Diferentemente de Xenofonte que menciona Alcibíades apenas em uma de suas obras, Platão não parece ter tido o constrangimento de seu colega em associar a figura de Alcibíades à de seu mestre. Ao contrário, ele apresenta Alcibíades em alguns de seus diálogos e, como explicarei a seguir, o seu objetivo é igualmente o de defender Sócrates das acusações de corrupção de Alcibíades.
Como o meu objetivo não é fazer uma análise minuciosa da obra platônica, discutirei de modo muito breve apenas as passagens que considero mais exemplares para a compreensão desse retrato de Alcibíades feito por Platão, que, ao meu ver, estabelecem uma relação dicotômica entre o líder político ideal (o filósofo) e o mau líder.
a) Alcibíades I e Górgias
Alcibíades I é um diálogo do tipo refutatório, em que, por meio do diálogo e de constantes refutações, Sócrates desarticula a argumentação do seu oponente.110 No caso, Alcibíades, ainda jovem, ainda prestes a adentrar a carreira política, vê-se forçado a admitir que ele é ignorante acerca das coisas necessárias para desempenhar bem essa função.
É notável que, logo no início, Sócrates apresenta todas as qualidades de Alcibíades, que já foram discutidas por mim anteriormente, e que faziam dele um homem de destaque: ele é belo, nobre e tem uma boa educação, sendo, nesse sentido, superior à maioria dos homens gregos (Alcibíades I 104a5-104b5).
κ δΝΰὰλΝ ὴΝ θαδΝπλ κθΝηὲθΝεΪζζδ σμΝ ΝεαὶΝηΫΰδ κμΝ– εαὶΝ κ κΝηὲθΝ ὴΝπαθ ὶΝ ζκθΝ ῖθΝ δΝκ Νο τ Ν– π δ αΝθ αθδεπ Ϊ κυΝ ΰΫθκυμΝ θΝ Ν αυ κ Νπσζ δ,Νκ Νη ΰέ Ν θΝ ζζβθέ πθ,ΝεαὶΝ θ α γαΝ πλὸμΝπα λσμΝ ΫΝ κδΝφέζκυμΝεαὶΝ υΰΰ θ ῖμΝπζ έ κυμΝ θαδ εαὶΝ λέ κυμ,Ν κ Ν Ν δΝ ΫκδΝ πβλ κῖ θΝ θΝ κδ,Ν κτ πθΝ ὲΝ κὺμΝ πλὸμΝ ηβ λὸμΝ κ ὲθΝ ξ έλκυμΝκ ΥΝ ζΪ κυμέΝ υηπΪθ πθΝ ὲΝ θΝ πκθΝη έαπΝκ δΝ κδΝ τθαηδθΝ πΪλξ δθΝΠ λδεζΫαΝ ὸθΝΞαθγέππκυ,Ν θΝ Νπα ὴλΝ πέ λκπκθΝεα Ϋζδπ Ν κέΝ ΝεαὶΝ Ν ζφ ·Ν μΝκ ΝησθκθΝ θΝ Ν πσζ δΝ τθα αδΝπλΪ δθΝ δΝ θΝίκτζβ αδ,Ν ζζΥΝ θΝπΪ Ν Ν ζζΪ δΝεαὶΝ θΝίαλίΪλπθΝ θΝπκζζκῖμΝεαὶΝ η ΰΪζκδμΝΰΫθ δθέ
Pensas, em primeiro lugar, ser, entre todos, o homem mais atraente e de melhor porte... no que não estás equivocado, pois isso se patenteia aos olhos de todos; e, em segundo lugar, pensas pertenceres à mais destacada família de tua cidade, que é a maior da Grécia, e que contas, por meio de teu pai, com muitíssimas das mais excelentes pessoas na qualidade de teus amigos e parentes, que te amparariam em caso de necessidade; a essas pessoas se somam também outros parentes, por parte de tua mãe, que não são em nada inferiores aos primeiros, tampouco em menor número. E tens Péricles, filho de Xantipo, que teu pai deixou como teu tutor e de teu irmão, quando morreu, pessoa que avalias como aliado mais poderoso do que o conjunto de todos aqueles que mencionei.
Essas constatações de quem era Alcibíades, vindas de Sócrates, deixam-no intrigado, pois ele não compreende o motivo de trazer ao diálogo aquilo que todos já sabem. Mas, evidentemente, sabe-se que elas contribuem para que ele seja derrotado ao final do diálogo.
