8.DENEYSEL VERİLER
9. SONUÇLAR VE TARTIŞMA
Os trabalhos desenvolvidos pelo Círculo mostram que a identificação da tipologia discursiva não está centrada na mera classificação, mas na compreensão dos processos de construção desses discursos.
Os diferentes pontos de vista são compreendidos como resultado de um processo de apreensão de discursos que circulam nos mais variados campos da atividade humana. O processo de apreensão desses discursos, por sua vez, materializa-se em formas lingüísticas disponíveis a determinada comunidade, conforme se pode observar no trecho da obra Marxismo e filosofia da linguagem, mencionado a seguir:
Como, na realidade, apreendemos o discurso de outrem? Como o receptor experimenta e enunciação de outrem na sua consciência, que exprime por meio do discurso interior? Como é o discurso ativamente absorvido pela consciência e qual a influência que ele tem sobre a orientação das palavras que o receptor pronunciará em seguida? Encontramos justamente nas formas do discurso citado um documento objetivo que esclarece esse problema.[...] O mecanismo desse processo não se situa no individual, mas na sociedade, que escolhe e gramaticaliza – isto é, associa às estruturas gramaticais da língua – apenas os elementos da apreensão ativa, apreciativa, da enunciação de outrem que são socialmente pertinentes e constantes e que, por conseqüência, têm seu fundamento na existência econômica de uma comunidade lingüística dada (BAKHTIN/VOLOCHINOV, [1929]2004, p.146).
Dessa perspectiva, os sentidos do discurso são construídos por determinados ângulos axiológicos, juízos de valores que, de natureza extralingüística e social, são materializados na língua enquanto fenômeno integral concreto expressa na fala do sujeito que enuncia.
As diferentes orientações discursivas constituem tipos de discursos distintos, que segundo Bakhtin ([1929]2005), são três: o discurso concretamente orientado para seu objeto, o discurso orientado para o discurso de um outro, ambos de natureza monovocal, e o discurso duplamente orientado, que, de natureza bivocal, está orientado ao mesmo tempo para seu objeto e para um outro discurso.
O primeiro tipo corresponde à fala do autor, que enuncia, nomeia, comunica, representa o objeto a que se refere diretamente. O segundo refere- se ao discurso concreto das pessoas representadas, isto é, o discurso direto da personagem, elaborado segundo as intenções do autor. Já, no terceiro tipo, o autor empresta o discurso de um outro, imprimindo nele nova orientação semântica segundo seus projetos discursivos. O último tipo pode ser de orientação única, a estilização, ou de orientação variada, como é o caso da paródia e do discurso refletido do outro.
Na mesma obra, entretanto, o filósofo russo enfatiza a inviabilidade de classificar isoladamente as ocorrências dos tipos de discurso, tendo em vista o caráter dinâmico das tipologias e variedades levantadas. Ele afirma ainda que a linguagem em uso, enquanto elemento vivo, torna impossível esgotar essa questão:
A classificação que esquematizamos [...] tem, evidentemente, caráter abstrato. A palavra concreta pode pertencer simultaneamente a diversas variedades e inclusive tipos. Além disso, as relações de reciprocidade com a palavra do outro no contexto vivo e concreto não têm caráter estático mas dinâmico: a inter-relação das vozes no discurso pode variar acentuadamente, o discurso orientado para um único fim pode converter-se em discurso orientado para diversos fins, a dialogação interna pode intensificar-se ou atenuar-se, o tipo passivo pode tornar-se ativo, etc... (p.199)
Dentre as ocorrências levantadas pelo autor, tratamos, a seguir, da estilização como elemento central para a construção discursiva do texto
lobatiano. Partimos do pressuposto, no entanto, de que a estilização não é variedade exclusiva nos corpus. Poderá haver outras variedades e tipos discursivos que não serão aqui contemplados.
3.1.1. A estilização
A estilização, conforme já mencionado, é concebida como um das variedades do discurso de terceiro tipo e pode ser compreendida a partir de três aspectos: o duplo sentido da palavra, o discurso de orientação semântica única e a relação entre esta variedade discursiva e estilo.
