• Sonuç bulunamadı

Retomando a questão da indissociabilidade entre vida pessoal e vida profissional, podemos dizer, inspirados em Nóvoa, que esse padrão de escrita das cartas pastorais hussitas é uma construção da vida de Hus. Escrever para pregar foi uma das opções que sua vida pessoal impôs para que ele continuasse sua atividade de clérigo designado para uma capela. E sua história de vida norteará essa continuação.

O exílio de Hus torna-se cada vez mais sem volta. Sua posição em relação às autoridades da Igreja coloca-o em crescente situação de conflito com elas. Ele precisa escrever para pregar e defender seus princípios. As cartas pastorais são, agora, parte de sua

tarefa e o acompanham até as vésperas de sua morte.

Por não ter comparecido ao chamado da Cúria, Hus foi excomungado por

desobediência. Até este momento, ele não havia sido acusado de cometer uma heresia. Se ele

não aparecesse, Praga sofreria interdito. O papa enviou a sentença de excomunhão maior, que foi tornada pública em 18 de outubro de 1412. A publicização dessa sentença é acompanhada por um ritual que consiste, de acordo com Spinka217, em ―tocar os sinos, acender e apagar velas, elevar a cruz e jogar pedras em direção à casa do excomungado.‖

Hus escreve para o povo da Boêmia, entre outubro e novembro de 1412, uma carta (número 29) comentando sua excomunhão. Exorta-lhes para que se mantenham firmes e, no comentário sobre as ―pedras na porta‖, apresenta sua visão contrária à força dos rituais:

Suplico-lhes que não se entreguem ao cansaço porque eu não estou com vocês ou por causa de minha excomunhão, se eles a cumprirem. Confio, de verdade, na clemência do Salvador que irá cooperar em tudo para meu e para o seu bem. Temos apenas que tomar cuidado com os pecados e nos preocuparmos com aqueles que se opõe a Deus e a Sua palavra, achando que

estão agindo certo, como os Judeus fizeram quando crucificaram Jesus e apedrejaram Santo Estevão. Deles, o Cristo e Santo Estevão disseram que eles não sabiam o que estavam fazendo. Machucar-me-ia se eles, com blasfêmia, carregassem a cruz como antigamente, lamentassem sobre Judas, jogassem pedras contra a porta, causando-lhes a fadiga? Que Deus não permita que eles se excomunguem a si próprios!

Segue com um confronto entre a prática dos rituais para provocar medo e o conhecimento para diferenciar o que é de Deus e o que é invenção dos homens:

Eles pensaram nessas práticas de um jeito que aterrorizasse os simples e permitisse que estes fossem conduzidos de acordo com a vontade deles. Mas o senhor todo poderoso dará a seus fiéis o conhecimento necessário para compreender isso, de modo que eles possam entender que tudo isso é uma mera invenção da cabeça deles e não um mandamento do Senhor.

E, mais para frente, mostra a diferença entre uma excomunhão no sentido bíblico e o ritual que muitos seguem sem saber por quê:

Eles pegam pedras sem saber o porquê, mas jogam-nas, como está escrito em seus pergaminhos, em memória da eterna danação de Datã e Abiram, que forçaram sua entrada no sacerdócio, mesmo não sendo dignos. Com esse ato de atirar pedras eles indicam quais sacerdotes que adentraram ao sacerdócio por meio de riquezas, bem-estar e honrarias. Eles lamentam os filhos de Judas porque eles são inseguros. Todos os simoníacos são os filhos de Judas, excomungados por Deus que os observa: neles próprios cairão as excomunhões que impuserem aos outros.

