Perspectivas clássicas sobre processos de reificação
O conceito de reificação é chave na perspectiva do construtivismo social. “A expressividade humana é capaz de “objetivações” (tradução para reificação); isto é, manifesta-se em produtos da atividade humana que estão ao dispor tanto dos produtores quanto dos outros homens, como elementos de um mundo em comum“ (BERGER e LUCKMANN, 2001, p.53). A realidade da vida cotidiana não é unicamente cheia de reificações, é somente possível por causa delas. “Estou constantemente envolvido por objetos
que 'proclamam' as intenções subjetivas de meus semelhantes, embora possa às vezes ter dificuldade de saber ao certo o que um objeto particular está ‘proclamando’” (BERGER e LUCKMANN: 2001, p.54). Da realidade produzida advém a realidade reificada. A realidade instituída das instituições torna-se realidade com “direitos” iguais à realidade física ou "natural".
A análise de Berger e Luckmann inspirou diferentes estudos na linha do construtivismo social. Hacking (1999) critica o uso ingênuo da abordagem em diferentes pesquisas. A principal crítica está no fato de que o processo de construção tem sido visto como resultado consciente dos processos de interação, quando, de fato, Berger e Luckmann trabalham com a dimensão inconsciente do processo.
Como Wenger (1999, p.58) nos lembra, o termo reificação significa “tornar-se coisa”, e no idioma inglês é utilizado para dizer que o que se tornou um objeto concreto, material, não é propriamente concreto e material. O autor nós dá os exemplos da Justiça representada como uma virgem cega, segurando uma balança, ou de expressões como “as mãos da sorte”.
O autor, contudo, usa o termo reificação como “o processo de dar forma à nossa experiência, produzindo objetos que congelam essa experiência em ‘coisa’” (WENGER, 1999, p.58) e a considera central a toda prática. As formas reificadas são vistas como conseqüências de uma complexa rede de convenções, acordos, expectativas, compromissos, obrigações etc.
Com o termo reificação, pretendo cobrir uma ampla gama de processos que incluem o fazer, projetar, representar, nomear, codificar e descrever, assim como perceber, interpretar, usar, reutilizar, decodificar e remodelar (...) aspectos da experiência e prática humana que são congelados em formas fixas e aos quais é dado o status de objeto”. (WENGER, 1999, p.56)
Para Wenger, a reificação tem a função de ajudar na negociação do significado. A reificação refere-se duplamente ao processo e ao produto, mas não é apenas objetivação, considerando-se que não termina num objeto, não traduz simplesmente significados em objetos. O processo e o produto não se distinguem, pois um implica o outro.
Por outro lado, Hacking (1999) − na sua crítica ao uso corrente do construtivismo social − reconhece que idéias construídas, tais como gênero, mulher, imigrante etc. não existem num vácuo. Estão presentes num contexto social. De fato, idéias e classificações funcionam apenas numa matriz:
Vamos nos lembrar da matriz na qual uma idéia, um conceito ou coisa similar são formados. 'Matriz' não é mais perfeita para os meus propósitos do que a palavra 'idéia'. Deriva da palavra útero (berço), mas adquiriu uma série de outros sentidos – por exemplo, na álgebra avançada. A matriz na qual a idéia da mulher imigrante é formada é um complexo de instituições, defensores, artigos de jornais, advogados, decisões judiciais e procedimentos de imigração. Para não mencionar a infra-estrutura material, fronteiras, passaportes, uniformes, balcões de aeroportos, centros de detenção, edifícios da Justiça e campos de férias para filhos de imigrantes. Alguém pode chamar esses elementos de sociais, porque seus significados são o que importam para nós, mas eles são materiais, e na sua pura materialidade fazem uma diferença substancial às pessoas (HACKING, 1999, p.10-11).
