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5. CONCLUSION AND RECOMMENDATIONS

5.2. Statement of Contributions

Fruto da mobilização dos vários setores da sociedade envolvidos na luta pela defesa dos direitos da criança e do adolescente, até aquele momento sem garantias, e sem direitos específicos assegurados5, e em sintonia com a Convenção Internacional sobre os Diretos da Criança e demais documentos internacionais6, o Estatuto, enquanto ordenamento jurídico, garantiu vários avanços para a sociedade brasileira no que se refere ao trato das questões relacionadas à infância.

A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidade e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade. (ECA. Artigo 3°)

O ECA introduz o Princípio da Proteção Integral em substituição à Doutrina da Situação Irregular e reconhece a Criança e o Adolescente enquanto sujeito de direitos e titulares de garantias, incorporando o princípio da Incompletude, pressupondo a construção de um Sistema Integrado para o atendimento integral das necessidades da criança e do adolescente7.

Conforme aponta o relatório do UNICEF (s/d.), CURY (1990), e MENDEZ (2006):

O Estatuto da Criança e do Adolescente, representa um importante momento de consolidação de uma nova abordagem da questão da infância e da adolescência, baseada na garantia dos direitos, no estímulo à participação e no desenvolvimento de políticas públicas universais e de qualidade para todos. (UNICEF. s/d:5)

Passa a vigorar, pela nova legislação, a chamada doutrina de proteção integral que, partindo dos direitos das crianças reconhecidos pela ONU, procura garantir a satisfação de todas as necessidades das pessoas de menor idade, nos seus aspectos gerais, incluindo-se os pertinentes à

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Para maiores aprofundamentos sobre a historia da Infância brasileira e as mudanças legais ver FURLAN VIEIRA (2003), VELTRI (2006), JESUS (1997); OKAMURA (1995), FALEIROS (1987), e SPOSATO (2003), entre outros.

saúde, educação, recreação, profissionalização, etc. (CURY, 1990:42. APUD BAPTISTA.:15)

El ECA constituye una respuesta adecuada, eficiente y concordante com los más altos stándares internacionales de respecto a los derechos humanos. El ECA satisface el doble legítimo requisito de asegurar simultánelmente la seguridad colectiva de la sociedad con el respecto rigoroso de las garantías de los indivíduos sin distinción de edad. (MENDEZ 2006:22)

O artigo 2° do ECA considera que “criança é a pessoa até 12 anos de idade incompletos, e adolescente, aquele entre doze e dezoito anos de idade”, prevendo ainda a sua aplicação, “excepcionalmente às pessoas entre 18 a 21 anos de idade”.

SPOSATO (2003), em seus estudos sobre “O direito Penal e Juvenil no Estatuto da Criança e do Adolescente”, aponta seis aspectos principais da mudança de paradigma, que foi introduzida pela Doutrina da proteção Integral:

• Reconhecimento de crianças e adolescentes como sujeitos de direitos; • Institucionalização da participação comunitária por intermédio dos Conselhos de Direitos, com a participação paritária e deliberativa para traçar as diretrizes das políticas de atenção à infância e à juventude; • Hierarquização da função judicial, com transferência de competência aos Conselhos Tutelares para agir diante da ameaça ou violação de direitos da criança no âmbito municipal;

• Municipalização do atendimento;

• Eliminação de internações não vinculadas ao cometimento devidamente comprovado de delitos ou contravenções;

• Incorporação explícita de princípios constitucionais em casos de infração penal, prevendo-se a presença obrigatória de advogado e função do Ministério Público como de controle e contrapeso. (SPOSATO. 2003:46).

Segundo VELTRI (2006:41), ao estudar a história da situação da Infância no Brasil encontraremos um apelo das legislações anteriores ao ECA, para um discurso assistencial e com uma prática por vezes segregadora, destinada às camadas empobrecidas da população.

No Brasil, as legislações que precederam o ECA, à época, compreendidas como Direito do Menor, representaram um forte apelo ao discurso assistencial de caráter protetivo, com uma prática por vezes excludente e segregacionista que, destinada às camadas empobrecidas da população, pretendia garantir direitos, mas por vezes ratificava preconceitos e exclusões. (VELTRI. 2006:41)

Segundo MENDEZ (2006:11), o Estatuto da Criança e do Adolescente, constitui “a primeira inovação substancial latino-americana a respeito do modelo

tutelar de 1919” pois, segundo o autor, durante mais de setenta anos as reformas das “Leis de Menores” constituíam-se apenas em “variações da mesma melodia”.

O Estatuto da Criança e do Adolescente, mesmo após 16 anos de sua promulgação, ainda não foi implantado em sua integralidade. Este fato se deve, segundo MENDEZ, ao baixo financiamento para as políticas sociais.

La crises de implementación remite a las carencias en salud y educación, así como al (inútil) intento de sustituir la calidad y cantidad de políticas universales como la escuela y los servicios de salud con sucedáneos ideológicos, sean estos de corte social-clientelistas, sean estos de corte repressivo (...) La crisis de implementación remite al problema del bajo financiamiento de las políticas sociales (universales) (...) (MENDEZ. 2006:15)

Para LEAL (2004), a implantação do ECA, além de garantir conquistas presentes na Constituição, mesmo que morosa, vem promovendo uma verdadeira revolução no trato da infância e da juventude.

O Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, regulamentou conquistas presentes na Constituição, e sua implantação, mesmo que morosa, dados os entraves e resistências de setores da sociedade brasileira, vem promovendo uma revolução nas áreas jurídica, social e política. (LEAL. 2004: 148).

