Inicialmente, convém explicitarmos a concepção de método que adotamos nesta investigação, que surge como cenário de fundo para nossas incursões metodológicas pela realidade investigada. Aqui, a noção de método toma como base as elaborações oriundas do paradigma da complexidade, ou do pensamento complexo. Todavia, antes de abordarmos diretamente a compreensão do método que tomamos do pensamento complexo, retrataremos sumariamente alguns elementos que consideramos essenciais para o entendimento do pensamento complexo.
O pensamento complexo decorre de uma visão de complexidade acerca da realidade, que é concebida como uma rede viva e interativa de sistemas complexos, de diversas naturezas, envolvendo, por exemplo, desde os sistemas humanos, como as sociedades, as organizações, as instituições (família, Estado, igreja e outras), até os ecossistemas geo-ambientais. A constituição e a dinâmica entre tais sistemas, que reflete o próprio movimento da realidade, são marcadas por algumas características fundamentais, como a incerteza, a intensa interação, a multicausalidade dos fenômenos, a sensibilidade, a sutileza, a impossibilidade de controle e determinação de todas as variáveis e fatores envolvidos na constituição e acontecimento de um dado fenômeno, a permeabilidade entre os limites dos vários sistemas em interação, a auto-criação e auto-organização, dentre outros.
Trazemos a seguir a percepção do pensador Edgar Morin (2001) sobre essas características marcadamente interativas e integrativas do pensamento complexo frente à realidade, em que destaca a relevância sócio-política desse paradigma para a compreensão e ação humana no mundo.
O problema da complexidade tornou-se uma exigência social e política vital no nosso século: damo-nos conta de que o pensamento mutilante, isto é, o pensamento que se engana, não porque não tem informação suficiente mas porque não é capaz de ordenar as informações e os saberes, é um pensamento que conduz a acções [sic] mutilantes. (p. 14)
Essa assertiva de Morin (2001) nos fundamenta não só a constituirmos o marco teórico de nossa investigação de modo integrativo entre duas disciplinas de duas áreas distintas, qual sejam, a Psicologia e a Pedagogia, bem como a explorarmos seus
desdobramentos em termos metodológicos. Tal integração entre a Psicologia Comunitária e a Educação Libertadora, fruto de arranjos epistemológicos desenvolvidos ao longo de quase três décadas, encontra no paradigma da complexidade suporte epistemológico para validar seus processos, achados e trabalhos, que nos inspiraram e conferiram consistência para procedermos a esta pesquisa.
A explicitação de algumas dessas características tem a finalidade de ilustrar a especificidade do pensamento complexo diante do pensamento linear, que por sua vez se consolidou sobremaneira a partir do século XVII, com os filósofos René Descartes e Francis Bacon. Como influência basilar para a noção de método e sua repercussão para a construção do conhecimento, tem-se a premissa de que qualquer estudo ou pesquisa procedidos pelo espírito humano deveria partir de certezas, que se lhe apresentariam de forma “clara e evidente” (DESCARTES, 1991). Sobre esta perspectiva, destacam Morin, Ciurana e Motta (2003, p. 17):
O método é um programa aplicado a uma natureza e a uma sociedade consideradas como algo trivial e determinista. Pressupõe que se pode partir de um conjunto de regras certas e permanentes, passíveis de serem seguidas mecanicamente.
Os referidos autores colocam severas críticas a essa concepção mecanicista e linear sobre a realidade natural e humana, apontando para o esgotamento desse paradigma dito linear, que vê cada vez mais restrita sua capacidade de interação, de compreensão e de intervenção junto aos fenômenos e acontecimentos complexos que se evidenciam de modos mais amplificado nos dias atuais, com o advento, por exemplo, da globalização político-econômica, do imperialismo cultural, da sociedade de consumo, da expansão dos campos virtuais de interação e da informatização da comunicação.