Nesta interpretação da excomunhão, Hus destacou a importância do conhecimento em relação aos rituais e se posiciona claramente contrário à obediência das regras inventadas preferindo a obediência à lei de Deus. Conclui a carta com sua costumeira referência à obediência a Deus e não à Igreja. Também apresenta uma interpretação um tanto milenarista da realidade, típica daquele período218, mostrando que muitos estão no caminho errado:

Visto que uma multidão de homens está excomungada por Deus, fujamos, meus bem-amados, de Sua excomunhão e imploremos por Sua graça. Que seja de Sua vontade manter-nos em sua bênção. Qualquer outra excomunhão não pode nos fazer nenhum mal. O mais eminente dos bispos irá, sem

218

TUCHMAN, op. cit., p. 25, afirma que o século XIV, tanto por causa das mudanças climáticas quanto pelos

atos humanos estava ―sob o signo do sofrimento‖. Ela menciona como exemplo desses atos humanos, à página 26, que ―a excomunhão e o anátema, as medidas mais extremas a que a Igreja podia recorrer, supostamente

reservadas para a heresia e os crimes horríveis (...) eram agora usadas para arrancar dinheiro de pagadores recalcitrantes. Num certo caso, foi negada a um bispo a sepultura cristã até que seus herdeiros concordassem em responsabilizar-se pelas suas dívidas, para escândalo da diocese, que viu seu bispo permanecer insepulto e sem esperança de salvação. O abuso de poder com essas finalidades provocou a indiferença pela excomunhão e

dúvida, nos oferecer Sua bênção, dizendo: ‗Vinde, benditos de meu Pai,

recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do

mundo.‘

O que Hus fez foi uma apologia por um futuro melhor em oposição a uma leitura pessimista da realidade, que podemos resumir neste trecho de Huizinga:

Mau governo, extorsões, cobiça e violência dos grandes, guerras, assaltos, escassez, miséria e peste – a isto se reduz, quase, a história da época aos olhos do povo. O sentimento geral de insegurança causado pelas guerras, pela ameaça das campanhas dos malfeitores, pela falta de confiança na justiça, era ainda por cima agravado pela obsessão da proximidade do fim do mundo, pelo medo do Inferno, das bruxas e dos demônios. O pano de fundo de todos os modos de vida parecia negro. Por toda a parte as chamas do ódio se alteiam e a injustiça reina. Satã cobre com as suas asas sombrias a Terra triste. Em vão a Igreja militante combate e os pregadores fazem sermões; o mundo permanece inconvertido.219

Mesmo que porventura sua pregação fosse ―em vão‖ e Hus partilhasse dessa interpretação pessimista, ele aproveitava as oportunidades para ajudar seus destinatários a retirar algo de bom dos eventos ruins que lhe afligiam. Numa carta escrita em data próxima ao natal de 1412 (número 32), ele apresenta uma reflexão sobre a data comemorativa do nascimento de Jesus e justifica, com citações do Novo Testamento, sua saída de Praga para evitar maiores sofrimentos. Inicia com a captação da benevolência seguida de uma argumentação que apresenta exatamente essa justificativa:

Meus caros bem-amados. Está próximo o dia no qual comemoramos o nascimento do Senhor. Portanto, limpem dos pecados sua casa interior, o máximo que puderem. Ouçam à Palavra de Deus com zelo e alegria. Não se importem com os detratores que proíbem a vocês de assistirem à pregação em Belém. Antes, eles tentaram dissuadi-los a meu respeito. Agora, eles não precisam mais fazê-lo, mas afirmam que eu sou um fugitivo. Fi-lo com

alegria, para confirmar a palavra e o exemplo do Cristo. Escrevi ―palavra‖ porque ele disse: ‗E se algum lugar não vos receber nem vos quiser ouvir, ao

partirdes de lá, sacudi o pó de debaixo dos vossos pés em testemunho contra

eles.‘ E mais à frente, disse, ‗Quando vos perseguirem numa cidade, fugi para a outra. E se vos perseguirem nesta, tornai a fugir para a terceira.‘

Quando eles o expulsaram de seu meio e quiseram matá-lo, Jesus fugiu diversas vezes. Especialmente, como João escreve no capítulo 10, quando

‗procuraram novamente prendê-lo, ele lhes escapou das mãos. Ele partiu de

novo para o outro lado do Jordão, para o lugar onde João tinha anteriormente

batizado, e aí permaneceu.‘ Mais além, no capítulo 13, João escreve que

quando eles resolveram matá-lo, ‗Jesus, por isso, não andava em público,

219

entre os Judeus, mas retirou-se para a região próxima do deserto, para a cidade chamada Efraim, e aí permaneceu com os seus discípulos. Os judeus, então, procuraram por Ele e falaram entre si, estando no Templo: ‗Que

pensais? Que ele não virá à festa?‘ Os chefes dos sacerdotes e os fariseus

tinham ordenado que quem soubesse onde Jesus estava, o indicassem, para

que o prendessem.‘ Assim escreveu João.