Alcibíades tem todas as qualidades externas necessárias para se tornar um bom líder, assim como o seu tutor, Péricles, entretanto, falta-lhe algo fundamental, que é o conhecimento filosófico necessário para ser um bom líder. Assim, conforme o diálogo se desenvolve, a arrogância de Alcibíades vai sendo apontada, em suas próprias falas, e ela será a principal responsável por sua derrota, como é possível verificar na passagem a seguir, em que Alcibíades diz, em relação aos líderes de Atenas, considerando-se muito superior a eles (119b5-c): Ν ηΫθΝ πκυΝ αθ π παδ υηΫθκδ,Ν δΝ θΝ ὸθΝ πδξ δλκ θ αΝ α κῖμΝ θ αΰπθέα γαδΝηαγσθ αΝεαὶΝ εά αθ αΝ ΫθαδΝ μΝ πΥΝ γζβ Ϊμ·Ν θ θΝ ΥΝ π δ ὴΝ εαὶΝ κ κδΝ δπ δε μΝ ξκθ μΝ ζβζτγα δθΝ πὶΝ ὰΝ μΝ πσζ πμ,Ν έΝ ῖΝ ε ῖθΝεαὶΝηαθγΪθκθ αΝπλΪΰηα αΝ ξ δθνΝ ΰὼΝΰὰλΝ Νκ ΥΝ δΝ κτ πθΝ Νΰ Νφτ δΝπΪθυΝπκζὺΝπ λδΫ κηαδέΝ
Que se fossem educados, todo aquele que quisesse competir com eles teria que obter algum conhecimento e começar pelo treino, como se fosse enfrentar um atleta. Todavia, agora, observando que esses homens entraram na política como amadores, que necessidade
tenho eu de treino ou prática, ou de me preocupar em aprender? Estou certo de que bastarão minhas capacidades naturais para conseguir uma fácil vitória sobre eles.
Fica evidente que Alcibíades, sabendo de suas qualidades, acredita que elas sejam as únicas necessárias para se governar a cidade. Mas o que ele não compreende é justamente o fato de essas qualidades, juntamente com a sua arrogância, despertarem a ira de seus rivais. Mais do que isso, Sócrates fica desapontado com Alcibíades, porque ele acredita que não precisa mais aprender nada e que tudo o que ele tem já é o suficiente. Assim, com apenas um exemplo muito simples, ele mostra que Esparta é, por si só, muito mais rica do que Atenas e que, por sua vez a Pérsia é ainda mais rica do que as duas cidades gregas. Se eles têm todo esse dinheiro, certamente são mais poderosos e ricos do que Alcibíades e irão, portanto, rir dele quando ficarem sabendo que, apenas aos 20 anos, ele se acha maior do que todos eles e não quer seguir o seu mestre e aprender mais nada (Alcibíades 123d-e).
Assim, por meio do diálogo, Sócrates é capaz de demonstrar a inferioridade de Alcibíades e, por consequência, as suas qualidades enquanto filósofo. Destarte, como bem nota Gribble (1999:221):
O Alcibíades socrático pode ser claramente visto como uma versão do Alcibíades extremo e transgressor da retórica e da historiografia, um grande indivíduo na cidade (uma escolha de vida oferecida pelos deuses que nos faz lembrar de um herói mítico como Aquiles). Não somente Alcibíades tem uma habilidade sem precedentes e uma dunamis ὃὉἷΝὁΝἸἳὐΝὅἷΝ“ἶἷὅὈἳἵἳὄΝἶὁὅΝὁὉὈὄὁὅ”,Νmἳὅ, como no retrato que Tucídides faz de Alcibíades, esses dons estão associados com uma ambição alarmante, potencialmente tirânica, capaz de trazer tanto prejuízo quanto um grande benefício para a cidade.111
Voltarei a essa relação que Alcibíades tem com a cidade no momento em que discutir Tucídides, pois essa relação dual é justamente o que me interessa no retrato de Alcibíades, pὁiὅ,ΝἵὁmὁΝἶἷmὁὀὅὈὄἳὄἷi,ΝὧΝὁΝἵἷὄὀἷΝἶὁΝὄἷὈὄἳὈὁΝὃὉἷΝχὄiὅὈóἸἳὀἷὅΝἸἳὐΝἶἷlἷΝὀ’As Rãs. Por ora, entretanto, voltarei à discussão de mais algumas passagens de Platão.
111Tradução minha: “ἦhe Socratic Alcibiades can clearly be seen as a version of the extreme and
transgressive Alcibiades of rhetoric and historiography, the great individual in the city (the choice of life offered by the gods reminds us of a mythical hero like Achilles). Not only does Alcibiades have that unprecedented ability and dunamis whiἵhΝmἳἽἷΝhimΝ‘ὅὈἳὀἶΝὁὉὈΝἸὄὁmΝὁὈhἷὄὅ’,ΝἴὉὈΝἳὅΝiὀ Thucydiἶἷὅ’ΝἶἷpiἵὈiὁὀΝ of Alcibiades, these gifts are associated with an alarming, potentially tyrannical ambition, capable of bringing either great harm or great good to the city”.
