• Sonuç bulunamadı

Pode-se dizer da trajetória até aqui descrita que ela é linear. É o in crescendo de um tecido de organizações sociais que, a partir de um vetor de extensão do livre comércio nas Américas, vai reagindo e buscando formas organizativas adequadas para dificultar tal avanço. Isso se deu de forma gradual e, a não ser nos casos de forte debate eleitoral (Canadá e Estados Unidos), nos quais o nível de sensibilidade sobre o tema foi alto, nos outros casos essa internacionalização foi tímida, restrita a uma parte dos sindicatos e às ONGs progressistas do norte e alguns do sul trabalhando essas questões, e restrita também em termos de volume de mobilização e abrangência territorial.

As manifestações de Seattle mudam essa linearidade do processo e deixam em descoberto varias questões que até então não haviam aparecido:

1- o contraste entre esse tipo de manifestação massiva contra esta expressão do livre comércio contrastava com as relativamente mais tímidas ações que vinham sendo feitas no continente.

2- o descobrimento de outro amplo, porém desarticulado, espaço de rejeição à globalização neoliberal

47 Coordenação Hemisférica da ASC, Atas da reunião dos dias 12, 13 e 14 de março de 1999. La Catalina, San José, Costa Rica

3- a indiscutível e global visibilidade da protesta. 4- a radicalidade, virulência e imaginação da protesta.

Tudo isso pôs em evidência os limites desenvolvidos até aqui pela resistência ao livre comércio que viemos descrevendo. É bem verdade que Seattle foi uma surpresa não só para os ministros de comércio, mas também para os próprios ativistas, que jamais imaginaram que poderia acontecer o que aconteceu. Seattle foi o momento de uma coincidência de atores, que criaria, ou visibilizaria, um novo padrão de ação que logo se transformaria numa prática global.

A pergunta “onde estava a ASC em Seattle?”, um cenário de ação contra o mesmo inimigo, é natural. Mas a reposta nem tanto. O natural teria sido a ASC estar presente como ator ativo das mobilizações; porém, isso não foi assim. Uma mistura fatores alimenta uma explicação que sem dúvidas não oferece uma resposta simples. O primeiro fator, e o mais banal, é que a ASC concentrou os esforços no fórum paralelo à Reunião de Ministros da ALCA em Toronto, menos de um mês antes da Cúpula da OMC e ficou sem fôlego para organizar ou articular-se para ir para Seattle de forma estruturada. O segundo diz respeito ao foco da ASC, muito centrado na ALCA e desatento ao fenômeno do livre comércio em conjunto. Um terceiro fator fala das diferencias internas nos movimentos e redes estadunidenses no sentido de que a ART, tal vez pelo próprio fato de concentrar-se em assuntos “americanos” perdera essa visão do conjunto da questão. O último é que Seattle foi organizado por atores mais radicais que até então não tinham entrado na cena.

A questão é que Seattle chamaria a atenção, como nunca até esse momento, de um amplo leque de ativistas que até agora não tinham se manifestado e que acharam uma luta com a qual se identificavam. Entraram amplos contingentes de jovens alistados em grupos anarquistas, punks, black blocs, ambientalistas, neohippies, ou simplesmente independentes que se sentiam impactados pelos efeitos da globalização neoliberal. Mas também chamou a atenção de grupos mais estruturados e radicais que, não se identificando necessariamente com algumas metodologias, sentiram que era preciso acentuar a luta contra a globalização neoliberal. Isso tudo fez com que a programada II Cúpula dos povos em Quebec se defrontasse com pressões diferentes das vividas nos tempos de Santiago. Havia acordado agora um setor social que, pela esquerda, faria pressão sobre a ASC e esta teria que reagir.

No ano de 2000, a cena dos movimentos esquentou também com a primeira edição do Fórum Social Mundial em Porto Alegre e, no Brasil também, a campanha Jubileu Brasil, que

reunia organizações da Igreja e o Movimento de Trabalhadores sem Terra, realiza uma consulta popular sobre a dívida externa na qual votariam mais de dois milhões de pessoas.

Foi nesse clima que a ASC começou a se questionar sobre a necessidade de adotar um posicionamento mais forte em relação à ALCA. Em uma mensagem enviada por Karen Hansen Kuhn a alguns membros do Comitê Operativo da ASC, ela explicitamente propõe um endurecimento da posição porque estavam sendo acusado de reformistas “Realmente acho que precisamos dizer alguma coisa agora para não parecermos um grupo de reformistas nem de acadêmicos... tem gente nos EUA reclamando que a mensagem política da ASC não é clara”.48

Em 2000, a ASC não teve maiores ações conjuntas ou reuniões e, além de uma carta assinada por mais de 300 organizações solicitando a publicação dos textos do acordo, só se concentrou na organização da Cúpula de Quebec. Caminho a Quebec ocorreu uma conflitante reunião frente à ministerial de Buenos Aires, conflitante quase nos mesmo termos que Santiago, só que dessa vez existia, além da Central General del Trabajo (CGT) uma outra central, a Central de Trabajadores Argentinos (CTA), que, mesmo não sendo da ORIT, mantinha uma relação estreita com a CUT, e também participava da preparação das ações. O conflito fundamentalmente se deu entre esses dois atores e acabou resultando em pelo menos três diferentes passeatas.

