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A reforma na educação que ocorreu no governo Fernando Henrique Cardoso anunciou com prioridade a melhoria da oferta educacional sua adequação às novas demandas econômicas e sociais da sociedade globalizada, na forma de novas exigências de padrões de produtividade e competitividade, como já se ressaltou anteriormente. Essa proposta de modernização do ensino profissional tem como foco e trajetória preparar o aluno não só para atuar como profissional, mas também “prepará-lo para vida”.

Houve, portanto, um processo de grande mutação no que concerne a nova proposta do ensino técnico, que muito difere da proposta do exercício profissional de atividades anteriormente desenvolvidas, nesta estavam restritas a formação predominantemente especifica, na qual, o técnico não precisava experimentar outras atividades ou setor que não estivessem vinculados a sua formação. As constantes mudanças que ocorrem no mundo do trabalho propõem um novo modelo de educação profissional mais flexível e polivalente centrados em competências por área conforme a LDB:

As Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Profissional de Nível Técnico, portanto, estão centradas no conceito de competências por área. Do técnico será exigida tanto uma escolaridade básica sólida, quanto uma educação profissional mais ampla e polivalente... É preciso alterar radicalmente o panorama atual da educação profissional, superando de vez as distorções herdadas pela profissionalização universal e compulsória instituída pela Lei Federal nº 5.692/71 e posteriormente regulamentada pelo Parecer CFE nº 45/72 (CORDÃO, 2001, p. 113).

Entre os motivos já expostos que são de fundamental importância para a reforma da educação profissional, Cordão (2001) cita alguns fatores ocorridos na legislação anterior que foram relevantes para a consolidação da mudança:

a) a legislação não se preocupou em preservar uma carga horária adequada para a educação geral o que propiciou a proliferação de classes e/ou cursos profissionalizantes soltos, improvisados e sem qualidade, tanto nas escolas públicas quanto nas escolas privadas;

b) os cursos geralmente eram realizados no período noturno, integrando a habilitação profissional ao antigo segundo grau, com carga horária reduzida passou a ser estimulado como resposta política local às pressões da população que imaginavam ser essa a saída para melhorar a empregabilidade de seus filhos;

c) com a falta de financiamento do ensino médio, passaram a ofertar cursos profissionalizantes de menor custo, sem levar em conta as necessidades sociais, as demandas do mercado e as transformações tecnológicas.

Vale ressaltar que os cursos técnicos de boa qualidade continuaram a ser oferecidos pelas instituições especializadas em formação profissional, como é o caso das escolas técnicas. Essas instituições ofereciam um currículo misto, contemplando disciplinas de educação geral e profissionalizantes mais flexíveis e atentas às exigências das demandas de trabalhadores e empresas. Além do fato de que em algumas regiões cuja oferta do ensino preparatório para o vestibular era escassa, as escolas técnicas tradicionais acabaram se tornando uma opção de estudos propedêuticos, distorcendo a real missão das escolas técnicas (CORDÃO 2001, p. 114).

O Decreto Federal nº 2.208, de 17 de abril de 1997, ao regulamentar a LDB em seus artigos 39 e 42 (Capítulo III do Título V) afirma que a Educação profissional tem por objetivos:

a) formar técnicos de nível médio e tecnólogos de nível superior para os diferentes setores da economia;

c) qualificar, requalificar, treinar jovens e adultos com qualquer nível de escolaridade para a sua inserção e melhor desempenho no exercício do trabalho.

Segundo Manfredi (2002) o nível técnico destina-se aos matriculados ou egressos do ensino médio. O nível técnico tem estrutura organizativa curricular própria e independente do ensino médio, podendo ser oferecido de forma concomitante ou seqüencial a ele.

De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases - LDB, o novo aparato legal define a seguinte configuração para o sistema de ensino médio e profissional brasileiro conforme a FIG. 4:

FIGURA 4 - A reestruturação do ensino médio e profissional Fonte: Manfredi, 2002, p. 132.

A FIG. 4 aponta a separação do ensino médio e do ensino técnico, entretanto, o aluno poderá cursar o ensino técnico ao mesmo tempo em que cursa o médio (concomitantemente) ou após sua conclusão (seqüencial). Os cursos técnicos poderão ser organizados por disciplinas ou com as disciplinas agrupadas em módulos. A cada módulo que o aluno cursar, ele receberá um certificado de qualificação profissional, mas só terá direito ao diploma de

técnico após concluir o ensino médio e os módulos que compõem uma habilitação, além de cumprir o estágio supervisionado quando for exigido (MANFREDI, 2001, p. 133).

Cordão (2001), expõe a mudança da educação profissional, não como uma separação do ensino médio, mas como uma intercomplementaridade na medida em que, mesmo mantendo a identidade de ambos, eles possuem uma região comum, uma comunhão de finalidades, uma ação planejada e combinada. Assim, nem há exatamente uma separação como ocorreu na tradição da educação brasileira nos anos 70, nem a conjugação redutora em cursos profissionalizantes empobrecidos propiciados pela Lei Federal Nº 5.692/7, citados anteriormente.

A rearticulação entre ensino médio e educação profissional, dá-se na medida em que as competências básicas passam a ser cada vez mais valorizadas no âmbito de trabalho. Quando a convivência e as práticas sociais na vida cotidiana são invadidas por informações e mudanças tecnológicas, desencadeando um movimento de aproximação entre as demandas do trabalho e as da vida pessoal, cultural e social como afirma Cordão:

É esse movimento que dá sentido à articulação proposta na lei entre educação profissional e ensino médio. A articulação das duas modalidades educacionais tem dois significados importantes. De um lado afirma a comunhão de valores que, ao presidirem a organização de ambas, compreendem também o conteúdo valorativo das disposições e condutas a serem constituídas em seus alunos. De outro lado, a articulação reforça o conjunto de competências comuns a serem ensinadas e aprendidas, tanto na educação básica quanto na profissional (CORDÃO, 2001, p. 117 e 118).

Considerando a base comum que se assenta a educação profissional e o ensino médio, é importante salientar ter a educação profissional suas especificidades e identidade própria. Conforme Cordão (2001), expressa-se em dois sentidos:

a) o primeiro diz respeito ao modo como os valores que comunga com a educação básica operam para construir uma educação profissional eficaz no desenvolvimento de aptidões para a vida produtiva;

b) o segundo refere-se às competências específicas a serem constituídas para a qualificação e a habilitação profissional nas diferentes áreas.

Diante do exposto, verifica-se que o mais importante não é o fato do ensino profissional possuir ou não uma identidade própria para presidir sua organização institucional e curricular, mas, compreender de que forma o ensino médio e educação técnica podem se articular no sentido de construir competências que promovam o crescimento do educando concernente a sua vida pessoal e profissional.

Benzer Belgeler