Em Górgias, Alcibíades não é a figura principal, mas é interessante notar que Cálicles é uma figura muito semelhante a ele no que diz respeito à sua ambição e à sua rejeição aos ensinamentos de Sócrates. Górgias também responde à acusação de que Sócrates corrompia os mais jovens, mas, ao invés de utilizar a figura de Alcibíades, aponta a figura de Cálicles, uma pessoa bem menos conhecida, mas que, ao mesmo tempo se assemelha em muitos aspectos ao favorito de Sócrates. Diferentemente do jovem Alcibíades, entretanto, Sócrates não é capaz de convencê-lo a mudar.
Segundo Lopes (2011: 139-146), o modo como Platão constrói o diálogo, com a falha de Sócrates em persuadir Cálicles e, mais do que isso, com a associação que ele estabelece entre Cálicles e Alcibíades, como explicarei melhor adiante, se dá justamente para defender seu mestre das acusações de que ele havia corrompido Alcibíades.
Cálicles tem valores morais que são antagônicos aos de Sócrates e por isso se recusa a aceitar as premissas por ele feitas. Assim, não é só uma questão de opinião que faz com que o seu interlocutor ofereça resistência à argumentação. Sócrates a entende da ὅἷgὉiὀὈἷΝmἳὀἷiὄἳΝὃὉἷΝὧΝὁΝ“ἳmὁὄΝpἷlὁΝpὁvὁ”ΝὃὉἷΝὁΝἸἳὐΝἳgiὄΝἳὅὅimΝ(ἃ1ἁἵἅ-d1).
ἓὅὅἷΝ“ἳmὁὄΝpἷlὁΝpὁvὁ”ΝἶἷvἷΝ ὅἷὄΝἵὁmpὄἷἷὀἶiἶὁΝἵὁmὁΝὁΝἳmὁὄΝpἷlὁΝpὁἶἷὄ,ΝὃὉἷ,Ν como já notei até então, é uma das características típicas de Alcibíades. É interessante ressaltar ainda que Sócrates, após constatar que é esse defeito moral de Cálicles que não o faz resistir aos seus ensinamentos, diz (518a.1-519b.1):
εαέΝφα δΝη ΰΪζβθΝ ὴθΝπσζδθΝπ πκδβεΫθαδΝα κτμ·Ν δΝ ὲΝκ ῖΝ εαὶΝ πκυζσμΝ δθΝ δΥΝ ε έθκυμΝ κὺμΝπαζαδκτμ,Νκ εΝα γΪθκθ αδέΝ θ υΝ ΰὰλΝ πφλκ τθβμΝεαὶΝ δεαδκ τθβμΝζδηΫθπθΝεαὶΝθ πλέπθΝεαὶΝ δξ θΝεαὶΝ φσλπθΝεαὶΝ κδκτ πθΝφζυαλδ θΝ ηπ πζάεα δΝ ὴθ πσζδθ·Ν αθΝκ θΝ ζγ Ν Ν εα αίκζὴΝ α βΝ μΝ γ θ έαμ,Ν κὺμΝ σ Ν παλσθ αμΝ α δΪ κθ αδΝ υηίκτζκυμ,Ν Θ ηδ κεζΫαΝ ὲΝ εαὶΝ ΚέηπθαΝ εαὶΝ Π λδεζΫαΝ ΰεπηδΪ κυ δθ,Ν κὺμΝα έκυμΝ θΝεαε θ·Ν κ Ν ὲΝ πμΝ πδζάοκθ αδ,Ν ὰθΝ ηὴΝ ζαί ,ΝεαὶΝ κ Ν ηκ Ν αέλκυΝἈζεδίδΪ κυ,Ν αθΝεαὶΝ ὰΝ λξαῖαΝπλκμΝ απκζζτπ δΝπλὸμΝκ μΝ ε ά αθ κ,Νκ εΝα έπθΝ θ πθΝ θΝεαε θΝ ζζΥΝ πμΝ υθαδ έπθέΝ
Dizem que eles tornaram a cidade grandiosa, mas não percebem que ela está intumescida e inflamada por causa desses homens de outrora. Pois sem justiça e temperança, eles saciariam a cidade de portos, estaleiros, muralhas, impostos e tolices do gênero, mas quando sobreviver, enfim, aquele assalto de fraqueza, inculparão os conselheiros presentes neste momento, e elogiarão Temístocles, Címon e Péricles, os responsáveis pelos males. Se não tiveres precaução, talvez ataquem a ti e a meu companheiro Alcibíades, quando perderem tanto os bens por eles conquistados quanto os antigos bens, ainda que não sejais responsáveis pelos males, mas talvez corresponsáveis.
