A escolha dos procedimentos metodológicos foi feita de acordo com a organização dos dados da pesquisa não apenas como coleta, mas acompanhando a perspectiva de construção e conhecimento acerca do ambiente pesquisado. Assim, entendemos que os procedimentos não se encerram em técnicas ou instrumentos de utilização, antes expressam uma dimensão complementar às nossas apreensões teóricas, tornando-se um aporte mediador dinâmico, que vem somar e oferecer materialidade empírica à temática trabalhada, imbricado no próprio desenvolvimento do objeto em questão.
Por essa razão, recorremos ao uso de entrevistas como foco metodológico, privilegiando a prática reflexiva em Educação (Szymanski, 2002). Esta prática fundamenta a entrevista como conversação, como situação de interação entre os sujeitos envolvidos em um momento particular, dialógico, tendo em vista que a participação do entrevistado não é passiva, pois este não é apenas um informante.
O encontro com uma nova maneira de se pensar e efetivar a entrevista surgiu da preocupação em propiciar uma ambiência favorável para o desvelar dos discursos docentes. Pensávamos justamente em tornar essa etapa do estudo mais significativa, tanto do ponto de vista de pesquisadora, como no que se refere à professora entrevistada.
Ampliamos a compreensão sobre o procedimento da entrevista ao conhecer as discussões contempladas à luz do enfoque reflexivo, o qual valoriza as respostas como discursos produzidos em um processo interlocutor, relacional. Outrossim, em se tratando de uma investigação que tenta desvendar na fala e pensamento da professora suas concepções
130 acerca do trabalho docente, ganha destaque proeminente a narrativa constitutiva de procedimentos práticos em torno da Pedagogia Freinet.
A prática reflexiva consiste na maneira como o pesquisador pode proceder, desde os momentos precedentes de planejamento e organização dos roteiros semi-estruturados, até o momento das análises e formação de categorias, à luz de uma interpretação de que estes são procedimentos de interação dos sujeitos na pesquisa.
Szymanski (2002) apresenta uma reformulação da condução de entrevistas nas investigações em Educação, idéias essas que ressoam nos estudos qualitativos de pesquisa, balizados por construtos teóricos, psicológicos, filosóficos e sociológicos que fornecem às entrevistas, individuais ou coletivas, preceitos reflexivos emergentes da interação “face a face”. Como afirma Szymanski (2002, p.12),
partimos da constatação de que a entrevista face a face é fundamentalmente uma situação de interação humana, em que estão em jogo às percepções do outro e de si, expectativas, sentimentos, preconceitos e interpretações para os protagonistas: entrevistador e entrevistado.
Ou seja, a “prática reflexiva” de entrevista baseia-se na representatividade da fala do outro, e mesmo do seu possível ocultamento, tendo em vista o que a fala também silencia. Afirma-se a interação entre os partícipes – entrevistador/entrevistado – situando-os como protagonistas do estudo, trazendo para o cerne da metodologia a intersubjetividade que se manifesta dos pares. Ressaltamos aqui, mais uma vez, que o emprego de procedimentos metodológicos extrapola a mera técnica, aproximando-os da essência do objeto de estudo.
Os protagonistas do estudo encontram-se como sujeitos sociais, sendo o entrevistador/pesquisador o sujeito social que intenciona, planeja, faz à mediação e efetiva a entrevista, buscando a tônica necessária para que a interação se concretize. Nessa interação, o papel assumido pelo entrevistado faz-se muito importante para a construção de dados que elucidem o objeto estudado, conforme destaca Szymanski (2002, p.12):
A intencionalidade do pesquisador vai além da mera busca de informações; pretende criar uma situação de confiabilidade para que o entrevistado se abra. Deseja instaurar credibilidade e quer que o interlocutor colabore, trazendo dados relevantes para seu trabalho. A concordância do entrevistado em colaborar na pesquisa já denota sua intencionalidade – pelo menos a de ser ouvido e considerado verdadeiro no que diz – o que caracteriza o caráter ativo de sua participação, levando-se em conta que também ele desenvolve atitudes de modo a influenciar o entrevistador.
As questões planejadas, como roteiro semi-estruturado, para a realização da entrevista convertem-se em guias, eixos de conversação, destacando, dessa maneira, os conteúdos que
vão surgindo nas respostas, com a perspectiva do entrevistado falar mais, expondo mais o seu pensamento sobre tais questões.
