CHAPTER 2: REVIEW OF LITERATURE
2.4. Studies on Flipped Classroom in Various Disciplines
Em A Dúvida de Cézanne, não há como dissociar a pintura da vida do pintor. O pintor vive, pensa, age pintando. Sua vida é expressa na sua arte e, ao mesmo tempo, a arte toma da vida seu referencial principal. Por este fato, justifica-se a exigência que Cézanne tinha com sua pintura, não obstante ser ela “traços de natureza-morta”. Sua pintura, ao querer expressar a vida, não podia ser exercida de qualquer modo. Na verdade, segundo Merleau-Ponty, a vida de Cézanne é sua pintura, “a pintura foi seu mundo e sua maneira de existir”.
Desde o começo que a vida de Cézanne apenas encontrava o seu equilíbrio apoiando-se na obra ainda por chegar, ela constituía o seu projecto e a obra anunciava-se através de sinais premonitórios que dificilmente poderíamos considerar como sendo as suas causas, mas que fazem da obra e da vida a mesma aventura. Já não se trata aqui nem de causas, nem de efeitos; vida e obra reagrupam-se na simultaneidade de um Cézanne eterno que é, ao mesmo tempo, a fórmula do que quis ser e do que quis fazer (LIMA, 1998, p.
153).
Mas é preciso compreender bem o que se quer dizer com isso. Afinal, como Merleau-Ponty descreve, a obra de Cézanne, como de qualquer pintor, não é um efeito, um resultado dos
dados de sua compleição psicológica. A obra é, muito mais, sempre uma resposta aos dados da vida, é algo que possui em si mesma uma significação, direta, permanente, primordial. De fato, ao analisar a obra de Cézanne, a sua vida pessoal é de grande valia, mas não corresponde ao total significado de sua pintura, conforme Merleau-Ponty demonstra em seu texto.
Cézanne mesmo escrevia que, não obstante a velhice e a doença, “morreria pintando”, e toda sua vida foi, sem hesitar, uma pintura viva. Testemunha Émille Bernard que “não havia um segundo em que ele não se considerasse com o pincel à mão”. Ainda assim, Merleau-Ponty o atesta, Cézanne não se via como o grande artista que era, indagava sobre a importância de sua pintura e se ela não seria apenas fruto de “um distúrbio de seus olhos”.
Os moventes da dúvida não são postos sem razão por Merleau-Ponty. O filósofo aponta que estes vetores justificam a pintura de Cézanne. Nas entrelinhas, pergunta: como Cézanne pôde duvidar que sua vida fosse a pintura, que a pintura era sentido de sua vida quando até mesmo pinta na tarde do dia em que sua mãe morreu? Por que manter esta incerteza se percebe que sua pintura é valorizada? Nas tentativas de resposta, uma vibra longamente: no refúgio e no isolamento, na constante busca de si, Cézanne formou seu propósito artístico. Sua vida atribulada se tornou condição necessária para sua pintura.
Nascido em Aix-en-Provence, cidade próxima à cidade-natal de Merleau-Ponty, Cézanne foi filho de um próspero banqueiro, o que permitiu uma formação acadêmica em centros importantes. Em um deles, encontrou-se com Émille Zola, uma influência extremamente marcante na vida do pintor. Desde cedo, Cézanne desenvolveu um interesse artístico pela pintura, não obstante a resistência do pai. Ajudado pela mãe e pela irmã e tendo diminuído a oposição do pai, Cézanne foi a Paris, onde encontrou os mestres da pintura em Salões.
Neste tempo, Cézanne pintava os temas fornecidos pela literatura e pintura romântica. Mas seus traços e cores, tendo a natureza como “guia”, evidenciavam a vivacidade da experiência
perceptiva. Esta nova forma de pintar custou a Cézanne ferozes críticas e incompreensões. Afirma-se que Rochefort, ao ver os quadros de Cézanne, não só os classificou como estranhos, como determinou que a aceitação das obras do pintor seriam como que “atear fogo no Louvre”. Críticas ferrenhas como esta atingiam Cézanne a tal ponto que o faziam duvidar de sua “vocação” enquanto pintor89.
