Sirinelli (2003), ao se referir às estruturas de sociabilidade, aponta a revista como uma das mais elementares. As reflexões do autor sobre o assunto podem ser aplicadas à apreciação dos jornais como espaço de sociabilidade no período recortado por nossa pesquisa. Gomes (1999) partilha a mesma posição e afirma que as revistas são classicamente lugares de sociabilidade intelectual. Assim, podemos considerar que os jornais são “antes de tudo um lugar de fermentação intelectual e de relação afetiva, ao mesmo tempo viveiro e espaço de sociabilidade” (SIRINELLI, 2003, p. 249). São “lugares de articulação de pessoas e idéias que precisam de suportes materiais e simbólicos para fazer circular seus projetos, sem o que eles perdem o significado” (GOMES, 1999, p. 58)
Todos os indivíduos do grupo pesquisado envolveram-se na escrita de periódicos, direta ou indiretamente, seja antes de se engajarem no movimento associativo mineiro ou em decorrência dele. No segundo quartel do século XIX, o jornalismo era parte do processo de formação dos políticos mineiros. O momento que antecede a Independência do Brasil, num contexto marcado pelas mudanças significativas na estrutura política da Península Ibérica e de seus domínios na América, a instituição da liberdade de imprensa, pelo decreto de 21 de setembro de 1820, foi crucial para a emergência no Brasil de uma opinião pública e da configuração de uma esfera pública de poder. Assim, relacionar a centralidade do jornalismo na trajetória dos políticos pesquisados a esses dois fenômenos, característicos da modernidade política.
Além desses fatores que colocam o jornalismo como um dos elementos mais importantes da formação dos políticos do século XIX, há que se considerar, também, a implantação do Estado Nacional brasileiro tendo como referência as diversas vertentes do liberalismo e, consequentemente, a difusão da cultura política liberal no Brasil. A esse respeito, Rousselier afirma que
aos olhos de muitos liberais, frequentemente jornalistas de profissão, a imprensa é um real vetor de difusão [da cultura política liberal], o real modo da razão, ao mesmo tempo em que, um dos meios para reservar a expressão da opinião pública para uma minoria esclarecida da população. (ROUSSELIER, 1999, p. 77, tradução nossa).
Considerando que a cultura política liberal não é democrática, mas elitista, podemos concluir, com Morel (2005, p. 218), que o perfil dos redatores das décadas de 1820 e 1830 se converge num dos componentes básicos do
liberalismo tocado pelas Luzes: a legitimidade dos redatores ilustrados que se constituíam em agentes propagadores do esclarecimento em todas as direções. Os homens de letras se apresentam como cidadãos e escritores ativos, como construtores da opinião que almejavam conduzir a sociedade a algum tipo de progresso e de ordem nacional.
Assim, sob a égide do liberalismo, no processo de configuração de uma esfera pública de poder e da opinião pública, surpreendemos os sujeitos do grupo pesquisado às voltas com a publicação de periódicos. Entre os redatores de periódicos mineiros encontram-se todos os indivíduos do grupo pesquisado. Inicialmente, levantamos os nomes de Padre José Antônio Marinho, Bernardo Pereira de Vasconcelos, Padre Antônio José Ribeiro Bhering, Bernardo Jacinto da Veiga Padre, José Bento Leite Ferreira de Mello, Teófilo Benedito Ottoni, José Pedro Dias de Carvalho e Coronel Pedro Gomes Nogueira (VEIGA, 1898, p.183-194). No decorrer da pesquisa, soubemos que o padre Bhering foi também o redator da folha União Fraternal, vinculada à Sociedade Patriótica Marianense (O UNIVERSAL, n. 769, 2 jul. 1832). A Estrella Mariannense era redigida por Manoel Bernardo Acurcio Nunan32 (CARVALHO, 2009, p. 56) e José Alcebíades Carneiro redigiu, em São João del Rei, o Mentor das Brasileiras (JINZENJI, 2008, p. 89).
Identificar as folhas e os redatores é importante, mas mais relevante é pensar o que a redação do periódico implica em termos debate de ideias; de organização e de construção de propostas; de adesões que promove; de laços afetivos que cria; das fidelidades que arrebanha e da influência que exerce; e das exclusões que opera pelas tomadas de posição e das cisões advindas. O jornal se configura como “lugar de sociabilidade” onde esses padres,
32 Manoel Bernardo Acurcio Nunan era, assim como o padre Antônio José Ribeiro Bhering,
professores e políticos mineiros se organizavam mais ou menos formalmente para construir e divulgar suas propostas.
