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Assim, mesmo na concepção discursiva, os versos poderiam ser o primeiro indício de que se está diante de um texto pertencente aos gêneros poéticos e, dessa forma o leitor poderia tomá-lo como parte da representação que faz desses enunciados. Se ele ignorasse os usos históricos dessa configuração gráfica, poderia até estendê-la a enunciados de outros gêneros. Embora essa constatação tenha em si uma certa obviedade (pois quando questionados muitos leitores reduzem o poema a texto em versos), o responsável por essa
naturalização das formas composicionais como suficientes – ou a tradição - parece instaurar um questionamento: por que aceitamos esse fato? Trata-se de um comportamento compartilhado socialmente? Teria a tradição força suficiente para indicar os percursos de isolamento do poeta e de sua voz no texto poético?
Muitos gêneros são identificados por suas formas composicionais. Cartas, petições, boletins de ocorrência, certidões de nascimento, como os enunciados poéticos, mudaram ao longo do tempo, mantendo alguns traços que marcam uma primeira aproximação do leitor (e garantem instrumental para o autor também). Essa característica acaba por nos conduzir a um traço da macroconcepção de gênero: o fato de vivermos pelos gêneros de tal maneira, que não se podem apagar certas características, tanto quanto não se podem apagar certas formações discursivas que se deslocam, sem, no entanto, desaparecerem ou mudarem em seus enunciados.
Se forem aceitas algumas formas composicionais como suficientes, quais seriam os critérios para caracterizar os gêneros poéticos de modo a permitir o seu reconhecimento e subsequente elaboração em um projeto para o ensino?
A resposta é plural como os gêneros em questão e remete a diversas concepções que não se anulam, mas nem sempre coincidem para permitir uma única forma de operacionalização, ou seja, o aproveitamento de múltiplos conceitos para abordagens a serem aplicadas em sala de aula.
Se considerarmos as concepções de Schneuwly e Dolz (2004), com os quais nos alinhamos nas abordagens de transposição didática, como a sequência didática57, verificamos que os gêneros poéticos não seriam colocados no quadro provisório de agrupamentos, pois os critérios, nesse caso, são determinados por domínios sociais de comunicação – narrar (cultura literária ficcional); relatar (documentação e memorização das ações humanas); argumentar (discussão de problemas sociais controversos); expor (transmissão e construção de saberes); e descrever ações (instruções e prescrições). Ao colocarmos lado a lado, a multiplicidade de gêneros poéticos e os aspectos tipológicos desses domínios, não é possível sustentar que haja apenas uma predominância, dadas as possibilidades encontradas. Um deles, porém, se aproxima do poético: o caráter ficcional, ou seja, fundar seu referente como interno – critério a ser retomado mais adiante.
Marcuschi, por sua vez, ao tratar da linha sociorretórica de Bazerman e outros, apresenta na intersecção dos conceitos de gênero, tipo e domínios discursivos, outras possibilidades de se estabelecer os critérios e abranger um número maior de gêneros para classificação. São aspectos relativos a funções, propósitos, ações e conteúdos. (2008, p. 159). Seriam suficientes? O autor continua sua reflexão:
Como é que se chega à denominação dos gêneros? Com certeza, as designações que usamos para os gêneros não são uma invenção pessoal, mas uma denominação histórica e socialmente constituída. E cada um de nós já deve ter notado como costumamos com alta frequência designar o gênero que produzimos. Possuímos, para tanto, uma metalinguagem riquíssima, intuitivamente utilizada e, no geral, confiável. (MARCUSCHI, 2008, p. 163)
Seria possível aceitar essa relação com os gêneros? Ela seria suficiente? Marcuschi, nesse ponto, indica a dificuldade que existe nas tentativas de se determinar o nome de cada gênero:
Como já notaram muitos autores, em especial Bakhtin (1979), os gêneros se imbricam, e interpenetram para constituírem novos gêneros. Como observamos anteriormente, não é uma boa atitude imaginar que os gêneros têm uma relação biunívoca com formas textuais. (....) Assim, em muitos casos, apenas o local em que um texto aparece permite que determinemos com alguma precisão de que gênero se trata.
