4. ARAŞTIRMA BULGULARI
4.3. Su Ürünleri Ekonomisi…
A nosso ver, a relação estabelecida entre ciência e nacionalidade manifes- ta-se em O Doutor Benignus sob duas formas. Na primeira delas, o Brasil é valo- rizado por ser um especial objeto de pesquisa científica. Ao escrever uma carta tentando convencer o astrônomo francês Camille Flammarion a visitar sua casa localizada na mata da província de Minas Gerais, o doutor Benignus vale-se de uma série de argumentos. O céu tem no Brasil, salienta o protagonista, a “transpa- rência do cristal”; as “constelações mais longínquas”, assim como as “imensas nebulosas perdidas na amplidão do espaço”, são geralmente “visíveis sem o auxí- lio poderoso das lentes”.133 Quando o olhar dirige-se à floresta brasileira, signifi-
cada como “natureza virgem”, contemporânea aos “primeiros séculos da criação”, um “mundo ainda nas faxas das idades primitivas”, o sábio não deixar de encon- trar
o sério e grave tucano, cujas penas do papo têm a honra de ofe- recer seu brilhante adorno às insígnias majestáticas; o sabiá, trovador das selvas, que canta nas balsas as inspiradas e amoro- sas canções; o chocalheiro bem-te-vi que denuncia os segredos alheios com esta indiscreta revelação, expressa em seu cantar malicioso; e uma interminável multidão de outros povoadores da mata [que] oferecem ao espírito observador fundamento para curiosos estudos, sobre a natureza, costumes, singularidades, e harmoniosa variedade de canto deste mundo desconhecido de voláteis habitantes.134 131 SKORUPA, 2001, p. 47. 132 ZALUAR, 1991, p. 121. 133 ZALUAR, 1994, p. 54. 134 Ibidem, p. 51-53.
A segunda interface entre ciência e nacionalidade aparece no romance de forma ambígua, tensão cuja presença pode ser encontrada nos dois excertos desta- cados a seguir. Segue o diálogo entre Benignus e M. de Fronville:
– [...] o meu fim único é estudar astronomia e resolver o pro- blema da habitabilidade dos mundos, [diz Benignus].
– E o meu, [diz M. de Fronville], o de chegar pela observação da natureza ao descobrimento das leis físicas, que podem pro- porcionar ao homem a composição dos corpos inorgânicos, que lhes são indispensáveis à vida, quando os não puder obter por outro meio!
– Bravo! exclamou o Dr. Benignus, e continuou: veja como é admirável a ciência! Todas as suas províncias confinam e se unem para se vincularem em um mesmo império! O senhor ob- servará a terra e eu contemplarei o céu! Dous caminhos diver- sos, que vão dar ao mesmo ponto: a grande lei da unidade uni- versal!135
Antes de embrenhar-se pelo sertão junto à sua grande comitiva, discursa o sábio:
– À bandeira brasileira, que se desfralda inundada de luz sobre nossas cabeças! Esta bandeira não é só o símbolo de uma naci- onalidade, é também o símbolo da aliança e da fraternidade universal dos povos! Quando um dia os desertos que vamos atravessar, as selvas por onde temos de embrenhar-nos, as cor- dilheiras que havemos de transpor e os rios imensos que tere- mos de navegar, forem o teatro de uma civilização gigante e es- plêndida, esta bandeira, tantas vezes gloriosa com o baptismo de sangue das batalhas, tremulará então para sempre ainda mais esplendorosa do que hoje nos campos de combate do trabalho, nas oficinas da indústria e nos templos sacrossantos da religião e da paz! [...] Como não acreditar que em algum ponto desta re- gião predestinada, na junção das duas Américas, no caminho da Europa e Ásia, será capital futura do mundo? Eu peço pois que saudemos, nesta hora precursora de saudoso apartamento, a bandeira que será destinada talvez a arvorar-se no gigantesco capitólio da metrópole do futuro!136
A partir da leitura dessas duas passagens, percebemos que se o conheci- mento científico aparece despido de uma nacionalidade específica – isto é, ganha um valor cosmopolita ao poder resultar da colaboração mútua entre pessoas de diferentes nações –, ele não deixa de ser tomado como um dos viabilizadores da possível transformação de um país em “metrópole do futuro”. Depois de viagens, de atravessamentos de deserto, da heroica produção de um conhecimento científi- co também construído por homens de nacionalidades distintas, a civilização pode
135 Ibidem, p. 99-100. 136 Ibidem, p. 120-121.
afirmar-se em território brasileiro e, por conseguinte, fazer tremular para sempre a bandeira do Brasil. Mas a tensão retroalimenta-se: possivelmente brasileira, a “metrópole do futuro” traduz-se em “símbolo da aliança e da fraternidade univer- sal entre os povos”.
