2.2. TükenmiĢlik
2.2.8. TükenmiĢlik Olgusu Ġle BaĢa Çıkma Yolları
Os encontros nas aulas de teatro, essencialmente, eram pautados pelos ensaios da peça teatral selecionada pelo Grupo. O planejamento do Professor contemplava técnicas de aquecimento, relaxamento, concentração, jogos dramáticos, exercícios de expressão corporal e de voz, leitura, compreensão e aprimoramento do roteiro da peça a ser encenada, distribuição de papéis, a criação das personagens, das cenas e dos cenários, a escolha dos figurinos e músicas que comporiam o espetáculo.
As aulas trouxeram principalmente as noções básicas para a formação do ator, condição necessária para a representação das peças.
Através de vivências, o Professor de teatro desenvolveu no Grupo a técnica teatral para a formação do ator, paralelamente à montagem da peça, fundamentando-se em Stanislavski. Os sujeitos assumiram a tarefa com responsabilidade e dedicação que impressionavam o Professor. Os ensaios eram penosos para os participantes, tudo era novo, o que gerou muita expectativa e ansiedade. O grupo respondeu ao seu rigor e exigências. Aos menores ensinamentos, os resultados eram imediatos e surpreendentes, considerando o fato de serem alunos de enfermagem. Para o Professor, foi algo inusitado, valorizando o esforço do grupo ao preparar uma peça em menos de um mês, que foi apresentada na Semana de Enfermagem.
Rapidamente, o grupo conquistara o Professor, e o Professor conquistara os alunos. Por outro lado, este descobrira também qual era o papel do enfermeiro. Seu envolvimento com o trabalho deixou marcas com sabor de amizade, apreço, confiança e solidariedade. O Professor agia revelando ao aluno o seu lado ator. Desafio prestigiado pelos alunos.
Nos trechos listados abaixo das falas dos sujeitos entrevistados, podemos perceber o valor que atribuíram ao Professor e às aulas de teatro e o que significaram para eles estes encontros:
[...] nos encontros é que tudo acontece [...]as dinâmicas de grupo é o alicerce para o início de qualquer espetáculo, e junta um professor capacitado, que entende [...] a gente põe em treinamento como ter uma boa fala, uma boa apresentação em público [...] e essas aulas de relaxamento e concentração não só me ajuda pra desenvolver no teatro mas sim para o meu dia a dia, risos [...] então o teatro tem sido assim, tudo de muito importante [...](E5).
De início [...] o grupo tava meio desacreditado, com o professor tomou um outro rumo. Ele é muito dez [...] é sem palavras, falar dele. Ele pegava uma peça e transformava numa coisa linda [...] e a gente aprendeu muito com ele [...] técnicas de teatro [...] construir uma personagem, como você se entregar pra aquela personagem. Um exemplo: se você vai viver o João na peça, tem que ser o João, se você vai viver o enfermeiro, tem que ser o enfermeiro. Tem que se entregar, separar você da personagem que você vai viver, ser ela. Aquele momento você é ela, então você tem que fazer o melhor daquela personagem naquele momento [...].Fazer laboratório, pesquisa [...] você tentar ver no cotidiano, o ridículo de pessoas que se adaptavam mais a nossa personagem, tentar ficar perto, ver os trejeitos, como se vestia, jeito de andar, jeito de falar. Observando, você faz uma leitura que você quer, traz pra você uma leitura da realidade. Nossa, se a gente pudesse gravar as nossas aulas de teatro. É muito bom, muito divertido, muito descontraído (E8).
[...] o Professor não tirou nossa liberdade... essa turma é unida de querer fazer[...] ele dá pra gente uma direção, né, pra gente isso é muito importante, direção de palco, direção de como apresentar, de como tá falando, dos exageros, de ter o bom senso, então essa direção é muito importante, as aulas são assim maravilhosas [...] (E10).
[...] a gente sempre falava o que pensava.. ele era muito espontâneo [...] era bom, era verdadeiro [...] e sabia qual a função dele, ali, pra enfermagem [...] era em relação a educação para os enfermeiros, pra educar a população (E11).
O que ele falou, e que eu vou levar comigo, é que a vida da gente é um teatro, o tempo todo a gente tá encenando, o tempo todo a gente está convivendo com pessoas encenando, você vai a igreja o padre tá fazendo teatro, porque ele teve que aprender a se comportar daquele jeito, eu como enfermeira também [...] não vou fingir, porque fingir e encenar é completamente diferente [...] não vou estar fingindo, mas eu aprendi a ser mais criativa (E2).
Eu costumava na realidade ter a maior dificuldade não só no teatro, mas onde tem mais de uma pessoa é trabalhar em grupo [...] voltado para o mesmo fim, e essas dinâmicas é muito voltadas pra isso, pra disciplina do grupo todo, não só pessoal [...] de fazer um trabalho bem feito. A gente faz assim, monta peças muito rápidas, tipo se divide em grupo [...] um monta sem falar para o outro o que está montando, encena, mas é tudo coisa rápida [...] o outro grupo tem que passar noção do que você errou, do que o grupo tá bom,o que faltou, e o que o grupo quis passar, e assim o outro grupo também faz [...] então é um exercício de você aceitar o que tá errado, a crítica. No teatro, assim, não são críticas ofensivas...as vezes é um erro de palco, erro de marcação [...] direcionado na parte que ta rolando da cena, não diretamente a pessoa, isso no teatro não acontece. É voltado para a personagem, não pra pessoa. O que muitas vezes não acontece na vida real (E9).
