II. Zayıflığın Kassal Temel
2.7.4. SP’li Çocuklarda Üst ve Alt Ekstremiteler için Kuvvetlendirme Eğitim Programları
É possível que a primeira relação que o leitor deste trabalho tenha construído ao olhar para o título do presente capítulo seja a ligação que existiria (ou passaria a existir diante da conexão estabelecida pelos dois pontos e as palavras que se encontram antes e depois dessa pontuação) entre a ego-história,55 gênero textual em que seria erguida, por um historiador, a história de si mesmo, e a escrita memorialística, mais especificamente, a escrita memorialística de Pedro Nava, texto em que o autor também dá forma à escrita de si. No caso desse tipo de relação, muito provavelmente (e com motivos bastante razoáveis), o leitor questionaria, de imediato, a propriedade da aproximação entre esses gêneros textuais uma vez que o historiador escreveria seu texto tendo como fundamento, além de pesquisas relacionadas a seu tema e objeto, documentos, pistas, indícios que o fariam reconstruir o passado, a partir de uma metodologia rigorosa, em uma narrativa (para espanto de alguns) verossímil. O escritor, declaradamente um literato, (mesmo o memorialista!), ainda que usasse fontes documentais para (re)construir uma fração da realidade, produziria ficção; sua narrativa é fruto de seu poder criativo, de sua imaginação, e o pacto de leitura proposto pela Literatura (já sabemos) seria bastante diferente do protocolo de leitura proposto pela História.
Para Ginzburg (1990), a História é uma ciência que, embora dependa do talento do historiador para narrar o passado, dependeria também da reconstrução rigorosa dos fatos, a qual deveria ter por base o trabalho com diferentes fontes, ainda que a fragilidade da operação histórica esteja posta. O real não poderia ser passível, em História, apenas de uma construção discursiva já que envolveria práticas anteriores ao discurso. Nesse sentido, segundo Roger Chartier (2003, p.97), o desafio maior lançado hoje aos historiadores seria
55 Referimo-nos ao clássico livro Ensaios de ego-história, publicação em que se reúnem textos de
historiadores, como Maurice Agulhon, George Duby, Jacques Le Goff, Michelle Perrot e outros. Em seus ensaios, os “historiadores procuram ser historiadores deles próprios” (NORA, 1987, p.9). Assim, à medida
“relacionar construção discursiva do social e construção social dos discursos”. Conforme o autor,
[...] A meta do conhecimento é constitutiva da própria intencionalidade histórica. Ela funda as operações específicas da disciplina: construção e tratamento de dados, produção de hipóteses, crítica e verificação de resultados, validação da adequação entre o discurso de saber e seu objeto. Mesmo que escreva em uma forma “literária”, o historiador não faz literatura, e isso, devido a sua dupla dependência. Dependência em relação ao arquivo, portanto em relação ao passado de que este é traço (CHARTIER, 2003, p.98).
A relação, esta que o leitor inicialmente (des)construiria entre ego-história e escrita memorialística, não se apresentaria a ele como adequada, embora “a ego-história” seja um “género novo, para uma nova idade da consciência histórica, que nasce do cruzamento de dois grandes movimentos: por um lado, o abalo das referências clássicas da objectividade histórica, por outro, a investigação do presente pelo olhar do historiador” (NORA, 1987, p.9). Para o leitor, talvez, ainda assim, a ego-história continuaria distante da escrita memorialística. Uma, produto do trabalho situado em um campo de pesquisa “científico”; a outra, produto ficcional, por vezes, artístico, que pode se encontrar no campo da literatura.
Mas seriam mesmo a Literatura e a História esferas discursivas tão bem delimitadas e até opostas? Aos historiadores caberia apenas a abordagem dos fatos, enquanto somente aos escritores seria permitida a invenção dos eventos que narra? Tanto as produções literárias quanto muitos dos trabalhos construídos no campo da História vêm nos mostrando que esses campos não se encontram tão separados assim. As fronteiras entre História e Literatura são cada vez mais tênues tendo em vista a importância da linguagem, da narrativa na construção dos dois discursos. Para Albuquerque Júnior (2007, p.43-44), a partir dos anos 1960, em uma grande quantidade de textos publicados, procurava-se fixar regras para a escrita da História, “suas particularidades e, notadamente, sua diferença em relação ao texto literário” (p.44). Todavia, de acordo com o historiador, autores como Michel de Certau e Hayden White ocuparam o centro da polêmica a qual, no lugar de defender o realismo e o verismo como características do texto do historiador, aproximava a História da Literatura.56
que reconstróem e analisam sua própria experiência e as experiências de seus parentes, trajetórias e percursos de formação, acabam por tecer o contexto mais geral no qual suas vidas se desenrolaram.