Esta instabilidade emocional e as dificuldades de relacionamento social marcaram fortemente a obra de Cézanne. Mesmo conhecendo vários artistas, seu modo de ser irritadiço, tímido e aborrecido, impediu-o de travar relações duráveis, fazendo seu isolamento cada vez maior. Conforme expressa Barnes, o relacionamento conturbado dentro de sua casa (“as mais ignóbeis criaturas do mundo, aquelas que compõem minha família”90), predispôs Cézanne a
uma insegurança nos relacionamentos91. “Esta perda essencial de confiança (...) gerou nele maior necessidade de isolamento e desejo de criar um mundo próprio de recolhimento, em face das dificuldades da vida” (BARNES, 1993, p. 6).
Entretanto, tal isolamento permitiu a própria arte de Cézanne, bem como a consolidação de suas pinturas e as justificativas para seu estilo, conforme mais tarde exporia por meio de suas cartas. Segundo Barnes, Cézanne procedeu muito bem ao se afastar destes críticos, tanto para formular sua arte, quanto para, em certos momentos, ressaltar a distância entre a sua pintura e a crítica. Conforme Cézanne mesmo escreveu:
O artista deve desprezar a opinião que não se baseie na observação inteligente do caráter. Deve rejeitar o literalismo, que com tanta frequência leva o pintor a se afastar de seu verdadeiro caminho – o estudo concreto da natureza – para perder um tempo longo demais em especulações intangíveis (CÉZANNE, 1992, p. 246).
89 Uma compilação de várias delas e vários elementos positivos podem ser vistos no site italiano http://www.frammentiarte.it/dall’Impressionismo/Cezanne.htm.
90 CÉZANNE, 1992, p. 94.
91 Se desde muito cedo, as cóleras de Cézanne inquietavam seus amigos e familiares, as reações negativas diante de suas obras o motivaram extremamente a este exílio pessoal. Não só se retirou dos Salões: não freqüentava mais as escolas de sua época e os contatos pessoais se fizeram mais raros ainda, a ponto de não coabitar com sua esposa e filho.
A personalidade antissocial do artista pode ser reconhecida em muitas de suas obras, sobretudo as que pintam personagens humanas. Sem dúvida, Cézanne buscou separar o ato de ver da emoção do ver nestas obras.
Nas telas que Cézanne pinta sua esposa, Hortense Fiquet (Tela 9), as expressões são sempre tristes, sofridas ou cansadas, chegando a um ponto de total apatia. Acredita-se que este semblante testemunha a fria e quase tirânica pressão que Cézanne exercia sobre sua esposa ao exigir completa imobilidade de Hortense, não obstante as muitas horas de trabalho. “Permaneça como uma maçã! Já viu uma maçã se mover?”, era o que dizia em circunstâncias como essa (cf. ROUSSEAU JR, 1953).
No mesmo sentido, pode ser observada a tela “Mulher com Cafeteira” (Tela 10). Obra já da maturidade e posterior, portanto, ao afastamento dos impressionistas, a obra revela o sentido penetrante da arte de Cézanne. A autonomia expressiva que concretiza em sua pintura são incidências de sua irritação que, de certo modo, o perturba. A figura imóvel, inerte e desprovida de afetos da mulher, em suma, a rigidez de sua expressão, apresenta a mulher com aparência da própria cafeteira. A mulher se transforma em um volume à mesma natureza dos objetos estáticos ali também representados. Ao observar a pintura, não há como deixar de enfatizar o distanciamento emocional com que pintava, marca de um artista solitário e emocionalmente instável.
Este modo de pintar, associado única e exclusivamente ao caráter do pintor, gerou as primeiras incompreensões da obra do artista, feitas, especialmente, por Zola e Bernard. Para estes, “pintar diretamente da natureza” era uma demonstração da fraqueza da constituição mórbida de Cézanne, uma paradoxal ação que, ao buscar o mundo, na verdade procurava fugir dele. Sem dúvida, ao se concentrar por demais no caráter de Cézanne e nas suas atitudes
pouco sociais, tanto Zola quanto Bernard, sem citar outros críticos, não poderiam ver na obra do pintor senão uma manifestação doentia. Ao tomar a vida como único critério de avaliação, Bernard e Zola desconheceram o significado da pintura Cézanne. Reduziram-na, por isso, a um sintoma doentio, as descargas de uma personalidade afetada por uma esquizoidia.
