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Os passos iniciais que marcaram o processo que levaria ao encontro entre os padres europeus, por intermédio dos “filhos” de Dom Bosco, e dos sertanejos, representados pelos “afilhados” do padre Cícero, serão aqui retratados como um fenômeno histórico de implantação e expansão de uma rede de ensino em Juazeiro do Norte.

Um fato chama a atenção, preocupado com encontrar sucessores para continuar o seu projeto social, padre Cícero, por Testamento Cerrado, doou todo o seu patrimônio à Congregação Salesiana e, desta forma, confiou aos padres salesianos o prosseguimento da sua missão, na qualidade de herdeiros universaisesucessores.A história, então, começou assim: ele nomeou, em testamento cerrado, de 4 de outubro de 1923, a Congregação Salesiana como herdeira universal, e, em seguida, comunicou por carta ao padre Carlos Leôncio da Silva, diretor do Colégio Salesiano do Recife, que havia feito dos salesianos seus herdeiros universais e o convidou a visitar Juazeiro do Norte. Não encontramos registro dessa visita, mas o padre Antenor de Andrade Silva, em seu livro Os arquivos do padre Cícero (1977), revela que o primeiro contato do padre Cícero com os salesianos, foi com o inspetor de então, o padre Pedro Rota25. Ambos se encontraram no mesmo trem de Caruaru a Recife, quando da viagem do padre Cícero a Roma.

O controvertido patrimônio do padre Cícero, condenado por Dom Joaquim José Vieira (1884-1912), bispo de Fortaleza, e por Dom Quintino Rodrigues Vieira de Oliveira e Silva, (1916-1929) bispo do Crato, por ser adquirido, segundo esses bispos, graças ao “milagre” condenado pela Igreja, considerado como uma crença falsa, propagada como sacrilégio, resultado de um “embuste”, tornou-se mais tarde disputado pela Diocese do Crato, que não aceitou os padres salesianos como principais herdeiros.

Padre Antenor de Andrade Silva, ex-diretor do Colégio Salesiano de Juazeiro do Norte, em seu livro Cartas do padre Cícero e em entrevista a nós concedida em Natal, em 2008, assevera que os salesianos não são os maiores beneficiários dos bens deixados pelo

25 Padre Pedro Rota: inspetor salesiano responsável pelas primeiras negociações para instalação da Congregação

Salesiana em Juazeiro do Norte. Concluído o seu mandato em 1932, viajou para a Europa, diminuindo a correspondência com o padre Cícero.

padre Cícero.

Após a Revolução de 1914, apesar de ter sido vitoriosa, destituindo o presidente do Estado, cel. Franco Rabelo, o pe. Cícero percebeu que as estruturas políticas e eclesiásticas não viam com bons olhos o movimento religioso popular de Juazeiro do Norte e que havia articulações para esmagá-lo mediante ações do governador do Estado, Cel. Benjamin Barroso, que, na pretensão de combater o cangaço com os “batalhões patrióticos” havia clara e intensa perseguição aos romeiros que visitavam Juazeiro do Norte. Além disso, com a criação da sede da Diocese, na cidade do Crato, ficava evidente o fato de que a perseguição religiosa seria intensificada, principalmente porque o poder episcopal fora confiado ao padre Quintino, o mais ferrenho adversário da causa de Juazeiro do Norte.

Com esse quadro político adverso, o padre Cícero, criando táticas de sobrevivência para si e para a sua cidade, concebeu buscar apoio de instituição religiosa que gozasse de prestígio junto à Santa Sé para defendê-lo no processo canônico ainda pendente de solução para reassumir plenamente as “ordens” sacerdotais, das quais se encontrava suspenso. Para obter esse apoio, o padre Cícero legava todos os seus bens.

Depois de duas tentativas de escolha de seu herdeiro universal, o padre Cícero, finalmente, em 04 de outubro de 1923, legou todos os seus bens à Congregação Salesiana, que, na condição de herdeira universal, cuidasse da educação da juventude de Juazeiro do Norte e desse continuidade a sua obra social.