Como forma de contribuir com a superação desse modelo, o pensamento complexo propõe uma noção de método diferenciada, posto que figura como um caminho e estratégia gnosiológica básica para a relação dos seres humanos entre si e os fenômenos que pretendem estudar. Tal noção reflete e se insere e, com um forte tom de crítica propositiva, no debate sobre a questão da cientificidade dos conhecimentos produzidos, abaixo retratada nas palavras de Edgar Morin (2001):
A cientificidade é a parte emersa de um icebergue profundo de não- cientificidade. A descoberta de que a ciência não é totalmente científica é, a meu ver, uma grande descoberta científica. Infelizmente, a maior parte dos cientistas ainda não a fizeram...
É todo o espírito humano que se encontra mobilizado. Por isso, todos os elementos constitutivos do conhecimento científico – uns que tem suas raízes na cultura, na sociedade, outros no modo de organização das idéias, da teoria – obrigam-nos a uma interrogação que excede o quadro da epistemologia clássica. Colocam-se-nos necessariamente todos os problemas do conhecimento e somos levados a encarar o problema da relação do espírito humano, da teoria, relativamente ao real. (p. 18)
Dessa forma, o método, que trazemos para o campo da pesquisa científica, deve ser capaz de considerar a amplidão e a integralidade das questões acima trazidas, sem reduzir, fragmentar ou despedaçar mecânica, lógica e linearmente a realidade investigada, posto que tal realidade também é interativa, viva, integrada e vivida pelos próprios investigadores. Evocamos o poder de síntese e a propriedade de Morin para melhor delinear tal noção de método no pensamento complexo.
Em seu diálogo, o pensamento complexo não propõe um programa, mas um caminho (método) no qual ponha à prova certas estratégias que se revelarão frutíferas ou não no próprio caminhar dialógico. O pensamento complexo é um estilo de pensamento e de aproximação da realidade. Neste sentido, ele gera sua própria estratégia inseparável da participação inventiva daqueles que o desenvolvem. É preciso pôr à prova metodologicamente (no caminhar) os princípios gerativos do método e, simultaneamente, inventar e criar novos princípios. (MORIN, CIURANA e MOTTA, 2003, p. 31)
Nesse sentido, apostamos nesta investigação na capacidade de um “método/caminho/ensaio/estratégia” (idem, p. 33) de identificar, captar, apreender, construir e sistematizar as nuanças das complexas tramas próprias ao recorte de realidade que constituem o contexto deste estudo, a fim de propiciar a leitura e a elaboração de uma compreensão interpretativa coerente, pertinente e válida sobre os fenômenos estudados, relativos a processos sócio-psicológicos, em âmbito comunitário, que perpassam a atuação de profissionais trabalhadores de uma política pública governamental, concretizada por programas comunitários disponibilizados à população em espaços públicos comunitários.
Trata-se, portanto, de um método que é vivo, que aprende, que se modifica e se gera na medida em que se dá, que precede e ao mesmo tempo gera a experiência investigada; que é muito mais uma trilha do que um trilho; onde a verdade é situada em sua crise, mas também é buscada; que avança na dialógica entre se constituir como um(a) programa(ação) que prevê claramente passos e ações ou uma estratégia que lida de forma
crítica e criativa com os imprevistos; que devolve ao sujeito cognoscente, especialmente ao investigador, um papel crítico, ativo e criativo na construção do conhecimento, visto que deverá gerar estratégias para criar e sistematizar um conhecimento legítimo e significativo sobre a realidade vivida, em meio ao caos e à incerteza que marcam sua complexidade.
O pensamento complexo e a noção de método daí decorrente contribuem, assim, com o desenvolvimento deste estudo, especialmente pelas complexas peculiaridades que marcam a realidade e os fenômenos investigados, bem como pela relação que temos com essa mesma realidade. Convém destacarmos aqui a inserção que temos na Política Pública Municipal de Esporte e Lazer, em que compusemos o corpo funcional de integrantes da Secretaria de Esporte e Lazer de Fortaleza, órgão responsável pela gestão da referida política pública.
