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Moraes239 afirma que ―para um prisioneiro, talvez mais do que para qualquer outro homem, as cartas se rendem forçosamente ao seu sentido primeiro: o de abolir distâncias.‖ Mignot240aponta que em documentos como cartas de/para prisioneiros ―as dificuldades ficam potencializadas (...) na medida em que o remetente tem clareza de que a correspondência tem como leitor, além do destinatário, o censor.‖ Essas duas afirmações são claramente percebidas, por exemplo, na correspondência de Vaclav Havel241, escritor e dramaturgo tcheco do século XX, que se tornou o primeiro presidente da República Tcheca (1993). Quando esteve preso, durante parte da ocupação comunista na Tchecoslováquia, escreveu cartas para sua esposa, Olga. Sendo sua correspondência censurada, Havel utilizou diversos subterfúgios para que suas cartas fossem liberadas, como o comentário de seus estados de humor ou a escrita de reflexões sobre o teatro, dado que não poderia descrever sua situação na

238

SPINKA, John Hus: a biography, p. 234.

239 MORAES, Elaine Robert. A cifra e o corpo: as cartas de prisão do marquês de Sade. In: GALVÃO; GOTLIB,

Prezado senhor, prezada senhora, p. 55.

240 MIGNOT, Artesãos da palavra, p. 134.

prisão e nem tecer quaisquer comentários políticos. 242 Essas três leituras trouxeram-nos como questão o impacto da prisão na correspondência hussita. Houve mudanças em sua prática de escrita? Suas cartas foram censuradas? Como suas cartas chegavam a seus destinatários? O que aconteceu no período no qual nada pôde escrever? Ele produziu alguma escrita cifrada?

Nossas respostas são positivas, mostrando que houve repercussão de sua prisão no seu padrão de escrita, como houve nas cartas de viagem. A primeira grande repercussão é o impacto desse evento na temática de suas cartas. Desse momento em diante, Hus escreve algo próximo a 50 cartas, boa parte delas a Jan de Chlum, seu secretário Petr de Mladoňovice ou, mais genericamente, a seus amigos em Constança. Entendemos que quando Hus escreve para ―seus amigos em Constança‖, ele está, de fato, escrevendo para esse nobre e seu secretário, visto que há uma continuidade dos assuntos tratados nas cartas com o destinatário genérico ―amigos‖ e naquelas escritas explicitamente para apenas um deles.

É a Chlum a primeira carta escrita da prisão, número 53, em algum dia entre 25 de dezembro e 3 de janeiro. Ele se prepara para escrever cartas e respostas às suas acusações, como sugere suas primeiras palavras: ―Adquira-me uma Bíblia e a envie por este bom homem. Se seu escriba, Petr, tiver um pouco de tinta, peça-lhe que me mande um pouco, bem como várias canetas e um pequeno tinteiro.‖ Conclui com a frase: ―Escrito por minhas próprias mãos, o que seu escriba Petr sabe bem‖. O adendo ―o que seu escriba Petr sabe bem‖ abre espaço para várias interpretações. Numa delas, entendemos que Hus pode estar preocupado com falsificações e, portanto, Petr seria alguém que poderia confirmar sua caligrafia. Noutra, Hus talvez esteja afirmando que ele não precisa de um secretário para escrever suas cartas, como o nobre precisa.

A frase anterior assemelha-se às conclusões de diversas cartas hussitas. Esperávamos, portanto, que a carta encerrasse nela. Hus, porém, em seu primeiro escrito da prisão, adiciona outra frase: ―Mementote aucae vos amici mei‖ [Lembrem-se do ganso vocês, meus amigos] Spinka243 afirma que o fato do clérigo ter escrito seu nome em latim é um provável recurso criptográfico para esconder o real significado daqueles que não sabem o significado tcheco de seu nome. Para as pessoas que não soubessem que husa em tcheco significa ―ganso‖, uma frase como ―lembrem-se do ganso‖ não faz sentido algum. Este é um exemplo de escrita cifrada logo na primeira carta escrita da prisão.

