NOVOS DESAFIOS.
No processo de conhecimento de determinado fenômeno social é fundamental que a coleta de dados seja acompanhada da observação sistemática. Nesse sentido, a presente pesquisa buscou apresentar relatos de vida dos sujeitos, a partir de suas experiências e das experiências dos outros indivíduos das famílias que compõem nossa amostra, como um recurso metodológico de conhecimento mais aprofundado das condições de vida, de trabalho e das relações afetivas, seja de afinidade quanto de conflito. Com isso, queremos expressar que os dados quantitativos podem ser mais aprofundados com o auxílio dos relatos, obtidos através das entrevistas realizadas e da observação desenvolvida no ambiente de moradia e de trabalho.
Para isso, partimos da apresentação desses sujeitos (trajetória de vida, formas de inserção ao trabalho, formas de inserção em políticas públicas, renda, escolaridade, etc.) a partir da qual abordamos a própria família que, nessa pesquisa, eles representam. Portanto, a fim de facilitar a exposição, dividimos os relatos e as reflexões produzidas em subtítulos: Identificação (onde está inserida informações dos sujeitos entrevistados, dos outros indivíduos que compõem a família, moradia e infra-estrutura básica); Trabalho e Renda; Educação; Cultura e Lazer; Saúde e Segurança Alimentar. Tivemos a preocupação em expor a experiência da vida familiar desses sujeitos a partir de depoimentos que enriquecerá as análises anteriores no sentido de articular, ainda mais, a dimensão qualitativa à dimensão quantitativa na pesquisa:
Perseguir a contribuição que depoimentos e histórias de vida podem oferecer para o conhecimento da vida social implica reconhecer que “no fundo da narrativa encontra-se a realidade social e coletiva incorporada pelo sujeito”. (BRIOSCHI e TRIGO apud YASBEK, 1993).
Sendo assim, apresentamos a seguir os dados levantados nas entrevistas, os relatos que foram gravados e transcritos (com a prévia consulta dos sujeitos) e as reflexões produzidas a partir dessas considerações. Nesse sentido foram
evidenciadas informações relevantes para o entendimento da diversidade familiar e dos inúmeros desafios para o entendimento das condições de vida e de trabalho das famílias de segmentos das classes trabalhadoras neste momento sócio-histórico.
4.4.1 - IDENTIFICAÇÃO
Um dos sujeitos entrevistados, identificada como Dora, tem 41 anos de idade, é negra, empregada doméstica, e em nossa pesquisa representa “uma família nuclear, reconstituída após a separação de um dos cônjuges. Ela é separada do primeiro marido devido aos conflitos e ao alcoolismo do mesmo. Convive com outra pessoa há mais de 19 anos com quem tem 04 filhos, sendo que um deles (de 19 anos de idade) já está casado. A família mora a um mês em casa própria, a primeira casa própria que possuem e que foi conquistada através de um Programa de Habitação Federal, implementado através da Prefeitura Municipal de Currais Novos/RN. A casa tem energia elétrica, água encanada, esgoto e coleta de lixo, embora a falta de água seja diária. A casa se situa na periferia da cidade e, segundo Dora, é uma grande conquista, com a qual sonhou a vida toda:
Juntei dinheiro por muito tempo, quando soube que ia ganhar a casa comecei a juntar, há uns três anos, só pra comprar os móveis da cozinha e um guarda roupa. Eu tô muito feliz na minha casa, vou juntar dinheiro agora pra fazer uma puxadinha por que a casa é muito pequena e quente. Quero fazer uma cozinha e uma área na frente, se Deus quiser eu vou conseguir. (DORA, informação verbal).
Antes de possuir sua própria casa Dora morava dentro da casa da mãe, numa situação muito precária, pois eram duas famílias num espaço físico reduzido.
A casa tem 02 quartos, sala, cozinha e banheiro. O tamanho não é suficiente para a acomodação de todos, dormem na sala à noite, falta água durante o dia e não tem segurança pela falta de muro. Não possui ainda documento que assegure sua propriedade.