Latour e Woolgar (1986) também recorrem ao conceito de reificação, mas como materialização, referindo-se ao contexto material (aparelhos, técnicas, estatísticas, programas etc.) disponível num laboratório científico (conceito similar à phenomenotechnique de Bachelard). Eles vêem esse contexto material como representante da reificação do conhecimento já estabelecido na literatura de outro campo (no caso pesquisado por eles, científico). Emprestando conhecimento já estabelecido e incorporando-o em peças materiais ou em seqüências rotineiras operacionais, o laboratório pode potencializar o enorme poder de outros campos para seus propósitos. Rotinização, uma questão-chave na etnometodologia, é parte essencial desse processo.
“Depois que o artigo que incorporou essas figuras tenha sido escrito e o principal resultado artigo tenha sido incorporado em algum novo dispositivo de inscrição, é fácil esquecer que a construção do artigo dependeu dos fatores materiais. (...) Em vez disso, 'idéias', 'teorias' e 'razões' tomarão seu lugar. (...) O contexto material não apenas torna possível o fenômeno, mas também deve ser facilmente esquecido” (1986, p.69).
Como enfatizo no decorrer do estudo, já é possível observar a referência ao contexto material nesse processo de reificação, seja na contribuição de Hacking (1999), seja na perspectiva de Latour e Woolgar (1986).
Perspectivas clássicas sobre o conceito de instituição e institucionalização
Existem alguns pontos a serem enfatizados na definição de “instituição”:
a) o conceito refere-se a uma ampla gama de questões, tais como costumes, práticas, relações, organizações ou comportamentos;
b) refere-se também a um padrão; isto é, a um modelo, alguma coisa a ser imitada, seguida;
c) tem uma importância ou significado na vida da comunidade ou sociedade;
d) geralmente o termo é usado em referência a organizações também consideradas importantes ou relevantes em campos como educação, serviço público ou cultura.
Para o novo institucionalismo, instituições são consideradas como um tipo de convenção que assume o status de regra. Por sua vez, as instituições são encontradas em todo lugar, do aperto de mão e o casamento até os departamentos de planejamento estratégico. Essa definição é baseada na perspectiva etnometodológica, embora valha a pena lembrar que a agenda de pesquisa dessa escola nem sempre reflete tal compromisso paradigmático.
Por outro lado, a institucionalização é considerada como “o processo fenomenológico por meio do qual certas relações e ações sociais começam a ser consideradas como dadas” e um “estado de arte no qual certas relações sociais definem o que tem sentido e quais ações são possíveis” (ZUCKER, apud POWELL e DiMAGGIO, 1990, p.9).
Para Parsons, a institucionalização é um mecanismo fundamental, integrador do sistema social e da organização da ação. Segundo ele, a institucionalização é conseqüência de processos por meio dos quais atores − em conformidade com os sistemas de valores vigentes
numa sociedade e temendo as conseqüências decorrentes do desvio − internalizam rumos de ação prescritos ou tidos como apropriados. Por meio da internalização de padrões comuns de orientação para valores, o sistema de interação social pode ser estabelecido (HERITAGE, 1984). Para Parsons, o foco da institucionalização é a ação. As instituições são vistas como um sistema de normas que regulam as relações entre os indivíduos e que definem como essas relações devem ser (SCOTT, 1995, p.12).
Uma das principais críticas da visão parsoniana refere-se à dimensão cognitiva: o saber do ator sobre as circunstâncias. Os relatos dos atores sobre a ação − como algo inteligível e objeto de avaliação equilibrada que envolve justificação, culpa e outras questões morais − colocam a importância das razões da ação desses atores (HERITAGE, 1984).
Para compreender a visão de Parsons sobre a ação institucionalizada é importante relacioná-la à teoria do conhecimento que lhe serve de base, o “realismo analítico”, que defende o ponto de vista de que pelo menos alguns dos conceitos gerais da ciência “captam” adequadamente aspectos objetivos do mundo externo. A análise parsoniana é também caracterizada
“(...) por uma teoria da verdade ‘correspondente’, na qual o conhecimento do ator é avaliado em termos da sua concordância com os ‘fatos da situação’, conforme determinados pelo observador científico. Uma correspondência paralela à ‘teoria da linguagem’ também é invocada, e nela a linguagem é essencialmente considerada como um conjunto de nomes que podem ter significado intersubjetivo, na medida em que correspondências entre ‘nomes’ e ‘coisas’, ‘signos’ e ‘referentes’ são socialmente estabelecidas e adequadamente reproduzidas em atos de comunicação” (HERITAGE, 1984, p.29).