Ainda sobre a não implantação do ECA, em sua totalidade, conforme observa VIEIRA (2003), no próprio momento de sua promulgação, as práticas e mesmo a sociedade estavam por demais impregnadas pelos resquícios da doutrina da situação irregular.

As condições dadas para a vigência do ECA encontrou um terreno pouco favorável à sua aplicação plena, uma vez que as práticas voltadas para a atenção à criança e ao adolescentes estavam por demais impregnadas pela cultura da doutrina da situação irregular. (VIEIRA, 2003: 64)

Estes resquícios da doutrina da situação irregular ainda persistem nos dias atuais através de práticas tutelares e criminalizadoras. Como exemplo mais claro dessa situação citamos a internação arbitrária de adolescentes, por extensos períodos, desrespeitando o aspecto da brevidade e da excepcionalidade da própria medida, ou, ainda, no desrespeito aos direitos fundamentais da criança e do

a. Primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias;

b. Precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública;

c. Preferência na formulação e na execução das políticas públicas; d. Destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e à juventude (ECA. Art. 4° parágrafo único). Inegavelmente, o Estatuto da Criança e do Adolescente traz à tona no ordenamento jurídico a garantia de direitos e deveres de todas as crianças e adolescentes. No entanto, se faz necessário reafirmarmos que a garantia efetiva de direitos continua a ser uma luta travada a cada dia. Esta luta não diz respeito apenas às crianças e aos adolescentes, mas a toda a sociedade, pois, conforme apontam JESUS (1997) e VIEIRA (2003), verifica-se um distanciamento entre a lei e a realidade vivida.

Contudo, é preciso lembrar que o ECA, ao igualar todas as crianças e adolescentes no plano jurídico e das idéias, por si só não rompeu com os limites dados pela própria ordem econômico-social vigentes no Brasil. Verifica-se que há um distanciamento entre a lei e a realidade vivida. (JESUS. 1997:62).

O Eca contemplará um conjunto de dispositivos fundamentais necessários à superação do modelo de política assistenicalista-repressor e das condições de reprodução da discriminação. No entanto, sabemos que estas condições, por si só, não são suficientes para a implementação de uma nova política social voltada às nossas crianças e jovens. (VIEIRA, 2003:29).

O reflexo deste distanciamento entre a lei e a realidade é sentido no cotidiano de milhares de crianças e adolescentes, que continuam tendo seus direitos fundamentais violados.

O reflexo dessas ações atinge diretamente as crianças e adolescentes, ferindo o princípio constitucional, que em seu artigo 3°, inciso III, propõe ação no sentido de “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais”. Fere também a proposição na continuidade do inciso VII que define a necessidade de “... criar e manter programas de prevenção e atendimento à criança e ao adolescente dependente de entorpecentes e drogas afins”. (JESUS. 1997:20)

A este respeito, o relatório da Situação Brasileira do UNICEF (s/d.) irá apontar para a necessidade de não considerarmos a realidade da Infância brasileira como uma realidade homogenia, pois o país continua marcado por grande diversidade e desigualdade.

Se, por um lado, encontramos no Brasil o fenômeno da adolescência prolongada – comum nas classes média e alta em que a condição de adolescente tende a prolongar-se em função das expectativas de uma formação profissional cada vez mais exigente e especializada -, temos, igualmente, a realidade de um significativo contingente populacional de adolescentes que, pelas condições de pobreza de suas famílias, fica impedido de viver esta etapa preparatória sendo obrigado a uma inserção precoce no mercado de trabalho, formal ou informalmente. (UNICEF. S/d.:9)

Desta maneira, conforme aponta (JESUS. 1997:22), temos no país um verdadeiro, “apartheid social”, com a convivência da “luta pela cidadania de todos e a extrema pobreza, concomitantemente com profundas riquezas”.

É neste contexto de “apartheid social”, de grandes desigualdades, que crianças e adolescentes, em “condição peculiar de desenvolvimento”, serão socializados, como continua afirmando a autora, em um mundo hostil, marcado pela luta pela sobrevivência.

Se pensarmos que na infância ocorre o primeiro contato com o mundo externo, podemos perceber que essas crianças, em suas primeiras relações, já encontram um mundo hostil, onde têm que lutar para se firmarem, para sobreviverem. Nesse sentido, o mundo inicialmente já se apresenta árido e sem cor, sem descobertas e sem a ludicidade, necessárias ao referencial de “ser”. Inexiste a descoberta do aprendizado da escola, do lazer, do esporte, de projetos socializantes. Inexiste, também, a consciência da falta que tais projetos fazem para essa etapa da socialização. (JESUS. 1997:63)

Nesse ambiente desumano, é esperado que o adolescente se humanize, esperando dele “um comportamento de adulto com docilidade, ponderação, capacidade de tolerar frustrações e adiar gratificações”. (JESUS. 1997:23)

A infância e a juventude pobres se inserem no conjunto do que Carlos Nelson Coutinho caracterizou como “cidadão de segunda classe”, pois se encontram excluídas do processo político, econômico, cultural, e com seus direitos desrespeitados.

Na nossa sociedade, as massas estão excluídas do processo político econômico e cultural. Grande parcela está categorizada como “cidadão de segunda classe”. (Coutinho, 1980 APUD. JESUS. 1997:24)

De modo geral, uma grande parcela da população formada por crianças e adolescentes está exposta a uma situação de grande vulnerabilidade, considerando

ausência de atendimento específico, de políticas públicas voltadas para essa população; o que constitui como uma ameaça à própria sobrevivência, sua formação e sua perspectiva de futuro.