Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar. Monteiro Lobato
Eis o ideal relatado por Lobato ao seu amigo Godofredo Rangel, no dia 07 de maio de 1926, ao confessar seu desinteresse em escrever para marmanjos e disposição em
seguir pelo caminho da literatura infantil, já que, para a criança, “um livro é todo um mundo”. (LOBATO, 1968b, p. 293).
Lobato foi o grande precursor de uma nova concepção de literatura infantil no Brasil. Sua grande preocupação em escrever histórias que verdadeiramente interessassem às crianças resultou em uma coletânea de contos repletos de magia e imaginação que se fundem com uma realidade possível e próxima à da criança. Para Sandroni, Lobato cria “a fusão do real e do fantástico, de maneira tão integrada que se torna difícil distinguir o momento da passagem de um para o outro. (...). O leitor se vê mergulhado numa realidade diferente daquela que constitui seu dia-a-dia mas que, no entanto, mantém com ela estreitos laços”. (SANDRONI, 1987, p. 161). Levar personagens de contos de fadas clássicos para brincar num sítio com crianças comuns, por exemplo, é simplesmente inovador. O reconhecimento dessa realidade tão próxima do fantástico foi uma estratégia encontrada pelo autor para atingir o imaginário infantil, aproximando a ficção do cotidiano real.
Em correspondência a Rangel, o próprio Lobato se confessa entusiasmado com as novas possibilidades encontradas na escrita de Reinações de Narizinho:
Tenho em composição um livro absolutamente original, Reinações de Narizinho – consolidação num volume grande dessas aventuras que tenho publicado por partes, com melhorias, aumentos e unificações num todo harmônico. Trezentas páginas em corpo 10 (...). Estou gostando tanto, que brigarei com quem não gostar. Estupendo, Rangel! E os novos livros que tenho na cabeça ainda são mais originais. Vou fazer um verdadeiro Rocambole infantil, coisa que não cabe mais. (...). Pela primeira vez estou a entusiasmar-me por uma obra. (LOBATO, 1968b, p. 329).
A produção lobatiana abre caminho para a imaginação e criatividade da criança, na busca de desconstruir o discurso pedagógico como finalidade última da literatura infantil, que se pretende livre de resquícios da racionalidade adulta e explicações que exprimam um sentido meramente moral e disciplinador. Segundo Gouvêa (2004, p. 77), “Lobato analisa a infância não como preparação para a idade adulta ou como período de conformação de modelos de comportamento, mas como um outro “estado”. (...). A infância constitui o paraíso perdido, cujo resgate se torna possível pela literatura”. Esse caráter, até então, inovador da literatura em Lobato será analisado a partir de algumas passagens de Chapeuzinho Vermelho,
ou, melhor dizendo, de Capinha Vermelha, pelo Sítio do Picapau Amarelo, nas obras Reinações de Narizinho (1931) e O Sítio do Picapau Amarelo (1939).
A primeira menção à Capinha Vermelha, na obra Reinações de Narizinho, acontece no tópico O Sítio do Picapau Amarelo, na seção V, intitulada Pedrinho. Esse capítulo narra a chegada do neto de Dona Benta ao Sítio para passar férias escolares. Em meio às conversas sobre as novidades do Sítio, Narizinho conta que o Pequeno Polegar tinha fugido de sua historinha. Pedrinho, intrigado, comenta:
— Se Polegar fugiu é que a história está embolorada. Se a história está embolorada, temos de botá-la fora e compor outra. Há muito tempo que ando com esta ideia — fazer todos os personagens fugirem das velhas histórias para virem aqui combinar conosco outras aventuras. Que lindo, não?
Este é o primeiro sinal que Lobato dá aos seus leitores de que novas aventuras acontecerão no Sítio, aventuras com personagens fugidas dos contos clássicos infantis. Sob a voz enunciativa de Narizinho (V7), Lobato indica as futuras visitas que o sítio de Dona Benta receberá:
— Nem fale, Pedrinho! — exclamou a menina pensativa. — O que eu não daria para brincar neste sítio com a menina da Capinha Vermelha ou Branca de Neve...
(...)
— E eu só queria Capinha. Tenho tanta simpatia por essa menina... Aqueles bolos que ela costumava levar para a vovó que o lobo comeu — que vontade de comer um daqueles bolos...
Está lançada a semente criativa de Lobato que, capítulos à frente, convidará diversas personagens dos contos clássicos como: Cinderela, Branca de Neve, Peter Pan, Barba Azul, Dom Quixote etc. a juntarem-se a Narizinho, Pedrinho, Emília e demais moradores do Sítio, para viverem grandes aventuras. É como se os diversos efeitos de sentido da narrativa sugerissem ao leitor infantil possibilidades concretas de interação com figuras ficcionais que habitam suas mentes, sua imaginação. Sandroni (1987) afirma que Lobato estabelece uma relação entre real e mágico perfeitamente adequada à psicologia infantil ao intuir que
realidade e fantasia são uma mesma coisa na mente infantil, ao passo que para o adulto, razão e afetividade são instituições distintas.
No tópico Cara de Coruja, seção I – Preparativos, Capinha é novamente lembrada por personagens lobatianas, que endereçam convites à menina e a outras personagens dos contos de fadas tradicionais para uma festa no Sítio:
Narizinho estava muito atrapalhada para salvar o Visconde que havia uma semana caíra atrás da estante. Logo que Pedrinho apareceu, gritou-lhe:
— Venha acudir o Visconde. Estou vendo um pedaço dele lá no fundo; com certeza o resto foi devorado pelas aranhas de pernas compridas. Temos que salvá-lo depressa — e vesti-lo, porque os convidados não tardam.
— Mandou os convites?
