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2.2. Girişimcilik

2.2.1. Girişimcilikle İlgili Kavramlar

2.2.1.4. Sosyal Girişimcilik

Todo processo educacional é construído por interações sociais. Por meio da língua são traduzidas as relações dos processos educativos. Nesse sentido, considerando princípios pedagógicos que sustentam, desde o advento da modernidade, a educação escolar, regular ou especial, parece “natural” esperar menos resultados escolares, quantitativamente e qualitativamente, quando se trata de um aluno surdo, tendo em vista as dificuldades na comunicação e na aproximação da linguagem escolar incorporadas por ele.

Apoiada nas particularidades individuais dos deficientes auditivos, essa argumentação, historicamente construída, não constitui simplesmente um discurso

pedagógico restrito às reflexões sobre os processos educacionais. Há relações sociais mais amplas que a envolvem e terminam determinando as limitações e a diferenciação no acesso ao conhecimento escolar pelos alunos surdos das camadas populares. Nesse aspecto, de acordo com Luchesi (2003, p.136), o que os surdos “aprendem em relação à sua particularidade é que esta não só os diferencia como também os desqualifica socialmente”. Mais ainda,

(...) por serem membros de uma sociedade, é-lhes pedido, ao mesmo tempo, que sejam indivíduos iguais a qualquer outro ser humano, embora não o tratem como tal (portanto, ele não é), e que aceitem a diferença (porque eles a apresentam). (Luchesi, 2003, p.110).

Buscando ir além das percepções sobre os limites impostos pela deficiência de audição, entendo que o problema das desigualdades escolares com relação aos alunos surdos não se encerra na questão da dificuldade da língua, entendida como dificuldade nas trocas comunicativas. Tal como indicaram pesquisas já citadas neste trabalho, há evidências de que os surdos dos extratos mais baixos das camadas sociais têm maiores chances de fracasso escolar e isso não se deve simplesmente porque há a deficiência envolvida nos processos educativos.

A meu ver, a relevância de se compreender os fatores familiares e individuais dos surdos dos meios populares aponta, também, para o questionamento do papel da educação escolar na reprodução das desigualdades sociais, porque mais do que participantes do processo de aquisição de habilidades individuais esses fatores dizem respeito a um problema mais abrangente, qual seja, o de relacionar a questão o problema da cultura às dificuldades identificadas na educação desses sujeitos, o que requer a compreensão da tessitura das relações sociais mais amplas, envolvidas nas condições concretas da vida desses sujeitos.

Nesse sentido, ainda que não baseie minhas considerações em experiências individuais concretas que poderiam aqui ser relatadas, que trouxessem

o passado biográfico do aluno e sua família, busquei aproximações com alunos concretos com os quais trabalhei na própria escola especial pesquisada, que definem esse aluno surdo das camadas populares a que me refiro.

Para construir essa reflexão, reporto às análises desenvolvidas por Bourdieu, apresentadas no primeiro capítulo deste estudo, que mostram que a não proximidade do aluno das camadas populares com a linguagem em que funda a cultura escolar, por conta dos capitais limitados que possui, produz uma relação de confronto entre esse aluno, a escola e o conhecimento escolar, que, em última instância, determinaria sua exclusão nos processos da educação escolar e o rompimento de sua trajetória na escola.

Nessa perspectiva, a ausência ou insuficiência de capital cultural familiar a ser convertido em capital escolar, também, compromete o projeto de escolarização de aluno surdo dos extratos mais baixos das camadas populares, tornando a educação escolar um investimento de poucos retornos para esse sujeito, já que a expectativa de seu desempenho é baixa porque é surdo e pobre.

Com poucas e incertas possibilidades de uma trajetória escolar prolongada, o percurso desse aluno termina, muitas vezes, sendo restrito ao Ensino Fundamental, por várias razões: falta de escola, falta de trabalho, falta de condições sociais e pessoais favoráveis. Nesse aspecto, a opção pela escola especial para esse aluno é justificada pela busca de um espaço de socialização e de convivência entre “iguais”, que não está fundado na possibilidade de construção de uma relação com o conhecimento escolar. Esse aluno aprende com as oportunidades limitadas que são oferecidas que seu horizonte escolar é restrito, com poucas chances no Ensino Médio e numa carreira universitária, espaços que os sistemas de ensino do

Brasil não destina a ele e onde a relação com o conhecimento escolar deve estar fortalecida.

Portanto, se não há uma mobilização pelo conhecimento, como diria Charlot (2000), a perspectiva do acesso à escola por esse sujeito, também, não parece ser a de qualificar-se para conseguir um emprego melhor, já que, desde cedo, aprende que o mercado de trabalho, de antemão, também, pela deficiência e pela origem socioeconômica limita suas possíveis pretensões, oferecendo-lhe funções desqualificadas, porque é surdo e pobre.

Nessas condições, estaria, então, seu projeto de escolarização reduzido, simplesmente, a uma necessidade de aprendizado da língua por conta da surdez? Entendo que não. O aluno surdo das camadas populares, como qualquer outro aluno, constrói sua trajetória escolar segundo as possibilidades que lhe forem oferecidas e se estas forem restritas ao treino para a comunicação, mais ele será posto à margem de seu próprio processo de escolarização.

Nesse contexto, o longo tempo destinado a uma escola que restringe suas oportunidades à aquisição da linguagem termina não contribuindo para sua aprendizagem, para o que poderia ser chamado de “sucesso escolar”, mas, ao contrário, termina reforçando os obstáculos que o aluno surdo das camadas populares encontra para prosseguir seus estudos, tendo em vista que a educação que lhe é oferecida limita seu processo de aquisição de capital cultural, de acordo com o significado dessa relação dado por Bourdieu. Nessa perspectiva, a oportunidade reduzida de posse desse capital, determinante no destino escolar dos alunos dos meios populares, imprime, desse modo, as desigualdades observadas na trajetória do aluno surdo desses mesmos extratos sociais.