Apresenta-se como um desafio significativo integrar criticamente os papéis de pesquisador e integrante do contexto pesquisado, especialmente quando de pronto já se assume o viés crítico-propositivo e superador no ato de investigar aspectos da própria realidade de trabalho. O desafio se torna ainda mais intenso quando a realidade de trabalho, cotidianamente testemunhada, toma como missão a transformação social emancipatória junto aos grupos, classes e setores mais massacrados pela histórica e rotineira marginalização sócio-cultural, política e econômica.
Contudo, por mais que estejamos inseridos no próprio contexto que investigamos, não situamos tal processo de investigação como facilmente delimitado dentro de uma pesquisa-ação, pesquisa-participante ou pesquisa-ação-participante. Assim, a necessidade da realização da pesquisa; o delineamento de seu problema e de seus objetivos; a definição das estratégias e ferramentas metodológicas para construção do seu
corpus, bem como sua análise; enfim, toda estrutura e estratégias da investigação não
contaram com a participação dos sujeitos diretamente envolvidos. O planejamento e a realização da pesquisa não contaram com a participação ativa dos demais interessados, que apenas atuaram nas entrevistas para o levantamento dos conteúdos a serem analisados.
Por outro lado, identificamos a influência das abordagens de pesquisa-ação e pesquisa-ação-participante em nosso que-fazer investigativo. Apontamos como pontos que refletem essa identificação: a) o compromisso ético-social e político-ideológico que assumimos com a realidade investigada, colocando a prática da pesquisa como uma atuação acadêmico-científico-profissional criticamente engajada no contexto vivido e pesquisado; b) a perspectiva participativa, crítica e dialógica que perpassa o processo de construção do conhecimento pela investigação, seja na articulação das leituras que integram nosso marco teórico, seja na escolha dos métodos que operacionalizam nossa pesquisa, ou mesmo na forma como são analisados e interpretados os conteúdos engendrados nesse percurso investigativo.
Tais elementos levam a crer que procedemos, neste trabalho, a uma investigação crítico-dialógica, apoiada e inspirada fortemente em marcos ético- metodológicos criativos, críticos, ativos e participativos de uma perspectiva de pesquisa libertadora em ciências humanas e sociais. Assim, tentamos evidenciar a complexidade desta ação investigativa, diante do que se faz necessário o recurso ao pensamento complexo, aliado aos acúmulos de determinados métodos e metodologias críticas, participativas e populares, enraizadas e produzidas especificamente na América Latina, com vistas à libertação de nosso povo oprimido (cf. BRANDÃO, 1985; BORDA, 1992).
De forma mais precisa, para a operacionalização da investigação ora proposta, optamos pela metodologia da pesquisa qualitativa para tratar os fenômenos abordados. Acreditamos que a opção por tal metodologia de pesquisa seja mais adequada à natureza desta investigação, cujo foco reside na compreensão e não na quantificação dos fenômenos tratados (RICHARDSON, 1985), malgrado a pesquisa qualitativa também lançar mão da quantificação para a compreensão de tais fenômenos.
A pesquisa qualitativa permite uma verticalização, um aprofundamento da análise e da leitura das informações construídas a partir do prisma conceitual apontado pelo referencial teórico previamente adotado, permitindo a utilização de amostras pequenas. Tal particularidade, por um lado, amplia a validade interna da pesquisa, conferindo-lhe significativa consistência, e por outro, restringe sua validade externa, o que
limita a possibilidade de estabelecer nexos mais amplos, generalizando conclusões elaboradas com a discussão dos resultados.
Vale ressaltar a importância de delimitarmos critérios de confiabilidade para a validação interna e externa, a fim de que em outras investigações se possam verificar nexos, relações e constatações similares, considerando a utilização de instrumentais semelhantes para a construção e interpretação do corpus da pesquisa (BAUER; GASKELL, 2000).