De natureza bivocal, ela se caracteriza como palavra de duplo sentido, ou seja, está “voltada para o objeto do discurso enquanto palavra comum e para um outro discurso, para o discurso de um outro” (BAKHTIN, [1929]2005, p.185). Esse processo acontece quando o estilizador toma como empréstimo a palavra do outro, recuperando tons e entonações que lhe são inerentes para, então, conferir-lhe uma nova orientação, segundo seus objetivos. Por isso a palavra do outro se torna passiva em suas mãos.
Na relação entre palavra do “eu” e a palavra do “outro”, o discurso a ser estilizado é sempre de primeiro tipo, um discurso concretamente orientado para seu objeto. Isso significa que o estilizador apreende o discurso do outro no âmbito da palavra enunciada. Além disso, a estilização pressupõe que seu autor enuncie a partir do ponto de vista específico do outro, preservando, em seu discurso, a orientação semântica do discurso por ele objetificado, a fim de que esse ponto de vista se torne convencional:
A estilização estiliza o estilo do outro no sentido das próprias metas do autor. O que ela faz é tornar essas metas convencionais. [...] Após penetrar na palavra do outro e nela se instalar, a idéia do autor não entra em choque com a idéia do outro mas a acompanha no sentido que esta assume, fazendo apenas este sentido tornar-se convencional (Ibid., p.193-194).
No entanto, não se pode falar em imitação, já que o estilizador não se apropria diretamente da palavra do outro. Ele recupera o conjunto de procedimentos estilísticos do discurso objetificado, para atribuir-lhe fins específicos em determinada época e comunidade. Nesse sentido, a estilização pressupõe o estilo: nela os sentidos produzidos pelos recursos fraseológicos constituintes da palavra do outro são resgatados como expressão de um determinado ponto de vista.
Assim, o conceito de estilização se mostra extremamente significativo para esta pesquisa, na medida em que, a partir da compreensão de seu processo, é possível identificar na versão brasileira de “A cigarra e as formigas”, discursos sobre a atividade artística já presentes nas versões da mesma fábula, assinadas por Esopo e La Fontaine.
A ATIVIDADE ARTÍSTICA EM “A CIGARRA E AS FORMIGAS”: A VERSÃO LOBATIANA EM ESTILIZAÇÃO
No capítulo anterior, abordamos o conceito de estilização a partir de três aspectos: a palavra de duplo sentido, a orientação semântica única do discurso e a relação desta variedade discursiva com o estilo. Com base nesses aspectos, buscamos identificar, nesta etapa da investigação, o modo como se dá o processo de resgate da palavra do “outro” nos textos lobatianos, o que pressupõe a compreensão dos sentidos produzidos nas versões brasileira, e francesa e grega da “mesma” fábula.
A questão do sentido, implicada na estilização, também permeia outros trabalhos do Círculo. Em Questões de literatura e estética: teoria do romance (1975/1998), no capítulo “O problema do Conteúdo, do Material e da Forma na Criação Literária”, Bakhtin afirma que os sentidos do objeto estético não são produzidos na construção seccionada de sua forma de composição, material e conteúdo; ao contrário, eles acontecem na relação intrínseca que se estabelece entre esses elementos, o sujeito-criador e o sujeito-contemplador. A esse conjunto de elementos constitutivos do objeto estético o autor chamou de “forma arquitetônica”.
Assim também se estabelecem os sentidos de “A cigarra e a(s) formiga(s)”. Eles estão imbricados na organização dos textos em prosa ou poesia e em elementos de sua sintaxe discursiva (forma composicional), em sua semântica discursiva (conteúdo) e no léxico (material). Além disso, estão
no olhar apreciativo do autor-criador (o autor de cada versão) e do autor- contemplador (o leitor, o pesquisador, o crítico, etc) no ato de contemplação de seu objeto estético. É preciso lembrar ainda que esses elementos são interdependentes e inseparáveis na produção de sentido e que a divisão aqui apresentada é meramente didática.