Dentre outras, uma maneira interessante de apreender o jornal como espaço de sociabilidades é acessar sua própria materialidade, ou seja, suas páginas. Entretanto diante de uma quantidade tão grande de jornais, seria enveredar por uma análise por demais extensa e que foge de certo modo aos propósitos delineados aqui. Desse modo, faremos uma incursão pelas páginas de O Universal, considerando-o como um espaço de sociabilidade que se articula a outros como as câmaras municipais e Conselho Geral de Província, já tratados, mas também às livrarias públicas, associações e sociabilidades informais que abordaremos adiante.
O Universal começou a ser publicado no dia 18 de julho de 1825, em substituição ao periódico Abelha do Itacolomy33, primeiro periódico impresso em Minas que entrou em circulação em 14 de janeiro de 1824 e saiu de cena dias antes do lançamento de O Universal (11 de julho de 1825). No seu primeiro número, foram declarados os objetivos da publicação:
Como o Companheiro do Conselho deve de acabar em breve, e os illustres redatores da Abelha não continuão por ora a publicar seu periódico, eu me vi na necessidade de escrever, para transmittir as noticias mais interessantes, que chegarem ao meu conhecimento. [...] Não terão lugar nelle outras correspondências, se não as que tratarem de objectos em geral, e não contiverem personalidades, porque meu fim é a illustração publica [...] Preferirei sempre a publicação das Leis, Decretos e Portarias, pois apezar de que estes objectos não agradem tanto, como devem, sua vulgarização, he da primeira necessidade, e todos os Cidadãos devem procurar tão importante conhecimento (O UNIVERSAL, n. 1, 1825).
Há uma intenção, declarada, de promover a “ilustração publica”, o que produz a ideia que o jornalista, um homem de letras, portador de uma missão ao mesmo tempo política e educativa, deveria servir-se da imprensa para propagar ideias dirigidas ao povo tendo em vista sua formação. A publicação também favoreceria a emergência da opinião pública e a configuração de uma esfera pública de poder, propiciando aos cidadãos o “importante conhecimento” de “leis, decretos e portarias”. No momento inicial da constituição do Estado brasileiro, tal conhecimento era fundamental para
33 Segundo Veiga (1898, p. 188-189), “no decurso de 1824 publicou-se também em Ouro Preto, O Complilador Mineiro, editado na Typografia de Silva (Luiz Maria da Silva Pinto) que teve duração efêmera”.
colocar as pessoas a par desse processo, bem como inseri-las nele. As ações se davam no sentido da publicização da coisa pública.
O redator, esse homem de letras, que se apresentava como cidadão e escritor ativo, construtor da opinião, que almejava conduzir a sociedade a algum tipo de progresso e de ordem nacional numa dada direção, aparece nas páginas de O Universal de forma mais contundente alguns meses depois quando afirma que:
Instruir recreando [...]. Este desígnio conduz os trabalhos dos escritos periodicos [...] servindo-se ao mesmo tempo a moral, a politica, as artes, e a civilisação, sem custo das pessoas, que, buscando muitas vezes sómente o que as pode distrahir, encontrão solida instrucção, e as regras de virtuosa conducta [...] sempre será mais feliz, e mais illustrada a Nação, em que a leitura dos periodicos generalisar a instrucção publica, combatendo a ignorancia, os abusos, e os prejuizos, e consagrando á causa da rasão ás luzes, e os trabalhos dos homens instruidos. (O UNIVERSAL, n. 43, 1825)
Com a intenção de instruir recreando, de difundir as Luzes, de ilustrar a Nação publicando textos de conteúdo moral, político, artístico que promovessem a instrução pública combatendo a ignorância, os abusos e os prejuízos, o redator de O Universal converteu o jornal num espaço de sociabilidade no qual as pessoas se aliavam, se insultavam e se conheciam, manifestando-se publicamente.
Em O Universal de 11 de janeiro de 1826, um leitor autodenominado “O Crítico”, mostrava-se preocupado com a escassez e a carestia dos mantimentos e atribuía o fato à negligência dos almotacés que deveriam fiscalizar a distribuição de alimentos e não o fazia. Disso “procede não apparecer mantimentos nas ruas, e have-lo com abundancia nas tabernas onde elle se compra pelo mais alto preço”. Para resolver o problema, “O Crítico” sugere que o Conselho de Governo examine a possibilidade de criação de uma intendência, na qual a venda de alimentos fosse centralizada. E encerra dizendo ao redator “que em lugar de se entreter a copiar o Sermão Mariannense, que tão fastidioso tem sido aos seus leitores, se occupasse antes com estes e outros semelhantes objetos de utilidade pública” (O UNIVERSAL, n. 77, 11 jan. 1826).