Observamos nestes relatos várias intersecções que integram a formação do ator ao desenvolvimento psicossocial do futuro enfermeiro. As falas nos mostram que as aulas de teatro, vivenciadas pelos sujeitos, promovem a possibilidade da autodescoberta e a consciência de si, quando explora os recursos de seu corpo, de sua voz, de seus gestos, enfim da expressão. Por outro lado, ao protagonizar um texto, faz-se necessário decifrar as palavras para que estas ganhem significado e emoção. Assim, os alunos aprendem que só decorar um texto é muito pouco. A representação deve ser verdadeira, incorporar a personagem, porque quando a palavra mente, o som denuncia essa mentira, assim como todo o complexo corporal se opõe ao fato da palavra-mentira. Percebemos, também, que ao contextualizar a personagem a ser criada, o aluno se envolve com o entorno da vida, suas relações afetivas, familiares e profissionais, e ganha a consciência do mundo. Adota uma postura investigativa, reorganiza o conhecimento, mas integrado à emoção e à arte, enfim à criação.
Como podemos perceber, a arte representada aqui pelo teatro, produz cultura. Para Freire (1999), a cultura é o processo de humanização do mundo; é o mundo que o ser humano se objetiva, envolvendo todas as suas atividades, que, carregadas de significação e realizadas a partir de uma constelação de valores, vão traçando uma imagem de homem e mulher.
Para os pesquisados, as aulas de teatro oferecem recursos ao futuro enfermeiro, pois até então estavam adormecidos em função de um contexto psicossocial. Ao aprender a técnica teatral, os pesquisados revelam que a arte teatral valoriza o trabalho de equipe, aprimora a comunicação, a observação, a concentração e a leitura que faz de si, do mundo e das pessoas. Destacamos, a seguir, alguns trechos das entrevistas, que ilustram estes achados:
[...] não é só você decorar uma fala e apresentar, o teatro ele tem toda uma cultura, uma estória [...] trazer pra vida faz uma diferença imensa, é uma coisa muito bonita [...] então não é aquela coisa abstrata, teatro é uma coisa concreta [...] descobre muitos valores que você tem, e que nunca percebeu [...](E5).
Acho que uma das coisas mais importantes é esse trabalho com a gente mesmo, de você tá se conhecendo, pra você conhecer o outro, pra você aceitar [...] muitas coisas que podem ser mudadas, e que de repente você tendo um pouquinho de direção, um pouquinho de disciplina [...]”vamos tentar fazer desse jeito”, pronto já muda tudo, sem impor nada, porque no teatro nada é imposto, você faz tudo o que você realmente quer[...]. Então, assim, eu me descobri no teatro, eu acho que ele me ajudou enquanto uma futura enfermeira (E9).
[...] foi a segurança que eu consegui adquirir diante das pessoas [...] hoje eu consigo estar segura do que eu sou, do que eu penso, do que eu tenho que falar, eu consigo mais me expressar, antes não era assim [...] porque você ta fazendo, você ta aprendendo a trabalhar em grupo [...] pessoas pensam diferente, pessoas tem horário diferente, e isso na enfermagem a gente vai ta lidando sempre [...] (E7). [...] ser extrovertido, liberar aquilo que eu tenho vontade de fazer, vontade de dizer, antes do teatro eu era extremamente tímido, nossa eu não me associava a ninguém [...] no teatro eu to conseguindo isso, me libertar um pouco da minha timidez, fazer ficar mais sociável, mais brincalhão [...] o projeto Viverarte, me ensinou que você tem que conhecer a pessoa, viver com ela, aprender com ela, e ela aprender com você, pra você fazer um julgamento da pessoa (E8).
[...] uma pessoa, duas pessoas não fazem teatro, mas depende de um grupo e pra sair um trabalho melhor tem que ser de todos. E é assim, na unidade de saúde, no hospital, um só não tem futuro. É o principal (E2).
[...] tá ajudando na autoconfiança [...] se você tem vergonha em chegar em uma pessoa e conversar, você acaba se isolando, né, você acaba ficando sozinho. Vê o outro [...] não invadir o espaço do outro [...] tem aquela marcação de palco, tal, na vida também né, você não pode entrar ali e tomar o lugar do outro [...] (E11).
As falas expressam o reconhecimento do teatro para a vida, particularmente para o trabalho de grupo, traduzidos aqui pelo respeito ao colega que está em cena e pela importância de seu papel. Além disso, o teatro promove um treino para o diálogo, para a expressão livre do pensamento. Pedagogicamente, observamos que o teatro ofereceu para estas pessoas um espaço que deu voz para aquele silenciado por toda uma história de autoritarismo, traduzida aqui, ao nosso ver, pela palavra timidez.
Até aqui, nossas observações confirmam a idéia de que a arte, em seu sentido pleno, inclusive educativo, não pode ser o privilégio de alguns pertencentes a uma classe social mais favorecida economicamente. O teatro, aqui, objeto de nosso estudo, ao ser vivenciado pelos sujeitos pesquisados, resgata a individualidade ao materializar a capacidade de expressão, renovadora das relações entre as pessoas e os grupos sociais.
Fotografia 13: Ensaio I. Fotografia 14: Ensaio II.
Fotografia 15: Ensaio III. Fotografia 16: Ensaio IV.