Essa “conquista” da classe trabalhadora se confunde no relato de Dora, mais como um “presente” do que um direito. A construção de um sonho como o da casa própria resulta de uma vida de privações materiais e de direitos e de estigmatizacão social, onde emerge a preocupação com a limpeza e a arrumação da casa, a dignidade e a honestidade em contraponto ao trabalho discriminado e precário׃
Sempre gostei de cuidar de meu cantinho, de ver tudo limpo e arrumado, agora que eu tenho minha casa eu tenho mais gosto em arrumar tudo. Ensino pra meus filhos que a gente não deve ter vergonha de ser pobre e que a gente deve ser honesto.(DORA, informação verbal).
João é viúvo da primeira esposa, com quem teve dois filhos, teve um segundo relacionamento no qual teve três filhos que atualmente tem dezesseis, onze e dez anos de idade. Os primeiros filhos não convivem com ele, já tem uma vida independente. Em nossa pesquisa João representa a “família monoparental referenciada por homem com filhos”. É branco, tem segundo grau completo, trabalhou com o pai no escritório de contabilidade, o primeiro da cidade. Veio de Natal com oito anos de idade por que seu pai quis montar um escritório em Currais Novos. Aos vinte anos já trabalhava como autônomo, vendia miudezas, perfumes, na zona rural, “montado a lombo de jumento”. Depois começou a vender jóias folheadas a ouro. Vendeu o jumento, comprou uma moto, depois uma Kombi e atualmente tem uma caminhonete. Mesmo tendo um rendimento fixo como pensionista (é viúvo da primeira esposa), ele continua a trabalhar. Está com 62 anos e trabalha como autônomo na feira livre da cidade onde vende móveis usados.
Helena, 32 anos, de cor parda, tem uma relação afetiva homossexual e, nessa amostra representa “a família referenciada por pessoa homossexual”. Ela mora na casa do seu pai, já idoso, com três filhos (15, 07 e 06 anos), um irmão ((26 anos) e um sobrinho (22 anos). Além dos três filhos mencionados acima, Helena tem uma filha de 12 anos que foi morar na casa de sua irmã em uma cidade vizinha. Essa filha não estuda e não tem contato regular com Helena, fato que ela não quis explicar o motivo. Além desses filhos teve mais dois, que morreram antes de um ano de idade, segundo ela, por falta de atendimento médico.
A casa que a família reside tem energia elétrica, água encanada, coleta de lixo, esgoto geral. Foi ampliada para acomodar ela e os filhos, são dois quartos para ela, sendo que o restante da casa tem 07 cômodos e apenas um banheiro.
Apesar de demonstrar inibição, Helena aos poucos passou a se expressar mais. Quem ajudou a desinibi-la foi a filha adolescente.
A dificuldade de se expressar, de formular as respostas e de nos relatar processos importantes de sua vida acompanharam a entrevista de Helena. Os fatos esquecidos foram relembrados com a ajuda dessa filha. Fatos marcantes como
estupro, exploração sexual, os episódios em que esteve envolvida em brigas foram relembrados mais pela filha que pela própria Helena. É à filha que recorre quando não consegue responder as questões da entrevista: “Ei (gritando para a filha que está arrumando a casa), venha pra cá ajudar, eu não me lembro disso não” (HELENA informação verbal).
Marcada pela violência sexual na infância, Helena não planejou nenhuma gravidez das dez que teve. Quando a mãe de Helena desconfiava que a filha estivesse grávida “dava remédio do mato” para provocar aborto. Segundo a entrevistada, dessa forma foram praticados quatro abortos que ela diz nem compreender na época o que estava acontecendo. Começou a vida sexual após o estupro que sofreu aos nove anos de idade por um homem conhecido de sua família. Na época não houve denúncia e depois disso passou a freqüentar, na companhia de amigas, prostíbulos da cidade. Na adolescência Helena se relacionou sexualmente com idosos, recebia dinheiro por isso e se refere a essa prática com naturalidade. Segundo ela, na juventude passou a se relacionar afetivamente com mulheres, mesmo que ainda se relacionasse sexualmente com homens nos “cabarés” que freqüentava.
