• Sonuç bulunamadı

2. Türk Dilinin Tarihî Dönemleri ve Oğuz Kolunun Çağdaş Dönemlerinde Kullanılan Gelecek

2.4. Harezm Türkçesi Dönemi

A voz, como a música, como o bater asas dos pássaros, como a fuga entrevista dos animais ou como o assobio de uma flecha, deixa em seu passar uma vibração, uma marca sonora, “um sulco apenas aberto no ar”. Assim, se a escritura é como um abrir sulcos na terra [...], a oralidade é como um abrir sulcos no ar.

Jorge Larrosa50

Mas o que acontece numa experiência de leitura em voz alta? A leitura em voz alta envolve algo além do que está materializado no livro, nas palavras ou nas imagens, envolve a pessoa que fala, a sua voz, o seu tom: “símbolo dos padecimentos da alma” (LARROSA, 2004, p. 39). Larrosa fala da fluidez contextual, líquida ou gasosa da palavra oral e que só o hálito da voz do leitor é capaz de reviver a “materialidade

50 LARROSA, Jorge. Linguagem e Educação depois de Babel. Belo Horizonte: Autêntica, 2004, p. 43.

cadavérica da letra” (LARROSA, 2004, p. 38). “Como se houvesse uma vida das palavras que só está na voz, no hálito da voz, na alma da voz” (LARROSA, 2004, p. 38).

Considerando que os livros lidos pelos participantes da oficina apresentam imagens e recursos materiais, que não são necessariamente palavras inscritas nos papéis, encaminho esta reflexão para a leitura em voz alta do livro como um todo, realizada pelo adulto ou pela criança.

Existem elementos da voz, precisamente os que não se podem articular, o gemido, o sussurro, o balbucio, o soluço, talvez o riso, que não se podem escrever, que necessariamente se perdem na língua escrita, assim como se perdem também os elementos estritamente musicais, como o ritmo, o sotaque, a melodia, o tom (LARROSA, 2004, p. 39).

Larrosa acrescenta que o que está na voz é justamente o que se sente, o que padece, e o que está na escritura é o articulado da voz.

Assim como a leitura em voz alta, que aproxima as pessoas e cria uma relação daquele que fala e do outro que escuta, a posição dos corpos no momento da leitura é outro fator que pode contribuir para uma rela- ção afetuosa.

Durante as oficinas no Espaço de Leitura, percebi os corpos numa notável intimidade. Observo os adultos, em sua maioria, sentados nos tapetes de E.V.A., com as pernas cruzadas, numa posição de aparente descontração. No momento da leitura, os corpos se ajeitam, algumas crianças sentam no colo do adulto e o livro se apresenta grandioso na frente dos dois. Na maioria dos pares, percebi o adulto lendo e a criança acompanhando as páginas com interesse, por vezes tocando as imagens e apontando para dentro do livro. O encontro é vivido pelos dois, como um só corpo.

Relatadas as percepções sobre os encontros no Espaço de Leitura, me pergunto se as peculiaridades do lugar podem ter contribuído para tal experiência.

O fato da oficina ter sido realizada num parque, em um dia do final de semana, voltado para famílias, pode ter sido fundamental para a dispo- nibilidade das pessoas no encontro e ter contribuído para a experiência?

O Espaço de Leitura é constituído de oito quiosques que abrigam o acervo de livros infantis e juvenis. Em volta deles as mesas e cadeiras de madeira convidam as pessoas para uma leitura, um descanso e às vezes um lanche (o que é proibido). O chão é coberto de pedrinhas, única de- limitação que diferencia o Espaço de Leitura do restante do parque. Não há paredes, catracas ou portas. Ele está a céu aberto, aberto às influên- cias do tempo que podem alterar a programação de forma imprevisível. Assim, os fatores climáticos estavam tão presentes como qualquer outra interferência que podia ocorrer no Espaço, como animais que invadiram as atividades ou um grupo de palhaços que estava a passeio pelo parque.