— Pois de certo. Mandei-os por um beija-flor que todos os dias vem beijar as rosas do pé de rosa da Emília. Cheguei-me a ele e disse: “Sabe ler?”
— “Sei, sim!” — respondeu a galanteza. — “Então pegue estas cartinhas no bico e vá entregá-las aos donos.” E ele pegou as cartinhas e partiu!... lá se foi...
— Para quem mandou convites?
— Para todos — para Cinderela, para Branca de Neve, para o Pequeno Polegar, Capinha Vermelha, Ali Babá, Gato de Botas — todos!
— Não esqueceu Peter Pan?
— Está claro que não. Nem Aladim, nem o Gato Félix verdadeiro. Até ao Barba Azul convidei.
Com sutileza, Lobato evoca a questão da aprendizagem da leitura através da imagem de um beija-flor, que é encarregado de entregar correspondências a ilustres convidados dos contos de fadas. Após receber o convite, Capinha dirigiu-se ao Sítio, e foi logo notada pelo Visconde que observa todo o movimento pela janela:
— Estou vendo uma poeirinha lá longe... Todos pararam de dançar, murmurando: “Quem poderá ser?” Logo depois duma batidinha na porta, Rabicó introduziu a menina da Capinha Vermelha.
A chegada de Capinha ao Sítio foi comemorada por todas as personagens dos contos de fadas que participavam da festa com os netos de Dona Benta:
— Capinha! — exclamaram todas alegríssimas, porque todas queriam muito bem a essa gentil criança. Viva Capinha!...
Lobato não se refere à Capinha como uma “linda” ou “bela” criança, como frequentemente encontrado nas versões de Chapeuzinho Vermelho, evocando o aspecto físico da personagem, mas, sob a voz de “V1” chama a atenção para a personalidade da menina: gentil criança a que todos queriam bem.
Capinha adentra a sala e saúda a todos. Nota-se que, nessa pequena ação, é forjada mais uma representação de infância aceitável: a criança ativa, desinibida e plenamente sociável que interage e constrói sua própria cena sem o intermédio do adulto:
A menina entrou, muito corada por ter vindo a pé, e disse: — Boa tarde para todos os presentes, ausentes e parentes! Em seguida deu um beijo em Narizinho e outro na boneca.
Percebemos, dessa maneira, que, em Lobato, não serão encontradas as vozes que, normalmente, regem o discurso das versões de Chapeuzinho Vermelho, como “V4” – voz enunciativa da avó de Chapeuzinho, “V5” – voz enunciativa da mãe de Chapeuzinho e “V6” – voz enunciativa do Lenhador/caçador. “V3”, voz enunciativa do Lobo, aparecerá de soslaio na narrativa que enfatiza constantemente a voz da menina “V2”, permeada por manifestações discursivas do narrador “V1” e das personagens do Sítio, “V7”. Gouvêa (2004) chama a atenção para o fato de que nessa representação de infância, a criança é percebida com um caráter próprio, marcado pela espontaneidade e alegria, e, dessa forma, não deve ser corrigido e reprimido pelo adulto, mas compreendido.
Emília, voz ativa no discurso lobatiano, detentora de permissões linguageiras vedadas a outras personagens, não tarda a questionar Capinha sobre seu nome e, dessa forma,
esclarece ao leitor a própria escolha do autor em tratá-la por Capinha e não por Chapeuzinho, como comumente é encontrado nas versões do conto:
— Antes de mais nada — foi dizendo Emília — quero saber o seu verdadeiro nome, porque uns dizem Capinha Vermelha e outros, Capuzinho Vermelho. Qual é o certo?
— Meu verdadeiro nome é Capinha Vermelha, porque depois que vovó me fez esta capinha todos que me viam ir para a casa dela diziam: “Lá vai indo a menina da capinha vermelha!” Mas, como vocês podem ver, esta capinha tem um capuz, que eu às vezes uso. De modo que tanto podem chamar-me Capinha, como Capuzinho, ou mesmo Chapeuzinho Vermelho.
O fascínio exercido por Emília e sua “língua solta e afiada” dá à obra de Lobato uma singularidade própria. Afinal, a personagem é apenas uma boneca de pano e, assim, o que sua fala poderia relevar? O expediente da língua/linguagem na boca da boneca permite a Lobato extrapolações incríveis, questionamentos sociais e políticos, além de sátiras e deboches dos comportamentos moralmente aceitos e disseminados no interior de formações discursivas das décadas de 1920-30.
Emília aparece como a desculpa que faltava à liberdade de expressão. Ela é a grande precursora e disseminadora dos “implícitos” lobatianos. O próprio Lobato se dizia incapaz de domar Emília, em uma confissão, no mínimo curiosa e instigante, feita pelo autor ao seu correspondente Rangel, revela:
Emília começou uma feia boneca de pano, dessas que nas quitandas do interior custavam 200 réis. Mas rapidamente evoluiu (...). E foi adquirindo uma tal independência que, não sei em que livro, quando lhe perguntam: “Mas que você é, afinal de contas, Emília?” ela respondeu de queixinho empinado: “Sou Independência ou Morte!” E é. Tão independente que nem eu, seu pai, consigo dominá-la. Quando escrevo um desses livros, ela me entra nos dois dedos que batem as teclas e diz o que quer, não o que eu quero. Cada vez mais, Emília é o que quer ser, e não o que eu quero que ela seja. Fez de mim um “aparelho”, como se diz em linguagem espírita. (LOBATO, 1968b, p. 341-42).
Este atrevimento nato de Emília e sua permissão literária de perguntar ‘o quê’ e ‘quando’ desejar, para quem quer que seja, a fez interrogar, indiscretamente, o discurso de Capinha Vermelha: