No presente estudo, a maioria dos idosos era do sexo feminino (72,5%), com idade entre 60 e 69 anos (50,7%) e casado (a) (53,6%). Esses dados estão em conformidade com tendência nacional segundo informações do IBGE (2013b) e também foram encontrados em outros estudos (Carvalho, Lima Neto, Silva, Nunes, & Alchieri, 2014; Faller et al., 2010). De acordo com Vitorino, Paskulin e Vianna (2013), a longevidade das mulheres pode ser explicada por diversos fatores, destacando-se, nos países em desenvolvimento, a maior exposição à mortalidade por causas externas em faixas etárias jovens,
156 principalmente homicídios e acidentes de trânsito.
A maioria dos idosos possuía renda de até 1 salário mínimo (35,4%) e morava com cônjuge (34,6%), dados que também estão em conformidade com a tendência nacional, segundo IBGE (2013b). Estudo desenvolvido também no nordeste, cujo objetivo foi avaliar o desempenho de idosos participantes de grupos de convivência na realização das atividades básicas e instrumentais de vida diária, identificou predominância de idosos casados (52,25%) e com renda de 1 salário mínimo (53,15%) (Carvalho et al., 2014). Nota- se, no entanto, que no que concerne ao grau de escolaridade, a maoria dos idosos participantes desta pesquisa possuem segundo grau completo ou nível superior, diferentemente da maioria da população idosa brasileira.
Os resultados empíricos explicitados parecem indicar evidências de validade fatorial e consistência interna da Escala de Percepção da Violência Urbana contra Pessoas Idosas no contexto em que o estudo foi realizado. A medida foi mais bem representada por uma solução bifatorial, composta pelas dimensões Manifestações da Violência urbana e suas consequências e Violência urbana e serviços institucionais.
A dimensão Manifestações da Violência urbana e suas consequências foi formada por itens relacionados a diversas formas de manifestação da violência urbana e as consequências psicológicas negativas vivenciadas pelas pessoas idosas. Entre as formas de manifestação destacam-se a violência no trânsito (item 23: A violência urbana ocorre no trânsito das cidades), a criminalidade (item 31: É comum acontecer assalto a pessoas idosas dentro ou perto de bancos, lojas ou supermercados), o abuso sexual (item 17: A violência urbana envolve estupro e abuso sexual), a falta de educação para com o idoso (item 29: A falta de educação com as pessoas idosas é uma forma de violência urbana), a falta de respeito na família (item 20: A violência urbana envolve a falta de respeito da família), a violência presente no atendimento público de saúde (item 18: Ocorre violência
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contra a pessoa idosa no serviço público de saúde) e nos sistemas socioeconômico (item 2: O sistema econômico contribui para a violência urbana contra os idosos) e político (item 25: O descaso das autoridades políticas é uma forma de violência urbana contra as pessoas idosas). No tocante às consequências psicológicas, os itens revelam principalmente os sentimentos de medo, preocupação e insegurança gerados pela violência urbana, assim como podendo levar o idoso a ficar traumatizado ou deprimido.
Esses resultados corroboram com diversos estudos que também encontraram associação entre violência urbana e diferentes formas de criminalidade como o roubo, morte e drogas (Costa, Coutinho, & Araújo, 2011; Almeida & Santos, 2013; Cruz et al., 2011; Santos, Almeida, Mota, & Medeiros, 2010). Outros estudos também apontam para a relação entre violência e falta de educação familiar ou de respeito na família (Almeida & Santos, 2013; Araújo et al., 2013; Araújo & Lobo Filho, 2009), violência e abuso sexual (Santos et al., 2010; Acierno et al., 2010; Biggs et al., 2009), violência e trânsito (Vello et al., 2014; Maagh, Lange Linck, Gigante, Pereira, Quadros, 2013), bem como a violência presente no atendimento público de saúde (Vello et al., 2014; Lima et al., 2014) e nos sistemas socioeconômico e político (Lima, Souza, Lima et al., 2010; Armani & Cruz- Silva, 2010; Balista, Basso, Cocco, & Geib, 2004).
