De acordo com Cortela (2014) em uma entrevista respondendo à pergunta qual a verdadeira função do professor, respondeu:
Muita gente confunde educação com escolarização. Educação é a formação de uma pessoa e escolarização é um pedaço da educação. O que nós professores fazemos é escolarização. Outro dia em um debate um pai me perguntava: “o que a família pode fazer para ajudar a escola na educação dos nossos filhos”? Eu disse: Há uma inversão na sua questão não é a família que ajuda a escola na educação do seu filho, mas é a escola que ajuda a família na educação dos seus filhos, fazendo escolarização.
Assim como diferenciamos sexo e sexualidade, torna-se importante também fazer esta diferença com outras duas expressões usadas e muitas vezes confundidas: educação sexual e orientação sexual.
Educação Sexual e Orientação Sexual são duas terminologias muito
conhecidas, usadas e, às vezes, confundidas, até mesmo por alguns estudiosos da área educacional, pois ao pesquisar a trajetória de abordagem da sexualidade na escola, verificou-se a falta de padronização de uma terminologia básica e de uma posição teórica clara e objetiva acerca desses conceitos. Apesar da semelhança dos termos, estes diferem no seu significado, sendo necessário diferenciá-los.
Na perspectiva de educação sexual, os seres humanos e seu contexto – a família – constituem sistemas próprios nos quais a sexualidade e a educação são processos que se associam à criação, à conservação, à transformação e à sua evolução; porém o que se percebe é que as manifestações de sexualidade afloram em todas as faixas etárias. Ignorar, ocultar ou reprimir são as respostas mais habituais dadas pelos profissionais da educação infantil, conforme observações do cotidiano da vida escolar. Essas respostas se fundamentam na ideia de que o tema deva ser tratado exclusivamente pela família.
A educação em geral começa sempre em casa com a família e a escola vai ensinar e orientar os alunos de acordo com os conteúdos propostos na matriz curricular. Nós sabemos que a estrutura familiar pesa muito nesse aspecto e que hoje a modernidade deixa muito a desejar, infelizmente. (P5)
Olha, acho que vou falar mais da questão pessoal. Eu acredito que vêm da família, porque é o primeiro ponto. (P7)
96 De fato, toda família realiza a educação sexual de suas crianças e jovens, mesmo aquelas que nunca falam abertamente sobre o assunto. O comportamento dos pais entre si, na relação com os filhos, no tipo de “cuidados” recomendados, nas expressões, gestos e proibições que estabelecem é carregado de determinados valores associados à sexualidade que a criança apreende no decorrer dos tempos e acaba por levar para a vida adulta.
De acordo com Mioto (2008, p. 133) o espaço privado se dá a partir do “grau de valorização da família que vai aumentando até chegar a ser colocada como instância primordial da sociedade (...). Enfim, na formação capitalista sob a égide do liberalismo, a família se conforma com o espaço privado por excelência, e como espaço privado, deve responder pela proteção social de seus membros”.
Ribeiro (apud. SUPLICY 1993, p. 22) coloca que:
Educação sexual começa no útero da mãe e só termina com a morte. É um processo ininterrupto, e é através dela que vamos formando a nossa opinião, desfazendo-nos de coisas que ficaram superadas dentro de nós e, ao mesmo tempo, transformando nosso pensamento.
Sendo assim, se a educação sexual diz respeito ao conjunto de valores transmitidos pela família e ambiente social, percorrendo toda a vida, com influências da cultura, da mídia, permite incorporar valores, preconceitos e ideologias. Todos nós somos educadores sexuais, logo, todas as pessoas são educadas sexualmente.
A Educação escolar deve vir de casa e a orientação da escola e as duas devem caminhar juntas. Senão torna-se impossível educar um individuo para a vida sem a presença dos pais ou responsáveis. (P8)
Ela é necessária, só que veja bem, eu acho que mais é uma orientação, porque a educação é de responsabilidade dos pais. (P9)
Eu vejo que a orientação é da escola, do professor que é quem tem que passar; Agora essa educação, está base quem tem que passar é a família. (P 10).
Educação sexual deve partir da casa da criança, dos pais e a orientação nós já fazemos na escola. (P12)
Educação e orientação sexual é para mim quase que a mesma coisa, tem quase mesmo significado e devo sim como
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educadora educar e orientar as crianças já que esse é o meu papel”. (P13)
Ah! Sempre em casa, mas infelizmente quem é educador há anos sabe que hoje em dia muito se tem delegado pra escola; então é aí que o professor entra. O que a gente puder fazer em sala de aula para orientar; ótimo, mas eu acho que tem que ser em casa, dos pais ou responsáveis. (P2)
A educação em geral começa sempre em casa com a família e a escola vai ensinar e orientar os alunos de acordo com os conteúdos propostos na matriz curricular. (P5)
Eu acho que tem que trabalhar em conjunto; tanto da escola como dos pais, uma parceria. (P6)
De acordo com O Guia de Orientação Sexual (1994, p. 8) denomina a sexualidade como sendo “aquela que inclui todo o processo informal pelo qual aprendemos sobre sexualidade ao longo da vida, seja através da família, da religião, da comunidade, dos livros ou da mídia.”.