Assim, como bem nota Lopes (2011:145), essa predição do desastre político do governo de Cálicles e a sua associação com Alcibíades, que se dá como consequência do “ἳmὁὄΝἳὁΝpὁvὁ”ΝὃὉἷΝἷlἷὅΝὅἷὀὈἷm,ΝὁὉΝὅἷἼἳ,ΝὡΝὅὉἳΝἳmἴiὦὤὁΝἷxἵἷὅὅivἳ,ΝἳἼὉἶἳΝἳΝἵὁmpὄἷἷὀἶἷὄΝ a relação de Alcibíades com a cidade, que representa o problema do homem tirânico dentro do processo democrático, questão essa que será desenvolvida melhor na República, como discorrerei adiante.
Embora a referência direta a Alcibíades nesse diálogo seja mínima, a importância da sua análise para o meu argumento é fundamental pois, essa associação entre Cálicles e Alcibíades é uma forma de justificativa que Platão encontra para a falha de Sócrates em torná-lo um cidadão melhor. Assim, como diz Lopes (2011:146):
A reflexão de Platão sobre a recalcitrância de Cálicles é uma das vias possíveis para se compreender, e por conseguinte para se justificar, o fracasso de Sócrates na tentativa de persuadir Alcibíades da superioridade do modo de vida filosófico sobre o modo de vida político da democracia ateniense: ainda que este último [Alcibíades] compartilhasse das convicções morais de Sócrates, há outros impulsos em sua alma que são igualmente causa de ações e que podem, por sua vez, entrar em conflito com tais opiniões tomadas como verdadeiras. b) República e Banquete
Para que seja possível compreender a relação entre Sócrates e Alcibíades no Banquete e como Platão lá os retrata, é preciso, antes, pensar, mesmo que brevemente, a discussão sobre a democracia e o homem democrático existente no livro VIII da República.
No livro VIII, Sócrates analisa, juntamente com Glauco, quais são as falhas dos governos existentes e, dizendo respeito à democracia, Sócrates aponta três problemas: (1) os homens podem fazer o que quiserem, da maneira que quiserem (557c); (2) a democracia iguala homens que são desiguais. Para Platão, era injusto que pessoas com qualidades e habilidades diferentes fossem igualadas pelo regime democrático (558c). Para ele, o sistema da meritocracia é mais justo, uma vez que quem merece mais tem mais e quem merece menos tem menos, o que, obviamente, não acontece no sistema democrático.112 Por fim, em terceiro lugar (3), está que a democracia contribuiu para
busca de prazeres superficiais. A partir do momento em que os homens têm liberdade e igualdade, eles podem buscar viver suas vidas do modo que acharem melhor, buscando nisso, não somente aquilo que é necessário para se viver, mas prazeres supérfluos (559c- e).
Ora, sobre esse terceiro ponto, Sócrates então nota que essa característica – buscar o prazer supérfluo – é justamente o que constitui a alma do homem oligarca e daí encontramos o problema do paradoxo do homem que vive em um regime democrático, mas age como se fosse da oligarquia, aí está a principal fraqueza, portanto, da democracia, para Platão.
Devo notar uma passagem específica (República 561c-d), aqui, em que Sócrates justamente discute como se dá a busca por esses prazeres, pois essa discussão será útil para a compreensão do retrato de Alcibíades no Banquete:
εαὶΝ δαα Ν ὸΝεαγΥΝ ηΫλαθΝκ πΝξαλδαση θκμΝ Νπλκ πδπ κτ Ν πδγυηέ ,Ν κ ὲΝηὲθΝη γτπθΝεαὶΝεα αυζκτη θκμ,Να γδμΝ ὲΝ λκπκ θΝεαὶΝ εα δ ξθαδθση θκμ, κ ὲΝ ΥΝ α Ν ΰυηθααση θκμ,Ν δθΝ ΥΝ Ν λΰ θΝ εαὶΝ πΪθ πθΝ η ζ θ,Ν κ ὲΝ ΥΝ μΝ θΝ φδζκ κφέ Ν δα λέίπθέΝ πκζζΪεδμΝ ὲΝ πκζδ τ αδ,ΝεαὶΝ θαπβ θΝ δΝ θΝ τξ ΝζΫΰ δΝ ΝεαὶΝπλΪ δ·Νε θΝπκ ΫΝ δθαμΝπκζ ηδεκὺμΝαβζυ ,Ν ατ ΝφΫλ αδ,Ν Νξλβηα δ δεκτμ,Ν πὶΝ κ ΥΝ α έΝεαὶΝκ Ν δμΝ ΪιδμΝκ Ν θΪΰεβΝ π δθΝα κ Ν Νίέῳ,Ν ζζΥΝ τθΝ Ν ὴΝεαὶΝ ζ υγΫλδκθΝεαὶΝηαεΪλδκθΝεαζ θΝ ὸθΝίέκθΝ κ κθΝξλ αδΝα Ν δὰΝπαθ σμ.