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Voltemos ao nosso ponto de partida. Assim como nos debates envolvendo Gonçalves de Magalhães, José de Alencar e Franklin Távora, o que está em jogo para Augusto Emílio Zaluar é o dever de atribuir à literatura a potencialidade de expressar dimensões do real e de estabelecer uma identidade brasileira mediante a incorporação da ciência. Dizendo recusar a pura imaginação, Zaluar procura ser portador de uma realidade marcada pela soma de conhecimentos científicos, cál- culo cuja força irrompe no presente e transforma-se em dever literário-romanesco. Vimos que a noção de soma de conhecimentos opera, para o autor, em dois senti- dos: se valoriza o tempo presente, então entendido como desdobramento aperfei- çoado, também legitima o passado ao tomá-lo enquanto parte de um processo em ascensão. Realizadas tais considerações, podemos dizer que o romance coaduna passado e presente na construção de um benigno ethos: em situações, lugares, instituições e momentos diferentes, homens de nacionalidades diversas são roma- nescamente vinculados por partilharem de um mesmo código, isto é, são associa- dos por possuírem um mesmo horizonte claramente projetado pela crença em im- perativos de progresso que tanto justificam o heroico ato de fazer ciência; aqui, todos os homens de ciência possibilitam a nova soma de conhecimento a qual Za- luar diz ser capaz de realizar e de vulgarizar através do crítico, novo e híbrido romance.
Se a geração 1870 apropria-se da ciência e nega o Romantismo com o cla- ro propósito de contestação política da ordem imperial, no vulgarizador O Doutor Benignus algo diferente acontece. O nosso protagonista chegou a ser nomeado agente do correio pelo ministro da agricultura, mas logo declinou do emprego e foi demitido oficialmente, terminando assim “com este episódio ridículo a [sua] brilhante carreira pública!”.137 Se no século XIX brasileiro o Estado é um grande
financiador da ciência, em O Doutor Benignus ele não aparece assim representa- do; o sábio “não era rico”, “mas o certo é que contra a regra geral, o Dr. Benignus
tinha tido, já se sabe por meios honestos, uma fortuna inesperada”.138 Tal infor-
mação despreocupa o leitor quanto aos gastos da grandiosa expedição realizada por um sábio que se mostra incomodado com o mundo político em que se insere:
Detesto os exércitos permanentes, aborreço a guarda nacional, e sobretudo não posso compreender a utilidade da monarquia constitucional, porque já está velha, nem a da república, porque ainda está nova. Bem vês que estou deslocado no meio de todo este mundo. 139
Mesmo dizendo-se deslocado entre a velha monarquia e a jovem república, o romântico sábio, adjetivação que discutiremos nos segundo e terceiro capítulos, não deixa de manejar ciência. Tal manejo explicita, sob nossa leitura, uma clara tentativa do autor em elevar o conhecimento científico a um plano que suplante particularidades e contingências políticas. Na obra, a menção a certo particularis- mo restringe-se à própria ciência, e mesmo assim é fortemente interpelado pelos imperativos de universalidade: Zaluar não deixa de delimitar e enaltecer a particu- lar identidade do Brasil enquanto país depositório de potencialidades científicas; contudo, essas mesmas potencialidades são disponibilizadas a todos os homens de ciência, os responsáveis em tornar concreto o progresso vislumbrado no horizonte de todos os povos. Interessante destacarmos, ainda, que mesmo no momento onde certos homens de ciência são criticados, a valorização do conhecimento científico como viabilizador dos progressos do mundo é reafirmada: a crítica feita por Zalu- ar aos “sábios oficiais” não se fundamenta no tipo de ciência produzida, mas na monopolização de um saber que, segundo ele, deve ser propagado a “todas as compreensões”.
138 Ibidem, p. 42-43. 139 Ibidem, p. 37.