Não é surpreendente, portanto, que eu tenha seguido seu exemplo e fugido e que os sacerdotes e os outros como eles estejam por aí perguntando e falando a respeito de meu paradeiro.

Além da citação dos evangelhos e da utilização do Cristo como exemplo da moral cristã, Hus também retoma a defesa da verdade nesta carta, ao afirmar ―No entanto, quanto a fugir da verdade, confio que o Senhor me dará a oportunidade para morrer por ela.‖ E ironiza com sua ausência os erros dos outros clérigos, retomando em seguida a confirmação da necessidade de sua ausência:

Talvez eles gostassem de me ver de volta na cidade de Praga, para que aqueles que se sentem provocados pela santa pregação contra a avareza, a devassidão e o orgulho pudessem parar as horas, as missas e outros serviços. Mas vocês, que são zelosos pela Palavra de Deus e agem em sua conformidade, adorariam, em seu amor e para seu bem, ter-me por seu vizinho. Eu também gostaria de vê-los e de pregar-lhes a palavra de Deus. O ano de 1413 foi muito importante na vida de Hus. Nos primeiros meses ele volta algumas vezes para Praga e se esconde na Capela de Belém. Seu exílio principal foi o castelo de Kozí, a sudeste de Praga. De lá, escreve textos sobre a Igreja em resposta a um sínodo de membros do clero convocado em janeiro pelo rei Venceslau para ―extirpar a heresia da Boêmia‖. O sínodo falhou em conseguir um consenso e uma comissão de doutores em teologia da Universidade de Praga trabalhou nesse sentido, mas também não obteve sucesso na conciliação. Há poucas cartas hussitas nesse período. As principais são suas respostas às propostas do sínodo e da comissão de doutores. Em maio desse ano, completou seu tratado De Ecclesia (Sobre a Igreja), que mencionamos no trecho inicial deste capítulo.

Em julho de 1413, Hus escreve uma carta pastoral, de número 37. Spinka considera que ela foi escrita provavelmente antes de sua nova saída de Praga. Se sua suposição estiver correta, Hus a escreveu de seu esconderijo na Capela de Belém. Nesta carta, ele destaca seu esforço para que as pessoas aprendessem a ―Palavra de Deus‖ e diz claramente que lhes ―ensinou‖. O fato que as pessoas aprenderam traz-lhe grande conforto. Esse aprendizado, ele reconhece por meio da ―penitência verdadeira e sincera‖ que ele ―observou‖. Ensinar,

reconhecer o aprendizado por meio de sua observação e se alegrar com o aprendizado dos educandos: eis a temática da captação da benevolência nesta carta:

Bem-amados, desejo fervorosamente e de todo o meu coração que vocês estejam livres de todos os pecados por Jesus Cristo e que, não dando importância às vaidades deste mundo, possam vencer a carne, o mundo e o demônio. Que vocês, pela graça de Jesus Cristo, possam sofrer a tudo com boa-vontade e perseverar perante as aflições até o fim por sua salvação. É este o conteúdo de minhas preces por vocês, meus bem-amados. Foi para isso que eu trabalhei entre vocês por mais de doze anos na Palavra de Deus, tendo Ele por minha testemunha. Experimentei grande consolação neste trabalho quando soube de sua diligência em ouvir a Palavra de Deus e quando observei a verdadeira e sincera penitência de muitos de vocês. Por isso, meus bem-amados, suplico-lhes, pela paixão do Cristo, que guardem e agarrem firmemente Seu evangelho, cresçam e floresçam em tudo o que eu lhes ensinei.