242 ibidem, p. 406 apresenta um relato de seu colega de prisão Jiří Dienstbier, que detalha os mecanismos que

Havel utilizou para fugir à censura, como a escrita de cartas contendo seus ―quinze tipos de humor‖, dado que

não poderia escrever sobre qualquer outro assunto que não fosse sobre ele mesmo. 243 SPINKA, The letters of John Hus, p. 135, nota 6.

Hus ficou preso no mosteiro dominicano até março de 1415. Dessa prisão, escreveu apenas uma carta que não fosse para Jan de Chlum ou Petr de Mladoňovice, a de número 58, datada de 19 de janeiro de 1415, a primeira carta pastoral após sua prisão. Escrita em tcheco, ele a inicia pedindo por preces para que permaneça firme na verdade até a morte, com a presença de Deus. Afirma que ficou doente e se curou. Considera a morte como iminente, embora ainda passariam quase seis meses até ser queimado. Os temas da prisão e da morte passam a marcar sua correspondência:

Peço-lhes, aqui da prisão, da qual não me envergonho, pois sofro na esperança do amor de Deus, que peçam ao Senhor Deus por mim, para que Ele me mantenha com ele. Ele me visitou misericordiosamente com uma doença grave e, em seguida, me curou. Ele permitiu [o ataque de] meus inimigos muito determinados, homens para quem fiz muito de bom e a quem amei sinceramente. Nele apenas eu tenho a esperança e em suas preces que Ele possa me manter firme em Sua graça até a morte. Se Ele quiser me levar para junto de si agora, que sua santa vontade seja feita, mas se ele quer me levar de volta, igualmente, que seja feita sua santa vontade. Com certeza, eu preciso de grande ajuda.

Em outro trecho, afirma que uma de suas cartas, que ele não indica, mas é provavelmente a de número 46, foi falsificada na tradução para o latim e que está trabalhando muito para responder às acusações de seus inimigos. Diz que a única pessoa que pode lhe dar qualquer conselho neste momento é Jesus, citando o evangelho de Lucas. Com relação à falsificação, já mencionamos quando apresentamos a carta 46, que o trecho no qual Hus escreveu ―como se eu tivesse sido condenado por alguma heresia por mim cometida‖ foi utilizada para dizer que ele afirmou ter cometido heresias:

Saibam que a carta que eu deixei para vocês foi, na sua tradução para o latim, amplamente falsificada por meus inimigos. Eles estão produzindo tantos artigos e acusações contra mim que eu tenho tido muito trabalho de escrita para fazer, frequentemente respondendo da prisão. Não há homem que possa me aconselhar a não ser o senhor Jesus misericordioso, que disse a seus fiéis ‗Eu lhes darei eloquência e sabedoria as quais todos os seus adversários serão incapazes de resistir‘.

Conclui procurando estabelecer uma relação de vínculo afetivo com seus destinatários, destacando seu trabalho pastoral mesmo quando preso:

Oh, meus bem amados! Lembrem-se do quão arduamente eu trabalhei por vocês e sempre desejei sua salvação, mesmo agora enquanto estou na prisão e sofro grandes tentações.

Em março de 1415, o papa João XXIII foge de Constança, em busca de escapar de sua condenação. Todas as atenções do Concílio se dirigiram para a questão dos três papas244 e a comissão que cuidava do caso de Hus foi dissolvida. Com a fuga do papa, diversos guardas do mosteiro dominicano também se retiraram e Hus foi transferido para os cuidados do bispo de Constança, que o prendeu numa torre em seu castelo, em Gotlieben, às margens do rio Reno, no dia 24 de março.

Como a comissão julgadora do caso de Hus perdeu sua jurisdição, nova comissão foi formada em 6 de abril pelo Cardeal D‘Ailly, Jean Gerson e o Cardeal Zabarella. Os três o consideravam herege. Durante os meses de abril e maio, essa comissão avaliou o caso de Hus e o acusou de ser heresiarca. Diversos membros da nobreza tcheca intercederam com o rei Sigismundo para tentar ajudá-lo a ter uma audiência.