A entrevistada refere-se ao relacionamento homossexual de forma positiva em que destaca o apoio recebido pela companheira nos momentos de carência material. Diz que estão brigadas, mas que é por pouco tempo. Os filhos e irmãos dela sabem do relacionamento, conhecem a sua companheira e conversam naturalmente sobre o fato. A filha adolescente reconhece que a companheira de sua mãe ajuda com dinheiro e dando conselhos para que ela trate melhor os filhos. Embora esses aspectos possam ser considerados positivos ao relacionamento de Helena com sua própria sexualidade ela se refere ao sentimento de discriminação que sofre no dia-a-dia por pessoas que não são da família: “... já escutei gente da rua me chamar de sapatão, mas é ela (a companheira) que me ajuda com os meninos, ela é muito boa pra mim” (HELENA informação verbal).
A família de Helena já foi atendida pelo CRAS diversas vezes através de visitas e orientações solicitadas pelo Poder Judiciário por negligência da entrevistada em relação aos filhos. Esses atendimentos foram iniciados a partir do momento em que a filha adolescente passou a freqüentar festas noturnas, sem a companhia de responsáveis e ser vista pedindo dinheiro a homens adultos e que, na
época, foi motivo de suspeita de exploração sexual pelo Conselho Tutelar. Após audiência com promotor e juiz Helena se comprometeu a proibir a permanência da filha em lugares impróprios à sua idade e a melhor orientá-la. No entanto, a exploração sexual da adolescente é uma realidade que representa atualmente para a família uma importante fonte de renda.
Queremos destacar também a historia de Márcia que tem dezoito anos, cor parda. Em nossa pesquisa Márcia representa a “família referenciada por um casal adolescente”. É casada com um adolescente de dezessete anos com quem tem uma filha de seis meses.
A casa em que Márcia e a família moram foi construída há mais de quarenta anos numa área do DNOCS, que nessa época era uma área rural, mas que atualmente já foi incorporada pelo crescimento da cidade. A casa tem 02 vãos, é de taipa, bastante precária e não tem escritura, apenas uma declaração de usufruto do terreno. Foi cedida ao casal pelos pais do companheiro de Márcia e foi construída ao lado de outra casa de taipa, onde mora a mãe e os irmãos de Márcia. Um banheiro serve a essas duas casas e fica nos fundos do terreno.
D. Vilma tem 64 anos, é branca, representa a “família que tem em seu núcleo de convivência uma pessoa idosa”. Mora atualmente com a família de seu filho (nora e dois netos)
Criada no sítio, casada com um vaqueiro (seu primeiro casamento), D. Vilma deixou a zona rural quando o marido veio buscar emprego na cidade. Seguindo as oscilações econômicas da região seridoense, a vida de D. Vilma começa a tomar novos rumos ao adentrar no mundo urbano, na década de 1960. O marido abandona a vida de vaqueiro para desempenhar um novo ofício: o de minerador, na busca por trabalho assalariado registrado. Depois que o marido de D. Vilma morreu, ela ficou com 05 filhos para criar. Ainda nova, com o tempo, casou-se novamente, mas com poucos anos enviuvou de novo.
Descobriu a diabetes antes dos 60 anos. Faz tratamento, se cuida bastante, mas devido um ferimento que foi se agravando teve que amputar uma das pernas. D. Vilma usa insulina diariamente e diz que antes da amputação se sentia muito doente e que a cirurgia assim como a medicação para dormir fez com que ficasse mais calma e se sentisse melhor, embora sinta medo de sair de casa, o que faz se
sentir ainda mais sozinha. Só sai uma vez ao mês e para ir ao médico. Tem um sonho׃
Quando eu conseguir minha perna eu vou sair muito. Quero muito ir pra missa, ir na casa das minhas conhecidas. Eu tenho muitas amigas, mas não da pra ir de cadeira de rodas. Eu tenho ate que mandar meu filho ir na Casa da Família falar com a Assistente Social pra ver se tá perto de chegar a prótese (D. VILMA. Informação verbal).
Refere-se positivamente aos filhos, embora demonstre um apego especial pelo filho que mora com ela. Passa o dia muito ociosa, não participa de grupo de idosos e depois que recebeu alta da fisioterapia não faz nenhum exercício que possa servir como terapia ocupacional.