Ele vive o dia-a-dia e abandona-se ao desejo que se apresenta. Hoje, embriaga-se ao som da flauta, amanhã, beberá água pura e jejuará; ora se exercita no ginásio, ora fica ocioso e não se preocupa com nada, ora parece imerso na filosofia. Muitas vezes ocupa-se de política e, saltando para a tribuna, diz e faz o que lhe passa pelo espírito; acontece-lhe invejar os homens de guerra? Ei-lo convertido em guerreiro; os homens de negócio? Ei-lo lançado aos negócios. Sua vida não conhece ordem nem necessidade, mas ele a denomina agradável, livre, feliz e lhe permanece fiel até o fim.
Ora, existe uma semelhança latente entre essa descrição do homem democrático apresentada no livro oitavo da República e o modo como Alcibíades é retratado no Banquete: Alcibíades chega atrasado, claramente embriagado e falava como lhe aprouvera, gritando por Agatão (Banquete 212d- 212e):
ΚαὶΝ κ ΝπκζὺΝ λκθΝ ἈζεδίδΪ κυΝ ὴθΝ φπθὴθΝ εκτ δθΝ θΝ Ν α ζ Ν φσ λαΝη γτκθ κμΝεαὶΝηΫΰαΝίκ θ κμ,Ν λπ θ κμΝ πκυΝἈΰΪγπθΝ εαὶΝε ζ τκθ κμΝ ΰ δθΝπαλΥΝἈΰΪγπθαέΝ ΰ δθΝκ θΝα ὸθΝπαλὰΝ φ μΝ άθΝ Ν α ζβ λέ αΝ πκζαίκ αθΝ εαὶΝ ζζκυμΝ δθὰμΝ θΝ εκζκτγπθ,Ν εαὶΝ
πδ θαδΝ πὶ ὰμΝγτλαμ φαθπηΫθκθΝα ὸθΝεδ κ Ν ΫΝ δθδΝ φΪθῳΝ α ῖΝεαὶΝ πθ,ΝεαὶΝ αδθέαμΝ ξκθ αΝ πὶΝ μΝε φαζ μΝπΪθυΝπκζζΪμ,ΝεαὶΝ π ῖθ·Ν θ λ μ,Ν ξαέλ ·Ν η γτκθ αΝ θ λαΝ πΪθυΝ φσ λαΝ Ϋι γ Ν υηπσ βθ,Ν Ν πέπη θΝ θα ά αθ μΝησθκθΝἈΰΪγπθα,Ν φΥΝ π λΝ ζγκη θνΝ ΰὼΝΰΪλΝ κδ,ΝφΪθαδ,ΝξγὲμΝηὲθΝκ ξΝκ σμΝ ΥΝ ΰ θσηβθΝ φδεΫ γαδ,Νθ θΝ ὲΝ επΝ πὶΝ Νε φαζ Ν ξπθΝ ὰμΝ αδθέαμ,Ν θαΝ πὸΝ μΝ η μΝε φαζ μΝ ὴθΝ κ Ν κφπ Ϊ κυΝεαὶΝεαζζέ κυΝε φαζὴθΝ ὰθΝ ππΝ κ π ὶΝ θα ά πέΝ λαΝ εα αΰ ζΪ γΫΝηκυΝ μΝη γτκθ κμνΝ ΰὼΝ Ϋ,Νε θΝ η ῖμ ΰ ζ ,Ν ηπμΝ Ν κ ΥΝ δΝ ζβγ ΝζΫΰπέΝ ζζΪΝηκδΝζΫΰ Να σγ θ,Ν πὶΝ β κῖμΝ έπΝ ΝηάνΝ υηπέ γ Ν Νκ νΝ
Não muito depois ouve-se a voz de Alcibíades no pátio, bastante embriagado, e a gritar alto, perguntando onde estava Agatão, pedindo que o levassem para junto de Agatão. Levam-no então até os convivas a flautista, que o tomou sobre si, e alguns outros acompanhantes, e ele se detém à porta, cingido de uma espécie de coroa tufada de hera e violetas, coberta a cabeça de fitas em profusão, e exclama: "Senhores! Salve! Um homem em completa embriaguez vós o recebereis como companheiro de bebida, ou devemos partir, tendo apenas coroado Agatão, pelo qual viemos? Pois eu, na verdade, continuou, ontem mesmo não fui capaz de vir; agora porém eis-me aqui, com estas fitas sobre a cabeça, a fim de passá-las da minha para a cabeça do mais sábio e do mais belo, se assim devo dizer. Porventura ireis zombar de mim, de minha embriaguez? Ora, eu, por mais que zombeis, bem sei portanto que estou dizendo a verdade. Mas dizei-me daí mesmo: com o que disse, devo entrar ou não? Bebereis comigo ou não?" Sócrates então pede a Agatão que o proteja, pois Alcibíades, que lhe é caro, tem se comportado violentamente contra ele, com ciúmes e insultos. Agatão, por sua vez, explica que, antes de Alcibíades chegar cada um dos convidados estava discorrendo sobre o amor e pede para que ele também discurse. É nesse momento então que, na boca de Alcibíades, Platão coloca um longo discurso de elogio a Sócrates do qual algumas passagens necessitarei reproduzir, para que seja mais clara a sua compreensão.