Hus obteve a possibilidade de uma audiência pública a ser realizada no mosteiro franciscano próximo à igreja de Santo Estéfano. Em 3 de junho foi transferido de Gotlieben para a prisão desse mosteiro.245 A primeira audiência ocorreu em 5 de junho. A respeito desta, Hus escreveu no mesmo dia para seus amigos em Constança (carta 68). Ele inicia afirmando ―Deus todo poderoso deu-me hoje um coração firme e corajoso.‖ Apresenta explicações sobre quais textos deveriam ou não ser apresentados e como ele espera que os eventos se sigam. Conclui esperando melhores oportunidades em sua próxima audiência, marcada para 7 de junho, no refeitório do mosteiro, o mesmo local onde ocorrera a primeira. Na carta seguinte (número 69), escrita no mesmo dia da segunda audiência, afirma que supunha encontrar mais cortesia e disciplina no Concílio. Também diz que estava com dor de dente e que vomitara sangue, teve dor de cabeça e cálculo.

Em 8 de junho ocorreu seu julgamento. A comissão julgadora apresentou 39 artigos contra Hus e o impeliram a abjurá-los. O clérigo da Boêmia recusou-se a fazê-lo e pediu nova audiência para poder defender-se explicando os erros dos artigos. Seu pedido foi negado e o levaram de volta à prisão. No dia seguinte, escreveu outra carta (número 70) a seus amigos em Constança. Nela, demonstra perceber que não voltará mais à Boêmia:

244 João XXIII foi deposto em 29 de maio e permaneceu por dois dias preso no mesmo castelo onde estava Hus. Gregório XII renunciou em 4 de julho, sob a condição de ser considerado o papa legítimo. Bento XIII perdeu o apoio da Espanha e de Portugal e se refugiou numa região espanhola. Foi deposto pelo Concílio de Constança em 26 de julho de 1417, embora continuasse aclamando ser o papa verdadeiro. Por ter poucos aliados, foi desconsiderado. O novo papa foi eleito, pelo Concílio, em 11 de novembro de 1417.

245 Hus estava inacessível em Gotlieben. SCHAFF, op. cit., p. 195, afirma que nenhuma carta foi escrita por Hus enquanto estava preso no castelo. SPINKA, The letters of John Hus, p. 159, levanta a possibilidade da carta de número 67, escrita em tcheco para Henry Škopek de Dubá ter sido escrita de lá.

Agora eu me lembro das palavras do Mestre Jerônimo, que disse ‗se eu for ao Concílio, suponho que não voltarei‘. Um bom alfaiate, Andrew, o

Polonês, que me disse quando se despedia de mim ‗Deus esteja com você. Parece-me que você não vai voltar‘.

No dia seguinte, escreveu para Henry Škopek de Dubá e, no dia 10, para Chlum e para o povo da Boêmia. Esta carta (número 73) foi redigida na expectativa de uma sentença de morte a ser dada no dia seguinte e, nela, Hus inclui, do nosso ponto de vista, uma síntese de sua concepção de ensinar. A saudação da carta é a seguinte:

Mestre Jan Hus, na esperança de ser um servo de Deus, para todos os tchecos fiéis que amam ao senhor Deus e o amarão, envia seu desejo que o Senhor lhes ofereça habitar e morrer em sua graça e viver para sempre na alegria do paraíso. Amém. Fiéis e queridos em Deus, nobres e damas, tanto ricos quanto pobres.

Hus dirige-se à sua ampla rede de relações, que inclui todos aqueles que são ―fiéis em Deus‖ sendo eles da nobreza ou não. Coloca-se no lugar daquele que ensinou a verdade por meio de suas pregações e de seus escritos:

Peço e suplico que vocês obedeçam ao senhor Deus, exaltem sua palavra e a ouçam e sigam alegremente. Peço para que vocês acreditem na verdade de Deus que eu retirei da lei de Deus e as preguei e escrevi a partir dos ensinamentos dos santos. Peço-lhes, também, que caso alguém tenha ouvido em minhas pregações ou particularmente qualquer coisa contrária à verdade de Deus, ou se eu o escrevi em algum lugar – o que eu confio em Deus não há nada – que ele não o siga.