Mais à frente, deixa como pedido que eles estudem para manter a fé verdadeira e a esperança, apresentando citações do Novo Testamento para explicar o momento que estão vivendo. Esta carta possui vinte citações, sendo metade do evangelho de Mateus, destacando, por meio da citação de trechos da vida de Jesus, o exemplo moral do Cristo. Eis o trecho no qual fala do estudo e explica como seus ouvintes poderiam, a partir da observação dos vícios dos clérigos de sua época, reconhecer os falsos profetas:

Portanto, caros bem-amados, estudem para terem a fé verdadeira e a esperança segura. Mantenham-se firmes no amor pela Palavra de Deus e se apeguem a ela com a máxima vontade, ouvindo àqueles que o Senhor enviou para pregar Seu evangelho sem medo, resistindo, com perseverança, aos

lobos ferozes e aos falsos profetas. Destes, o Cristo disse a seus fiéis: ‗E surgirão falsos profetas em grande número e enganarão a muitos.‘220

Ele ordena aos fiéis tomarem cuidado com eles e os ensina como os falsos profetas podem ser reconhecidos: por seus frutos, que são o orgulho, a fornicação, a avareza, a simonia, desprezo pela Palavra de Deus, perseguição dos fiéis, difamação, ambição, zelo pelas tradições humanas etc.

E, no trecho seguinte, reúne diversas metáforas evangélicas com animais:

Estes homens possuem ―disfarces de ovelha‖. Eles assumem o nome e o

ofício de Cristão, mas, já que eles são ―lobos ferozes por dentro‖, eles

dilaceram e despedaçam as ovelhas do Cristo. A respeito desses lobos, Ele

disse a Seus discípulos: ―Eis que eu vos envio como ovelhas entre lobos. Por isso, sede prudentes como as serpentes e sem malícia como as pombas.‖ Ele

disse ―sede prudentes‖ para que eles não se deixassem ser pisados e, por conseqüência, destruírem dentro deles a cabeça de Cristo. E disse, ―sem

malícia como as pombas‖, para que eles suportassem pacientemente a crueldade dos lobos.221

Mais próximo ao final, cita da segunda epístola de Paulo de Tarso a Timóteo, um trecho no qual afirma que surgirão mestres que desviarão as pessoas da verdade para fábulas, para confirmar o momento no qual estão vivendo:

‗Pois virá um tempo em que alguns não suportarão a sã doutrina; pelo

contrário, segundo os seus próprios desejos, como que sentindo comichão nos ouvidos, se rodearão de mestres. Desviarão os seus ouvidos da verdade, orientando-os para as fábulas.‘ Esta profecia de São Paulo, como vocês podem ver com seus próprios olhos, já está se realizando.

No final de 1413 e no início de 1414, Hus escreve quatro cartas semelhantes, no que diz respeito ao seu conteúdo e à sua estrutura, às anteriores que aqui citamos. Spinka222 considera que as duas primeiras, números 38 e 39, podem ter sido escritas de Kozí e afirma que Novotný sugere que o autor as escreveu em tcheco, dadas algumas incorreções na versão latina. É possível que outra pessoa as tenha traduzido para o latim. A terceira, número 40 foi com certeza escrita em tcheco a partir de Kozí enquanto a quarta, número 41, também em tcheco, pode ter sido escrita de Kracovec. Para esta cidade localizada ao sul de Praga ele foi convidado por Henry Lefl de Laţany, chefe do conselho real do rei Venceslau, visto que Hus precisou fugir de Kozí, onde não estava seguro, e se escondeu em algum lugar próximo a Sezimovo Ústí.

Como um sermão de preparação ao Advento de 1413, Hus escreveu a carta 38. O Advento é um ―período de quatro semanas, iniciado a partir do primeiro dos quatro domingos que antecedem o Natal, destinado à preparação espiritual e à purificação diante da expectativa quanto à vinda do Salvador.‖223

Foi escrita, portanto, próximo ao final de novembro daquele ano. Hus parte do advento do Cristo para destacar sua condição de juiz supremo no final dos tempos. Na conclusão associa o entendimento ao fortalecimento dos corações na fé perante o sofrimento:

Então, caros bem-amados, considerando estes dois lados – a dignidade de seu primeiro Advento e a justiça e o terror de seu segundo Advento – fortaleçam seus corações na graça e no sofrimento. Se vocês sofrerem de

221 Os trechos evangélicos citados neste trecho, apud ibidem, p. 107, são Mateus 7:15 e 10:16. 222 ibidem, pp. 109-112.

algum modo, considerem estas palavras: ‗erguei-vos e levantai suas cabeças‘, isto é, seu entendimento, ‗pois está próxima a sua libertação‘,

libertação de toda desgraça, de onde o justo Juiz chamar-lhes-á, dizendo:

‗Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino‘.

