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2. ESERLERİ

1.2. Sufilerin Türleri

atributos do Artesanato ou da Arte, ou quem sabe pertencentes aos dois campos, há, por outro lado, um pré-julgamento claro, oriundo de estigmas institucionais que deixam todos, de certo modo, acomodados na fruição e no próprio discernimento do que é Artesanato, Design e Arte. Trata-se da legitimação e classificação desses campos: dependendo do local e do investimento intelectual ou material que se emprega no produto, e ainda do aval de dada instituição, o objeto migra de um campo a outro, com extrema facilidade. Considerando a marca indelével da classificação do que é Artesanato, Design e Arte, observa-se a problemática na permanência da distinção das culturas. Há, ainda, claramente evidente nos dias atuais a diferenciação de duas culturas: a alta e a baixa, sem considerar uma terceira, a cultura de massa, que não fará parte deste estudo.

Ao territorializar-me em duas vertentes familiares por um posicionamento fundamentado em seus afazeres predominantes: o Artesanato e a Arte, assumi óbvias impregnações de julgamentos de valores decorrentes de uma análise

superficial baseada em senso comum. É possível de se visualizar essa apreciação velada, nas entrelinhas de meu relato de vida: um diagnóstico dado pela insinuação de que a ala italiana é mais sofisticada do que a ala portuguesa.

Esse tipo de valoração muitas vezes ocorre de forma inconsciente e acaba tornando-se verdade se não refutadas a partir de uma análise crítica. Quando fiz o deslocamento para os objetos produzidos por Guilherme, busquei uma resposta, não às minhas questões pessoais, mas um aprofundamento teórico sobre as razões que levavam as pessoas, de modo geral, e o mundo acadêmico inclusive, a não considerarem o Artesanato em paridade com as outras atividades profissionais, posicionando-a imediatamente em categorias inferiores.

Renato Barilli, ofereceu em seu livro, “Ciência da cultura e fenomenologia dos estilos”, uma esclarecedora abordagem acerca da cultura, termo necessário para compreender o porquê do Artesanato, Design e Arte estarem localizados em estratos sociais diferentes. De acordo com o autor, a cultura, sob o olhar etimológico, no mundo latino, deriva de seu primeiro significado em que foi uma atividade tipicamente “material-laborativa”, isto é, tratava-se do cultivo dos campos ou da “agri-cultura”. Com a apropriação do termo a cultura torna-se peculiar somente aos homens, uma vez que estes utilizam “instrumentos extra-orgânicos com sequências sistemáticas e ordenadas de intervenção”. Como tentativa de ressaltar a

importância da cultura o autor afirma que: “A cultura deve reencontrar plenamente o orgulho das suas origens a partir de actos de intervenção laborativa nas duras circunstâncias ambientes” (BARILLI, 1995, p.18). Para o autor a definição de cultura está no fato do homem assumir o uso de próteses como também variá-las no tempo e a cultura articula-se em dois níveis: “[...] um dos quais deve chamar-se propriamente material e diz respeito à esfera das práticas técnicas, das intervenções instrumentais; outro diz respeito à esfera das fugas para frente, o momento em que o homem pensa nas possibilidades futuras(...)” (Id. ibid., p. 21).

De maneira geral, o senso comum e, muitas vezes, os saberes intelectuais trazem consigo os conceitos de alta ou baixa cultura, e nem sempre são conscientes dessa conduta, no entanto, esse tipo de classificação existe e pode derivar da antiguidade clássica quando se separava as artes em liberales, para os

homens livres e serviles para a gente de condição mais humilde e que na Idade Média agrega-se clara distinção por critérios econômicos e sociais (BOSI, 2006).

A bipartição se dá no momento em que o homem começa a separar em dois seguimentos os seus afazeres, distinguindo-os em “esfera das práticas técnicas” e em “esfera das fugas para a frente”. Delimita-se dessa forma o “homem que faz” do “homem que pensa”, entre uma “cultura ideal” e uma “cultura material” e naturalmente são deslocados para os extratos culturais altos – o homem que pensa e para os extratos culturais baixos – o homem que faz (BARILLI,1995).

Figura 70 - Exemplos de cadeiras: a da esquerda é considerada Artesanato, a do centro é Design (Eames, 1948) e a da direita é Arte (representação de cadeira) – “A cadeira de Van Gogh, 1888. Fonte: “Cadeira artesanal”- Arquivo pessoal; “Design de cadeira do casal Eames”, e “A cadeira de Van Gogh”, capturadas na Internet.

Na Figura 70 é apresentada uma cadeira; as duas primeiras imagens são fotografias digitalizadas de cadeiras materializadas, realizadas em materiais físicos e a última é uma representação a óleo sobre tela. Essas imagens informam o status

quo dos autores, a saber: da esquerda para a direita - um artesão desconhecido; o

casal de designers Charles e Ray Eames e o artista Van Gogh. Deste exemplo conclui-se que a Arte, quando determinada como tal, é imortalizada em sua obra e em seu autor assim como o Design, desde que os autores atinjam determinado destaque em mercados ou exposições importantes, mas o Artesanato não possui autoria exata, e sua materialidade morre assim que seu ciclo de vida terminar, e como não há autoria, não são necessários o sepultamento do autor e muito menos as cerimônias póstumas regulares.