A casa em que a família vive tem nove cômodos, está em bom estado de conservação, tem água, luz elétrica e é servida por esgoto geral.
A família é atendida pelo CRAS em decorrência do acompanhamento de D. Vilma após a amputação. Ela foi encaminhada pelo Serviço Social para a Secretaria Estadual de Saúde para receber uma prótese, o que causa ansiedade em D. Vilma, já que espera há quase um ano.
Para representar a “família extensa e que tem uma pessoa com deficiência” foi selecionado Francisco que tem 59 anos e é branco.
Abandonado pela mulher, na época com onze filhos pequenos para criar, sendo oito menores de idade, Francisco tem enfrentado muitas dificuldades para manter a família.
Atualmente Francisco mora com três filhas (24, 18 e 23), um genro (24 anos) e um neto (03 anos). A casa foi dividida em três para que ele tivesse seu próprio espaço (um quarto e um banheiro). As duas filhas solteiras moram em outros dois vãos e a filha casada mora com sua própria família também em dois vãos, nos fundos da casa. As adaptações foram sendo construídas após o casamento da filha mais velha – a mesma que ajudou o pai a criar os dez irmãos após a mãe ter ido embora.
As condições de conservação da casa de Francisco são precárias, pois a casa precisa de pintura, reboco, tem varias infiltrações nas paredes e o telhado está em péssimo estado. Alem desses vãos a casa foi dividida para abrigar um pequeno ponto comercial que, ao estar alugado, ajuda na renda da família.
Joana representa a “família nuclear e adotiva”. É parda, tem 47 anos, mora com o marido (56 anos), um filho de 22 anos e a filha adotiva (com um ano de idade). A filha veio morar com ela após o parto, e estão ainda aguardando a finalização do processo de guarda.
A família tem como renda um pouco mais de dois salários mínimos. Moram em casa própria e demonstram grande satisfação com a experiência da adoção. Motivada por isso e também pela falta de recursos financeiros para contratar um advogado particular Joana procurou o CRAS, pelo qual já foi atendida com visitas domiciliares, encaminhamentos e elaboração de estudo social.
A história da adoção começou quando Joana ainda tinha 45 anos de idade, mas disse que sempre teve vontade de ser mãe de uma menina e que, depois que o filho passou a trabalhar fora, se sentia muito sozinha. Diz que a adoção foi muito idealizada e que, quando conseguiu uma mulher interessada em doar a filha que estava esperando já se comprometeu com a mesma em adotar a criança. Relata que não procurou inicialmente fazer a adoção de forma legal pela demora com esse tipo de processo:
Eu sabia que se fosse esperar a fila da justiça (adoção legal) eu não ia conseguir tão cedo adotar um filho. Essas coisas demoram demais. Pra quem tem dinheiro, advogado bom, não demora não. Como eu não tenho fiz como muita gente faz. Soube que tinha uma menina que tava doida pra arranjar uma pessoa pra dar o bebê que tava esperando. Quando vieram me dizer, eu corri lá e falei com ela. A mãe dela me disse que não ia criar a neta por que não tinha condição, mas que também não ia dar pra qualquer pessoa. A gente se entendeu, eu disse a ela que ela não ia se arrepender quando me desse a neta pra criar, por que eu sempre tive um sonho de ter uma menina. Eu comprei o enxoval, ia até nas consultas dela... eu já me sentia a mãe da menina (JOANA, informação verbal).
Refere-se ao apoio prestado pelo Serviço Social do CRAS que orientou a encaminhou ao advogado do Serviço de Atendimento Jurídico oferecido pela Secretaria Municipal de Assistência Social. Atualmente, Joana tem a guarda provisória e está aguardando a definitiva.
A família mora em casa própria, com 06 cômodos, num bairro periférico da cidade. E também precisa de manutenção. Tem água, energia elétrica e é ligada ao sistema de esgoto geral.
Isabel representa a “família monoparental referenciada por mulher com filhos”. É negra, tem 29 anos, é separada, mora com 03 filhos (12, 09 e 07 anos) e uma tia de 59 anos de idade.