Tanto no campo da História, quanto na Literatura, incluindo-se aí as memórias e as autobiografias, o pacto não é exatamente de veracidade, mas de verossimilhança. E as semelhanças entre História e Literatura não param por aí. No espaço das formulações teóricas, alguns historiadores já procuram articular História e Literatura, pois percebem “a precariedade do que conseguem produzir como sendo a vida humana, [...] a falta de profundidade psicológica dos personagens que conseguem imaginar, que a Literatura vem explicitar” (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2007, p.44). De acordo com esses estudiosos, a Literatura problematizaria, nesse sentido, a “compreensão pobre e descarnada da realidade e da verdade” (p.44) que se tenderia construir nos textos históricos.
Da mesma maneira que os historiadores estariam pensando a História juntamente com a Literatura – e isso significaria mais do que usá-la “no máximo como documento, tomando uma série de cuidados metodológicos, no sentido de que esta se torne uma fonte objetiva e fidedigna” (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2007, p.44) –, também os escritores recorreriam às técnicas de investigação dos historiadores, de seus procedimentos de pesquisa e de escrita para dar forma a textos (literários). É nessa interseção entre História e Literatura que poderíamos encontrar o discurso (auto)biográfico. No espaço onde é possível reconstruir parte do real, o passado, no trabalho com a sensibilidade do sujeito social que escreve a (sua) história, localizamos o texto memorialístico. No caso de Pedro Nava, o escritor, na exploração poética do tempo, utilizou, em grande medida, métodos e técnicas que nos lembram as pesquisas históricas, reconstruindo, ainda assim, o passado no interior da esfera literária (BAKHTIN, 1992a).57
Mas, se, a essa altura, o leitor deste texto ainda se pergunta: “qual seria exatamente a relação entre a ego-história e a escrita memorialística de Pedro Nava almejada para esta dissertação?”, responderemos a ele apresentando outra aproximação que nos parece plausível e que existiria entre essas duas construções discursivas. Para tanto, vamos recorrer (novamente) às palavras do próprio Pierre Nora, na apresentação do livro no qual
57 Sobre as esferas de comunicação, Mikhail Bakhtin (1992a, p.279) afirma: “O enunciado reflete as
condições específicas e as finalidades de cada uma [das] esferas, não só por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais –, mas também, e sobretudo, por sua construção composicional. Esses três elementos [...] fundem-se indissoluvelmente no todo do enunciado, e todos eles são marcados pela especificidade de uma esfera de comunicação” (O destaque em itálico é do autor.).
estão reunidos os Ensaios de ego-história de seus colegas de trabalho. Ao refletir sobre esse gênero textual, o historiador assim escreveu:
[...] O exercício consiste em esclarecer a sua própria história como se se fizesse a história de um outro, em tentar aplicar a si próprio, cada um no seu estilo e com os métodos que lhe são caros, o olhar frio, englobante, explicativo que tantas vezes se aplicou sobre outros. De explicitar, como historiador, o elo entre a história que se fez e a história que vos fez (NORA, 1987, p.11).
Este é o ponto que mais nos interessa na relação que se procura estabelecer aqui entre a ego-história e a escrita memorialística – não apenas a de Pedro Nava. Interessa-nos fundamentalmente o elo entre as histórias. Nessa direção, vale a pena destacar aqui parte da reflexão que Jacques Le Goff construiu quando escreveu “O desejo pela história”, outro dos Ensaios de ego-história:
Nesta tentativa para reencontrar os elos entre a minha vida e a minha vocação, a minha obra de historiador – tentativa que sei procurará pôr lógica, claridade, onde houve acasos, acções inconscientes – descubro aqui uma das primeiras sensações de história que sem dúvida experimentei. Procurando compreender o meu pai, encontrei, no seu grande carácter e no seu destino modesto, o sentido das épocas, a importância de um tipo de mentalidade e de comportamento ligados à história, o choque de acontecimentos.
