• Sonuç bulunamadı

O cenário musical brasileiro vivia o que alguns críticos e músicos consideravam um impasse. Tínhamos a Bossa Nova descaracterizada de seus princípios estéticos, repetindo as interpretações teatralizadas do samba-canção via televisão. A MPB17 ameaçada em face de uma música de caráter mais popular, produzida pela Jovem Guarda. Isso sem contar com o predomínio crescente das canções de protesto, influenciadas, em grande parte, pelos rumos políticos do país depois de 1964. De acordo com Augusto de Campos, essa conjuntura deu margem para que os adversários da Bossa Nova propusessem o retorno ao “sambão quadrado” e ao “hino discursivo folclórico sinfônico”. (CAMPOS, 1968, p. 49).

Diante desse panorama da música popular surge um grupo de artistas sedentos por promover novas experiências sonoras com a contribuição da música estrangeira. Caetano Veloso, um dos principais representante desse grupo, defendia a “retomada da linha evolutiva”. Esse termo tornou-se célebre e foi formulado pela primeira vez em um debate sobre os caminhos e desafios da MPB, promovido e publicado pela Revista Civilização Brasileira. Abaixo o trecho no qual Caetano define em que consistiria essa retomada:

Só a retomada da linha evolutiva pode nos dar uma organicidade para selecionar e ter um julgamento de criação. João Gilberto para mim é exatamente o momento em que isto aconteceu: a informação da modernidade musical utilizada na recriação, na renovação, no dar um passo à frente da música popular brasileira. Creio mesmo que a retomada da tradição da música brasileira deverá ser feita na medida em que João Gilberto fez. (VELOSO, RCB, nº 7, 1966, p. 378).

Artistas como Gilberto Gil, Tom Zé, Torquato Neto e Gal Costa faziam parte do grupo que desejava retomar o processo criativo da música popular brasileira. A obra de João Gilberto seria o paradigma dessa retomada. De acordo com Gilberto Gil:

A linha evolutiva devia ser retomada exatamente naquele sentido de João Gilberto, na tentativa de incorporar tudo o que fosse surgindo como informação nova dentro da

17 Para Marcos Napolitano era desta forma que a Música Popular Brasileira, MPB, se configurava: “A MPB era vista como contraponto da jovem guarda, a música jovem alienada e internacionalizada e sucessora da bossa nova, ainda que também alienada e internacionalizada, mas sofisticada”. (2001, p. 175).

música popular brasileira, sem essa preocupação do internacional, do estrangeiro, do alienígena. (GIL, 1968 apud CAMPOS, 1968, p. 178).

O grupo baiano, assim chamado pelo fato de seus integrantes ter vindo do Nordeste, era visto como representante de uma nova etapa da MPB e como a garantia de que a busca pela inovação, alcançada por João Gilberto, seria perseguida. O compositor Gilberto Mendes, colaborador de Balanço da Bossa, atribuiu aos artistas baianos à salvação da música popular brasileira:

Novamente os baianos, agora capitalizados em São Paulo, salvam a MPB. Dez anos atrás, João Gilberto, desta vez Gilberto Gil, Caetano Veloso e, de certo modo, Nana Caymmi, indicam a saída para um impasse surgido com mais uma volta às fontes da nacionalidade. (MENDES, 1968, p. 122).

Em 1968, essa proposta estética defendida por Caetano, Gil, Tom Zé, Torquato Neto e Gal Costa recebeu o nome de Tropicalismo. Esse movimento desejava abrir as janelas da música brasileira para o mundo, sobretudo, para os referenciais de modernidade. Recuperando as ideias de Oswald de Andrade, o grupo tinha dentre seus princípios a antropofagia na tentativa de fundir sonoridades extrapolando as fronteiras nacionais.

Mas nem só da busca da modernidade se fez o Tropicalismo. O movimento trabalhou com elementos tidos como arcaicos e esteticamente pobres na sociedade brasileira, como o bolero, o samba-canção e o rock. De acordo com a socióloga Santuza Cambraia Naves, os tropicalistas, “Por vezes utilizam elementos do lixo cultural, outras lançam mão de informações “elevadas”, provenientes da poética erudita”. (NAVES, 2004, p. 51). Assim, unindo o que parecia antagônico, o Tropicalismo construiu sua trajetória, buscando, como expõe Fernando de Barros e Silva, “resgatar pelo avesso o espírito original e inovador da bossa nova”. (SILVA, 2004, p. 52).

Para José Ramos Tinhorão, a proposta tropicalista de obtenção do novo através da adesão de elementos considerados “ultrapassados” e “cafonas” representaria o reflexo tardio de uma prática adotada, desde meados dos anos 50, pelas correntes artísticas dos países desenvolvidos.

...o Tropicalismo representava em 1967-1968 apenas um momento retardado do processo de contracultura iniciado pelos artistas plásticos americanos e ingleses responsáveis pelo lançamento, a partir de 1955, da chamada arte pop, que aproveitava na pintura, escultura ou nas colagens os mais diferentes objetos e materiais do meio urbano para a obtenção de seus objetivos de reconhecimento da estética do lixo industrial. (TINHORÃO, 1986, p. 251).

Ousadia, deboche, irreverência e paródia, essas eram algumas das marcas da postura tropicalista. Segundo Heloísa Buarque de Hollanda (2004), o grupo tropicalista pôs em cheque os “bons” padrões de comportamento e foi referência não só para os músicos, mas para toda a produção cultural da época.

Alinhados aos ideais de modernização dos poetas concretos, o grupo baiano logo ganhou a simpatia dos escritores vanguardistas. Na concepção de Augusto de Campos (1968), o grupo teve o mérito de abalar um panorama musical estagnado e trazer uma informação nova, fruto da deglutição do rock americano. Já para Tinhorão (1998), o Tropicalismo representou novamente a alienação, alinhando-se aos valores modernos de fora do país. Segundo Tinhorão, o movimento se utilizou do rock para compor a sua sonoridade, da mesma forma que Bossa Nova fizera com o jazz.

Mesmo não tendo na política o mote do movimento, Tinhorão (1986) destaca que a atitude dos tropicalistas, de irreverência e descompromisso, começou a ser vista pelos militares como uma possível afronta ao regime. Ao contrário do que os militares pensavam, o enfrentamento do grupo era com os representantes da ala nacionalista, principalmente os ligados à música brasileira. O Tropicalismo durou pouco mais de um ano. Em 1968, seus principais integrantes, Caetano e Gil foram vítimas da repressão do regime militar, sendo presos e exilados do país.

Para o pesquisador Marcos Napolitano, “depois do Tropicalismo a MPB não seria mais a mesma. O impacto do movimento exigiu a revisão das bases estéticas e valores culturais que norteavam a MPB”. (NAPOLITANO, 2005, p. 67). A principal conquista do Tropicalismo foi lançar suas sementes para procedimentos que seriam empregados na música, nos anos 70, com menos questionamentos. Segundo Luiz Tatit, a mentalidade formada nos tempos tropicalistas teve espaço na música popular dos anos 70: “a música sem fronteiras rítmicas, históricas, geográficas ou ideológicas”. (TATIT, 2004, p. 227).

CAPÍTULO 2