Apresentarei, a seguir três passagens que são centrais nesse discurso: (1) Alcibíades revela o seu amor por Sócrates e diz que é seduzido por seus discursos; (2) Sócrates não dá valor à riqueza e à beleza – principais características de Alcibíades, como já demonstrei no início deste capítulo; (3) Sócrates não aceita os convites amorosos de Alcibíades e mantém-se fiel aos seus valores.
Alcibíades inicia o seu discurso dizendo que Sócrates poderá pensar que está sendo zombado, mas que tudo o que diz é, de fato, verdadeiro. Assim, elogia longamente a eloquência dos discursos de Sócrates, dizendo (215e-216a):
ΰὼΝΰκ θ,Ν Ν θ λ μ,Ν ΝηὴΝ η ζζκθΝεκηδ Ν σι δθΝη γτ δθ,Ν πκθΝ ησ αμΝ θΝ ηῖθΝκ αΝ ὴΝπΫπκθγαΝα ὸμΝ πὸΝ θΝ κτ κυΝζσΰπθΝεαὶΝπΪ ξπΝ δΝεαὶ θυθέέΝ αθΝΰὰλΝ εκτπ,ΝπκζτΝηκδΝη ζζκθΝ Ν θΝεκλυίαθ δ υθ πθΝ
Ν Νεαλ έαΝπβ ΝεαὶΝ ΪελυαΝ εξ ῖ αδΝ πὸΝ θ ζσΰπθΝ θΝ κτ κυ,Ν λ Ν ὲΝεαὶΝ ζζκυμΝπαηπσζζκυμΝ ὰΝα ὰΝπΪ ξκθ αμ·ΝΠ λδεζΫκυμΝ ὲΝ εκτπθΝ εαὶΝ ζζπθΝ ΰαγ θ β σλπθΝ ΝηὲθΝ ΰκτηβθΝζΫΰ δθ,Ν κδκ κθΝ ΥΝκ ὲθΝ πα ξκθ,Ν κ ΥΝ γκλτίβ σΝ ηκυΝ Ν ουξὴΝ κ ΥΝ ΰαθΪε δΝ μΝ θ λαπκ π μΝ δαε δηΫθκυ,Ν ζζΥΝ πὸΝ κυ κυῒΝ κ ΝΜαλ τκυΝπκζζΪεδμΝ ὴΝκ πΝ δ ΫγβθΝ ΝηκδΝ σιαδΝηὴΝίδπ ὸθΝ θαδΝ ξκθ δΝ μΝ ξπέ
Eu, pelo menos, senhores, se não fosse de todo parecer que estou embriagado, eu vos contaria, sob juramento, o que é que eu sofri sob o efeito dos discursos deste homem, e sofro ainda agora. Quando com efeito os escuto, muito mais do que aos coribantes em seus transportes bate-me o coração, e lágrimas me escorrem sob o efeito dos seus discursos, enquanto que outros muitíssimos eu vejo que experimentam o mesmo sentimento; ao ouvir Péricles porém, e outros bons oradores, eu achava que falavam bem sem dúvida, mas nada de semelhante eu sentia, nem minha alma ficava perturbada nem se irritava, como se se encontrasse em condição servil; mas com este Mársias aqui, muitas foram as vezes em que de tal modo me sentia que me parecia não ser possível viver em condições como as minhas. (grifos meus)
Note-se que já há nesse trecho algo que será desenvolvido mais adiante: Alcibíades é sim tocado pelas palavras de Sócrates e essas o fazem querer mudar seu estilo de vida, porém algo maior o impede.
Antes de discutir essa questão, porém, abordarei outro aspecto do relacionamento entre Sócrates e Alcibíades, que levou ao surgimento de diversas anedotas: a relação homoerótica existente entre eles.
Não dei muita atenção a essas passagens enquanto discutia Alcibíades I e Górgias, pois acredito que esse seja o momento mais adequado para lidar com essa questão. Nas duas obras, Sócrates revelou claramente o seu amor por Alcibíades: em Górgias, Sócrates diz que tem duas paixões – a filosofia e Alcibíades (481d) – em Alcibíades I, já no início do diálogo (103a– 104d), Sócrates diz ser o único amante a não desistir de Alcibíades, mas, ao mesmo tempo, o único que ficara longo tempo sem falar com ele. Isso, segundo Sócrates, deu-se por uma oposição espiritual e ele estava esperando o momento certo em que poderia passar seus ensinamentos a seu amante.