Em geral, damos nomes aos gêneros usando um desses critérios: 1. forma estrutural (gráfico; roda-pé;
debate; poema)
2. propósito comunicativo (errata; endereço)
3. conteúdo (nota de compra; resumo de novela)
4. meio de transmissão (telefonema; telegrama; e-mail)
5. papéis dos interlocutores (exame oral; autorização)
6. contexto situacional (conversação esp.; carta pessoal)
Mas vários desses critérios podem atuar em conjunto. Basta ver os nomes que encontramos para os mais variados gêneros para imediatametne constatar que na constituição do nome sempre atua mais de um critério. Mas o certo é que quando se tem algum problema ou conflito na designação, ela surge em atenção ao propósito comunicativo ou função. (MARCUSCHI, 2008, p. 164)
Embora o caráter operacional desses critérios seja abrangente e permita o desenvolvimento das classificações, eles podem levar mais uma vez ao predomínio das formas composicionais para determinar o que são os gêneros poéticos. Como equilibrar essas abordagens?
O deslocamento da questão para ―onde‖, deixando o ―como‖ para uma segunda etapa se apresenta como resposta. O equilíbrio das concepções de gênero se funda nos objetivos de aplicação. Se a questão é a discussão acadêmica, a abordagem bakhtiniana responde às necessidades dos gêneros poéticos e atende às expectativas geradas na esfera literária, em que
a discussão aberta pelo elemento definidor, a visão hegemônica do mundo instaura uma suficiência para discussões subsequentes. O mesmo não é possível, quando o objetivo se volta para a aplicação em sala de aula. Como ensinar gêneros cujos elementos de contato imediato confundem a percepção do leitor?
Uma das saídas é compreender que a concepção de discurso poético como elabora Bakhtin se refere a uma macrodiscussão. Necessária e suficiente para a esfera acadêmica, sendo aplicável a enunciados em que nem mesmo a combinação de critérios pode determinar qual o gênero, se poético ou não. No entanto, para o trabalho em sala de aula, devido às sucessivas mediações que ocorrem até o encontro dos alunos (e um pouco menos para os professores) com os enunciados poéticos, o estudo das formas composicionais em relação imediata com as formas arquitetônicas parece oferecer percursos semelhantes aos vistos na esfera acadêmica, deslocados para a operacionalização em projetos de ensino.
Resgatar as formas arquitetônicas no estudo em sala de aula se apresenta como uma possibilidade para que, na esfera escolar, se recupere o trabalho com os gêneros na perspectiva discursiva, uma vez que essas
são as formas dos valores morais e físicos do homem estético, as formas da natureza enquanto seu ambiente, as formas do acontecimento no seu aspecto de vida particular, social, histórica, etc.; (....) são as formas da existência estética na sua singularidade. (....) A forma arquitetônica determina a escolha da forma composicional (Bakhtin, 1924/1979, p. 25).
Estudar a relação entre as duas permite a assunção de um enfoque tripartido do gênero, ou seja, estudar tema, estilo e forma composicional. Significa abandonar a abordagem centrada apenas nas formas composicionais para assumir uma abordagem discursiva como propõe Padilha em sua tese Os Gêneros Poéticos em Livros Didáticos de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental: uma abordagem enunciativo-discursiva (2005) que se assume aqui como desejável para a entrada e o trânsito do poema em sala de aula:
Por isso é que advogamos uma abordagem que abranja o enunciado poético de forma discursiva, atentando para os aspectos do seu processo de produção, para as dimensões sócio-históricas, mas também para os aspectos da forma composicional e para as escolhas lingüísticas que configuram o estilo autoral ou o estilo marcado pelo gênero.
Relembrando a confusão da estética material, apontada por Bakhtin (1924/1975), entre as formas arquitetônicas e as formas composicionais, afirmamos que, para o ensino do texto literário, do texto poético, o que se visa, ainda de maneira muitas vezes equivocada e incompleta, são as formas composicionais que realizam as arquitetônicas, e nunca se chega à consideração destas últimas, que só seriam desveladas na construção dos temas, no sentido bakhtiniano. Assim, uma
organização do ensino dos gêneros poéticos como gêneros do discurso deveria prever um enfoque didático tripartido entre tema, forma composicional e estilo, e explorar de forma múltipla os múltiplos processos de (re) ssignificação promovidos nos textos em gêneros poéticos, através de leituras variadas, de textos significativos, de procedimentos intertextuais e interdiscursivos. (BARBOSA, 2005, p. 244) Por essa razão, neste capítulo, a discussão sobre os gêneros poéticos se volta agora para a esfera escolar, quando se tornam objeto de ensino em sala de aula para que se torne possível que o aluno aprenda a ler e escrever esses gêneros.