Por essa estrutura mental, que é partícipe do senso comum, quando nos referimos ao Artesanato, é impulso imediato situá-lo em uma cultura menos sofisticada, e também classificar o profissional dessa área como um trabalhador eminentemente manual que prescinde de um projeto ou de um planejamento científico para a elaboração de seus artefatos, porque se trata da cultura baixa, ou seja, o estrato da tecnologia material. Ao passo que se é para fazer referência à Arte, a concepção é de que o artista é um pensador, um intelectual, e seu produto artístico deriva de grande e profunda pesquisa científica e análise pelas categorias universais da filosofia, portanto pertence a um estrato cultural mais refinado, à cultura alta. Finalmente quando se fala sobre o Design, acredita-se que a campo está subordinada às normas técnicas, a introdução proposital de metodologias projetuais para demarcar o afastamento dos métodos indutivos e empíricos do campo das Artes e os limites dados tanto pela indústria, quanto pelo mercado, portanto o estrato cultural a que pertence está na mediação da alta e baixa cultura.

No Artesanato ocorre mais um fenômeno interessante, ao mesmo tempo em que ele é considerado uma atividade de menor valor, existe um discurso velado (porque quer esconder suas intenções), mas explícito (porque declara uma mentira), que enaltece o Artesanato, às vezes sob o nome de folclore, exaltando suas características de exótico e pitoresco, no entanto, trata-se de um repertório de falas que só rubrica a condescendência em relação ao Artesanato e ao seu pertencimento a uma classe inferior.

Se não houver nenhuma reflexão, e acreditarmos que o que é dado sobre alta e baixa cultura é verdade absoluta, Guilherme situa-se na baixa cultura, mas a proposição desta pesquisa é discordar.

Como é sabido nem sempre a Arte e o Artesanato se encontravam em estratos culturais diferentes e havia harmonia entre os campos. Sobre isso escreve Barilli: “Na Antiguidade e na Idade Média dava-se sem dúvida uma escala contínua que por um lado assegurava um estatuto cultural a todas as artes, mas por outro lado tendia a excluí-las da cultura superior, das ciências de conteúdo ou de discurso, que eram consideradas dignas do homem livre (BARILLI, 1995, p.33)”.

Mais tarde, as artes, tais como a entendemos hoje, sob a insígnia de belas artes, progressivamente se afastaram das artes servis ou menores e

adentraram no âmbito ideal (ou seja, das idéias). O primeiro passo para essa conquista, foi decorrente do processo histórico conhecido como o Renascimento, mas mesmo assim o artista continuava ligado a uma origem artesanal. É com a Revolução Industrial, iniciada no século XVIII, que há a desconexão entre o artesão e o artista. O artesão tem decretado o seu desabamento de estatuto, de vez que a máquina o substituiu quantitativa e qualitativamente em seus afazeres e o artista é atirado para a ribalta, com sua inscrição num status superior. Com toda a certeza há conexões entre classes econômicas, pois os artesãos são aqueles profissionais que se tornaram os proletários das fábricas, já os artistas assumiram o papel daqueles que protestavam contra o sistema produtivo (BARILLI, 1995).

Mas, não basta ressaltar essa cisão, é necessário introduzir na discussão a questão do culto e do popular, porque há controvérsias conceituais relativas aos posicionamentos de que somente as Artes são consideradas cultas (algumas vezes utiliza-se o termo erudito também) enquanto o Artesanato é uma arte popular. Por de trás dessas afirmações, está maculado mais uma vez a clara distinção por classes, então é necessário investigar com mais cuidado os termos culto e popular. Para Canclini essa discussão sobre popular é recorrente:

O popular é nessa história o excluído: aqueles que não têm patrimônio ou não conseguem que ele seja reconhecido e conservado; os artesãos que não chegam a ser artistas, a individualizar-se, nem a participar do mercado de bens simbólicos “legítimos”; os espectadores dos meios massivos que ficam de fora das universidades e dos museus, “incapazes” de ler e olhar a alta cultura porque desconhecem a história dos saberes e estilos (GARCIA CANCLINI, 2008, p. 205).

E sobre o frágil limite entre culto e popular, o autor afirma:

A modernização diminui o papel do culto e do popular tradicionais no conjunto do mercado simbólico, mas não os suprime. Redimensiona a arte e o folclore, o saber acadêmico e a cultura industrializada, sob condições relativamente semelhantes. O trabalho do artista e do artesão se aproximam quando cada um vivencia que a ordem simbólica específica em que se nutria é redefinida pela lógica do mercado. Cada vez podem prescindir menos da informação e da iconografia modernas, do desencantamento de seus mundos autocentrados e do reencatamento que a especularização da mídia propicia. O que se desvanece não são tanto os bens antes conhecidos como cultos ou populares, quanto a pretensão de uns e outros de configurar universos auto-suficientes, e de que as obras produzidas em cada campo sejam unicamente “expressão” de seus criadores (Id. ibid., p.22).

Guilherme é um artesão que entra no culto e no popular sem nenhum constrangimento, sem preocupação alguma de perda de tradição ou de identidade,

pois percebeu que as linhas que separam esses campos estão flexíveis, permitindo idas e vindas com uma maior tranquilidade.