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1. Sosyal Medya ve Araçları

Aristóteles, por sua vez, muda radicalmente o rumo dado por Platão em suas investigações acerca da linguagem. Para ele, a linguagem não irá expressar a essência das coisas, como queria Platão, mas sim se constituir em uma técnica útil para que possamos recordar algo da coisa dita, ou seja, a linguagem é um processo técnico arbitrário. Dessa forma, entender os aspectos da linguagem é entender a relação travada entre o intelecto, os conceitos e as coisas. O embate desses três elementos, por conseguinte, segundo Panaccio112, nos colocará, historicamente, um problema crucial, a saber: a introdução de questionamentos lógicos acerca da possibilidade de um discurso mental.

111 Aqui vemos uma convergência nas opiniões de SANTOS, op. cit., 1998, p. 65, e BOTTIN, op. cit.,

2005, p. 21, onde os textos apontam para o Sofista como sendo a concepção mais acabada do modelo platônico da linguagem. Contudo, aspectos discordantes á opinião desses dois autores supracitados aparecem em OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Reviravolta Lingüístico-pragmática na

filosofia contemporânea. 2ª ed. São Paulo, Loyola, 2001, p. 17-23. 112 PANACCIO, 1999, p. 36.

As teorizações aristotélicas, portanto, partem para a resolução do problema da predicação posto por Platão, criticando, efetivamente os laços profundos que unem o velho Mestre a Parmênides. O início da crítica desenvolvida passa por descaracterizar a noção platônica, e parmenídica, de que toda predicação deverá dizer acerca do ser somente de uma maneira113. O modelo aristotélico prevê a possibilidade de se dizer o ser de muitas maneiras. O que ocorre aqui é que o Estagirita não vincula a existência dos seres às substâncias primeiras. Contudo, essa estruturação aponta um problema que deverá ser sanado pelo sistema aristotélico, a saber: como explicar a possibilidade de acesso ás substâncias segundas e às essências?

A tentativa de resposta à pergunta acima levantada prevê uma estrutura que consiga estabelecer a ligação específica da linguagem como um objeto cognitivo produzido pela experiência individual. Ou seja, a possibilidade do universal manifestar suas propriedades predicativas somente ocorrerá se este for um ente mental. É justamente nesse aspecto que temos uma variação imensa em relação ao sistema platônico. Para Aristóteles, o ser pode ser captado pelo pensamento, portanto, fixa-se nas palavras oral e escrita a possibilidade de produção de verdade ou de falsidade114. Duas vias são instauradas por esse movimento: uma que efetivará a definição das essências e outra que efetivará a sua explicação, mediante um discurso. Nesse sentido, a ruptura frente ao modelo platônico é realizada na medida em que se afirma que os nomes podem significar independentemente da existência das entidades nomeadas115. Esse movimento crítico aristotélico reestrutura a gnosiologia platônica de tal maneira que, depois dessa construção, não há mais a necessidade de recorrer a um mundo do inteligível para que se possa conferir á mudança aspectos mínimos de estabilidade e acesso ao pensamento. De forma fulcral, o modelo aristotélico efetiva a distinção entre o sujeito e o predicado,

113 A crítica ocorre tendo em vista as afirmações realizadas em Parmênides 127e. A forma com que

ele aponta suas críticas e suas reflexões podem ser observadas na seqüência das seguintes passagens: Física A185a20-32 e 186a22-b35; Categorias 5, 3a10-24; Categorias 5, 2b1-6 e 5, 3a7- 21. A seqüência dessas passagens possibilita entender de que maneira o Filósofo de Estagira estabelece sua noção da evidência lingüística de forma relacional com a experiência individual e os objetos cognitivos.

114 Vários seriam os movimentos a se analisar aqui. Ao que concerne a estrutura de definição das

essências Cf. as seguintes passagens do texto aristotélico: Tópicos A1, 101b38-102a18. Já no âmbito da possibilidade de captação do ser pelo pensamento Cf.: Da Interpretação 1, 16a1-19; Da

alma B5, 418a3-6 e 2-4, 16a20-17a8.

no âmbito lógico e ontológico, independentemente das funções gramaticais que eles possam vir a desempenhar dentro de uma proposição. Por essa razão, no sistema pensado pelo Estagirita, podemos estabelecer relações entre os indivíduos, classes e propriedades. Em última instância, esse sistema realiza uma espécie de libertação da linguagem frente a modelos ideais, de tal forma que agora o próprio sujeito é adotado da capacidade de criação de objetos cognitivos. Assim sendo, o pensamento e o discurso significam o real, logo, libertam-se efetivamente do domínio do ser. Observa-se, nesse ínterim, que tal movimentação trás o poder significativo do nome e da proposição como condições de verdade ou de falsidade, permitindo a possibilidade de se imprimir à realidade uma investigação sistemática.

