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De modo geral, as escolas, inseridas nesse contexto de avanços tecnológicos, têm incluído o computador em suas práticas pedagógicas, com acesso à internet. Vale destacar que a tecnologia não é neutra. Nesse panorama, faz-se necessário recorrermos a Freire para tratarmos da dimensão política da Educação escolar, agora usando o recurso do computador e da internet, o que nos leva a algumas reflexões: Será que a aprendizagem e o uso dessa nova ferramenta à qual os alunos podem ter acesso fazem-se a partir de uma prática crítico- transformadora? O recurso da internet tem favorecido a leitura crítica do mundo, ou como denunciou Freire há muitas décadas, é uma aprendizagem técnica, mecânica, que obstaculiza a emancipação das camadas populares? A internet favorece ao educando dizer sua palavra, por meio dos vários recursos dos ambientes digitais? Tem favorecido a compreensão da transformação social como processo histórico do qual fazemos parte como sujeitos da mudança?

Desde a década de 1960, Freire denunciava que a alfabetização de adultos era tratada de forma autoritária, centrada na compreensão mágica da palavra doada pelo educador aos analfabetos, reforçando as marcas de uma ideologia dominante, elitista, com uma visão histórica numa perspectiva fatalista. A questão que hoje se coloca em relação ao uso da tecnologia refere-se à superação ou manutenção dessa educação criticada por Freire. A educação para o uso das tecnologias tem formado educandos que possam assumir uma postura crítico-transformadora, usando a internet para ler o mundo com vistas a uma educação

emancipatória? Os cursos voltados para a inclusão digital têm apostado na crença e no poder criador dos homens e mulheres para o desenvolvimento da criticidade, curiosidade e criatividade em direção à ação transformadora para a construção de uma sociedade democrática mais humanizada?

As questões aqui apresentadas têm como propósito problematizar a forma como a tecnologia está sendo assumida nas práticas escolares, embora os limites dessa pesquisa não nos permitam tratar de todos esses aspectos. No entanto, Se nossa sociedade está se informatizando dia a dia, a questão central é investigar o papel da escola nesse processo e a opção político-pedagógica que se tem assumido. Para ilustrar essa problemática, apresento o seguinte relato:

Em 2010, ano de eleições presidenciais, as propagandas eleitorais estavam presentes nos diferentes meios de comunicação, seja de forma obrigatória como as polêmicas exibições dos horários políticos, seja com propagandas dos candidatos em meio aos comerciais da programação televisiva, seja por debates, internet, outdoors ou panfletos distribuídos pelas ruas.

No primeiro turno das eleições 2010, a fala de uma aluna da EJA (Educação de Jovens e Adultos) de uma das escolas pesquisadas gerou séria preocupação dos educadores. A aula era ministrada no laboratório de informática pela professora do 4º termo (referente à 4ª série do Ensino Fundamental) que explicava sobre uma sequência didática que fariam, usando WebQuest12 com o tema ―eleições‖. Após toda a explicação da professora sobre como estas atividades iriam proceder, uma aluna levantou a mão e perguntou: ―Professora, eu não estou entendendo, este ano vai ter eleição? Nós vamos ter que votar?‖

Em pleno ano de 2010, num município localizado numa região metropolitana em que o acesso às informações é facilitado pelas mídias, parece um equívoco pensar na obviedade de que as informações chegam com clareza a todos. A pergunta feita por esta aluna certamente não é uma dúvida unicamente dela. Quantos brasileiros mais estão alienados e à margem das questões políticas? A questão agrava-se quando os professores não conhecem seus alunos – não conhecem a realidade em que vivem – e planejam as aulas supondo que há saberes que todos dominam e informações que todos têm acesso.

12 Na Proposta Curricular de TIC do município de São Bernardo do Campo, consta a definição de WebQuest

como um ―modelo extremamente simples e rico para dimensionar usos educacionais da Web, com fundamento em aprendizagem cooperativa e processos investigativos na construção do saber. A WebQuest é concebida e construída segundo uma estrutura lógica que contém os seguintes elementos estruturantes: introdução, tarefa, processo, recursos, orientações, avaliação e conclusão. Uma variação é o Webmapquest, que trabalha com a estrutura de mapas conceituais, possibilitando ao aluno traçar seu próprio caminho de estudo‖ (PMSBC, 2007).

