Em 1984, o estudioso italiano Francesco Sabatini fala sobre o aparecimento de uma terceira modalidade de comunicação, intermediária entre a escrita e a fala:
Nem todos percebem o fato que meios como o telefone, o rádio, a televisão, etc., têm criado na verdade um terceiro sistema de comunicação verbal, a ser colocado ao lado daqueles da língua falada e da língua escrita. Alguns pensam que esses meios nos permitiram simplesmente utilizar a voz também a longa distância e então nos fazem economizar o cansaço e o tempo que a escrita e a leitura comportam [...] E, ao contrário, as coisas não são assim, isto é, não são tão simples como poderia parecer. O assunto é muito complexo, extremamente importante e realmente imenso, dados os contínuos desenvolvimentos nesse campo. (p. 102)
[Non tutti forse si rendono conto del fatto che i mezzi come il telefono, la radio, la televisione, ecc., hanno creato davvero un terzo sistema di comunicazione verbale, da mettere accanto a quelli della lingua parlata e della lingua scritta. Alcuni pensano che questi mezzi ci hanno semplicemente permesso di utilizzare la voce anche a grandi distanze e quindi ci fanno risparmiare la fatica e il tempo che
13 Note-se que muitas características atribuídas ao italiano falado dizem respeito também ao neo-standard,
evidenciando a proximidade entre essas duas variedades (mesmo que traços neo-standard ocorram também em textos escritos) e até mesmo a dificuldade em estabelecer os limites precisos entre elas.
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la scrittura e la lettura comportano [...] E invece le cose non stanno così, cioè non sono così semplici come potrebbe sembrare. L‟argomento è molto complesso, estremamente importante e davvero immenso, dati i continui sviluppi in questo campo]
Nessa ocasião o estudioso não havia ainda dado um nome específico a esse terceiro sistema de comunicação, mas ainda no mesmo ano, em entrevista a S. Gensini (SABATINI, 1984b), denomina-o italiano transmitido.
Pode-se dividir a variedade transmitida em dois componentes: fala transmitida, cujos elementos principais provêm da língua oral, mas que traz consigo elementos do canal escrito, e a escrita transmitida, que, por sua vez, tem como base a língua escrita, mas que incorpora elementos da fala.
1.3.6.3.1 O italiano falado transmitido
Nesse eixo de variação encontram-se os textos transmitidos por meios como o cinema, a televisão, o rádio, o telefone, o celular, a internet, entre outros. Embora apresentem diferenças relevantes, algumas dessas subvariedades do italiano transmitido falado revelam, segundo Sobrero e Miglietta (2007, p. 121), dois pontos em comum: são pensados para atingir um público-alvo formado por uma pluralidade de destinatários, além de serem produzidos em um espaço diferente daquele onde estão os receptores da mensagem.
Cabe dizer aqui que o rádio (difundido a partir da década de 1920), o cinema (a partir da década de 1930) e a televisão (a partir da década de 1950) tiveram uma relevância histórica muito importante para o desenvolvimento da língua italiana, pois, após a unificação nacional, colaboraram para que a língua nacional fosse difundida entre as camadas médias da população e, principalmente, entre as classes sociais menos favorecidas.
De Mauro, em Storia linguistica dell‟Italia unita, cuja primeira edição é de 1963, calcula que os italófonos eram, no momento da unificação italiana, ocorrida em 1861, 2,5% da população total. Mostra, com isso, que a nação italiana era formada por falantes que se comunicavam em dialeto.
O número estimado de falantes de italiano, de acordo com De Mauro, é de 630 mil pessoas: 160 mil que frequentaram a escola nas diversas regiões da Itália por um período superior a cinco anos (scuola postelemenare) somados aos 400 mil toscanos e 70 mil
56 romanos. O linguista considera então italófonos também aqueles que simplesmente nasceram em Roma ou na Toscana e que foram alfabetizados, pressupondo que os traços vernáculos do romanesco, do florentino e de outros dialetos toscanos tenham sido assimilados pela italofonia e que não era possível identificar um limite nítido entre eles e o italiano.
Arrigo Castellani (2009) revê as somas de De Mauro e considera também falantes de outras áreas do Lazio e de outras regiões como Umbria e Marche, chega, assim, a um percentual mais alto 10%. De qualquer maneira, isso não impede concluir que no momento do “surgimento” do Estado Italiano não se podia dizer que a Itália constituía uma nação por ali se falar o italiano.
Para erradicar essa heterogeneidade linguística, vista como um grande problema para a administração pública, o novo Estado promoveu a difusão do ensino, o que ajudou a diminuir o analfabetismo, que, segundo De Mauro, nesse período atingia entre 75% e 80% da população, e a favorecer um ainda incipiente uso da língua oficial. Depois da primeira década do século XX, com o aparecimento e a difusão dos meios de comunicação de massa, o italiano efetivamente se consolida como língua nacional.
