2.6. Literatür AraĢtırması
2.6.1. SMED yöntemi ile yapılmıĢ çalıĢmalar
Para reposicionar o poema como gênero, é necessária a análise do contexto que condiciona o momento verbal, distinção que Fiorin (2006) apresenta, afastando os valores ideológicos que poderiam criar obstáculos para essa reflexão:
(....) é necessário distinguir dois planos teóricos em que Bakhtin trabalha o conceito de dialogismo: o da natureza da linguagem e de sua manifestação na composição do discurso. Como a linguagem é constitutivamente dialógica (o que denominamos ―primeiro conceito de dialogismo‖), tanto a prosa quanto a poesia são dialógicas. Ambas se constituem em oposição a um outro discurso. Por isso, do ponto de vista bakhtiniano acerca do funcionamento real da linguagem, é um erro dizer que a poesia seja monológica. Já do ponto de vista da manifestação composicional do dialogismo (segundo conceito de dialogismo), Bakhtin mostra que a poesia não trabalha, em sua composição, com o plurilinguismo, como faz o romance. (2006, p.78-79)
A manifestação composicional da poesia excluiria o plurilinguismo ao centralizar toda a autoridade na voz do enunciador. Em termos composicionais, essa centralização se encontra principalmente no ―verso‖ que mantém esse isolamento concentrando em si outros elementos numa rede de recíprocas dependências. Trata-se de figuras de som como aliterações, assonâncias; paralelismos sintáticos; criações lexicais ou deslocamentos semânticos, em processo neológico; figuras de linguagem e pensamento, em topoi já consagrados ou outros discursivamente instaurados pelo poema entre os limites dos versos, criando entre essas linhas processos próprios de construção de sentidos.
No momento em que o poeta elabora seu texto, o outro (aquele que pode se colocar na posição de leitor) está isolado por essa barreira física e discursiva em que qualquer elemento pode adquirir novos significados e valores, alheios a convenções imediatas da comunicação. Os versos seriam esses espaços de implicaturas conversacionais, tal como as concebe Grice53. Quebras das máximas associadas ao princípio que rege a conversação, as implicaturas não dependem ―da significação usual, sendo determinadas por certos princípios básicos do ato comunicativo‖ (COSTA, 2009, p. 13). O poeta não buscaria a comunicação imediata e convencional; seu texto estabeleceria não somente o tema, mas a situação enunciativa em que cada elemento adquiriria novos significados num processo de emulação de uma realidade desejada.
Mesmo o código linguístico que apresenta certa estabilidade estrutural é atingido por essa forma de composição particular, específica dos gêneros poéticos, em decorrência de uma das características centrais da poesia: o uso particular de um código linguístico, como formula Levin (1975, p. 66-7):
53 Para os conceitos centrais de Grice: princípio da cooperação; máximas conversacionais e implicaturas, cf.
COSTA, 2009. Quanto aos deslocamentos promovidos nos contratos estabelecidos na leitura do texto literário cf. MAINGUENEAU, 2002.
(....) podemos ver que num poema é usada uma espécie particularmente restrita do código. Como resultado desse fato, ao ler um poema, verificamos que os sintagmas geram paradigmas específicos, e que estes paradigmas, por sua vez, geram os sintagmas, levando-os assim de volta ao poema. Dito de outra maneira, o poema
gera seu próprio código, do qual é a única mensagem. (grifo meu)
No entanto, a leitura do poema é possível, porque essa distância do real é calculada de modo que o leitor consiga re-elaborar todo o texto em uma nova rede interpretativa, recriando as condições que geraram não somente o código particular àquele poema, mas também as condições que conferem a ele sentido, como também indica Levin (1975, p. 103):
Um poema (....) que é apresentado a um indivíduo como uma mensagem, traz embutidos em si equivalências (acoplamentos) tais que assistem o indivíduo a reproduzi-lo de maneira única; incita, em consequência de sua pressão sistemática, às mesmas seleções do código lingüístico. Desta maneira, a mensagem real, isto é, o próprio poema – torna-se permanente.
