3. BULGULAR
3.5. Familya: STIGMAEIDAE Oudemans, 1931
3.5.19. Stigmaeus devlethanensis Akyol ve Koç, 2007
A história do Estado do Pará, no qual identificamos a localidade de Eldorado do Carajás, de alguma forma, repete as experiências de outras regiões do país que se encontram afastadas dos grandes centros econômicos. O isolamento a que estas áreas foram submetidas contribuiu para o desenvolvimento e para a consolidação de uma estrutura política e econômica conservadora e excludente. Os altos índices de desigualdade social que marcam estas regiões foram produzidos a partir de um sistema de exploração da terra com base na grande propriedade e na exploração de grandes contingentes de mão-de-obra recrutada junto às camadas empobrecidas da população local.
A exploração econômica no Pará pode ser dividida e analisada, de um modo geral, a partir de três grandes momentos. Um primeiro grande ciclo econômico, advindo da década de 1920, é associado à exploração da castanha-do-pará. Em parcerias estabelecidas com o governo federal, a elite local arrendava imensas áreas de floresta tropical e, por alguns meses do ano, contratavam trabalhadores para a coleta do produto. Além dos baixíssimos salários, muitos destes trabalhadores eram submetidos a castigos físicos. A partir da década de setenta, como parte de um projeto de integração nacional promovido pelo governo militar, grandes empresas nacionais e internacionais adquirem terras na região. Com relação à aquisição de terras empreendida pela empresa Volkswagen, Sue Branford e Jan Rocha (2004, p. 182) destacam:
A Volkswagen, por exemplo, fundou uma fazenda do tamanho da Grande São Paulo. As empresas chegavam para desmatar a área e encontravam posseiros já estabelecidos naquelas terras. Enviavam, então, pistoleiros para desocupá-las. De 1984 a 1986, a Volkswagen tinha de 700 a 800 peões que trabalhavam em sua fazenda, em condições próximas da escravidão.
Finalmente, a partir de 1980, uma terceira fase do processo de exploração econômica da região terá início. Esta fase será caracterizada pelo desenvolvimento da exploração mineral. Tal atividade estará representada, tanto pela exploração do garimpo de Serra Pelada, como pelo projeto minerador coordenado pela Companhia Vale do Rio Doce.
A este contexto de exploração econômica que caracteriza o Pará, devemos somar ainda um outro elemento que marca de forma muito expressiva a região: a violência. Além da grande violência imposta pelo governo federal no processo de desarticulação da ação guerrilheira na região do Rio Araguaia no início da década de setenta, lembrança esta que ainda hoje se mantém viva47, a população local convive, historicamente, com a violência imposta aos posseiros na região que, ao não se submeterem às determinações da elite local, são transformados em vítimas desta mesma elite. Com relação a alguns números referentes à violência no Pará, destaca Eric Nepomuceno (2007, p. 58)
No cenário de violência do campo brasileiro, o Pará se consolidou como o principal produtor de mortos. Entre 1994 e 2004, pelo menos 173 pessoas foram assassinadas, outras 501 viveram sob permanente ameaça de morte e houve pelo menos 837 conflitos violentos entre pistoleiros a serviço dos latifundiários e agricultores. Considerando-se a estatística desse horror, o Pará surge, disparado, como paladino e estandarte: 45% dos trabalhadores rurais assassinados no Brasil a cada ano foram mortos ali, em meio ao vendaval de violência cuja dinâmica não cessa. Em 1996, a participação do Pará no total de trabalhadores rurais assassinados no país alcançou o auge: 72%.
Será, pois, dentro do referido contexto, que o MST passará a atuar. Mesmo que a presença do movimento na região do estado do Pará possa ser associada a meados da década de oitenta, é possível indicar que a consolidação de suas ações viria a ocorrer tão somente na
47“É uma coisa ate hoje impressionante. O medo das pessoas ainda não passou”, disse Maria Célia Nunes
Coelho, geógrafa do Núcleo de Estudos Avançados da Amazônia. “Eles transmitiram isso para os filhos, o medo,
o terror. Medo das torturas, da repressão, porque isso representou para eles custo de vidas. Muitos perderam os
década seguinte48. As disputas envolvendo o MST e a Companhia Vale do Rio Doce marcaram de forma expressiva a presença do movimento na região. Em 1994, um grupo de 2000 famílias ocuparam terras da empresa, bem como realizou um acampamento formado por integrantes do movimento em frente à sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), em Marabá, em maio de 1995, que culminou com uma nova ocupação de áreas da fazenda Rio Branco49, a qual o INCRA posteriormente iria adquirir junto aos seus proprietários e repassar aos sem terra.
A partir destas mobilizações, as ações do movimento na região não cessaram e, em novembro de 1995, o movimento dirigiu-se para a região de Curionópolis, montando acampamento à beira da estrada e definindo a fazenda Macaxeira50 como o alvo de uma nova ocupação. Mesmo a fazenda recebendo, em março de 1996, a avaliação de área produtiva por parte do INCRA, o MST procede à ocupação de um de seus lotes. No mês seguinte, frente ao silêncio das autoridades locais, o movimento organiza uma marcha, com aproximadamente 4000 integrantes, que iria se deslocar da fazenda Macaxeira até a sede do INCRA em Marabá e, posteriormente, até Belém. Dentre os objetivos da marcha, os representantes do Movimento Sem Terra almejavam conseguir uma audiência com o superintendente estadual do INCRA, Walter Cardoso, e com o governador Almir Gabriel (PSDB), a fim de exigir destes a desapropriação do complexo da Macaxeira para fins de reforma agrária.