Nesse modelo idealizado por Aristóteles podemos observar que a linguagem não irá expressar a essência das coisas, como queria Platão, mas sim se constituir em uma técnica útil para que possamos recordar algo da coisa dita, ou seja, a linguagem é um processo técnico arbitrário. Dessa forma, entender os aspectos da linguagem é entender a relação estabelecida entre o intelecto, os conceitos e as coisas.

As formulações de Aristóteles dão outra característica à problemática acerca dos significados dos nomes. Para exprimir suas idéias Aristóteles desenvolve a imagem de um triângulo que, em sua analogia, exprimiria o fundamento de toda função lingüística. De acordo com Bottin116, a figura relativa a esse triângulo semântico ficaria assim esboçada:

No topo do triângulo temos a afecção da alma (conceito/noemata). Na base do triângulo temos, de um lado, os sons produzidos pela voz (té foné), e de outro a

coisa (pragmata). O lado que liga o vértice dos conceitos aos sons da voz constitui uma linha de ligação que detém relações convencionais. Do outro lado, a linha relacional que liga o vértice dos conceitos às coisas é marcada por uma relação natural117. Esse triângulo nos proporciona lançar um olhar para Aristóteles fazendo- nos reconhecer que sua visão acerca da linguagem ela nos é apresentada como algo convencional, aspecto bem oposto ao que Platão acreditava.

O surgimento de uma grande problemática está no fato de que o filósofo colocou, no alto do seu triângulo semântico, uma afecção da alma. Justamente essa afecção da alma teria de dar conta de explicar a relação entre o caráter convencional e o caráter natural da linguagem. Essa tentativa está centrada no fato de que para Aristóteles uma aporia deveria ser resolvida: conhecimento intelectivo e imagem sensível são coisas diferentes, contudo, nenhum conhecimento sensível poderia ser desenvolvido sem a contribuição da imaginação sensível118. Ao colocar no vértice do triângulo uma entidade da alma ou entidade psíquica (e não uma entidade semântica) ele remete a uma estrutura qualquer que está na mente da qual a linguagem se utiliza. Assim, frente aos sons da voz e às coisas do mundo, o Filósofo de Estagira tem a necessidade de introduzir um terceiro tipo de entidade, uma entidade psíquica. Daí a constituição relacional e necessária entre os elementos que compõe o triângulo semântico. Justamente mediante essa construção é que vemos surgir algumas das aporias possíveis de se visualizar dentro do sistema proposto.

Na análise específica que podemos realizar da figura supracitada, faz-se necessário a distinção entre voz e signos escritos, de um lado, e as afecções e as imagens, de outro. O Filósofo parte da noção de que tanto vozes, quanto signos escritos, são convencionais. Nesse sentido, existe a possibilidade de sua variação frente ás diferentes convenções estabelecidas por cada agrupamento humano

117 Na figura imaginada aqui temos ainda um dos vértices do triângulo, a saber, o que liga as palavras

às coisas. Apesar dessa ligação não se configurar como objeto de trabalho do presente estudo, algumas considerações devem ser feitas. Primeiramente cabe ressaltar que a ligação entre as palavras e as coisas não acontece de forma semelhante. Para Aristóteles as palavras são símbolos dos objetos reais, ou seja, ao mesmo tempo em que denota uma ligação com a coisa, demarca a necessidade de uma distância. Na relação estabelecida por Aristóteles os nomes somente podem significar as coisas devido às características impressas pelas impressões da alma. Esse seria uma das principais características que estabelecem a teoria da linguagem aristotélica dentro de um aspecto convencional. No que se refere aos estudos da ligação dos nomes às coisas e desses às afecções da alma conferir OLIVEIRA, 2001, p. 25-33.

idiossincrático. Já o outro grupo de análise, as afecções e as imagens seriam algo vinculado a um escopo natural, por isso, intrínseco a todos os povos e, conseqüentemente de qualquer variação apresentada por esses povos. Essa decorrência nos estabelece uma noção que coloca o primeiro grupo como uma espécie de símbolos das afecções, na medida em que o segundo grupo resultaria em ser imagem das coisas.