De acordo com De Mauro, do ponto de vista linguístico, por muito tempo o cinema, assim como o rádio e a televisão, apresentou uma língua tendente ao áulico, inexistente como língua cotidiana e orientada em direção à função normativa que se pensava deveria exercer, tanto que, para as transmissões, primeiro se escrevia tudo o que deveria ser dito e se confiava a leitura desses textos a profissionais treinados, cuja pronúncia devia ser isenta de qualquer traço regional. Por volta de 1940, porém, essa situação começa a se alterar, na medida em que o dialeto começa a fazer parte dos filmes. Posteriormente, entram nos diálogos as diferentes formas de italiano regional e, a partir dos anos 1970, começa a se afirmar uma tendência a apresentar a língua italiana em toda a sua riqueza de variedades.
Segundo Sobrero e Miglietta (2007, p. 123), o rádio, logo a partir de seu aparecimento, em 1925, foi usado como veículo para a propaganda fascista e, desse modo, o conteúdo bem como a língua empregada nas transmissões eram fortemente controlados pelas autoridades do regime, que prescreveram, inicialmente, o modelo linguístico romano, orientando-se, com o passar do tempo, para o modelo de pronúncia culta setentrional. Somente a partir dos anos 1970, com o surgimento das rádios locais e das participações ao vivo dos ouvintes, entraram na língua do rádio os falares regionais, os dialetos e o italiano popular.
57 A televisão, cujas primeiras transmissões se deram em 1954, revelou-se rapidamente um importante aliado à unificação linguística italiana e um estímulo para o uso da língua nacional também em contextos nos quais predominava até aquele momento o uso do dialeto. Segundo Santoro (2011), a maioria da população não tinha a possibilidade econômica de comprar um televisor e, desse modo, grupos de vizinhos se reuniam em bares ou na casa de um daqueles que possuíam o aparelho e assistiam à programação, de modo que tais momentos foram se constituindo como importantes reuniões para a socialização desses indivíduos, o que acabou favorecendo a penetração de certos modelos linguísticos lançados pela TV.
Conforme informam Sobrero e Miglietta (2007, p. 124), a variedade de língua usada, no início das transmissões, era um italiano que respeitava o modelo standard. Essa realidade começa a se modificar somente através de alguns programas muito populares, como Campanile Sera (a partir de 1959), que tinham como participantes indivíduos provenientes de todas as partes da Itália.
Mais tarde, com o advento dos canais de televisão privados, que começa no ano de 1976, fica impossível deter a expansão do uso das variedades regionais. Desse modo, afirma- se o italiano falado, e isso se dá em maior medida em programas de talk-show, nas séries televisivas e, mais recentemente, nos reality show.
1.3.6.3.2 O italiano escrito transmitido
Com o advento das novas tecnologias da informação, surge por volta dos anos 1990 um novo canal, que agrega à escrita as características da oralidade, trata-se do “italiano escrito transmitido”. Embora hoje possamos elencar vários meios com os quais a escrita transmitida se difunde, nos concentraremos aqui em dois dos principais representantes dessa variedade: o correio eletrônico (e-mail) e o SMS (Short Message System).
Existem diferenças textuais entre e-mail e SMS. O primeiro pode variar quanto à dimensão, pode ser longo ou curto, e quanto ao grau de formalidade, podendo ser formal ou informal. Por outro lado, o SMS apresenta limites de caracteres, devendo ser sintético, e é usado principalmente quando entre emissor e destinatário se estabelece relação de informalidade, apesar de nos dias atuais ser bastante frequente a troca de mensagens também entre pessoas cujo grau de intimidade não é necessariamente elevado.
58 De modo geral, os e-mails podem apresentar características relacionadas ao registro formal, quando, por exemplo, trata-se de e-mails burocráticos ou comerciais, ou características do registro informal. Nesse último caso, identificam-se as fórmulas de saudação, provenientes das interações face a face, o uso de frases breves, o uso de expressões sintéticas e a possibilidade de usar dialetismos e gírias (SOBRERO e MIGLIETTA, 2007, p. 128-9).
Os SMS, por outro lado, são marcados pelo alto grau de sinteticidade e pelos elementos gráficos de que dispõem. Devido a essa necessidade de síntese dos enunciados, os SMS apresentam frases breves, abreviações, emoticons (faces que representam o estado emocional dos interlocutores) e uso de palavras ou frases inteiras em língua estrangeira, para efeito cômico. Além disso, faz-se pouca atenção à correta separação entre as palavras, ao uso apropriado de maiúsculas e minúsculas, ao emprego de acentos gráficos e à correta digitação (SOBRERO e MIGLIETTA, 2007, p. 132) 14.