De forma consonante com os resultados da presente pesquisa, a OMS (2002) destaca o sentimento de medo e a depressão entre as diversas repercussões da violência na esfera psicológica. É possível encontrar estudos que apontam para a presença de aspectos psicoafetivos como medo, insegurança e depressão em pessoas de todas as faixas etárias. Fonseca et al. (2012) encontraram a associação entre violência e sentimentos como medo e preocupação entre as representações sociais de mulheres residentes na cidade de João Pessoa. Polaro, Gonçalves e Alvarez (2013) identificaram que o fenômeno da violência impacta o trabalho de enfermeiras em atividade nas unidades de estratégia de saúde da
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família, induzindo-as aos sentimentos de medo e frustração profissional pelo constrangimento e limitação de suas funções. Pesquisa desenvolvida por Lima et al. (2013) com alunos do ensino médio de duas escolas públicas em Cuiabá, Mato Grosso também demonstrou que as representações sociais da violência elaboradas pelos participantes da pesquisa ancoravam-se na esfera psicossocial e psicoafetiva objetivando-a, entre outros elementos, como depressão, exclusão, preconceito e sofrimento. Elsner, Pavan e Guedes (2007) apontam que após ter sofrido episódios de violência, o idoso pode demonstrar medo, exacerbação de quadro depressivo, passividade, resignação, tristeza, desesperança, falta de defesa, ansiedade, agitação, entre outros sintomas.
A segunda dimensão denominada Violência urbana e serviços institucionais foi composta por expressões referentes à violência urbana presente em instituições bancárias (item 32: Considero que as agências bancárias oferecem um bom atendimento para as pessoas idosas) e de transporte coletivo (item 33: Os transportes coletivos são bem adaptados para os idosos) e ao desrespeito ao direito em filas e vagas preferenciais para idosos (item 22: As pessoas respeitam as filas e vagas preferenciais para idosos). Compõe também essa dimensão uma questão relacionada ao sentimento de medo e preocupação causado pela violência (item 14: A violência urbana não me causa medo ou preocupação). De modo geral, essa segunda dimensão parece expressar as dificuldades e conflitos intergeracionais vivenciados por uma sociedade onde cresce o número de pessoas idosas e que, consequentemente, necessitam de adaptações e atendimento diferenciado em serviços institucionais como bancos e transportes coletivos. Segundo Florêncio, Ferreira Filha e Sá (2009), no Brasil, são muitas as necessidades dos idosos que não são supridas ou são desrespeitadas pela atual conjuntura social e política instalada. A convivência dos idosos, especialmente os mais dependentes, com indivíduos mais jovens, podem gerar conflitos, a ponto de a relação entre ambos ficar insustentável. Isto ocorreria no âmbito familiar,
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institucional e no convívio social. Nestas situações é comum acontecer o fenômeno da violência contra o idoso.
Autores como Saraiva (2010) e Minayo (2003) identificam esse tipo de violência como violência estrutural que inclui a falta de infraestrutura urbana para minorar os problemas de locomoção das pessoas idosas. Podemos citar como exemplos dessa falta de infraestrutura: a existência de obstáculos nas ruas, dificultando o caminhar; a falta de adaptações nos ônibus que facilitem o subir e descer; o desrespeito às filas e vagas de estacionamento preferenciais, etc. Pesquisa desenvolvida por Góes, Cárdenas, Gomes, & Tavares (2008) identificou que grande parte dos idosos entrevistados presenciou, ou vivenciou, maus tratos no transporte coletivo urbano. Entre as principais formas de violência foram citadas a ocorrência de agressão verbal por parte de cobradores e motoristas e o uso de assentos exclusivos para idosos por passageiros mais jovens.
Os resultados ora obtidos, embora promissores, devem ser assumidos apenas como um estudo inicial das características psicométricas da escala, sendo necessário que investigações futuras sejam realizadas no sentido de fornecer evidências adicionais acerca da validade do construto dado o caráter fundamentalmente exploratório das técnicas estatísticas utilizadas e das características sociodemográficas da amostra. Nesse sentido, realizou-se um novo estudo (Estudo 3), descrito no capítulo 8 desta tese, que teve como objetivo checar a validade fatorial da Escala de Percepção da Violência Urbana contra Pessoas Idosas a partir de testes estatísticos de modelagem por equações estruturais.
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CAPÍTULO 8. ESTUDO 3: ANÁLISE CONFIRMATÓRIA DA ESCALA DE