Paralelo ao processo de organização do MST, representantes de organizações vinculadas aos proprietários rurais51 mantinham reuniões com os secretários de Segurança, Paulo Sette Câmara, de Interior e Justiça, Aldir Viana, e com o próprio governador do estado, Almir Gabriel. Com relação ao teor de uma destas reuniões, Eric Nepomuceno (2007, p. 133) afirma:
48“O MST estabeleceu sua presença no Pará, a meados da década de 1980, durante o ponto alto da luta dos posseiros. No entanto, só se tornaria uma organização verdadeiramente autônoma e operante na década de 1990. O lento progresso do MST refletiu uma série de fatores. Um dos mais significativos foi a tradição de luta dos posseiros. [...] Além disso, quando o MST finalmente começou a organizar as próprias ocupações no Pará, o contexto político para a reforma agrária em nível nacional havia piorado e era difícil obter concessões. No entanto, na década de 1990, o MST consolidou bases no estado e conquistou algumas importantes vitórias na
região de Marabá. Com isso foi acumulando forças para a disputa com a estrutura de poder da oligarquia local.”
(ONDETTI; WAMBERGUE; AFONSO, 2010, p. 265)
49 A fazenda Rio Branco corresponde a uma grande propriedade na região de Carajás, controlada pela família Lunardelli, e é considerada como uma das maiores produtoras de café dos estados de São Paulo e Paraná. (ONDETTI; WAMBERGUE; AFONSO, 2010)
50
A fazenda Macaxeira corresponde a uma propriedade de 42.000 hectares localizada entre os municípios de Curionópolis e Eldorado dos Carajás. Mesmo tendo sido dividida em alguns lotes, a família Pinheiro, representante da tradicional oligarquia de Marabá, ainda se mantinha como proprietária de parte da fazenda. (ONDETTI; WAMBERGUE; AFONSO, 2010)
51 As organizações representadas no encontro foram: o Sindicato dos Produtores Rurais de Curionópolis, o Sindicato dos Ruralistas de Marabá e a Federação dos Fazendeiros do Estado do Pará.
Todos, principalmente o governador, ouviram exigências claras de ações mais duras contra o MST. Sette Câmara recebeu uma lista com os nomes das lideranças consideradas mais perigosas. Por uma ironia das coincidências, foram listados 19 nomes – o mesmo número de mortos em Eldorado do Carajás.
No dia 10 de abril teve início a caminhada. Após cinco dias de caminhada, padecendo com a fome, o cansaço e as doenças, os manifestantes resolveram promover um ato de protesto bloqueando a rodovia PA-150, considerada a principal via de acesso entre Marabá e o sul da região de Carajás. Em negociações com representantes da Polícia Militar, os sem terra desocuparam a rodovia, mediante a promessa de oferta de transporte feita pela PM, que levaria parte dos manifestantes para Marabá e outro grupo para Belém. Em decorrência do descumprimento do acordo, os manifestantes retomaram o bloqueio da rodovia no dia seguinte.
Analisando o saldo do embate ocorrido entre os manifestantes do MST e as tropas militares, Sue Branford e Jan Rocha (2004, p. 191) afirmam:
No fim da operação, havia 19 mortos e nenhum ferido, o que confirma as afirmações das testemunhas oculares dos sem terra: terminado o conflito, a polícia matara, a sangue frio, todos os feridos que não conseguiram sair da estrada. Treze dos mortos eram líderes locais do MST, fato que é coerente com as alegações do movimento de que, com o auxílio de pistoleiros das glebas, a política visava as pessoas-chave.
O processo de desobstrução da rodovia, levado a cabo pela Polícia Militar do Pará, em 17 de abril de 1996, quando 19 pessoas52 foram assassinadas, transformou-se em uma das mais violentas ações contra o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra na história dos conflitos agrários em todo o país.
52 Foram vítimas do massacre em Eldorado do Carajás: Altamiro Ricardo da Silva, 42 anos; Antônio Costa Dias, 27 anos; Raimundo Lopes Pereira, 20 anos; Leonardo Batista de Almeida, 46 anos; Graciano Olímpio de Souza (Badé), 46 anos; José Ribamar Alves de Souza, 22 anos; Oziel Alves Pereira, 17 anos; Manoel Gomes de Souza, 49 anos; Lourival da Costa Santana, 26 anos; Antônio Alves da Cruz, 59 anos; Abílio Alves Rabelo, 57 anos; João Carneiro da Silva; Antônio, conhecido como “Irmão”; José Alves da Silva, 65 anos; Robson Vitor Sobrinho, 25 anos; Amâncio dos Santos Silva, 42 anos; Valdemir Ferreira da Silva, conhecido como “Bem-Te-
Vi”; Joaquim Pereira Veras, 32 anos; João Rodrigues Araújo. Pela falta de documentação, não foi possível
3.1.2 Entre constitucionais e autônomos, a violência como garantidora da ordem social