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I. BÖLÜM

2.3. Sosyal Bilgiler ve Demokrasi

2.3.1. Sosyal Bilgiler Kavramı

Em sua “crítica sociológica da lingüística”, Bourdieu sugere um tríplice deslocamento de seus conceitos. Ele propõe a substituição de gramaticalidade (língua) por aceitabilidade (língua legítima), das relações de comunicação (ligadas ao sentido do discurso) por relações de força simbólica (onde contam o valor e o poder do discurso) e, finalmente, da competência propriamente lingüística pelo “capital simbólico, inseparável da posição do locutor na esfera social” (BOURDIEU, 1977/1983, p. 157).

Para este sociólogo,

uma ciência rigorosa da linguagem substitui a questão saussuriana das condições de possibilidade da intelecção (isto é, a língua) pela questão das condições sociais de possibilidade da produção e da circulação lingüísticas. O discurso deve sempre suas características mais importantes às relações de

produção lingüísticas nas quais ele é produzido. O signo não tem existência

(salvo abstrata, nos dicionários) fora de um modo de produção lingüístico concreto. Todas as transações lingüísticas particulares dependem da estrutura do campo lingüístico, ele próprio expressão particular da estrutura das relações de força entre os grupos que possuem as competências correspondentes (ex.: língua “polida” e língua “vulgar” ou, numa situação multilingüística, língua dominante e língua dominada) (1977/1983, p. 159).

Este posicionamento de Bourdieu é convergente com as proposições de Bakhtin/Volochinov, em Marxismo e filosofia da linguagem. Nesse livro, Bakhtin/Volochinov critica as duas tradições principais na filosofia da linguagem e na lingüística: o subjetivismo idealista (do qual Wilhelm Humboldt é identificado como o principal representante), que toma a língua enquanto criação individual, em analogia à criação artística, e o objetivismo abstrato (que, segundo o autor, tem em Saussure seu

expoente), onde “o fator normativo e estável prevalece sobre o caráter mutável” (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929/1981, p. 103).

Segundo Bourdieu, a estrutura da relação de produção lingüística depende da relação de força simbólica entre os interlocutores, do capital de autoridade que cada um possui: “a competência é também portanto capacidade de se fazer escutar.”

A língua não é somente um instrumento de comunicação ou mesmo de conhecimento, mas um instrumento de poder. Não procuramos somente ser compreendidos mas também obedecidos, acreditados, respeitados, reconhecidos. Daí a definição completa da competência como direito à

palavra, isto é, à linguagem legítima como linguagem autorizada, como

linguagem de autoridade. A competência implica o poder de impor a recepção. (1977/1983, p. 161).

Todas as formas de capital disponíveis ao locutor - o econômico, o cultural, o social, o simbólico etc. - 8 intervêm na afirmação da sua competência:

a competência não se reduz à capacidade propriamente lingüística de engendrar um certo tipo de discurso, mas faz intervir o conjunto das propriedades constitutivas da personalidade social do locutor (em particular, todas as formas de capital das quais ele está investido) (p. 170).

Mais adiante, Bourdieu reforça esse posicionamento, considerando que qualquer expressão verbal “leva a marca, em seu conteúdo e sua forma, das condições que o

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O capital cultural ocorre em três estados: no incorporado, “sob a forma de disposições duráveis do organismo” (resultante, especialmente, de transmissão doméstica e escolar), no objetivado, “sob a forma de bens culturais - quadros, livros, dicionários, instrumentos, máquinas, que constituem indícios ou a realização de teorias ou de críticas dessas teorias, de problemáticas etc.” e, finalmente, no

institucionalizado, como é caso dos diplomas (BOURDIEU, 1979/1999, p. 74). Já o capital social

corresponde ao “conjunto de recursos atuais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável

de relações mais ou menos institucionalizadas de interconhecimento e de inter-reconhecimento ou, em

outros termos, à vinculação a um grupo, como conjunto de agentes que não somente são dotados de propriedades comuns [...] mas também são unidos por ligações permanentes e úteis”. O capital social está na base da capacidade de “mobilizar, por procuração, o capital de um grupo (família, antigos alunos de escolas de “elite”, clube seleto, nobreza etc.) mais ou menos constituído como tal e mais ou menos provido de capital” (BOURDIEU, 1980/1999, p. 67). Qualquer tipo de capital assume a forma de capital

simbólico “quando é percebido através das categorias de percepção, produtos da incorporação das

divisões ou das oposições inscritas na estrutura da distribuição desse tipo de capital (como forte/frágil, grande/pequeno, rico/pobre, culto/inculto etc.)” (BOURDIEU, 1994/1996, p. 107). A noção de capital

campo9 considerado assegura àquele que o produz em função da posição que ele ocupa” (p. 173).