Propõe-se um movimento de inter-relação e produção de pensamentos que contemplem a auto-reflexão, o auto-aprendizado sobre o que é questionado, os quais são salientados por Szymanski (2002, p.14):
Foi na consideração da entrevista como um encontro interpessoal no qual é incluída a subjetividade dos protagonistas, podendo se constituir um momento de construção de um novo conhecimento, nos limites da representatividade da fala e na busca de uma horizontalidade nas relações de poder, que se delineou esta proposta de entrevista, a qual chamamos de reflexiva, tanto porque leva em conta a recorrência de significados durante qualquer ato comunicativo, quanto à busca de horizontalidade. [...]. Essas idéias estão de acordo com a concepção de que o significado é construído na interação (...). Muitas vezes esse conhecimento nunca foi exposto numa narrativa, nunca foi tematizado. O movimento reflexivo exige
que a narração acabe por colocar o entrevistado diante de um pensamento organizado de forma inédita até para ele mesmo (grifos nossos).
O movimento reflexivo enfatizado pela autora permite conjugar a produção de conhecimentos, tendo como via material, concreta, os dizeres, a organização de um pensamento que para o próprio entrevistado, naquele momento específico, permite uma auto- reflexão sobre as perguntas e gera a preparação das respostas, que são expressões vivas, palavras-chave, essências do nosso estudo. Os plurais significados subjacentes nestas palavras evocam os lugares, as atitudes, os sentimentos, os conflitos, os valores, as ações, os saberes que conferem existência concreta, cotidiana, a estas mesmas palavras. Palavras que não acabam em si. Palavras que são portadoras de sentidos e personalizam posturas, traduzem pessoas, profissões, compreensões.
Sendo assim, o procedimento metodológico, que se concretiza pela palavra, pela fala, pelos discursos, pelas representações e sentidos atribuídos, deixa mais evidente, mais possível e viva a mobilização, a construção das análises a partir das falas como unidades de sentido. Sinaliza uma interpretação investigativa construída em decorrência das explicações elaboradas pelos indivíduos, mediadas pela linguagem.
Na relação pesquisador e entrevistado, a linguagem adquire função primordial na constituição do objeto de estudo, pois simboliza, compõe e redimensiona o próprio objeto, contribuindo para uma organização discursiva do pensamento e da consciência sobre o assunto abordado e consciência do que ele pensa sobre aquele conhecimento.
Ao refletir sobre a palavra do participante da pesquisa, como unidade de referência na produção do conhecimento e como mediadora da consciência, remetemo-nos, também, ao que Vygotsky (1996) expõe sobre o papel da fala, particularmente, em situação de interrogatório,
132 o que para nossa compreensão se assemelha ao procedimento da entrevista reflexiva. Conforme postula o autor, “é preciso saber o que se irá perguntar (...) Afirmo que é possível criar em cada caso individual uma metodologia objetiva que transforme o interrogatório do sujeito num experimento científico rigoroso (...)” (VYGOTSKY, 1996, p. 16).
Esse experimento é calcado nas falas, pela mediação da linguagem, como sendo um sistema complexo de inter-relação social, nascido da interação social, possibilitando através do desenvolvimento das funções psicológicas superiores a origem social da consciência, pois, esse sistema organiza esquemas de abstração do pensamento. Para Vygotsky (1996, p.17 e 18),
se funda aí a solução do “eu” alheio, do conhecimento da psiqué dos demais. O mecanismo da consciência de si mesmo (autoconhecimento) e do reconhecimento dos demais é idêntico: temos consciência de nós mesmos porque a temos dos demais e pelo mesmo mecanismo, porque somos em relação a nós mesmos o mesmo que os demais em relação a nós. Reconhecemo-nos a nós mesmos somente na medida em que somos outros para nós mesmos...Por isso, é no contato social entre o experimentador e o sujeito que esse contato se desenvolve [...]
Nessa perspectiva, por meio do reconhecimento e desvelamento dos discursos, de suas regularidades e dissonâncias podemos tecer considerações sobre o que pensam sobre determinados fenômenos, auxiliando melhor a compreensão da temática de estudo. A partir dessa mediação, a subjetividade se transforma em intersubjetividade, gerando uma produção conjunta em que entrevistador e entrevistados se fundem em um processo dialógico de tomada de consciência sobre a temática estudada, que é a identidade docente.
Em síntese, a opção em enfatizar os procedimentos sob a orientação teórica-prática da entrevista reflexiva nos mobilizou a desenvolver um detalhamento sobre as etapas concernentes à pesquisa e a empreender um outro olhar, ressignificando a entrevista como mediadora de situações de interações mais significativas do que concebíamos antes.