O tempo, o vento nas árvores e o silêncio passageiro da úmida mata que habita o local criam um ambiente muito propício para a leitura prazerosa acontecer. Não é à toa que, durante uma visita de uma escola pública, um aluno revelou ter passado por uma experiência incrível: ler um livro pela primeira vez. E a resposta sobre o que levou ele a isso, foi rápida e certeira: “O ventinho, o silêncio...”. João percebera uma das par- ticularidades do Espaço de Leitura, o clima como uma característica que altera e contribui para a experiência da leitura prazerosa acontecer.

O Espaço de leitura está localizado dentro de um parque. E não é qualquer parque da cidade de São Paulo. O Parque da Água Branca é tipicamente rural, apesar de localizado em um bairro central da cidade. Abriga animais como galos, galinhas, cavalos, um pavão, peixes e gatos. As antigas construções hoje abrigam cursos técnicos de costura, culi- nária, artesanato e jardinagem. Passeando por ele, é possível ver uma ponte, árvores centenárias com raízes que invadem o espaço, uma trilha, bambuzais e uma casinha de caboclo que serve café fresco e bolo quente. Há quem diga que existem sacis pelo parque, devido alguns incidentes

que aconteceram por lá e pela presença de muitos bambuzais (local onde nascem alguns tipos de sacis, como reza a lenda)51 .

Além das características físicas e ambientais do Espaço, durante os finais de semana ele ganha outro calor. Há uma maior quantidade de pessoas, se comparado à frequência durante a semana, parece ser até mais quente. A demanda é maior, a vontade das pessoas também, que aparentam estarem mais dispostas para a conversa, para a leitura e para o encontro. Os adultos, principalmente, se mostram mais disponíveis para a experiência acontecer; com mais tempo para cultivar a atenção e a delicadeza, aprender a lentidão, escutar os outros e cultivar a arte do encontro (LARROSA, 2004, p. 160). Outro fator que tem forte presença no Espaço de Leitura é a percepção sobre o livro e como ele é trabalho nas atividades que compõem a programação. O livro é apresentado como uma brincadeira, sutilmente. Ele não tem o valor daqueles que ficam nas prateleiras da sala de leitura de algumas escolas ou o silêncio dos que habitam uma biblioteca, e nem a organização que apresentam em uma livraria. Aqui ele é tipo bicho ou como diria Manoel de Barros (2013, p. 355): “Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades de pássa- ros. Daqui vem que todas as pedras podem ter qualidades de sapo”. Do Espaço de Leitura, os livros podem ter qualidades de animais: pássaros, sapos, galinhas ou gatos, que circulam pelas mesas, tapetes coloridos, quiosques e pessoas livremente, sem pudor. E se algum criar asas e fugir, ele pode ter um bom uso fora dali. Isso porque não há um controle sobre os livros que saem do acervo, como carteirinhas em bibliotecas. As pessoas podem retirar um livro e ler em qualquer lugar no parque, com a condição de devolver antes do Espaço fechar.

O Espaço de Leitura, “reino da despalavra” (BARROS, 2013, p. 354), onde os poetas podem refazer o mundo por imagens, eflúvios e afetos (BARROS, 2013, p. 355) seria um lugar ideal para criar uma aproximação com o objeto livro por meio do afeto, não?

Figura 11. Parque da Água Branca. Foto: Fernanda César. Fonte: Espaço de Leitura. (acima) Figura 12. Espaço de Leitura. Foto: Sigmar Bueno. Fonte: Espaço de Leitura. (abaixo)

Figuras 13 e 14. Oficina “É um livro...?”, no Espaço de Leitura em 09/03/2014. Foto: Camila Flora. Fonte: arquivo pessoal.

Figuras 15 e 16. Oficina “É um livro...?”, no Espaço de Leitura em 09/03/2014. Foto: Camila Flora. Fonte: arquivo pessoal.

Figuras 17 e 18. Oficina “É um livro...?”, no Espaço de Leitura em 23/02/2014. Foto: Aline Monfredini. Fonte: arquivo pessoal.

Benzer Belgeler