoiou em escritos posteriores as reinvindicações da novembrada. Tratava-se, sobretudo, de afastar portugueses de cargos governativos. Isto significava destituir muitas pessoas outrora vinculadas aos colunas.

Os revoltosos apossaram-se do Forte das Cinco Pontas. Sitiados dentro do forte e cercados por forças legalistas, fizeram uma lista com três solicitações. Caso fossem atendidas as solicitações, os amotinados de dispersariam pacificamente. Trata-se, assim, de uma radicalização dos motins de maio do mesmo ano, que deram início à deposição de dirigentes provinciais vinculados ao primeiro reinado. As três exigências principais eram que os portugueses armados, em sua imensa maioria milicianos, entregassem suas armas; que fossem deportados portugueses que não fossem casados, artistas, fabris,