A responsabilidade é tanto da escola, quanto dos pais – eles devem trabalhar em conjunto – porque não acho que deve ser um assunto estranho – que ele não pode ser tratado com naturalidade – deve ser tratado sim com naturalidade. (P4) Tem que ser trabalhado, não é uma coisa que pode apenas achar que é de responsabilidade da família, achar que a escola não pode se envolver. (P9)
Orientação sexual é um processo de intervenção sistematizado, planejado e intencional, gerando um espaço de acolhimento e reflexão sobre as dúvidas, valores, atitudes, informações, posturas, colaborando para a vivência da sexualidade de forma responsável e prazerosa.
Para Vitiello (1997, p. 95):
A Orientação Sexual implica um mecanismo mais elaborado segundo o qual, baseando-se na experiência e nos seus conhecimentos, o Orientador ajuda o orientando a analisar diferentes opções, tornando-o assim apto a descobrir novos caminhos. (Grifo nosso)
Segundo Suplicy (1998, p. 8):
A Orientação Sexual é um processo formal e sistemático que se propõe a preencher lacunas de informações, erradicar tabus, preconceitos e abrir discussões sobre as emoções e valores que impedem o uso dos conhecimentos na área da sexualidade. (Grifo nosso)
98 O GUIA DE ORIENTAÇÃO SEXUAL (1994, p.112) traz ainda outra definição:
O termo Orientação Sexual quando utilizado na área de educação deriva do conceito pedagógico de Orientação Educacional, definindo-se como processo de intervenção sistemático na área da sexualidade, realizado principalmente em escolas. Pressupõe fornecimento de informações sobre sexualidade e a organização de um espaço de reflexão e questionamentos sobre posturas, tabus, crenças e valores a respeito de relacionamentos e comportamentos sexuais. (Grifo nosso)
Depreende-se da exposição acima, que a orientação profissional tem uma contribuição decisiva no questionamento de tabus, crenças e valores, bem como na desconstrução de preconceitos adquiridos no processo de socialização. Somente por essa via o aluno pode ser capaz de exercer uma condição de sujeito, quando se torna capaz de analisar possibilidades e descobrir novos caminhos.
A criança também sofre influências de muitas outras fontes: de livros, da própria escola, de pessoas que não pertencem à sua família e, principalmente, nos dias atuais, da mídia. Essas fontes atuam de maneira decisiva na formação sexual de crianças, jovens e adultos. A TV veicula propaganda, filmes e novelas intensamente erotizados. Isso gera excitação e um incremento na ansiedade relacionada às curiosidades e fantasias sexuais da criança. Há programas jornalístico-científicos e campanhas de prevenção à AIDS5 que enfocam a sexualidade, veiculando informações dirigidas a um público adulto. Porém, as crianças também os assistem, mas não podem compreender por completo o significado dessas mensagens e muitas vezes constroem conceitos e explicações errôneas e fantasiosas sobre a sexualidade. Todas essas questões são trazidas pelos alunos para dentro da escola. Cabe a ela – a escola – desenvolver ação crítica, reflexiva e educativa.
Não é apenas em portas de banheiros, muros e paredes que se inscreve a sexualidade no espaço escolar; ela “invade” a escola por meio das atitudes
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AIDS ou SIDA é a sigla correspondente à Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. É um conjunto de sintomas ligados à perda das defesas do organismo. A AIDS é causada pelo vírus chamado HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana), que ataca os mecanismos de defesa do corpo humano. O HIV pode ser transmitido pela entrada, na corrente sanguínea, de fluidos sexuais, sangue ou leite materno contaminado.
99 dos alunos em sala de aula e da convivência social entre eles. Por vezes a escola realiza o pedido, impossível de ser atendido, de que os alunos deixem sua sexualidade fora dela. Há também a presença clara da sexualidade dos adultos que atuam na escola. Pode-se notar, por exemplo, a grande inquietação e curiosidade que a gravidez de uma professora desperta nos alunos.
A escola, querendo ou não, depara com situações nas quais sempre intervém. Seja no cotidiano da sala de aula, quando proíbe ou permite certas manifestações e não outras, seja quando opta por informar os pais sobre manifestações de seu filho, a escola está sempre transmitindo certos valores, mais ou menos rígidos, a depender dos profissionais envolvidos naquele momento.
Nesse sentido, cabe aqui analisarmos o conteúdo da orientação
sexual, ou seja, os preconceitos, crenças e valores a respeito de
relacionamentos e comportamentos sexuais.