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3. MATERIALS AND METHODS

3.5. Numerical Modeling - FLAC 3D

3.5.1. Mining sequence simulation

Nos dois capítulos anteriores, foi abordada a relação entre pacto edípico e pacto social, sendo apresentadas concepções críticas, na psicanálise, acerca do pai, transitando- se pelo reconhecimento de diferentes configurações familiares.

Neste capítulo, transitar-se-á pelas contradições sociais que atravessam os diversos grupos familiares, dialogando com as configurações do pacto social. Quais são os valores sociais predominantes na atualidade? São valores estáveis, consolidados?

Como a questão da transmissão dos valores tem sido caracterizada como um dos aspectos da função paterna, debruçar-se-á sobre autores que discutem os valores sociais na atualidade, notadamente a fragilidade desses valores. Conseqüentemente, recolocou-se a função da transmissão numa dimensão mais ampla, para além da figura do pai propriamente dita.

Debieux, a propósito do tema, lembra que a eficácia das funções paterna e materna não é independente dos fatores sociais:

O exercício das funções materna e paterna opera-se a partir dos lugares (materno, paterno, fálicos) atribuídos ou não aos membros de determinada família, classe social e ao momento cultural. A sua eficácia não é independente de tais fatores, uma vez que a família é, ao mesmo tempo, o veículo de transmissão dos sistemas simbólicos dominantes e a expressão, em sua organização, do funcionamento de uma classe social, grupo étnico e religioso em que está inserida (DEBIEUX, 2003, p. 8).

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Nesse sentido, a construção interdisciplinar de laudos e de pareceres favorece a exposição dessa interdependência entre as funções da família na transmissão de valores e os valores sociais dominantes.

Koltai8, apoiada em Jean-Claude Guillebaud9, contribui para a contextualização dos

grupos familiares, ressaltando as contradições das nossas sociedades:

Por inúmeras razões nossas sociedades são habitadas por um medo confuso, assombradas pela violência, perdidas numa modernidade que se tornou anômica. Estão quotidianamente à procura de regras, pontos de referência, sentido. Ou seja, tentamos todos e em todos os campos, redefinir os limites, ao mesmo tempo que a cultura dominante é da transgressão, a tal ponto que acabamos identificando-a com a própria modernidade. Nossa liberdade individual é transgressiva por definição, pelo menos é dessa maneira que é percebida. Dia após dia optamos pela transgressão de modo que ela já se transformou num reflexo tão elementar quanto os batimentos cardíacos (...) Poderíamos discutir ad infinitum sobre a maneira pela qual o próprio Estado retoma a prevalência da transgressão sobre a regra. Sociedades esquizofrênicas se pergunta o autor? Talvez, uma vez que nossa sociedade rejeita ostensivamente aquilo que ela afirma estar lhe fazendo falta. Procura de limites por um lado, ardor da transgressão do outro. A situação do homem contemporâneo se assemelha àquilo que os psicanalistas chamam de double mind e que se apresenta da seguinte maneira: de um lado ela exalta a transgressão, mas se queixa da ausência de regras, de outro teme a violência, mas ironiza a civilidade (KOLTAI, 2001).

Um episódio recente auxilia a ilustrar o que se convencionou chamar de sociedades esquizofrênicas. No leilão de bens do megatraficante colombiano Juan Carlos Ramirez, ocorrido este ano, no Jockey Clube de São Paulo, milhares de pessoas dirigiram-se ao local com o objetivo de adquirir bens que haviam pertencido ao megatraficante, sendo que as justificativas, tais como “Faço questão de contar para os meus amigos que comprei dele”, “Quero a cadeira em que ele foi preso, pois é uma cadeira peculiar” indicam o lugar da transgressão na nossa sociedade.

O autor continua sua reflexão:

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Parece que a secular tricotagem entre limite e transgressão terminou com a exaltação unívoca dessa última. A sociedade contemporânea deixou de mandar para si mesmo um sinal de limite. O farol apagou. A negociação infinita com a transgressão substitui a esplendorosa simplicidade do “tudo é permitido” (GUILLEBAUD, 2003, pp.108-110).