No natal do mesmo ano, Hus escreveu nova carta (número 39). Seu texto possui uma escrita um tanto diferente das outras cartas, visto que nesta utiliza frases que iniciam por ―alegrem-se‖ (gaudete, em latim) e concluem com ―glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade‖. No início da carta ele diz que embora distante, o amor que sente por eles impele-o a escrever, conforme citamos algumas páginas atrás.

Na Quaresma de 1414, escreveu a carta de número 40, destinada a ―todos os eleitos e zelosos pelo Senhor Jesus Cristo e por Sua Palavra que moram em Praga‖. Hus diz estar alegre ―em saber que vocês ouvem constantemente a Palavra de Deus e que o Salvador misericordioso oferece-lhes bons líderes na verdade‖. A Quaresma é o período de quarenta dias anterior à Páscoa. Por isso, Hus reflete a respeito da crucificação de Jesus e dá destaque ao desejo pela paz. O destaque para a prudência de comportamento e o silêncio é novidade nesta carta e um indício que entendemos como uma preocupação da parte do clérigo com relação aos ataques que ele está sofrendo e que seus amigos podem vir a sofrer:

A Seu modo, caros bem-amados, desejo-lhes Sua paz. Desejo-lhes Sua paz, para que, vivendo virtuosamente, vocês possam superar seus inimigos, o demônio, o mundo e a carne. Desejo-lhes Sua paz, para que vocês amem-se uns aos outros, inclusive seus inimigos. Desejo-lhes a paz para que vocês ouçam Sua palavra pacificamente. Desejo-lhes a paz, para que vocês falem com prudência e se protejam perante seus inimigos. Desejo-lhes a paz, para que vocês saibam conservar o silêncio em seu favor. Pois aquele que humildemente ouve não discute com malícia. Aquele que fala prudentemente supera o contencioso. Aquele que conserva o silêncio em seu favor não fere sua consciência com facilidade. (grifos nossos)

A carta 41 foi escrita no final do verão de 1414 (ao redor do mês de agosto). Definindo qual é o ―caminho de Deus‖, Hus pede-lhes para seguirem esse caminho por meio da audiência à pregação, sua compreensão e conhecimento de si mesmo para conhecer a Deus e amá-lo. Conclui pedindo-lhes a correta penitência e a prática do bem. No trecho que selecionamos, ele define e propõe seguir o caminho de Deus. Observemos a menção aos astros (sol, lua e outros astros), que pouco é feita nas cartas hussitas:

‗Fique nos caminhos, perguntando com dedicação qual deles afasta da morte

eterna e leva para a vida eterna, afasta de toda a miséria e leva para a alegria eterna. Esse caminho é o evangelho de Deus Todo Poderoso, as epístolas apostólicas, o Antigo Testamento, bem como a vida dos santos que

encontramos na lei de Deus. Eles brilham com suas vidas como o sol, a lua e outros astros. Portanto, meus caros irmãos e irmãs no senhor Deus, peço-lhes pelo martírio do Filho de Deus, que vocês estejam presentes à pregação, ouvindo-a com atenção e, ao ouvi-la, compreendendo-a e, ao compreendê-la, conservando-a e, ao conservá-la, aprendendo a conhecer a si mesmos e, ao aprender a conhecer a si mesmos, conhecer corretamente seu querido salvador (para saber que Deus é a suprema justiça). Ao conhecê-lo, amá-lo de todo seu coração e de toda sua vontade, e seu próximo como a si mesmo. E amando-o, alegrar-se com ele sem fim.

As cartas escritas entre o final do ano de 1412 e meados de 1414 (números 29, 32, 37, 38, 39, 40 e 41) dão continuidade ao padrão de escrita das cartas pastorais hussitas, buscando substituir o sermão presencial na Capela de Belém. Esse padrão começa a sofrer pequenas modificações na medida em que mudam as condições de sua escrita. O exílio de Hus toma um novo rumo e sua escrita o acompanha.