A casa em que vive a família é cedida por um familiar e tem 04 cômodos (duas salas – sendo que uma serve de quarto – cozinha e banheiro). Tem água encanada, energia elétrica e é servida por esgoto geral, mas está em condições precárias de conservação.
Há um ano veio morar com a tia. Antes morava com a mãe e as irmãs, mas elas se mudaram para uma casa menor e distante do centro da cidade que dificultava a locomoção para a escola e seu trabalho.
4.4.2 - TRABALHO E RENDA
Dora trabalha como empregada doméstica, numa jornada diária de 8 horas, percebendo o valor de R$200,00 e não tem registro em carteira. O marido é catador de material reciclável, trabalha no Aterro Sanitário, embora Dora tenha declarado que esse equipamento funcione ainda como lixão (catação diária, sem organização dos trabalhadores, sem segurança para desempenhar esse trabalho). A família tira seu sustento de atividades precárias, sem registro e sem segurança quanto a acidentes de trabalho ou cobertura previdenciária. Juntando os rendimentos de Dora (R$200,00) com o do marido (aproximadamente R$250,00) e o benefício do Programa Bolsa Família, soma-se R$ 575,00 mensal para atender as necessidades básicas da família. A insegurança no trabalho demarca uma situação de insegurança que também se reflete na falta de garantia das condições de segurança alimentar, saúde, educação, lazer e moradia para toda a família.
A precariedade e a periculosidade do trabalho no lixo levam a família a garantir seu sustento através de outra atividade também precária, como é o caso do trabalho doméstico desempenhado por Dora que passa das 08 h as 16 h arrumando e cozinhando em outra casa, distante da sua. Acorda de madrugada, enche todos os baldes e panelas com água, que só chega de madrugada, para que não falte até à noite. Quando sai de casa pela manhã é a filha de 13 anos que assume os cuidados com a casa, arrumando e cozinhando. Ao se referir aos filhos Dora defende
enfaticamente a educação e que não quer que os filhos trabalhem até terminarem seus estudos e fazerem concursos ou conseguirem emprego com carteira assinada׃
Ah, eu quero que meus filhos estudem e eles, graças a Deus, gostam de estudar, não me dão trabalho não. O mais velho tá no segundo ano do segundo grau e quer fazer o concurso da prefeitura. Ele nunca fez curso nenhum, mas tem muita vontade de ganhar o dinheiro dele para me ajudar. (DORA, informação verbal).
O relato expressa uma preocupação com a garantia de estabilidade no emprego para os filhos e também que a história de trabalho deles não seja como a dos pais.
No tocante ao trabalho doméstico a reprodução da desigualdade entre homem e mulher também se evidencia em que o sujeito entrevistado, ao ter que trabalhar fora, mesmo que de forma precária, transfere parcialmente as responsabilidades domésticas à filha.
Em relação à profissionalização poucas mudanças têm se efetivado na vida de Dora e de seus familiares. Dora foi incluída em cursos pouco atrativos para o mercado de trabalho, além do que os cursos não foram articulados a processos de organização produtiva (cooperativa, associações) capazes de resultar em inserção no mercado de trabalho. Através do CRAS Dora fez cursos profissionalizantes de doces, salgados e carpintaria, mas nunca trabalhou nessas áreas, permanecendo no trabalho do lixo e, atualmente, no trabalho sem registro como empregada doméstica. A permanência em trabalhos precários demonstra uma tendência de reforço da condição de vulnerabilidade social, embora a inclusão em cursos de qualificação profissional indique numericamente, apenas, que o direito à profissionalização vem acontecendo na realidade. Já o direito ao trabalho, historicamente violado na realidade brasileira especificamente a partir da década de 1990, tem levado a classe trabalhadora ao desemprego, a reedição de formas degradantes de trabalho e a precarização, onde a figura do catador de lixo expressa uma realidade de insegurança, insalubridade e profunda estigmatização social:
Eu já me senti discriminada sim, quando eu tava no lixão as pessoas na rua me olhavam com nojo de mim. Também eu sou preta, sou pobre e muita gente me olha diferente, mas eu não ligo não, confio em Deus (DORA, informação verbal).