• Sonuç bulunamadı

Dentre as três perspectivas de análise apresentadas em relação ao processo de criminalização do EZLN e do MST, a promoção de ações armadas pelos movimentos, ou mesmo o simples porte de armas, é uma das características básicas denunciadas tanto pelo El Universal, como pelo O Globo.

A partir de uma manchete na qual se pode identificar claramente o tom acusatório em

relação às ações promovidas pelo EZLN (“Buscan los ‘zapatistas’ alargar el conflicto”),

utilizando-se das palavras de Fidel Velázquez (presidente da Confederación de Trabajadores

de México - CTM), o El Universal (03/01/1996, p. 11) publica: “Nadie tiene derecho a usar

armamento como ellos quieran, porque si a un ciudadano lo sentencian por portar una pistola a no sé cuántos años, imagínese a los “zapatistas” a cuántos tendrían que

sentenciarlos por usar hasta cohetes antiaéreos”.

Além de denunciar o porte de armas pelos zapatistas, nas páginas do El Universal podem ser encontradas, em diferentes ocasiões, reportagens que indicam a condição ilegal do acesso a estas armas. Em reportagem do dia 04 de janeiro de 1996, a acusação é realizada pelo próprio embaixador nicaraguense Ernesto Fonseca que, além de reconhecer o tráfico de armas de seu país para o México, indica o estado de Chiapas e, mais especificamente, as forças zapatistas, como destinatários das mesmas. Publica o El Universal (04/01/1996, p. 05):

El embajador de Nicaragua en México, Ernesto Fonseca Pasos, admitió que desde aquella nación se ha traficado con armas que tienen como destino el estado de Chiapas, concretamente dirigidas al Ejército Zapatista de Liberación Nacional, sin que las autoridades hayan podido hasta el momento evitar-lo. (...)

En este sentido, destaco que los países en vías de desarrollo deberán hacer un frente para que se disminuya la fabricación de armas que sirven después para movimientos

extremistas como el que se registra en el estado de Chiapas, y como hace unos

años fue en Nicaragua con el FSLN. (EL UNIVERSAL, 04/01/96, p. 05)

A associação do EZLN ao tráfico de armas pode ser percebida novamente em uma reportagem na qual o El Universal indica a detenção de um traficante. Mesmo sem identificar o traficante como um membro do grupo zapatista, há uma vinculação muito clara entre a atuação do movimento na região e a entrada de diferentes artefatos bélicos. Sob a manchete

de “Cae un contrabandista de armas en un retén, cerca de Tapachula”, o El Universal

Policías Judiciales Federales (PJF) detuvieron este domingo (…) Joaquín Alberto

Lara Acosta, cuando pretendía burlar la vigilancia de un puesto de control policiaco llevando consigo cuatro cajas con 80 cartuchos útiles calibre 223 para fusiles de

asalto AR-15.

De acuerdo con informes de autoridades judiciales desde el alzamiento armado del

EZLN en 1994, elementos federales, estatales y hasta municipales han asegurado 30.000 cartuchos de diversos calibres, 20 cartuchos de dinamita e igual número de detonadores así como una veintena de kilos de material explosivo.

Às sucessivas notícias acerca do porte e tráfico de armas por parte do EZLN, o El Universal irá somar as reportagens que materializam, de alguma forma, os resultados apresentados pela violência armada na região sob o controle zapatista. Como exemplo deste grupo de reportagens, encontramos a matéria apresentada no dia 04 de maio de 1998, na qual pode ser lido:

Con respecto al incidente de Rincón Chamula, la Procuraduría de Justicia informo que individuos vestidos de negro y cubiertos con capuchas asesinaron a tiros a Domingos Sánchez Bautista, Luis Pérez Bautista, Mateo Gómez Gómez y Luis López Bautista, los tres primeros de 16 años de edad y el último de 18, quienes, según los lugareños, se dedicaban a asaltar en caminos de extravío y siempre

salían de noche con vestimenta negra.

Fuentes consultadas dijeron que los cuatro jóvenes pertenecían a las milicias del

EZLN que operan en la región, con una importante presencia, y que desde al

estallido armado se dedicaban a exigir los llamados impuestos de guerra. […] El lugareño José Luis Guillén Salazar, entrevistado vía telefónica, afirmó que las cuatro personas pertenecían al EZLN y su ejecución pudo ocurrir por una venganza.