Então, no início de 2001, a proposta de Hansen Kuhn vingou e a ASC, no meio dessas desordenadas jornadas de Buenos Aires, emite uma declaração contra a ALCA. Vale lembrar também que foi no ano 2000 que a ORIT institucionalmente adotou, como vimos, também uma posição desse tom.

Enquanto isso, a organização da Cúpula dos Povos enfrentava a materialização da tensão descrita pós Seattle. Junto com o esquema “oficial” da organização vinculado ao espaço da ASC aparecem outros dois espaços autônomos identificados com os grupos de ação direta e desobediência civil, um e outro com organizações comunitárias autônomas, mas próprias de uma dinâmica quebequense, reunidos numa mesa de concertação 49. Essa divisão foi favorecida pelo fato de que os sindicatos canadenses ainda mantinham uma posição que, embora crítica do acordo, reconhecia a possibilidade de diálogo com o processo como uma opção válida.

Esta conjunção de fatores e de forças mobilizando acabaram dando certo em termos da espetacularidade do protesto. Mais de 50.000 pessoas se manifestaram nas ruas de Quebec em

48 E-mail com data 21 de fevereiro de 2001 49 Marcela Escribano, entrevista

protesto contra a cúpula dos presidentes. E o governo reagiria com força e virulência similar à aplicada pela polícia estadunidense em Seattle, foram vários dias de confrontos de rua nos quais os manifestantes arremetiam contra as barreiras e as forças de segurança jogavam gás lacrimogêneo e balas de borracha contra a multidão. Todos se lembram de Quebec por seu aspecto violento, que incluiu deportações e prisões massivas também.

Mas todos se lembram também pelo fato de que, na hora da grande passeata, as divergências se explicitaram de forma brutal. Uma parte da manifestação foi rumo às barreiras e a outra, comandada pelos organizadores locais e pela Aliança Social Continental – que, como falamos, tinham uma posição política menos radical – dirigiu-se para a direção contraria da Cúpula oficial e acabou quase saindo da cidade. A mistura de desorientação e desgosto dos muitos estrangeiros que marchavam para fora da cidade era tal que se ouviu a seguinte palavra de ordem entre os chilenos e os brasileiros que ali marchavam: “La Alianza está perdida, la

lucha es arriba” (em referência à parte alta da cidade, onde ocorria a Cúpula oficial).

Essa contradição foi forte o suficiente para que muitos pressionassem no interior da coalizão para reafirmar o dito em Buenos Aires alguns meses antes e dar clareza à idéia não só do nítido “Não à ALCA”50, mas também à idéia de que era preciso criar uma campanha continental contra a ALCA.

Começa aqui um debate que acompanha desde então e ainda hoje o movimento contra o livre comércio nas Américas. O problema central era como incorporar à luta atores que não tinham interesse em rebaixar as suas posições políticas e como fazer com que aqueles mais pragmáticos aceitassem trabalhar com os mais ideologizados ou radicais. A resposta a esse dilema foi resolvida durante o ano de 2001. Em outubro desse ano, uma reunião ampliada do Conselho Hemisférico da ASC em Florianópolis seria o cenário no qual o movimento se juntou para criar um espaço de campanha mais amplo e menos estruturado que permitisse incorporar setores até então marginais à movimentação anti ALCA.

Essa reunião não foi uma a mais, e sua composição atípica responde ao teor do que estava em jogo e à alta do interesse no tema depois de Quebec. Participaram muitas organizações ambientalistas, organizações camponesas e de direitos humanos, e o debate foi forte. Entre aqueles que defendiam a realização de uma consulta popular do tipo da realizada no Brasil, mas de caráter continental, e alguns membros do núcleo histórico da ASC que tinham dúvidas sobre a viabilidade dessa empresa e preferiam continuar com o tipo de trabalho desenvolvido até esse momento. A CLOC, à época representada por João Pedro

Stedile, do MST, fez muita pressão e acabou impondo no debate a opção da consulta popular continental.

Nesse mesmo ano, em novembro, é realizado o primeiro “Encuentro Hemisférico de

Lucha Contra el ALCA” em Havana, Cuba. Esse encontro nasceu também da mudança do

governo cubano em relação à ALCA – nos primeiros anos reclamava da exclusão –; este passaria a se envolver com o movimento continental que tinha chamado a atenção do próprio Fidel Castro a partir das jornadas de Quebec. Esse espaço se consolidaria como instância de reflexão da estratégia do movimento e serviria para incorporar um novo contingente de grupos e pessoas que, identificadas ou simpáticas com o regime cubano, fariam causa comum na resistência de Cuba à ALCA51.