Muitas vezes, porém, retomar essas condições implicadas na forma como o poeta selecionou o código (ou o deslocou) pode levar a um afastamento do leitor, envolvido por outras formas de compreender a organização dos gêneros. Esse distanciamento que o poeta impõe a si em seu texto poderia mesmo ser tomado como anacrônico em nossos dias, não fosse pela tendência que se observa na poesia contemporânea (também na brasileira), de forte prosaísmo, uma resposta para o período de crise da autoridade da poesia.
Com essas novas condições, não teríamos a morte, mas uma mudança do poético. A prosificação do poético garantiria a presença de múltiplas vozes, sustentadas pelo poeta ou por ele amparadas. Basta trazer à lembrança alguns poemas que já apontam para essa corrente em configuração intergenérica, tais como, ―Maturidade‖, de Oswald de Andrade, e ―Poema tirado de uma notícia de jornal‖, de Manuel Bandeira, que serão comentados a seguir a partir desses traços intergenéricos e prosaicos.
MATURIDADE54 O Sr.e Srª Amadeu Participam a V. Exª O feliz nascimento De sua filha Gilberta
Em ―Maturidade‖, o espaço do poema, cujos versos cedem lugar para os dizeres do gênero cartão de participação, serve para anunciar o nascimento da filha do Sr. e Sra.
54 Um dos poemas de ―As quatro gares‖ do Primeiro caderno do alumno de poesia. In ANDRADE, Oswald de.
Amadeu. Indício de outros tempos, esse tipo de cartão tinha a função social de indicar que havia um novo membro na família, com o intuito de reposicionar os envolvidos ao divulgar esse fato da esfera privada para a pública. Por essa função, abrem-se, no poema, dois momentos enunciativos: o dos versos, com a informação do nascimento, em primeiro plano; e o da leitura da participação do nascimento feita pelo enunciador do poema e indicada no título.
Embora aparentemente o que domine, pelo volume visual, seja a informação veiculada pelo gênero prosaico (cartão) ainda que quebrada em versos (enjambement), a avaliação do enunciador marcada no título guia a nossa leitura num terceiro momento enunciativo, quando se apresenta uma tarefa aos leitores: concordar com o enunciador ou indicar outros fatores que levariam à maturidade, além do nascimento, por vezes acidental, de um filho. Essa discussão entre leitor e enunciador é também a discussão do papel da poesia diante desses fatos. Na incorporação das vozes daquela família, o enunciador do poema propõe uma nova via para o poético. Não se trata de exaltar a beleza do recém-nascido, mas indicar as consequências da presença da filha: o compromisso na ordem social. Trata-se de abrir espaços para a discussão da vida como ela se manifesta e dos valores que são impostos a nós. Trata-se de maturidade que chega a nós pelos olhos dos outros.
A relação intergenérica também surge no poema de Bandeira:
POEMA TIRADO DE UMA NOTÍCIA DE JORNAL55
João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu Cantou Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
Movimento contrário ao do poema de Oswald ocorre no poema de Bandeira, pois, se em ―Maturidade‖, o espaço do poema estava tomado por outro gênero, em ―Poema tirado de uma notícia de jornal‖, o outro gênero (notícia) está pressuposto. Por causa dessa presença no título, estão também pressupostos o tema, a estrutura composicional e o estilo da notícia, que instauram no leitor a expectativa de deslocamento que efetivamente ocorre.
55
Do livro Libertinagem, In BANDEIRA, Manuel. Estrela da Vida Inteira. 19ª ed. Rio de Janeiro: Jose Olympio, 1991, p. 107.
No poema, o enunciador em terceira pessoa, como na notícia, apresenta os fatos sem adjetivação, caracterizando-os com elementos concretos (carregador de feira-livre; morador do Morro da Babilônia) e verbos de ação. Há os elementos que fazem parte da estrutura composicional da notícia: o quê (uma morte), quem (o carregador de feira-livre), quando (uma noite), onde (na lagoa Rodrigo de Freitas), como (afogado) e por quê (inconclusivo). Porém, as semelhanças com a notícia que levariam a um rompimento do gênero poético, cessam nesse ponto. O fato noticiado parece ir perdendo terreno para uma leitura particular do enunciador também leitor. Assim nossa leitura filtrada por essa percepção alheia aponta para questões ainda não respondidas pelo jornal como o por quê, insinuando uma certa gratuidade de alguns atos que não podem ser revertidos.
