A eleição da unidade de análise igualmente tem relação com os limites da coleta e da análise de dados. Creswell (2007) descreve que, ao eleger a amostra, as razões devem ficar evidentes. É facultado escolher fenômenos que apresentem perspectivas distintas do problema, processos ou eventos, ou selecionar casos comuns, acessíveis ou não casuais.
Qualquer técnica de análise de dados, em última instância, significa uma metodologia de interpretação. Como tal, possui procedimentos peculiares, envolvendo a preparação dos dados para a análise, visto que esse processo “consiste em extrair sentido dos dados de texto e imagem” (CRESWELL, 2007, p. 194).
O método de análise de conteúdo constitui-se em um conjunto de técnicas utilizadas na análise de dados qualitativos. Percebe-se, porém, que existe por parte do pesquisador iniciante ou do não familiarizado com estas técnicas, dificuldades em relação ao entendimento e aplicação do método. (BARDIN, 2002)
Para Flick (2009), a análise de conteúdo, além de fornecer significado após a coleta dos dados, desenvolve-se através de técnicas mais ou menos apuradas. Logo, a análise de conteúdo surge como uma das técnicas de análise de dados mais empregadas na área das ciências sociais, com destaque para a área da administração brasileira, especialmente nas pesquisas qualitativas (DELLAGNELO & SILVA, 2005).
A análise de conteúdo estabelece uma metodologia de pesquisa empregada na descrição e interpretação do conteúdo de toda espécie de documentos e textos. Nessa análise, chegamos a descrições de determinados padrões, qualitativamente ou quantitativamente, que nos ajudam a uma releitura das mensagens alcançando um melhor entendimento de seus significados numa condição que vai além de uma simples leitura.
No seu progresso, a análise de conteúdo tem oscilado entre a austeridade da suposta objetividade dos números e a fertilidade sempre arguida da subjetividade. Entretanto, têm sido cada vez mais apreciadas as abordagens qualitativas, utilizando, sobretudo a inferência e a percepção como estratégias para chegar a graus de compreensão mais aprofundados dos fatos que se coloca a investigar. (BARDIN, 2002).
Os dados extraídos através da transcrição das entrevistas e dos documentos serão tratados com base na análise de conteúdo, que envolve “um conjunto de técnicas de análise das comunicações, que utiliza procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens” (BARDIN, 2002, p. 33).
Desta forma, esse procedimento considera a análise por categorias que, conforme explica Bardin (2002, p. 32), “pretende tomar em consideração a totalidade de um texto, passando-o pelo crivo da classificação e do recenseamento, segundo a frequência de presença (ou de ausência) de itens de sentido”. Assim, serão estabelecidos os elementos de significação constitutivos da mensagem analisada, permitindo a assimilação de características consideradas como consenso e concretas nas falas dos entrevistados.
Para efetuar a análise de conteúdo optou-se pela utilização do software ATLAS.ti 7.5.4., que consiste em uma ferramenta de análise de dados qualitativos (Computer-Assisted Qualitative Data Analysis Software – CAQDAS). Seu protótipo inicial foi desenvolvido na Universidade Técnica de Berlin, Alemanha, como parte de um projeto multidisciplinar (1989- 1992). A sigla “Atlas” significa, em alemão, Archivfuer Technik, Lebenswelt und Alltagssprache e pode ser traduzida como “arquivo para tecnologia, o mundo e a linguagem cotidiana”. Já a sigla “ti” advém de text interpretation, ou seja, interpretação de texto (BANDEIRA-DE-MELLO, 2006).
O projeto original do ATLAS.ti foi influenciado pela grounded theory, mas o software pode ser empregado em diferentes estratégias de pesquisa (MUHR, 1991). De acordo com o autor, o objetivo do software não é automatizar o processo de análise, mas desenvolver uma ferramenta que apoie e facilite a interpretação humana.
O software possui alguns elementos constitutivos, como apresentado no Quadro 6.
Quadro 7 - Principais elementos constitutivos do Atlas.ti
Elementos Descrição
Unidade Hermenêutica (Hermeneutic unit)
Reúne todos os dados e os demais elementos. Documentos primários
(Primary documents)
São os dados primários coletados. Em geral, são transcrições de entrevistas e notas de campo, mas suportam figuras e áudio (a versão atual também o faz em relação a imagens, áudio e vídeo). Os documentos primários são denominados Px, sendo que x é o número de ordem.
Citações (Quotes/quotation)
São segmentos de dados, como trechos relevantes das entrevistas que indicam a ocorrência de código. A referência da citação é formada pelo número do documento primário onde está localizada, seguido do seu número de ordem dentro do
documento. Também constam da referência as linhas inicial e final, no caso de texto.