[…]

“Algunos habitantes de comunidades vecinas mencionan que en varias

ocasiones fueron vistos vestidos de negro y verde, encapuchados, portando armas de grueso calibre”, dijo Guillén Salazar. (EL UNIVERSAL, 04/05/1998, p.

14)

A condição armada apresentada pelo EZLN nas páginas do El Universal poderá engendrar uma série de outras relações que irão aproximar, mesmo que implicitamente, o movimento zapatista a outros grupos criminosos, o que irá transformar a região de Chiapas em um contexto bastante hostil.

Y pensar en un sureste en llamas quizás no sea importante ni le preocupe a la indolente administración FOX, que hace rato tiró la toalla y parece resuelta a dejar a un país inmerso en la ilegalidad, la violencia y la ingobernabilidad; pero Chiapas

y Oaxaca conforman no sólo una compleja región en términos sociales y políticos, sino un corredor, puerta de entrada, para la desordenada y olvidada frontera sur, por donde lo mismo se mueven las mafias del tráfico de personas, de armas o de

la droga que llega de Sudamérica hacia Estados Unidos o incluso la latente amenaza

terrorista tan temida en Washington.

A denúncia da posse ilegal de armas como já afirmamos, também será uma das formações discursivas apresentada pelo O Globo no processo de criminalização do MST. A elaboração de uma imagem do MST como um movimento armado pode ser representada por basicamente duas formações discursivas. Um primeiro conjunto de reportagens pode ser caracterizado por um discurso que fará referência aos utensílios utilizados pelo movimento como sendo armas. Mesmo envolto por todo um caráter simbólico, o qual pautou a mobilização da militância do MST à Brasília, a presença de enxadas e foices foi denunciada como ameaça. Segundo reportagem do O Globo (11/04/97, p. 08): “Seligman não quer que a polícia reviste os sem terra, mas espera a cooperação do MST para que não tragam foices, enxadas e machados: - Foice e enxada na cidade são armas – explicou.”.

A apresentação do MST como um movimento armado, entretanto, supera a simples analogia feita em relação aos seus instrumentos de trabalho. Mesmo não se referindo a um processo de apreensão de armas junto aos militantes sem terra, ou ainda, reproduzindo simplesmente a opinião de proprietários rurais, figura nas páginas de O Globo a denúncia do

porte ilegal de armas por parte do movimento. Tendo como manchete: “MST usa armas de

fogo em ocupações”, a reportagem comenta:

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) retomou as ocupações de terras em Pernambuco, mas dessa vez seus militantes não se limitaram a levar enxadas, foices, facões, lonas pretas e bandeiras vermelhas como de costume.

Eles tinham também espingardas calibre 12 e revólveres em duas ocupações no

Agreste: a primeira em Bonito, no fim de semana, e a outra ontem, em Quipapá. [...] Ontem, também usando armas, 300 famílias do MST ocuparam o Engenho Pajuçara, em Quipapá, a 188 quilômetros de Recife.

Mesmo identificando na fala de algumas lideranças do Movimento Sem Terra, de forma bastante clara, a sustentação do uso de armas como mecanismo de autodefesa em relação a grupos de jagunços e pistoleiros pretensamente contratados por proprietários rurais, as manchetes apresentadas pelo O Globo assumem outra conotação. Em reportagem na qual

comenta os processos de ocupação de terras promovidos pelo MST, os conflitos estabelecidos com proprietários rurais, bem como os enfrentamentos com grupos de pistoleiros, O Globo

destaca em sua manchete a seguinte denúncia: “Movimentos pela reforma agrária pregam a luta armada no campo, em Pernambuco.” (O GLOBO, 08/10/1998, p. 12).

No dia seguinte, 09 de outubro de 1998, mesmo anunciando o ferimento de militante sem terra na manchete da reportagem (“Sem terra é ferido em conflito com a polícia em

PE”), O Globo não se furta em atribuir a culpa, mesmo que de forma implícita, à opção armada feita pelo movimento. Destaca o jornal: “O incidente ocorreu um dia depois de

quatro movimentos de luta pela terra que atuam na região terem defendido o uso de armas

para enfrentar pistoleiros contratados por fazendeiros.” (O GLOBO, 09/10/1998, p. 15).