[...] A Diocese do Crato quis, em primeiro lugar, anular o Testamento do Padre Cícero, recorrendo aos tribunais civis brasileiros e não obteve êxito em suas demandas. Diante de suas fracassadas tentativas, a Diocese do Crato articulou-se com a alta hierarquia da Igreja no Brasil, de modo especial com Dom Sebastião Leme, para negar a permissão de entrada dos salesianos em Juazeiro.

Com fundamento nas normas do Direito Canônico, o titular da Diocese do Crato não concedia o ‘placet’ para que os salesianos viessem se estabelecer em Juazeiro. Essa dura disputa, Diocese do Crato e Salesianos, durou 10 (dez) anos.

Finalmente,noiníciode1934, chegou-se a um termo essa disputa, numa negociação intermediada pelo Núncio Apostólico, Cardeal Sebastião Leme, Diocese do Crato e a Congregação Salesiana. O acordo foi o seguinte: o Padre Cícero faria uma doação, mediante Escritura Pública de 50% dos seus bens à Diocese do Crato e os outros 50% ficariam com os Salesianos. Essa doação ocorreu mediante Escritura Pública lavrada no L 17, fls.1/5, datada de 17 de janeiro de 1934, no Cartório Machado.

Como essa doação à Diocese do Crato continha ‘cláusulas especiais’ para sua efetivação, para evitar demandas jurídicas, a Diocese do Crato só permitiu a vinda dos Salesianos, em fins de 1938, quando já tinha sido alienada a quase totalidade dos bens doados à Diocese do Crato.

A demora da vinda dos Salesianos a Juazeiro se deu não em razão da questão religiosa – ‘Milagres de Maria de Araújo’ e sim pela disputa dos bens legados aos salesianos. (Entrevista: GEOVÁ SOBREIRA MAGALHÃES, Brasília, 2011).

Assim, nasceu a curiosidade de conhecer melhor essa história. Para tanto, encontrei o livro Padre Cícero entre os rumores e a verdade, obra escrita por Paulo Machado, com a intenção de analisar o inventário do padre Cícero Romão Batista, autuado no dia 20 de agosto de 1934, pelo escrivão substituto Antonio Machado, do Cartório Machado – 2° Ofício, desta Comarca de Juazeiro do Norte, Estado do Ceará, tendo como inventariante Antônio Luiz Alves Pequeno e o juiz, dr. Plácido Aderaldo Castelo.

Passaremos a seguir a indicar alguns pontos dessa análise, conforme o autor, quando ele apresenta os maiores legatários do total Partível Líquido: “Congregação Salesiana fica com 66,29%; Matriz de Nossa Senhora das Dores: 19,57%; Antônio Luiz Alves Pequeno: 9,09%; Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro: 3,60%; Legatárias: 1,08%; São Miguel: 0,36%” (MACHADO, 2001, p. 106).

Salienta-se que o auto de partilha deixa claro que os salesianos foram os maiores beneficiados com o espólio do padre Cícero, porém, ele observa que o Testamento Cerrado foi lavrado:

[...] no dia 4 de outubro de 1923. E, este TESTAMENTO somente foi aberto no dia 27 de julho de 1934, ou seja, 7 dias após o óbito do Padre Cícero – 20 de julho de 1934. Nesse período compreendido de 1923 a 1934, mais precisamente, 11 anos, o patrimônio inserido no mesmo Testamento sofreu alteração por força de circunstâncias previsíveis. [...] Em que pese à impiedosa necessidade do Padre Cícero vender os seus bens para se manter, permutas para atender às conveniências particulares, doações para contemplar aos apelos circunstanciais ou alienações para pagar compromissos assumidos; as transações, nesse período de 11 anos, oscilaram entre compras e vendas permutas e doações, arrendamentos e hipotecas, etc. (MACHADO, 2001, p. 111-112).

