3.6. Türkçe ve Arapça Nezaket Söylem Kalıpları
3.6.2. Türkçe Nezaket Söylem Kalıpları
Podemos pensar que essa rede de sociabilidade pode ter sido composta por outros tantos elementos, formais e informais, além dos três que abordamos, tais como associações, livrarias e laços de amizade e parentesco. Disso temos apenas indícios, mas vale a pena abordar a questão, mesmo que de maneira exploratória.
Comecemos pela Sociedade Literária, que funcionou em Ouro Preto entre 1823 e 1825. Segundo Moreira (2006), as referências a essa associação são poucas,
mas suficientes para percebermos que a Ilustração Pública figurava entre seus objetivos. Para contribuir na difusão das Luzes, a Sociedade Literária dedicava-se à formação de uma biblioteca interna. A Sociedade recebia também os números de O Universal. Um de seus sócios era Manoel José Barbosa, proprietário da Officina Patrícia de Barbosa e Cia (MOREIRA, 2006, p. 144-145).
Nessa oficina, era impresso O Universal, cuja redação é atribuída, no seu primeiro quinquênio, a Bernardo de Vasconcellos. Temos, assim, indícios de formação de uma rede de sociabilidades formais, do que são elementos a sociedade e o jornal; e informais, possíveis laços profissionais e/ou afetivos entre Vasconcellos e Barbosa.
O jornal servia de maneira diferente aos mesmos propósitos da Sociedade, ou seja, à ilustração pública e à difusão das Luzes. É possível, também, que os membros da Sociedade Literária se reunissem periodicamente, como era comum a associações criadas no período regencial, para a ler O Universal e discutir as notícias nacionais e internacionais trazidas por ele, bem como para debater assuntos relativos à organização do nascente Estado brasileiro e de questões a ele atinentes, como construção de estradas, ordenamento da população e instrução pública, que por sua vez eram reflexo e se refletiam nas câmaras municipais e no Conselho de Governo35.
Com a extinção da Sociedade Literária, a própria oficina tipográfica de O Universal pode ter-se convertido em um local de encontro, de debate de ideias e de elaboração de propostas no qual se reuniam os letrados e políticos de outras localidades como a vizinha Mariana, por exemplo. O primeiro periódico publicado em Mariana foi a Estrela Mariannense, cujo primeiro número saiu do prelo em 30 de maio de 1830. Inicialmente, sua impressão foi realizada em Ouro Preto, na Tipografia Patrícia do Universal (MOREIRA, 2006, p. 100).
A folha era redigida por Manoel Bernardo Acúrcio Nunan, que viria a ser secretário da Câmara de Mariana (CARVALHO, 2009, p. 56) e membro da Sociedade Patriótica Mariannense, juntamente com Fortunato Rafael Arcanjo da Fonseca (SP PP 1/7 cx.01 pac. 11). O envio do conteúdo a ser impresso e o
35 A respeito desses lugares de sociabilidade, que são as associações, bem como das práticas de
retorno do jornal, fosse pelas mãos de Nunan ou de um mensageiro, permitia não somente a criação de um circuito de informações entre as duas localidades, mas também a configuração de uma rede de sociabilidades.
As livrarias públicas também podem ser arroladas entre os lugares de sociabilidade importantes para o grupo pesquisado, em especial para Teophilo Ottoni, Bernardo Vasconcellos e Bernardo da Veiga. No tempo em que frequentou a Academia da Marinha, no Rio de Janeiro, Ottoni foi admitido no convívio de Evaristo da Veiga e Bernardo de Vasconcellos. Era frequentador assíduo da livraria de Evaristo da Veiga no Rio de Janeiro (CHAGAS, 1978, p. 23-25). Por volta de 1827, a livraria, de propriedade de Evaristo e seu irmão João Pedro, já despontava como um espaço de convivência política dos homens de letras. Lá se “reuniam muitas vezes os liberais do setor moderado antes e depois do 7 de Abril”. (SILVA NETO, [s.d.] p. 5).
Enquanto intermediário cultural, Evaristo da Veiga participava da criação de redes e, consequentemente, da constituição dos espaços públicos no Rio de Janeiro no início dos Oitocentos. Influindo na circulação de impressos portadores de idéias, interesses, palavras de ordem e propostas de organização e mobilização, a sua livraria era um dos espaços de convivência dos consumidores desse material impresso (SILVA NETO, [s.d.], p. 8).
Na livraria de Evaristo, as conversas se davam em torno da filosofia política, criada pelos povos de língua inglesa. Nela, Ottoni teve contato com os teóricos do liberalismo anglo-americano. A revolução americana, com seu federalismo, sua filosofia de liberdade, seu respeito à dignidade humana fez dele um de seus maiores apóstolos (CHAGAS, 1978, p.25-26).