Em seguida, durante o Fórum Social Mundial em Porto Alegre, em janeiro de 2002, a consulta é lançada. Uma reunião preparatória prévia havia decidido que era preciso abrir o espaço e criar uma plataforma comum que não só a ASC para dar mais poder de convocação à consulta. Surge assim a Campanha Continental de Luta Contra a ALCA, formada no seu núcleo básico pelas organizações da ASC, mas com algumas outras que talvez já estivessem na ASC, mas que agora se sentiriam mais confortáveis e avançariam de forma mais ativa no trabalho de campanha (entre elas o próprio movimento camponês e os indígenas, fundamentalmente).

Deram-se então um ambicioso plano de ação que tinha por objetivos:

OBJETIVOS: (Hacer de la preparación, organización y realización de la Campana y la Consulta un instrumento eficaz para:)

Dar un salto cualitativo en la información, difusión y educación sobre el ALCA y sus consecuencias entre la población en general, comenzando por las propias bases de las organizaciones participantes

Mejorar las condiciones para la organización y movilización de los pueblos de América contra el proyecto neoliberal de líbre comercio que representa el ALCA Por medio de crear un mecanismo que permita hacer oír la voz y la participación directa de millones y millones de personas de todo el continente, ganar fuerza, legitimidad y representatividad social para derrotar el proyecto del ALCA.52

A Consulta foi estruturada numa reunião de “redes”, depois chamada de Coordenação da Campanha, e realizada em Quito em maio desse ano. Ali foram ratificados os prazos da campanha: começaria no Brasil em setembro de 2002 e iria até março de 2003; definidos alguns critérios metodológicos da campanha, o slogan “SI a la Vida, NO al ALCA”, e as perguntas que orientariam com flexibilidade a realização da consulta em cada país.

51

Marcela Escribano, entrevista, (2006).

52

A pergunta comum foi:

¿Está usted de acuerdo con que el gobierno suscriba el Tratado del Área de Libre Comercio de las Américas (ALCA)?

A consulta no Brasil reuniu 10 milhões de votantes, que, em sua abrumadora maioria votaram pelo “Não” à assinatura do acordo, à continuação da presença brasileira nas negociações e, não também a uma terceira pergunta sobre a instalação de uma base militar em Alcântara. O sucesso do Brasil deu um forte impulso ao restante do continente que a partir de então tomou a Consulta como uma atividade que, embora às vezes impossível de realizar devido à conjuntura política do país ou pelo próprio nível de organização das entidades, serviria como estímulo organizador, ferramenta de comunicação e meio para a definitiva instalação do tema na agenda da maioria das organizações sociais do continente. Durante os anos seguintes foram realizadas consultas no Canadá, EUA, México, El Salvador, Colômbia, Equador, Paraguai e Argentina; em outros países foram realizadas atividades como “abaixo assinados” e campanhas de educação popular que se misturavam na sua metodologia com a consulta.

A Consulta Continental concluiria em novembro de 2004 com a consulta na Argentina, a segunda mais numerosa, com 2,5 milhões de participantes.

Com o fim da consulta, a Campanha Continental Contra a ALCA se defrontaria com o desafio de manter o vigor da mobilização num momento no qual as negociações oficiais pareciam se afundar num oceano de “colchetes”. Esse vigor não seria mantido de forma intacta e de fato caiu em sua intensidade, tendência reforçada pela dinâmica desagregadora que foram gerando os novos acordos regionais ou bilaterais, que ativaram a resistência nos países ou regiões mas tiraram o peso das ações e o debate continental. E de cima para baixo pela extrema distância que apresentava o tratamento da questão da OMC.

Essa tensão persistiu até a quarta Cúpula das Américas, em novembro de 2005, na qual finalmente as negociações da ALCA ficariam suspensas de forma indeterminada pela ausência de um acordo por parte dos presidentes para dar mandato negociador aos ministros.

A declaração de saída da III Cúpula dos Povos começa ilustrando o passado da luta e os desafios que virão:

¡NO al "libre comercio", la militarización y la deuda!

Para acabar verdaderamente con la pobreza, el desempleo y la exclusión social ES NECESARIO Y POSIBLE UNA INTEGRACIÓN DESDE Y PARA LOS PUEBLOS 53

O movimento fará, nesse último período, uma abertura para o que genericamente denominará “livre comércio” e já não só ALCA, para temas associados ao livre comércio, e finalmente para o que seria um dos desdobramentos lógicos de sua batalha, uma vez que ela foi relativamente ganha, e que vários governos se apropriaram de suas palavras de ordem: o debate sobre a integração dos povos.

Benzer Belgeler