Códigos (Codes)
São os conceitos gerados pelas interpretações do pesquisador. Podem estar associados a uma citação ou a outros códigos para formar uma teoria ou ordenação conceitual. Sua referência é formada por dois números: o primeiro refere-se ao número de citações ligadas ao código; e o segundo, ao número de códigos
associados. Os dois números representam, respectivamente, seu grau de fundamentação (groundedness) e de densidade teórica (density).
Notas de análise (Memos)
Descrevem o histórico da pesquisa. Registram as interpretações do pesquisador, seus insights ao longo do processo de análise. Esquemas gráficos
(Netview)
Esta ferramenta auxilia a visualização do desenvolvimento da teoria e atenua o problema de gerenciamento da complexidade do processo de análise. Os esquemas gráficos são representações gráficas das associações entre códigos. A natureza dessas relações é representada por símbolos.
Comentários (Comment)
Podem estar presentes em todos os elementos constitutivos. Devem ser utilizados pelos pesquisadores para registrar
informações sobre seus significados, bem como para registrar o histórico da importância do elemento para a teoria em
desenvolvimento. Fonte: Adaptado de Bandeira-de-Mello (2006).
Na etapa de preparação realizou-se a transcrição na íntegra das gravações, em seguida, foi realizada a releitura dos dados e sua organização de acordo com o roteiro de entrevista e aspectos relevantes destacados. Na tabulação, identificaram-se os conteúdos da resposta procurando destacar as reincidências e realizou-se o agrupamento de dados de acordo com o tema da pesquisa.
A sequência foi definida de acordo com a ordem das entrevistas, conforme cada participante da pesquisa, já apresentado na identificação dos atores da pesquisa.
Quadro 8 - Categorias analíticas identificadas
CATEGORAIS ANALITICAS (CÓDIGOS) QUESTÕES DO ROTEIRO DE ENTREVISTA REFERENCIAL TEÓRICO
- perfil do comprador 1, 2 e 4 Lima (2004); Secchi (2010) e Baily
(2000).
- compras públicas sustentáveis 5
Elinkgton (2004); Biderman (2008); Barbieri (2010); Rossato (2011); Silva e Barki (2012); Ross (2012) e Hegenberg (2013
- processo de compras 3 e 4
Kelman (2007); Motta (2010); Christopher (2007); Ballou, 2001, Bowersox, Closs e Cooper (2007)
- políticas e práticas sustentáveis 6
Sachs (1993); Carrol (1999); Elinkgton (2004); Biderman (2008); Barbieri (2010); Barcessat (2011); Rossato (2011); Silva e Barki (2012); Ross (2012) e Hegenberg (2013)
- procedimentos e estratégias 7
Bertaglia (2003); Biderman (2008); Barbieri (2010); Rossato (2011); Silva e Barki (2012); Ross (2012); Hawkins, Gravier e Powley (2013) e Hegenberg (2013)
- facilitadores e barreiras 8
Biazzi (2007); Biderman (2008); Barbieri (2010); Rossato (2011); Silva e Barki (2012); Ross (2012) e Hegenberg (2013)
- oportunidade de melhorias 9 e 10
Biderman (2008); Guevara (2008); Haake e Seuring (2009); Barbieri (2010); D’Amico (2010); Rossato (2011); Silva e Barki (2012); Ross (2012); Bliacheris (2013) e Hegenberg (2013)
Fonte: elaboração própria
Para a análise documental foi avaliada a legislação que trata da lei de licitações (Lei. 8.666/93) e suas alterações posteriores, o Decreto nº 7.746, de 5 de Junho de 2012 e as instruções e portarias vinculados a este decreto, além dos processos de compras das universidades investigadas no período entre 2013 e 2014.
Os dados foram analisados e discutidos de acordo com os objetivos específicos que orientam a pesquisa, a saber: o perfil do comprador e sua compreensão das compras públicas sustentáveis, o processo e as práticas de compras públicas que tenham relação com a sustentabilidade; os facilitadores e as barreiras observadas nas instituições pesquisadas, com a finalidade de explorar e descrever os achados da pesquisa, bem como evidenciar informações relevantes para a proposição de oportunidades de melhorias para as compras públicas sustentáveis.
4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Esta seção apresenta os resultados da pesquisa. Busca-se nesta fase responder aos propósitos deste trabalho através da exploração dos dados e a partir deles encontrar as regularidades que permitam um entendimento rico, e também profundo sobre o processo de compras nas universidades federais cearenses com relação à sustentabilidade. As análises que serão apresentadas a seguir contemplam as respectivas categorias de análise.
Estas análises foram realizadas utilizando como fonte os documentos disponíveis e o conteúdo das entrevistas obtidas durante a etapa de coleta de dados, antecedidas por uma breve descrição das instituições que compõe os casos a serem investigados.