[...]
Foi através da memória de meus pais – e mais ainda pelo contacto com uma memória dos tempos da sua infância e da sua juventude que sobrevivia nos seus carácteres, nas suas ideias, nos seus comportamentos quotidianos – que se edificou pouco a pouco em mim o sentido da duração, da continuidade histórica e, ao mesmo tempo, das rupturas. [...] (LE GOFF, 1987, p.171-172).
Aí está a face da relação a qual entendemos existir entre ego-história e escrita memorialística que mais desejamos destacar no tecido de nossa argumentação. Trata-se do encontro entre histórias e que sugere, desse modo, a fecundidade de memórias e autobiografias como fonte para estudos históricos. Da vida particular, dos fatos que tecem a vida do indivíduo, daquele que narra a sua existência chegamos a outros indivíduos, por vezes, à tradição de uma família, de um grupo. Encontramos, nesses textos, narrativas que falam mais de perto aos sujeitos sociais e a respeito deles. Nessas narrativas, estão os sujeitos sociais, seus hábitos e práticas, seus sentimentos e sonhos, sua cultura e a de sua família, seu cotidiano, suas casas, as ruas, enfim, espaços e tempos que fizeram parte de sua trajetória.
No caso de Pedro Nava, ao narrar a própria experiência, o memorialista oferece elementos que nos transportam para a história de um espaço mais amplo. Em fins do século XIX e no início do século XX, por exemplo, chegamos à cidade do Rio de Janeiro,
tamanhos são os detalhes e o ar de vida que o texto nos apresenta (NAVA, BO, 2002, p.59). Graças à descrição minuciosa do lugar pelo escritor, estamos no espaço da cidade que, como outros nascentes espaços urbanos brasileiros, experimentava a “modernidade”.58 Temos a sensação de estar caminhando pelas ruas do Rio de Janeiro, guiados que somos pelas palavras (pelas mãos?) precisas de um narrador arguto e observador.
Tendo isso em vista, para a realização da pesquisa, analisamos as Memórias no nível do discurso. Desse modo, durante a análise da escrita memorialística de Pedro Nava, procuramos trabalhar a todo momento com a ligação necessária entre a instância lingüística propriamente dita de sua narrativa e os elementos extralingüíticos, isto é, suas condições sócio-históricas de produção. Fundamental, essa ligação constitui as significações mesmas do texto (BRANDÃO, 1996, p.12). Nessa direção, de acordo com Bakhtin (1992a, p.282),
[...] um trabalho de pesquisa acerca de um material lingüístico concreto [...] lida inevitavelmente com enunciados concretos [...]. Ignorar a natureza do enunciado e as particularidades de gênero que assinalam a variedade do discurso em qualquer área do estudo lingüístico leva ao formalismo e à abstração, desvirtua a historicidade do estudo, enfraquece o vínculo existente entre a língua e a vida. A língua penetra na vida através dos enunciados concretos que a realizam, e é também através dos enunciados concretos que a vida penetra na língua.
Assim, partindo da história de um indivíduo, já recriada por ele mesmo em suas memórias (em sua ego-história?), buscamos, nesta dissertação, mostrar como e em que condições Pedro Nava participava das culturas do escrito. Antes, porém, é necessário refletir um pouco mais sobre a fecundidade do uso de memórias e autobiografias no campo da pesquisa histórica, bem como sobre a especificidade desse tipo de fonte. É o que passamos a fazer, portanto, a partir de agora.
58 A partir de um movimento de análise que articula a conjuntura brasileira ao contexto mais amplo de fortes
e aceleradas mudanças que aconteciam em alguns países do mundo, a partir da segunda metade do século XIX, Nicolau Sevcenko (1998a) e Cynthia Veiga (2002) mostram os impactos da internacionalização do Capitalismo, entre eles, a industrialização e a necessidade de urbanização das cidades, no cotidiano desses espaços, na sociedade, na economia, nas relações políticas, na cultura, no imaginário e na vida das pessoas. A Proclamação da República, no caso brasileiro, e a Revolução Científico-tecnológica, em âmbito internacional, configuram-se como exemplos de outros eventos que também foram responsáveis por transformações significativas no Brasil (SEVCENKO, 1998a, p.7-11).