O sistema desenvolvido pelo Estagirita, que tem como base o triângulo semântico, tenta responder à pergunta acerca do processo de significação dos termos de uma linguagem. Assim, ele começa por distinguir entre símbolo (convencional) e signo (natural). O problema é estabelecer de que forma se instalam as relações entre as coisas naturais e as convenções criadas pelas linguagens convencionadas pelos homens. O desenvolvimento doutrinal aristotélico119 vê a linguagem como uma convenção objetiva à qual subjaz uma estrutura universal comum a todas as línguas. Justamente nessa perspectiva temos, no seio do próprio Aristóteles, a ambigüidade acerca da relação entre os conceitos e as palavras: do ponto de vista da articulação lingüística ele postula em nível universal uma estrutura objetiva da linguagem; do ponto de vista dos conceitos do pensamento, ele postula uma estrutura mental que possa dar conta da união entre um phonái e certos

pathémata, na própria mente, como uma pura convenção120. No fundo Aristóteles tentará dar conta da explicação acerca da oposição entre convencionalidade e naturalidade da linguagem121.

119 A esse respeito seria interessante confrontar os textos do De Interpretatione 3, 16b21-22 com os

textos da Metafísica 1006a13-22, os quais fazem eco com alguns trechos da Poética 1456b22-24. Nesses livros podemos ver claramente como Aristóteles tenta estabelecer a relação entre signos, símbolos, vox, afecções da alma, as coisas, a linguagem, etc. As aporias que podemos derivar dos escritos aristotélicos foram a porta de entrada para que o problema dos Universais surgisse. O problema dos universais toma corpo e forma na Idade Média a partir do comentário de Boécio ao livro das Categorias de Aristóteles. Contudo, temos de levar em conta que a leitura de Boécio estava profundamente enraizada na Isagoge do neoplatônico Porfírio. Esses aspectos garantiram uma chave de leitura de Aristóteles, no que tange aos aspectos da linguagem, no mínimo muito ambígua.

120 Para sustentar esse sistema ele tem de estabelecer uma relação que explique o significado do

termo “afecção”. Na tentativa de dar conta da relação entre um Phonái e um pathémata seu movimento torna-se ambíguo devido ao fato de que o termo Pathéma relaciona-se com uma afecção sensorial de natureza puramente passiva, enquanto um nóema exprime um conhecimento intelectual produzido especificamente pelo intelecto.

121 O discurso mental idealizado por Aristóteles não é algo vinculado a algum tipo de comunicação

convencional. Argumentos que aludem a esse aspecto podem ser levantados mediante as indicações de PANACCIO, 1999, p. 39.

Entrementes, o texto aristotélico deixa em aberto122 o modo como devem ser as relações entre a intelecção e as sensações na formação de um determinado conceito lingüístico. Essa abertura fará com que Boécio, em seu comentário ao texto aristotélico123, na tentativa de empreender uma sistematicidade maior a este texto, removesse esta aparente ambigüidade. Assim, Boécio não falará de afecções da alma mas de passiones animae124. Na tentativa de Boécio de demonstrar a distinção

aristotélica entre a intenção e a sensação existente internamente nos textos aristotélicos, temos iniciada a tradição medieval que irá investigar em que justamente consiste essa passiones animae. Dentre outros aspectos, tal investigação culminará no famoso problema dos universais.

122 Os textos do De Interpretatione, De Anima e livro Alfa da Metafísica intercalam variados sentidos e

relações da afecção da alma (conceito da mente) com a afecção sensorial (sensação) provocada pelo objeto na formação específica de um determinado conceito expresso através de uma linguagem convencional.

123 Cf. BOÉCIO. In Lib. De Interpretatione. 2ª Ed. Meiser, Teubner, Lipsiae, 1880, 4, p. 26-28; 28,

16-29, 10.

124 Cf. BOÉCIO. In Isagogen Porphyrii. 2ª Ed. S. Brandr, Lipiase, 1906, 167, 17-20. Também,