Nessa passagem, é interessante notar que Sócrates relata todas as qualidades que Alcibíades acredita ter e que, por isso, ele afasta os seus amantes: ele não precisa de ninguém, pois supera a qualquer homem em beleza e estatura (104a); que ele vem da família mais poderosa (θ αθδεπ Ϊ κυΝ ΰΫθκυμ) da cidade, da maior cidade da Grécia (104a.5); além disso, dentro dessa família, ele tem como suporte os melhores homens,
enquanto amigos ou parentes, com destaque para o seu próprio tutor, Péricles (104b). Esses elementos todos, portanto, fazem com que os amantes de Alcibíades, sentindo-se inferiores a ele, lhe tenham raiva e sumam.
Aqui, uma anedota que Plutarco (4,5) apresenta sobre a relação de Alcibíades e Anito (um dos responsáveis pela condenação de Sócrates à morte), mesmo que não seja possível prová-la verdadeira, é interessante para ilustrar esse comportamento do belo ἼὁvἷmΝ ἷmΝ ὄἷlἳὦὤὁΝ ἳὁὅΝ ὅἷὉὅΝ pὄἷὈἷὀἶἷὀὈἷὅέΝ ἑὁmὁΝ ἴἷmΝ ὀὁὈἳΝ ἤὁmillyΝ (1λλἃμἂἂ)Ν “ἷὅὈἳΝ anedota, ainda hoje, é famosa. Ela revela quais são as submissões impostas pelo amor”έ113 Anito, que era apaixonado por Alcibíades, convidou-o para um jantar em sua casa. Alcibíades recusou-se a ir, mas, mais tarde, compareceu com um cortejo de foliões e ordenou a seus escravos que levassem de Anito a metade do que ele tinha em vaso de ouroὅΝἷΝpὄἳὈἳέΝἡὅΝἵὁὀviἶἳἶὁὅΝἸiἵἳὄἳmΝhὁὄὄὁὄiὐἳἶὁὅ,ΝmἳὅΝχὀiὈὁΝὄἷὅpὁὀἶἷὉμΝ“ἷlἷΝmἷΝὈὄἳὈὁὉΝ ἵὁmΝἴὁὀἶἳἶἷ,ΝpὁiὅΝlivὄἷΝpἳὄἳΝpἷgἳὄΝὈὉἶὁ,ΝἷlἷΝὀὁὅΝἶἷixὁὉΝἳΝmἷὈἳἶἷ”Ν(“εαὶΝφδζαθγλυππμ·Ν Νΰὰλ ι θΝα Νζαί ῖθΝ παθ α,Ν κτ πθΝ ηῖθΝ ὰΝ ηέ βΝεα αζΫζκδπ θέ” Plutarco, Vida de Alcibíades, 4.6.5).
Esse comportamento hostil de Alcibíades e sua superioridade no que dizia respeito aos seus bens e à sua beleza não impressionavam, no entanto, Sócrates, pois ele não se importava com essas qualidades externas ao homem, mas somente com as internas. Assim, no Banquete, Alcibíades deixa isso claro ao dizer que (216d-216e):
Ν δΝ κ Ν Ν δμΝ εαζσμΝ δΝ ηΫζ δΝ α Ν κ Ϋθ,Ν ζζὰΝ εα αφλκθ ῖΝ κ κ κθΝ κθΝκ ΥΝ θΝ μΝκ βγ έβ,Νκ ΥΝ Ν δμΝπζκτ δκμ,Νκ ΥΝ Ν ζζβθΝ δθὰΝ δηὴθΝ ξπθΝ θΝ πὸΝπζάγκυμΝηαεαλδακηΫθπθ·Ν ΰ ῖ αδ ὲΝ πΪθ αΝ α αΝ ὰΝε άηα αΝκ θὸμΝ ιδαΝεαὶΝ η μΝκ ὲθ θαδΝ– ζΫΰπΝ ηῖθΝ – λπθ υση θκμΝ ὲΝεαὶΝπαέαπθΝπΪθ αΝ ὸθΝίέκθΝπλὸμΝ κὺμΝ θγλυπκυμΝ δα ζ ῖέ
Sabei que nem a quem é belo tem ele a mínima consideração, antes despreza tanto quanto ninguém poderia imaginar, nem tampouco a quem é rico, nem a quem tenha qualquer outro título de honra, dos que são enaltecidos pelo grande número; todos esses bens ele julga que nada valem, e que nós nada somos — é o que vos digo — e é ironizando e brincando com os homens que ele passa toda a vida.