Merleau-Ponty aponta que os críticos, ao avaliar somente a personalidade do artista, esqueceram-se totalmente do sentido da pintura. Não a compreenderam como forma de arte renovada, válida para todos, que era capaz de expressar o que olhares desatentos não são capazes de ver. Sem dúvida, a psicologia e a influência do quotidiano são elementos importantes na obra do artista. Entretanto, estas não funcionam isoladamente, sendo, muito mais o texto que a natureza e história concederam ao pintor para, em seu turno, decifrar.
Merleau-Ponty alega que Cézanne postula uma pintura que retrate a força da percepção das coisas, que traga estas coisas com a mesma vivacidade como no momento que elas atingem a visão. Mais que as próprias coisas, quer pintar o movimento das mesmas quando são percebidas, pintar o próprio movimento da percepção em relação às coisas, o momento originário que determina a expressão92.
Por isso a importância que Merleau-Ponty atribui à pintura de Cézanne. Nesta há a aquisição de um saber feito pintura, de uma expressão que ressignifica nosso modo de ser e lidar com as
92 Sugestivo é o texto recolhido por Joachim Gasquet que demonstra bem a importância deste momento (in: DORAN, 1978, p. 113-114):
“Cézanne: - Há um minuto do mundo que passa. É preciso pintá-lo na sua realidade. E, para fazer isso, é preciso esquecer tudo o resto . (...) Dar a imagem daquilo que vemos, esquecendo tudo que apareceu antes de nós. Gasquet: - E isso é possível?
Cézanne: - Eu tentei.
Baixou a cabeça, depois ergueu-a bruscamente, dominando a paisagem e devorando a sua tela com uma longa carícia de olhos. Esboçou um sorriso pálido.
- Quem sabe? É tudo tão simples e tão complicado.
Gasquet: - O senhor dizia que é preciso esquecer tudo o resto. Porquê, então, toda esta meditação em frente à paisagem?
Cézanne: - Porque, infelizmente, deixei de ser inocente. Somos civilizados. A preocupação dos clássicos vive em nós, quer o queiramos, quer não. Quero exprimir-me lucidamente em pintura. Há uma espécie de barbárie, mais detestável que o próprio academismo, entre os falsos ignorantes: já não podemos ser ignorantes, hoje. Nascemos já na comodidade. E preciso destruí-Ia; ela é a morte da arte”.
coisas. O que nós somos, o modo corpóreo como nos entregamos ao mundo e como este se nos entrega, oferecem ao filósofo francês dados para pensar. Ora, pensar para Merleau-Ponty não pode estar longe da celebração do enigma de visibilidade que a pintura oferece. Paul Cézanne desempenha, neste contexto, um papel incontornável. Merleau-Ponty julga que a pintura de Cézanne é “um exercício para tornar visíveis dimensões que transcendem a própria visibilidade. E, no geral, é justamente porque aponta para tais dimensões que a pintura moderna contribui para a reflexão ontológica” (FERRAZ, 2009, p. 164).
Merleau-Ponty resgata que o pintar em Cézanne é atividade em contínuo recomeçar, para que sua pintura não pudesse ser infiel à expressão que percebia. “Viver em pintura” requer do artista, portanto, uma vida de consagração total ao que vê, uma determinação pessoal que é capaz de superar os limite da própria constituição corporal-psicológica em busca de dar visibilidade à própria ação de ver.
Portanto, para Merleau-Ponty, o sentido da obra de Cézanne não pode ser totalmente determinado pelo caráter do pintor. Conforme veremos adiante, é a obra que determina a vida, feita com o mesmo estofo do mundo que se esboça e se adensa gradativamente, sem assaltos. No caso de Cézanne, a obra é diálogo profundo com ela, é manifestação de uma existência que, não obstante suas misérias e imperfeições, abre-se ao horizonte artístico de uma expressividade criadora.