Michel Foucault, em meados do século XX, considerou o sexo em todo o mundo greco-romano regido pela contenção e arte de administrar o prazer sexual, onde o masculino prevalecia sobre o feminino. A sociedade romana era
84 patriarcal e a masculinidade baseava-se em uma capacidade para governar a si mesmo e outros de menor status, não só na guerra e na política, mas na cama também. Algumas atitudes e comportamentos sexuais na cultura romana antiga diferem de uma maneira marcante daquelas nas sociedades ocidentais Sendo a sexualidade, entendida como uma construção social, histórica e cultural, sente-se a necessidade de ser discutida na escola - espaço privilegiado para o tratamento pedagógico – as questões vinculadas a sexualidade e gênero.
De acordo com as sínteses das discussões realizadas na escola com seus pares os professores/as relatam que ao longo da história ocorreram mudanças de comportamentos e crenças relacionadas à sexualidade. Em diferentes culturas essa foi se tornando questionável em todos os campos de conhecimentos. Inicialmente era encarada como natural e posteriormente certos relacionamentos eram tidos como anomalias e inclusive com tratamentos clínicos, como a homossexualidade que era considerada doença. Louro (2007) chama a atenção para a forma com que os educadores encaram a discussão da sexualidade, pois muitos pensam que se deixar de tratar desses problemas a sexualidade ficará fora da escola. A escola não reproduz ou reflete as concepções de gênero e sexualidade que circulam na sociedade, mas ela própria as produz. Os indivíduos aprendem desde muito cedo a reconhecer seus lugares sociais e aprendem isso através de estratégias muito difíceis de reconhecer.
Justifica-se assim a importância do tratamento de questões relacionadas às relações de gênero e à diversidade sexual durante o processo de ensino/aprendizagem, pois a escola não pode mais simplesmente encaminhar ou marcar horário para tratar destas questões, cabe a ela se aprofundar em conhecimentos científicos historicamente construídos e através de discussões e reflexões oportunizar a mudança de atitudes a todos os sujeitos envolvidos na educação.
No entanto, percebe-se que o/a professor/a tem uma posição de fuga de sua responsabilidade, de aprofundamento de estudos acerca de temas que não condizem especificamente com seus conteúdos disciplinares, como se a educação só se restringisse ao conteúdo específico de cada área do conhecimento.
85 Outro fator importante a destacar é referir-se a meninos e meninas ou homens e mulheres sempre na forma masculina o que favorece uma superioridade de um gênero sobre o outro. A linguagem no masculino não é um reflexo do real, ou seja, a escolha do homem serviu para denominar a única espécie do planeta que se raciocina que tem inteligência.
Portanto, sugere-se que professores e professoras evitem o privilegiamento do masculino, evitando assim maior constrangimento frente aos alunos, esse pode ser um dos caminhos para mudar a realidade. O professor pode reproduzir esta tendência e ou combatê-la.
Sendo assim, Sabat (2007:149) argumenta que:
A educação, compreendida de maneira ampla, é um dos processos mais eficientes na constituição das identidades de gênero e sexual. Em qualquer sociedade, os inúmeros artefatos educativos existentes têm como principal função com/formar os sujeitos, moldando-os de acordo com as normas sociais.
Se a educação é entendida de forma ampla, o professor é o mediador e organizador do processo pedagógico, pois tem uma visão de conjunto sobre a situação, colocando o aluno em contato com outras formas de pensar.
Outro ponto, não menos polêmico, é a possibilidade de, por meio da orientação sexual, identificar casos de violência e abuso sexual, e intervir em qualquer situação de maus tratos ou negligência à criança e ao adolescente.
O ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE (Lei 8069/90) enfatiza no artigo 13 que:
Art. 13. Os casos de suspeita ou confirmação de maus tratos (abuso) contra criança ou adolescente serão obrigatoriamente comunicados ao Conselho Tutelar da respectiva localidade, sem prejuízo de outras providências legais.
E ainda nos artigos 56 e 245 chama a atenção dos profissionais da educação da seguinte maneira:
Art. 56. Os dirigentes de estabelecimentos de ensino fundamental comunicarão ao Conselho Tutelar os casos de: I – maus-tratos envolvendo seus alunos;
86 Art. 245. Deixar o médico, professor ou responsável por estabelecimento de atenção à saúde e de ensino fundamental, pré-escola ou creche, de comunicar à autoridade competente os casos de que tenha conhecimento, envolvendo suspeita ou confirmação de maus-tratos contra criança ou adolescente: E ainda sob Pena – Multa de três a vinte salários de referencia, aplicando - se o dobro em caso de reincidência.
De acordo com Santos (2007, pp. 25-26), há algumas diferenças importantes entre a caracterização do abuso e exploração sexual. No caso do abuso este autor salienta que a maioria das vitimas são crianças com até doze anos na época em que inicia o abuso.
Percebe-se que abuso contém noções de poderio: abuso de poder; abuso de confiança, desrespeito pelo corpo de outrem, ou seja, noções em que a intenção e a premeditação estão presentes. Abuso sexual pressupõe disfunções em três níveis: o poder exercido pelo grande (o mais forte); sobre um pequeno, indefeso (o mais fraco); a confiança que o pequeno (dependente) deposita no maior (protetor).
A maneira como a escola e o professor lidam com as relações de gênero, na maioria das vezes ocorre através da criação de espaços binários que acabam aprisionando as identidades dos sujeitos, espaços estes que quando são transgredidos, deixam o professor desorientado ao lidar com questões referentes ao gênero assim como podemos perceber nas palavras de Rios (2009, p.103):
Nesta linha, diversas cenas relatadas pelos professores cursistas, durante os debates no módulo Diversidade Sexual, apontam para a dificuldade em lidarem no cotidiano escolar, não propriamente com a homossexualidade, mas com meninos e meninas que, por exemplo, brincam de modo divergente do comumente esperado para homens e mulheres (p.e.: menina jogar futebol).
Sendo assim, a atuação do (a) professor diante da questão de gênero é ressaltada nos PCNs, quando destaca que “[...] muitas vezes o professor é chamado a intervir nesses conflitos ao mesmo tempo em que pode propor situações de trabalho em conjunto como estratégia de facilitação das relações entre meninos e meninas” (BRASIL, 1998, p.122). Neste ponto, Guacira Louro (1997) sugere que o (a) educador (a) invente novas formas de dividir grupos,
87 promova debates sobre representações encontradas nos livros didáticos, revistas, filmes etc. recriando os textos numa perspectiva não sexista. Enfatizamos que as medidas propostas pela autora são essenciais, porém lembramos que:
[...] transformar as relações de gênero é algo que vai muito além do que juntar meninos e meninas nos trabalhos escolares ou dar o mesmo presente a meninos e meninas no dia das crianças. Não é uma mudança apenas racional, pois mexe com as emoções, com relações investidas de afeto, além de incidir nas estruturas institucionais. (ALBERNAZ e LONGHI, 2009 p.89).
Percebemos que, a escola é marcada por relações sociais de gênero. Dessa forma, professoras e professores devem refletir sobre suas práticas no que diz respeito ao tratamento de alunos e alunas, pelo fato de nossa vida ser marcada por processos históricos, culturais de produção dos diferentes significados masculinos e femininos que fundamentam nossas relações sociais refletindo-se nas relações estabelecidas dentro da escola e da sala de aula.
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