113“Ἔ´ἳὀἷἵἶὁὈἷ,ΝiἵiΝἷὀἵὁὄἷ,ΝἷὅὈΝἵἷlèἴὄἷέΝἓllἷΝἷὅὈΝὄὧvὧlἳὈὄiἵἷΝἶἷΝἵἷΝὃὉἷΝpἷὉvἷὀὈΝêὈὄἷΝlἷὅΝὅὁὉmiὅὅiὁὀὅΝὃὉ’impose
A partir de então, vemos no discurso de Alcibíades o modo como ele se interessou por Sócrates e suas tentativas vãs de ter um encontro consigo. Alcibíades tentou de tudo: tentou dispensar seus acompanhantes, para ter um momento a sós com seu amado, exibiu suas habilidades físicas no ginásio, convidou-o para o jantar, mas nada aconteceu, Sócrates resistiu bravamente a todas as tentações e não teve relações sexuais com Alcibíades.
Não fosse suficiente essa passagem, para que ficasse claro que, ao contrário de Alcibíades, Sócrates resiste às tentações carnais que lhe são impostas, sendo, portanto, um homem que tem controle sobre si mesmo, Alcibíades ainda continua o seu discurso, mostrando como na expedição à Potideia, Sócrates resistiu, mais do que qualquer outro, ao frio, à fome e soube controlar o quanto bebia, de modo a não se embriagar.
Assim, Platão consegue apresentar as virtudes de Sócrates por meio da contraposição entre ele e Alcibíades, que não tem controle sobre seus vícios e valoriza mais as qualidades exteriores do homem do que as interiores. Se Sócrates foi condenado por corromper jovens como Alcibíades, Platão ainda deixa claro que ele não teve culpa, pois todo o amor que ele tinha por Alcibíades foi canalizado para torná-lo uma pessoa melhor, porém algo de imponderável o afastou do bem. Como o próprio Alcibíades disse em seu discurso (216a-216c):
θαΰεΪα δ ΰΪλΝη Ν ηκζκΰ ῖθΝ δΝπκζζκ Ν θ ὴμΝ θΝα ὸμΝ δΝ ηαυ κ ΝηὲθΝ η ζ ,Ν ὰΝ ΥΝἈγβθαέπθΝπλΪ πέΝίέ Νκ θΝ π λΝ πὸ θΝ δλάθπθΝ πδ ξση θκμΝ ὰΝ αΝ κ ξκηαδΝ φ τΰπθ,Ν θαΝ ηὴΝ α κ Ν εαγάη θκμΝπαλὰΝ κτ ῳΝεα αΰβλΪ πέΝπΫπκθγαΝ ὲΝπλὸμΝ κ κθΝησθκθΝ θγλυππθ,Ν Νκ ε θΝ δμΝκ κδ κΝ θΝ ηκὶΝ θ ῖθαδ,Ν ὸΝα ξτθ γαδΝ θ δθκ θ·Ν ΰὼΝ ὲΝ κ κθΝησθκθΝα ξτθκηαδέΝ τθκδ αΝΰὰλΝ ηαυ Ν θ δζΫΰ δθΝηὲθΝ κ Ν υθαηΫθῳΝ μΝ κ Ν ῖΝ πκδ ῖθΝ Ν κ κμΝ ε ζ τ δ,Ν π δ ὰθΝ ὲΝ πΫζγπ, βηΫθῳΝ μΝ δη μΝ μΝ πὸΝ θΝ πκζζ θέΝ λαπ τπΝκ θΝ α ὸθΝ εαὶΝ φ τΰπ,ΝεαὶΝ αθΝ π,Να ξτθκηαδΝ ὰΝ ηκζκΰβηΫθαέΝεαὶΝπκζζΪεδμΝηὲθΝ ΫπμΝ θΝ κδηδΝα ὸθΝηὴΝ θ αΝ θΝ θγλυπκδμ· Ν ΥΝα Ν κ κΝΰΫθκδ κ,Ν Ν κ αΝ δΝπκζὺΝη ῖακθΝ θΝ ξγκέηβθ,Ν Νκ εΝ ξπΝ δΝξλά πηαδΝ κτ ῳΝ Ν θγλυπῳέΝ
Pois me força ele a admitir que, embora sendo eu mesmo deficiente em muitos pontos ainda, de mim mesmo me descuido, mas trato dos negócios de Atenas. A custo então, como se me afastasse das sereias, eu cerro os ouvidos e me retiro em fuga, a fim de não ficar sentado lá e aos seus pés envelhecer. E senti diante deste homem, somente diante dele, o que ninguém imaginaria haver em mim, o envergonhar-me de quem quer que seja; ora, eu, é diante deste homem somente que me envergonho. Com efeito, tenho certeza de que não posso contestar-lhe que não se deve fazer o que ele manda, mas quando