Além de colocar-se no lugar de mestre, Hus pede para que um ajude o outro e cada um faça aquilo que lhe compete, dando destaque aos estudantes, exortando-os para que sigam seus mestres e estudem com diligência. Igualmente, dirige-se aos mestres, suplicando para que eles

vivendo merecidamente, ensinem seus pupilos fielmente, primeiramente a amarem a Deus e a estudarem pelo propósito de Seu louvor e pelo benefício da comunidade, bem como pelo propósito de sua salvação – mas não pelo propósito da avareza ou da prosperidade no mundo.

Sua concepção de ensino está diretamente relacionada à salvação. Tanto o mestre quanto o pupilo devem ensinar/estudar ―pelo louvor a Deus‖ e ―para sua salvação e a dos outros‖. Depois de fazer seus pedidos a pessoas que fazem parte de sua rede de relações, Hus agradece aos nobres que o ajudaram durante o concílio, como ―defensores e sustentadores divinos da verdade‖. Ressalta que seus principais acusadores eram os tchecos e não os

alemães, mas que ―todo o concílio gritou contra ele‖. Pede pela graça de Deus ao rei Venceslau, sua rainha e seus nobres. Reza por seu ―trabalhador amado e companheiro‖ Jerônimo de Praga, pois nada sabe a seu respeito.246 Conclui dirigindo-se a todos os praguenses, em defesa da Capela de Belém e pedindo que todos aprendam a verdade:

Eu também suplico, em especial a vocês, praguenses, a serem gentis com a Belém visto que o senhor Deus ficará feliz se a Palavra de Deus foi pregada lá. Pois o demônio começou a ficar enfurecido naquele lugar e incitou pastores e cânones contra ele, percebendo que seu reino foi lá arruinado. Confio no senhor Deus que Ele preservará aquele lugar conforme Sua vontade e aumentará seus benefícios em outros, mais do que ele fez por mim, este servo inútil. Suplico-lhes também que amem uns aos outros e não permitam que os bons sejam oprimidos pela violência e desejo que cada um de vocês aprenda a verdade.

Hus recebeu a formulação final de sua sentença em 18 de junho. Escreveu sua resposta por escrito, tendo utilizado dois dias para elaborar seus argumentos contrários. Nesse período entre 18 de junho, quando recebeu a versão final de suas acusações, até 6 de julho, quando ocorreu seu julgamento, condenação e morte, encontramos vinte e cinco cartas escritas por Hus. Diante da morte cada vez mais iminente, o clérigo concentra-se na sua defesa e na sua

despedida. Esta é uma mudança importante no padrão da escrita das cartas hussitas causada

pela prisão. Cinco dessas cartas, semelhantes entre si, são pastorais.

Em 24 de junho de 1415, Hus escreve para o povo da Boêmia em tcheco uma carta (número 87) na qual retoma o tema da verdade e da perseverança nela até a morte. Utilizando diversas citações bíblicas e referências a São Gregório e São João Crisóstomo, Hus exorta o povo a não temer a ordem do concílio de queimarem os livros que ele escreveu. Afirma que antes do Dia do Julgamento haverá grandes tribulações e, portanto, não devem desistir de ler o que ele escreveu. Além disso, as ordens do Concílio vão demorar muito para chegar até eles e muitos homens do Concílio morrerão antes de lhes retirarem os livros, como vemos neste trecho que selecionamos:

Lembrando disso [que os dias de tribulações acabarão], caros bem amados, permaneçam firmes. Pois eu tenho esperança em Deus que a escola do Anticristo terá medo de vocês e lhes deixará em paz. O Concílio não virá de Constança para a Boêmia. Pois eu acho que muitos daquele Concílio morrerão ao redor do mundo antes de arrancarem os livros de suas mãos. Eles se espalharão do Concílio pelo mundo como cegonhas e, quando o inverno chegar, eles perceberão que cometeram um crime durante o verão.

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E, em seguida, lança uma provocação à ideia do papa ser o cabeça da Igreja, que Hus combateu em seu livro De Ecclesia e em outros escritos. Apresenta, aqui, sua principal crítica ao comportamento do clero, retomando o que já escrevera nas suas primeiras cartas. Referindo-se à condenação de João XXIII, escreve:

Atentem para o fato que eles condenaram sua cabeça como um herege. Respondam agora, seus pregadores, que pregam que o papa é o deus terreno, que ele não pode pecar e não pode cometer simonia. Os juristas dizem que o papa é a cabeça de toda a santa Igreja, que ele governa muito bem, que ele é o coração da santa Igreja, que ele nutre espiritualmente, que ele é a fonte de onde brota todo o poder e bondade, que ele é o sol da santa Igreja, que ele é o refúgio infalível onde todo cristão deve se abrigar.