O gênero notícia é abafado pelo uso de certas figuras de linguagem como as sonoras (o homeoteleuto em ―bebeu /cantou/ dançou/ e depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado‖) e pela ausência de nexos coesivos, que indicariam as relações precisas entre as ações verbais (exceção feita ao uso da conjunção coordenativa aditiva ―e‖ que acaba por exercer função semelhante à da posição dos versos, ou seja, justapor). A objetividade requerida no gênero notícia perde espaço para a perplexidade do sujeito que lê a notícia e reconstrói a narrativa de forma bastante frouxa por não saber a razão do ocorrido. O que surge é uma visão descolada do fato em que cabem várias versões, todas possíveis, todas insuficientes.
O peso da notícia, porém, permanece e o poema referencia um gênero importante para a formação da consciência crítica, colocando-o como fonte também do poético. No entanto, devido a essa importância, ao desconstruir a notícia paulatinamente, o texto poético aponta para as contradições de se ter uma só visão do fato. Seria o modo objetivo de ver a realidade suficiente? O poema sinaliza que nós não estamos satisfeitos. Cada leitura que fazemos evidencia essa insatisfação que mais uma vez reforça o papel do poético nos nossos dias, como poder paralelo ao da prosa.
Absorver outros gêneros, característica do romance, segundo Bakhtin, no século XX acaba por se tornar também a característica da poesia, como se observou nos poemas ―Maturidade‖ e ―Poema tirado de uma notícia de jornal‖. Isso ocorre por serem estas ―épocas em que abundam as paródias, as estilizações e outras formas de bivocalidade.‖, afirma Fiorin (2006, p. 88). Esses alinhamentos poderiam ser considerados negativamente se considerarmos as estruturas que envolvem os gêneros, mas, segundo Bakhtin (2009, p. 194),
as tarefas históricas em tais épocas (como a nossa) seriam ―demover o desajuste da prosa e da poesia, destruir a distância extremamente acentuada entre elas (sem anular suas peculiaridades).‖56. Assim, mesmo com a prosificação, o discurso poético se sustenta. Quais
os elementos que o fariam poético? Tezza apresenta um traço central, que esteve no horizonte das análises dos poemas, no capítulo 2, na abordagem das vozes e do ethos presente nos poemas dos alunos. Trata-se da visão de mundo hegemônica, ―nem sempre com correspondência concreta de alguma hegemonia na vida social (embora em muitos momentos da história essa hegemonia tenha sido um pressuposto fundamental do estilo poético, como no épico), mas construída pela própria exigência do centro de valor poético.‖ (TEZZA, 2003, p. 269)
O apoio para essa visão não estaria, a princípio, num conjunto de marcas formais em oposição às do discurso prosaico, uma vez que a sustentação da posição do poeta está ―num tipo de relação que se estabelece entre autor-criador (‗a unidade das intenções semânticas e expressivas do autor‘) e seu objeto.‖ (TEZZA, 2003, p. 270) No entanto, o poeta a estabelece no ―estilo poético; estilo concebido para se adequar a uma única linguagem e a uma única consciência linguística‖ (BAKHTIN apud TEZZA, 2003), na manipulação da linguagem que isola as outras vozes, centralizando a voz do poeta. Trata-se de
um processo que começa desde a disposição gráfica poética (que não se confunde com a disposição ―comum‖, por si só portadora de uma axiologia prosaica, e daí advém a importância fundamental do aspecto gráfico como o primeiro divisor de águas) até a reiteração rítmica, sintática, semântica ou sonora (sob qualquer forma histórica) também de modo a potencializar o isolamento; o pano de fala do poeta é o silêncio; quando o poeta fala, só o poeta fala. (TEZZA, 2003, 270)