4.1 A fragilidade dos laços sociais

Essas considerações permitem, ao se colocarem em análise o pai citado nos laudos e as avaliações citadas no presente estudo, definir-se os contornos da sociedade em que se inserem esse pai e os demais integrantes dos grupos familiares analisados. A exaltação da transgressão presente nas sociedades contemporâneas indica a fragilidade dos laços sociais. O autor lembra que:

A repressão vem substituir a civilidade perdida, a prisão vem no lugar do laço social enfraquecido, o código penal no lugar do código cívico, a ordem penal se instala sobre as ruínas da ordem moral. (...) Se tudo isso foi lembrado é porque as sociedades atuais parecem ter sido afetadas pelo problema da desfiliação e fragilização do laço, tanto no que diz respeito à família, quanto à empresa, à escola ou à nação (GUILLEBAUD, 2003, pp. 108-110).

Em relação à fragilidade dos laços sociais, recorreu-se a Lippi, que se apóia em Bauman10 para apresentar conceitos acerca do funcionamento da sociedade atual:

Para Z. Bauman, o que mudou foi a modernidade sólida que cessa de existir e em seu lugar surge a modernidade líquida. A primeira seria justamente a que tem inicio com as transformações clássicas e o advento de um conjunto estável de valores e modos de vida cultural e político. Na modernidade líquida, tudo é volátil, as relações humanas não são mais tangíveis e a vida em conjunto, familiar, de casais, de grupos de amigos, de afinidades políticas e assim por diante, perde a consistência e estabilidade (LIPPI, 2007, p. 40).

10 BAUMAN,

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Essas considerações revelam uma sociedade com valores sociais esmaecidos, fluidos:

Os sólidos que se derreteram na fase líquida da Modernidade são os elos que entrelaçavam os projetos individuais em projetos e ações coletivas. Cada um por si procura ser flexível para se capacitar para as incertezas do futuro; ao mesmo tempo, ninguém se crê capaz de transformar a sociedade como um todo. Conceituando precisamente, a Modernidade Líquida tem uma estrutura sistêmica remota, inalcançável e inquestionável, ao mesmo tempo que o cenário do cotidiano – relações familiares e amorosas, emprego e cidade – é fluido e não-estruturado (LIPPI, 2007, p. 42).

O citado autor traz as valiosas contribuições de Bauman para a compreensão da dinâmica de funcionamento das sociedades atuais, ampliando o escopo de discussão deste texto acadêmico: da fragilidade das relações familiares de adolescentes autores de ato infracional para o reconhecimento da fragilidade das relações no tempo que corre, estabelecendo-se como prioridade as causas individuais em detrimento das causas coletivas. Veja-se a respeito:

Como evitar que nossos jornais e TVs sejam ocupados por fofocas sobre personalidades públicas e pela exibição de sofrimentos individuais sem qualquer possibilidade de articulação em causas públicas? Bauman apresenta esses temas através da análise de cinco conceitos decisivos: emancipação, individualidade, espaço/tempo, trabalho e comunidade. Em todos eles, reaparecem diversos traços em que nos reconhecemos: a incerteza da vida cotidiana, a insegurança na cidade, a precariedade dos laços afetivos, o privilégio do consumo em detrimento da produção, a troca do durável pela amplitude do leque de escolhas, o excesso de informações etc (LIPPI, 2007, p. 43).

Ao falar sobre o excesso de informações, o autor conduz a uma reflexão sobre a transmissão de valores pela mídia e a incorporação desses valores pelos adolescentes, os quais ele nomeia de adolescentes líquidos, parafraseando Bauman. Considera o quanto esses ideais (tais como comportamentos, formas de se vestir, formas de agir, a quem copiar) transmitidos pela mídia estão sendo incorporados pelos adolescentes em detrimento das referências familiares:

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O que prevalece é a escolha individual, que toma como ‘exemplos’, entre outros, as experiências de ‘celebridades’, transformadas em referências sociais e em uma espécie de ‘especialistas’ que ajudam o indivíduo a tomar suas decisões nos mais diversos setores de sua vida. As referências familiares tiveram sua importância deslocada (BAUMAN, 2001, p. 76) Lippi apóia-se em autores que discutem mídia e violência, trazendo valiosas contribuições sobre o lugar da família no processo de socialização e considerando a interferência da mídia. A propósito do tema, um dos autores citados é Sodré11, que analisa a

transição dos referenciais na adolescência num momento em que os padrões familiares são ultrapassados pelos da informação:

Pouco a pouco, tem perdido força o exercício da função educativa dentro do grupo familiar. O maior acesso a essas informações forja uma participação social, no lugar da ação real implicada na “ética familiar”, inculcando valores que interessam à “ética do consumo”. Desta forma, há uma dessacralização da família, o que geraria “qualidades mais rápidas”, de satisfação e prazer, substituindo as “qualidades lentas, comprometidas com a socialização tradicional” (SODRÉ, 1992, p. 72).

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