Esclarece na sua análise que houve grande disputa por esses bens, entrando em cena a Diocese do Crato, reivindicando para si o direito de ser a herdeira, e assim, aconteceu, conforme carta enviada ao padre Cícero, consoante é citado por Silva (1982, p. 318-319):

Nº 10.127

Em 5 de Junho de 1933 Excia. Revma.

Junto com a prezada carta de V. Excia. Revma. de 17 de maio PP. Recebi a cópia da resposta do Revdº Cícero Romão Batista de Juazeiro de cujo conteúdo me inteirei com viva satisfação.

Espero agora quanto antes ser informado de que os bens em questão foram entregues a Mitra e que o Governo deu isenção dos impostos solicitada.

Rogo a V. Excia. queira significar ao R.P. Cícero que continue os seus empenhos para obter a isenção dos impostos e dizer-lhe que o abençôo.

Aproveitando a oportunidade reitero a V. Excia. as seguranças da effectuosa e distincta consideração com que prezo-me de ser.

Seu mui dedicado em Christo Bento, Arcebispo de Cesarea. Núncio Apostólico.

O autor ainda acentua que o espaço de tempo entre o falecimento do padre Cícero (1934) e a chegada da Congregação à cidade (1939) favoreceu o desaparecimento de muitos dos bens deixados para a congregação e que a solução do problema relacionado aos impostos foi dada pelos juristas brasileiros e não pelos juristas canônicos de Roma. Assim, por não conseguir a isenção de impostos pretendida pela Diocese de Crato, esta desistiu da posse dos bens, passando para os salesianos a responsabilidade de pagar essa dívida. Isto nos leva a repensar sobre a propalada riqueza herdada pelos padres salesianos. Como verificamos, trata- se de um tema controvertido, portanto, havendo interesse em aprofundar o conhecimento sobre o assunto, recomendamos consultar os autores citados.

Pretendemos verificar por que a obra de Dom Bosco foi escolhida pelo padre Cícero para que este desejasse ver a continuação do seu trabalho e de seu apostolado nas ações da Congregação Salesiana, que por intermédio da educação e da formação religiosa da juventude de Juazeiro do Norte, especialmente a parcela mais pobre, textualmente especificada no testamento, conduzisse as transformações sociais necessárias neste sertão nordestino. Desde então, podemos conhecer as sonhadas funções da educação formal pelo padre Cícero e a intenção da Igreja Católica, por meio do clero regular, deter o monopólio da educação na região sob o controle do bispo do Crato.

A insistência do padre Cícero para que os salesianos viessem logo para Juazeiro do Norte para início de suas obras, e o intenso diálogo mantido com a Congregação Salesiana, mediante uma vasta e rica troca de correspondências com as quais tivemos contato durante a pesquisa feita no Arquivo do Salesiano em Juazeiro do Norte, e a maioria delas publicadas pelo padre Antenor de Andrade Silva, elucida as razões de sua intenção de trazer a obra salesiana para Juazeiro do Norte, tornando esta causa não apenas dele, mas parte do desejo de muitos habitantes da cidade.

Este fato é verificado quando a sociedade local e alguns comerciantes de Juazeiro do Norte, em 1939, se cotizaram doando em dinheiro vivo a importância de 60 contos de réis para que os salesianos iniciassem imediatamente a construção do Colégio, e estender a sua ação educacional a toda juventude da cidade, independentemente de posição social. Cidadãos de Juazeiro do Norte doaram, também, o terreno onde foi edificado o Colégio, contendo algumas casas, para que os salesianos não alienassem bens imóveis constantes do testamento do padre Cícero; a Prefeitura de Juazeiro do Norte também doou a antiga praça Pio X, onde se encontra hoje edificado o Santuário do Sagrado Coração de Jesus, de propriedade dos salesianos, fato que discutiremos adiante.

Benzer Belgeler