De acordo com tais premissas, Bourdieu identifica um discurso legítimo a partir dos seguintes pressupostos tácitos de sua eficácia: ser pronunciado por um locutor legítimo, numa situação legítima e dirigir-se a destinatários legítimos (1977/1983, p. 163). Desse modo, o poder de imposição da visão legítima é proporcional ao poder simbólico dos agentes, quer dizer, do reconhecimento que recebem de um grupo.

A autoridade que funda a eficácia performativa do discurso é um percipi, um ser conhecido e reconhecido, que permite impor um percipere, ou melhor, de se impor como se estivesse impondo oficialmente, perante todos e em nome de todos, o consenso sobre o sentido do mundo social que funda o senso comum (BOURDIEU, 1982/1998, 82).

Se conhecimento supõe compreensão ativa e crítica, reconhecimento significa aceitação. Do desconhecimento, passando pelo reconhecimento, chega-se à legitimação, ao consenso, à autoridade.

Em outro texto (1989/1998, p. 28), Bourdieu faz uma crítica acerca da tomada de certos objetos para a investigação sociológica que, cremos, pode ser estendida à questão da emergência de certas temáticas na agenda propositiva de administradores públicos e de especialistas acadêmicos. Seria o caso, por exemplo, da inovação curricular, tema em que estamos interessados. A inovação curricular é uma questão colocada como relevante por determinado(s) grupo(s) em determinado momento histórico. O que se

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Segundo Bourdieu, “um campo pode ser definido como uma rede ou uma configuração de relações objetivas entre posições. Essas posições são objetivamente definidas, em sua existência e nas determinações que elas impõem sobre seus ocupantes, agentes ou instituições, pela sua situação atual ou potencial na estrutura de distribuição de espécies de poder (ou capital) cuja posse comanda o acesso a ganhos que estão em jogo no campo, bem como por sua relação objetiva com outras posições (dominação, subordinação, homologia etc.). Em sociedades altamente diferenciadas, o cosmo social é constituído de um tanto de microcosmos sociais relativamente autônomos, isto é, espaços de relações objetivas que são o lugar de uma lógica e de uma necessidade que são específicas e irredutíveis àquelas que regulam outros campos” (BOURDIEU e WACQUANT, 1992, p. 97). Neste trabalho, no Capítulo 3, ao tratarmos de um programa de inovação curricular, estaremos nos referindo a dois campos que poderíamos identificar como escolar (aquele relacionado ao ensino fundamental e médio) e universitário. Por outro lado, esses dois microcosmos poderiam, juntos, ser identificados ao que chamaríamos de

campo educacional. A partir da definição apresentada, pode-se perceber o quanto as noções de campo e

de capital estão relacionadas. Tanto é que o valor de um determinado capital depende do campo em que ele será empregado.

propõe aos professores, como eles são considerados e o modo como são chamados a participar representam noções e ações que são dirigidas, com suposta neutralidade, por aqueles que se reconhecem e são reconhecidos como autorizados para definir os temas e as regras do jogo dos acontecimentos sociais. Mais adiante, Bourdieu acrescenta um comentário referente à universalidade das questões colocadas pelo Estado:

o trabalho de produção dos problemas oficiais, quer dizer, dotados dessa espécie de universalidade que lhes vem do fato de estarem garantidos pelo Estado, dá quase sempre lugar, hoje em dia, àquilo a que se chama peritos, entre os quais se acham sociólogos, que se servem da autoridade da ciência para garantirem ou afiançarem a universalidade, a objetividade, o desinteresse da representação burocrática dos problemas (1989/1998, p. 38).

Com base nos pressupostos da eficácia de um discurso legítimo, conforme propostos por Bourdieu e indicados acima, buscamos, no Capítulo 3, problematizar a maneira como as posições (os lugares) de diferentes sujeitos, professores do Ensino Médio e professores universitários - da área de Química e da área de ensino de Química - se definem no processo de enunciação da proposta curricular em questão.

Benzer Belgeler