Bem, essa cabeça já foi cortada, o deus deste mundo está amarrado e seus pecados já são públicos. A fonte já secou, o sol escureceu, o coração está rasgado e o refúgio fugiu de Constança e é repudiado de tal modo que ninguém procurará abrigo lá. O Concílio o condenou como herege porque ele vendeu indulgências, bispados e outros benefícios e muitos dos que o condenaram os compraram dele e traficaram nele. (...) Esses homens condenaram e anatematizaram o vendedor enquanto eles mesmos permaneceram compradores e intermediários e continuam a vender em seus lares. (...)

Oh, se o senhor Jesus tivesse dito ao Concílio ‗aquele que dentre vocês estiver sem o pecado da simonia, condene o papa João‘ parece-me que eles

correriam para fora um depois do outro. Por que, então, eles ajoelharam perante ele, beijaram seus pés e o chamaram de santíssimo Pai, quando eles sabiam que ele era um herege, um assassino e um sodomita, pecados que eles mesmos trouxeram a público mais tarde?

Segue com outras perguntas semelhantes a esta última e discorre sobre a abominação e vergonha que foram estes atos. E, perante estes, Hus gostaria de descrevê-los para que os fiéis de Deus tomem cuidado. Assim conclui sua carta:

Eu gostaria de fazê-lo [descrever as maldades], mas acredito em Deus que ele fará surgir, depois de mim, homens mais corajosos, que eles já existem agora e que eles irão declarar as maldades do Anticristo e arriscarão suas vidas com a morte pela verdade do senhor Jesus Cristo, que dará a vocês e a mim a alegria eterna.

Esta carta foi escrita no [dia de] João Batista, lembrando que João também foi decapitado na prisão e nas amarras pela verdade de Deus.

Na carta 91, escrita em 26 de junho, em tcheco, retoma a questão dos livros da carta 87, de dois dias antes. Afirma que eles não leram porque não entendiam tcheco. Menciona

como exceção o bispo de Litomyšl que estava presente ao concílio, mas não apoiava Hus. Nesse trecho inicial, menciona que a Boêmia é a terra da melhor fé:

Eu tentei mais de uma vez chamar a atenção de vocês que o Concílio orgulhoso e avarento, cheio de abominações, condenaram meus livros tchecos, sem nem ao menos os terem ouvido ou visto. E mesmo que os tivessem ouvido, não os teriam entendido, visto que havia italianos, franceses, ingleses, espanhóis, alemães e [falantes] de outras línguas naquele Concílio, exceto talvez o Bispo Jan de Litomyšl tenha entendido meus livros de algum modo. Pois ele estava entre os outros tchecos, os provocadores, com os capítulos de Praga e Vyšehrad de onde se originaram as calúnias contra a verdade de Deus e de nossa terra da Boêmia. Eu acredito que essa terra, na esperança de Deus, é a terra da melhor fé, sabendo de seu desejo pela Palavra de Deus e pela moral.

Além disso, condena os pecados do Concílio, apresentando uma fala corrente dos habitantes daquela cidade:

Oh, vocês viram que o Concílio se proclama o mais santo e que não pode errar. Vocês com certeza viram a grande abominação. Pois eu ouvi que é dito pelos suábios que Constança ou Kostnice247, sua cidade, não vai se livrar por pelo menos trinta anos dos pecados que aquele Concílio cometeu na cidade. Hus, então, narra como foi recebido em sua audiência e descreve uma discussão que parece calorosa, com todos gritando, inclusive ele mesmo:

Eu digo a vocês que quando em cheguei perante o Concílio no primeiro dia, vendo que não havia qualquer ordem por lá, disse alto, quando eles estavam

todos quietos: ‗Eu supunha que haveria maior reverência, bondade e

melhor ordem no Concílio do que está havendo!‘ Naquele momento, o

cardeal presidente disse ‗O que você está dizendo? Você falou com mais