Na perspectiva do construtivismo social, a instituição representa o duplo status do social como algo “subjetivo na sua origem” e “objetivo na sua manifestação”. Uma vez instituído na ordem social, é questão de formas e sujeitos numa relação recursiva, na qual os sujeitos dão forma ao social e o social dá forma aos sujeitos. Por sua vez, o cotidiano pode ser entendido como a região onde as instituições se apresentam como realidade comum, de origem natural e de modo corrente (CANALES, 1996).
Na proposta de Berger e Lukmann, as instituições assumem o importante papel de mediadoras. “A instituição ocorre sempre que há uma tipificação recíproca de ações habituais, por tipos de atores” (2001, p.79). As instituições implicam historicidade4 e controle.5
A questão da reciprocidade também é chave no conceito de “instituição”. Quando outros indivíduos – que não participaram do processo de institucionalização – entram numa relação, os hábitos e tipificações empreendidos na vida comum de A e B tornam-se instituições históricas; ou seja, ganham objetividade. Nesse momento, é possível falar de um mundo social como uma realidade ampla e dada, assim como a realidade do mundo natural. O mundo institucional é experimentado como realidade subjetiva.
Uma instituição é um modelo de referência do ator. Como modelo, compartilhado e não questionado, pode referir-se tanto à condição “moral” – como na perspectiva de Durkheim – ou à condição “epistêmica”. A princípio, um modelo é um modelo do que é socialmente valorizado ou um modelo do que é socialmente “real” (CANALES, 1996). 6
Da perspectiva de Berger e Luckmann e de Garfinkel e Schutz, as instituições são construções cognitivas que controlariam a conduta humana a priori ou a partir de qualquer tipo de mecanismo ou sanção especificamente montado para apoiá-las. As instituições regulam a imagem da realidade para os sujeitos que atuam e participam numa certa sociedade. Interpretações que tipificam atores e ações e que circulam como saber comum a todos os sujeitos que participam dessa sociedade. Senso de realidade que define os lugares e sentidos da relação identidade-mundo. Códigos de signos com os quais se “conhece” a realidade (CANALES, 1996; POWELL e DiMAGGIO, 1990).
Acredito que as abordagens anteriormente analisadas apresentam algumas fraquezas assim resumidas:
a) considerando a dimensão objetividade/subjetividade nas ciências sociais, é possível considerar que todas essas linhas compartilham como premissa crucial o subjetivismo, enfatizando a maneira como os humanos criam, modificam e
4 Não podem ser compreendidas sem o entendimento do processo histórico em que foram produzidas.
5 Controlam a conduta humana, estabelecendo padrões previamente definidos de comportamento, os quais a
condicionam numa direção, por oposição às muitas outras direções que seriam teoricamente possíveis.
6 Autores como Gramsci (CANALES, 1996) e Foucault destacam a dupla dimensão de todo saber socialmente
interpretam o mundo no qual se encontram. Essa classificação, no entanto, não leva em conta que a dicotomia objetividade/subjetividade também pode ser considerada uma dicotomia construída (como já foi destacado) e que a materialidade também pode desempenhar um papel importante no processo de construção da realidade. Acredito que as perspectivas não-dicotômicas, às quais irei recorrer, possam preencher essa lacuna;
b) as perspectivas anteriormente destacadas enfatizam aspectos normativos e/ou cognitivos para a compreensão de fenômenos como reificação, instituição e institucionalização. No entanto, nenhum delas aborda a questão do poder, que acredito ser uma dimensão importante na compreensão dos processos de formação dos campos organizacionais.
A resposta a esses questionamentos pode ser encontrada na contribuição de algumas perspectivas, que serão denominadas não-dicotômicas, em termos da dimensão objetividade/subjetividade.