São Bernardo tinha o seu quadro de eleitorado no ano de 2010 composto por 521.882 eleitores.13 Como será o entendimento destas pessoas quanto aos cargos pleiteados e aos candidatos inscritos? Qual seria o peso da mídia diante deste quadro e o papel da escola frente a esta questão?

Essa exclusão das camadas populares nos debates sobre as diversas questões políticas e sociais é histórica. Até pouco tempo, os analfabetos eram proibidos de votar no Brasil. A partir de 1985 este direito foi permitido pela promulgação da Emenda Constitucional nº 25 e regulamentada pela Lei 7.332 de 1º de julho de 1985. Mas a defasagem histórica da escolaridade em nosso país ainda revela que o número de analfabetos é significativo.

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Em 1900, 65,3% dos brasileiros maiores de 15 anos de idade eram analfabetos. No ano 2000, um século depois, a porcentagem de brasileiros analfabetos era de 13,6%. No entanto, apesar dos números indicarem avanços, penso sobre o tipo de alfabetização que vem sendo feita ao longo dessa história.

Por muito tempo a alfabetização de adultos foi tratada com a finalidade de promover a codificação de palavras, ou ainda menos do que isto, de forma em que fosse possível o sujeito desenvolver a habilidade de assinar o próprio nome para se mostrar alfabetizado e assim poder votar.

13 Fonte: IBGE.

A Educação escolar não existe apenas com a finalidade da alfabetização como leitura da palavra. O papel da escola não está voltado à codificação, memorização e reprodução de conteúdos. Os alunos precisam saber fazer a leitura crítica do mundo. Para Freire (2007),

a promoção da ingenuidade para a criticidade não se dá automaticamente, uma das tarefas precípuas da prática educativo-progressista é exatamente o desenvolvimento da curiosidade crítica, insatisfeita, indócil. Curiosidade com que podemos nos defender de ―irracionalismos‖ decorrentes do ou produzidos por certo excesso de ―racionalidade‖ de nosso tempo altamente tecnologizado. E não vai nesta consideração nenhuma arrancada falsamente humanista de negação da tecnologia e da ciência. Pelo contrário é consideração de quem, de um lado, não diviniza a tecnologia, mas, de outro, não a diaboliza. De quem a olha ou mesmo a espreita de forma criticamente curiosa.

É importante que a escola assuma seu papel de politização dos sujeitos, provocando reflexão e criticidade sobre os mais variados assuntos para assim formar cidadãos que possam atuar efetivamente para o exercício da cidadania, princípios de uma educação libertadora. E essa postura político-pedagógica pode ser assumida desde a Educação Básica, evitando que as crianças de hoje se tornem adultos alienados amanhã.

Freire (2005), em defesa destes ideais entende que ―quanto mais as massas populares desvelam a realidade objetiva e desafiadora sobre a qual elas devem incidir sua ação transformadora, tanto mais se ―inserem‖ nela criticamente.‖ (p. 44).

E considerando que nas sociedades atuais em que a velocidade das informações presentes nos meios de comunicação é rápida, a escola diante às novas tecnologias pode caminhar nesta direção, como sugere Citelli (2004),

(...) abre-se para a escola um enorme campo de possibilidades e desafios que podem abranger desde o aprendizado de questões operacionais afeitas às novas tecnologias, passando pela análise crítica das mensagens de massa, indo à discussão de temas mais complexos como os das variadas significações produzidas pela comunicação na sociedade moderna, até o repensar dos próprios modelos pedagógicos, muitos deles presos (...) a concepções e mecanismos que não respondem mais às demandas sociais do nosso tempo. (p. 154).

A inserção dos alunos em aulas com o uso de computador é uma exigência política e pedagógica, uma vez que os jovens e adultos que se atrasaram e os que ainda continuam atrasando-se em sua escolaridade têm o ônus do analfabetismo digital. (ALMEIDA, 2007).

Desenvolver uma Educação escolar da melhor qualidade desde a educação básica é um compromisso social que todo educador precisa assumir (RIOS, 2005).

Benzer Belgeler