Seguirá a este processo de criminalização midiática em relação à posse de armas um segundo movimento, representado pela divulgação do enquadramento jurídico ao qual o MST

será submetido. Tendo como manchete, “PF processa sem terra que defendeu luta armada”, O Globo (10/10/1998, p. 10) relata:

O ministro da Justiça, Renan Calheiros, determinou ontem à Polícia Federal que

instaure inquérito contra o líder do Movimento dos Sem Terra (MST) em

Pernambuco, Jaime Amorim, por suas entrevistas defendendo o uso de armas na

ocupação de terras. O sem terra será acusado de apologia ao crime e incitação à violência e à luta armada e, se condenado, poderá ser punido com até um ano de

detenção. Calheiros e o ministro da Reforma Agrária, Raul Jungmann, se reuniram com o vice-procurador-geral da República, Haroldo Ferraz da Nóbrega, para pedir que acompanhe o inquérito e, se possível, instaure ação penal contra Amorim.

Mesmo identificando nas denúncias realizadas em relação à posse de armas um elemento em comum nas formações discursivas apresentadas pelos jornais em relação aos movimentos sociais, cabe destacar que elementos em relação ao processo de criminalização guardam características regionais, sustentadas pelas diferentes trajetórias, tanto dos movimentos como de seus respectivos países. Com relação ao contexto mexicano, destaca-se a defesa ao Estado Democrático e, consequentemente, à indicação de desrespeito a este por parte do EZLN; enquanto que em relação ao Brasil e, mais especificamente, em relação ao MST, a imputação de conduta criminosa se dará por intermédio das denúncias relacionadas aos diferentes processos de invasões de propriedades rurais ou prédios públicos.

Antecipando nossa análise no que se refere ao caso mexicano e às pretensas agressões cometidas pelo EZLN ao Estado Democrático denunciadas pelo El Universal, cabe-nos destacar algumas reflexões realizadas por Oscar Correas (2011). O referido autor analisa em seu trabalho um conjunto bastante vasto de elementos que, dentro do contexto latino- americano contemporâneo, caracterizam as relações entre os movimentos sociais e as estruturas do Estado Democrático. Segundo Correas (2011, p. 09), a noção de Estado Democrático:

[...] es concebido como una trampa lingüística que al fundar la aplicación o existencia del estado de derecho en la efectividad de las normas jurídicas existentes, es utilizado para legitimar un derecho que tiene un papel activo y fundamental en la dominación capitalista, desarmado ideológicamente a las clases subalternas.

Desta forma, destaca ainda o autor (CORREAS, 2011, p. 40): “Así, la expresión estado de derecho, destinada a frenar al poder, se convirtió en el fundamento de la represión conducida por el poder de las clases dominantes.”

Será, pois, dentro deste contexto político latino-americano, no qual a noção de Estado de Direito foi apropriada pelas elites dominantes, que passaremos a analisar algumas das diferentes reportagens publicadas em relação às práticas apresentadas pelo EZLN.

Representativas deste processo, por exemplo, são aquelas reportagens que apontam para a inconstitucionalidade dos Municipios Autónomos en Rebeldia. Consoante expresso nas páginas do jornal (EL UNIVERSAL, 04/05/1998, p. 16), ao reproduzir pronunciamento de liderança política local, as instituições governamentais não irão permitir

“[…] que ningún grupo de supuestos ‘zapatistas’ proclame municipios ‘autónomos’ por su cuenta, al margen de la ley y desconozca a las autoridades

constitucionalmente elegidas” y advirtió que el suyo no lo acepta ni lo aceptará

porque socava el cimiento de la convivencia social y política y pone en riesgo la

viabilidad y el futuro de Chiapas. […]

En una conferencia de prensa que Albores Guillén ofreció, junto con el coordinador del diálogo para la negociación en Chiapas, Emilio Rabasa Gamboa, el gobernador dijo que seguiría actuando para acabar con los ‘municipios autónomos’ creados

Em reportagem publicada com base na ofensiva do governo junto ao Municipios Autónomo Tierra y Libertad, o El Universal (11/05/1998, p. 19) reforça o processo de elaboração de uma imagem criminosa, associada ao movimento zapatista, em função da violação de preceitos constitucionais:

Asienta que los denominados “municipios autónomos” violan flagrantemente el

Benzer Belgeler