Nessa mesma época, começou sua atividade como jornalista. Na Corte, a Astreia, periódico dirigidos por Antônio José de Amaral e José Joaquim Vieira Souto, publicou os artigos escritos sob o pseudônimo de “Jovem Pernambucano”. Na imprensa periódica da província mineira, colaborou intensamente escrevendo para o Astro de Minas, de São João del Rei, e para o Eco do Serro, de Diamantina (CHAGAS, 1978, p. 23-24). Por causa de perseguições decorrentes de seu engajamento político, Ottoni pediu baixa da Armada e, em 1830, voltou à cidade natal, disposto a abrir uma casa de comércio. Pôs-se a caminho da Vila do Príncipe (Serro) levando em lombo de besta uma tipografia de onde sairia o jornal Sentinela do Serro, o primeiro
daquele lugar (CHAGAS, 1978, p. 27-28). Ali também fundou a Sociedade Promotora do Bem Público (SP PP 1/7, cx. 01, pac. 04 ).
Alguns dados esparsos nos permitem inscrever Bernardo Jacintho da Veiga em redes de sociabilidades bem próximas de Teophilo Ottoni. De acordo com Castro (2008, p. 67), Bernardo Jacinto Veiga e Lourenço Xavier da Veiga saíram egressos do Rio de Janeiro, estabeleceram–se em Campanha em 1818 como livreiros. Em razão de sua atividade comercial, podemos supor que Bernardo da Veiga ia com frequência ao Rio de Janeiro, onde obtinha os impressos, chegados da Europa, que comercializava.
É bem possível que, em suas passagens pela Corte, Bernardo da Veiga tenha frequentado a livraria de seus irmãos e, à semelhança do que ocorreu com Evaristo, tenha lido e discutido os escritos de “Bentham, Benjamin Constant, Montesquieu, Paine, Ricardo, Say, de Sismonde, entre outros, além de obras científicas, jurídicas e de conhecimentos humanísticos” (SILVA NETO, [s.d.], p. 4-5). Bernardo da Veiga não possuía formação superior e possivelmente, como para o seu irmão Evaristo, “o balcão de sua(s) livraria (s) foi realmente para ele a sua cadeira em ciência política” (SILVA NETO, [s.d.], p. 4). A trama da rede de sociabilidades de Bernardo da Veiga se tornou ainda mais fechada quando levamos em conta o seu apadrinhamento pelo irmão Evaristo que lhe abriu espaço na vida pública indicando-o para cargos políticos (MOREL, 2005, p. 185).
As reflexões sobre os lugares de sociabilidade formal, como as câmaras municipais, o Conselho da província, mas especialmente o jornal, a Sociedade Literária e a livraria de Evaristo, fizeram emergir outro elemento que parece ser importante para elaborar o perfil do grupo. Chamamos atenção para o convívio com políticos mais experientes. Como explicitamos acima, esse convívio desempenha papel fundamental na trajetória do jovem Ottoni e Bernardo da Veiga. Contudo, sobre o primeiro temos elementos que permitem dizer que o despertar para a política se deu ainda na infância e no próprio seio familiar.
Ainda menino, Ottoni conheceu os meandros da política na Vila do Príncipe onde residia com sua família. Em 1813, aos 6 anos de idade, viu seu pai ser eleito para compor o Senado da Câmara e aos 7 acompanhava o cortejo do corpo da Câmara pelas ruas da vila (CHAGAS, 1978, p. 100). Em 1821,
chegava à Vila do Príncipe notícias das manifestações ocorridas na Corte a favor do reconhecimento da Constituição elaborada pelas Cortes de Lisboa e que seu tio, Eloi Ottoni, lá residente, declamara, diante de D. João VI, um audacioso soneto em que chamou os brasileiros de escravos. Na casa de Jorge Benedicto Ottoni, liberal exaltado, pai de Teophilo, o assunto era a atitude do insolente tio Elói falando diante do rei.
Na Vila do Príncipe, seu pai pregava na rua e em casa as ideias liberais. Em 1821, quando se realizaram as eleições dos deputados mineiros a Cortes de Lisboa, Teophilo Ottoni, aos 13 anos, declamou sobre a Constituição, a liberdade e a Independência. O tio Eloi foi eleito para nela participar e seu pai era um dos representantes da comarca do Serro Frio na junta eleitoral do 1º Governo Provisório de Minas e propôs que se retirasse o padrão de infâmia erguido trinta anos antes, em opróbrio a Tiradentes. De volta a Vila do Príncipe, Jorge Ottoni se engajou na luta pela Independência (CHAGAS, 1978, p. 10-12). Três anos depois, Teophilo partiu para a capital do Império com o objetivo de estudar e lá se inseriu em outros espaços, formas e redes de sociabilidade, como demonstramos acima. Esse complexo de sociabilidades influenciou diretamente sua trajetória política.
Não reunimos para os demais elementos do grupo tantos dados quanto foi possível para Ottoni. A tarefa permanece em aberto. A despeito disso, no caso deste trabalho damo-la por encerrada. Passamos no próximo capítulo a tratar da institucionalização e do funcionamento das sociedades políticas, literárias e filantrópicas criadas pelos elementos do grupo sobre cuja trajetória debruçamo-nos neste capítulo que se encerra.