No número seguinte, o redator respondeu ao seu corresponde cognominado “O Crítico” dizendo que havia muito tempo se reclamava o estabelecimento de
uma Intendência na capital da província, visto que elas já existem em outros lugares, como na Vila do Príncipe, no Arraial do Tejuco e em Minas Novas, e não na capital da província. Em seguida, passa a explicar o que é uma intendência e a expor as vantagens de seu estabelecimento (O UNIVERSAL, n. 78, 1826). Dois dias depois, o jornal publicou as diretrizes para a criação da intendência e afirmou que para a criação da Intendência não era preciso reunião do Conselho de Governo, o presidente da província pedia deliberar a respeito, mas era necessário que os conselheiros discutissem “seriamente sobre este objecto de publica utilidade” (O UNIVERSAL, n. 79, 1826).
Outro assunto que ocupou as páginas de O Universal foi o entrudo. No dia 1º de fevereiro de 1826, O Universal trazia em suas páginas uma matéria intitulada “Ao Conselho do Governo desta Provincia dirige o Redactor o seguinte Memorial”, que trazia numa proposta de regulamento para impedir que as pessoas brincassem de entrudo. De acordo com o articulista iam-se
aproximando os dias em que o povo desenfreado, e illudido por um divertimento barbaro e que tantas desordens tem causado, e há de causar ao publico, ajunta ás chusmas nos chafarizes a atirar água a quantos passão e outros com [ilegível] laranjas cheias de agoas insultão a toda qualidade de pessoas (O UNIVERSAL, n. 86, 1826).
Diante disso, ele sugere que o Conselho considere os males e os gravíssimos danos que resultam do abuso e do costume de se praticar o entrudo e propõe, em cinco artigos, as providências para extirpar a prática do entrudo, bem como prevê a aplicação de penas, que vão de prisão a multa, passando pelas chibatadas, em caso de desobediência. Ele encerra a matéria pedindo que o Conselho não apenas aprecie a proposta e se for aceita a faça extensiva a toda a província e roga que se faça “o que mais conveniente for para a tranqüilidade, o socego, paz, e boa harmonia entre todos os cidadãos, único objecto de meus desejos e fins do meu trabalho” (O UNIVERSAL, n. 86, 1826).
Os exemplos de manifestações a respeito dos assuntos de interesse público se multiplicam nas páginas de O Universal. Sem muito esforço, encontramos debates sobre as vantagens do estabelecimento de uma companhia para exploração e navegação do Rio Doce (O UNIVERSAL, n. 8, 1825), defesa de um “programa” de incentivo à colonização inglesa em Minas Gerais (O UNIVERSAL, n. 10, 1825), data de instalação do Conselho do Governo (O UNIVERSAL, n. 11, 1825), cobrança a respeito da realização de obras publicas
como construção de pontes, publicação de providências policiais a respeitos de escravos e taberneiros (O UNIVERSAL, n. 13, 1825), a má conservação das estradas (O UNIVERSAL, n. 83, 1826), presença de atravessadores que eleva os preços dos mantimentos (O UNIVERSAL, n. 85, 1826), a existência de uma biblioteca publica em São João del Rei com mais de 2000 títulos (O UNIVERSAL, n. 43, 1827), relatos de exames de alunos e alunas de escolas públicas (O UNIVERSAL, n. 458, 26 jun. 1830).
Além de tudo isso, encontram-se muitas transcrições de atas das reuniões do Conselho Geral da Província com as discussões dos assuntos supracitados e também daqueles mencionados em páginas anteriores34. As câmaras municipais também lançaram mão do jornal como espaço de sociabilidade.
A configuração de O Universal, como já dissemos, parece estar articulada à existência e ao funcionamento de outros espaços de sociabilidade, tais como as câmaras municipais e o Conselho de Governo, posteriormente Conselho Geral da Província. Boa parte do conteúdo encontrado em suas páginas refere- se às discussões atinentes às obras públicas, à organização do serviço de instrução, ao abastecimento, à manutenção da ordem e da segurança pública entre outros, que estavam acontecendo nas câmaras e no Conselho. Isso nos permite pensar que muitas das questões trazidas pelo jornal tinham seu ponto de origem nesses outros espaços de sociabilidades e encontravam no jornal mais um espaço de elaboração e publicização, ou seja, de fermentação intelectual.
2.3.2.4 A Sociedade Literária, as livrarias e os laços de amizade e