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O vocábulo polivalente designa assumir múltiplos valores ou realizar diversas atividades ao mesmo tempo; multivalente; multifuncional (HOUAISS, 2014). Seria polivalente, então, a pessoa com múltiplos saberes e capaz de transitar com propriedade em diferentes áreas (LIMA, 2007).

No contexto do mundo do trabalho, entretanto, o termo polivalência traduz a capacidade de um trabalhador conseguir atuar em diversas áreas numa expressão de flexibilização funcional. Esse conceito de polivalência, enquanto atributo do trabalhador que necessita ter capacidade diversas para atuar em diferentes áreas de trabalho, voltado às pessoas e às equipes e compreendendo as chamadas “competências e habilidades”, as quais

são capazes de torná-lo adaptável a contextos diversos, agregando eficiência e aumento da produtividade, é fruto do discurso neoliberal que emerge no período pós-crise do capitalismo e mantém-se presente, afiançando as características do mercado de trabalho contemporâneo que está em completo acordo com as bases neoliberais e que consolida, em última análise, a desigualdade social pautada pela exploração dos trabalhadores.

O parecer nº. 16/1999, que trata das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Profissional de Nível Técnico, define o termo polivalência:

Desenvolvimento das competências gerais, apoiadas em bases científicas e tecnológicas e em atributos humanos, tais como criatividade, autonomia intelectual, pensamento critico, iniciativa e capacidade para monitorar desempenhos[...]

[...] o atributo de um profissional possuidor de competências que lhe permitam superar os limites de uma ocupação ou campo circunscrito de trabalho para transitar para outros campos ou ocupações da mesma área profissional ou de áreas afins. (BRASIL, 1999, p. 37)

O mesmo parecer CNE/CEB nº.16/99 afirma que as competências dos cursos de ensino profissionalizante, dentre outros objetivos, necessitam reconhecer a polivalência profissional como

o atributo de um profissional possuidor de competências que lhe permitam superar os limites de uma ocupação ou campo circunscrito de trabalho, para transitar para outros campos ou ocupações de mesma área profissional ou de outras áreas afins. Supõe que tenha adquirido competências transferíveis, ancoradas em bases científicas e tecnológicas, e que tenha uma perspectiva evolutiva de sua formação, seja pela ampliação, seja pelo enriquecimento e transformação de seu trabalho. Permite ao profissional transcender a fragmentação das tarefas e compreender o processo global de produção, possibilitando-lhe, inclusive, influir em sua transformação (BRASIL, 1999, p.37)

Percebe-se que a noção de polivalência expressa pelo referido parecer reflete a visão que se tem da professora que atua nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, no sentido de que cabe a ela executar múltiplas e variadas funções. Substancialmente, cabe a ela conhecer todos os conteúdos curriculares das diversas bases tecnológicas (disciplinas) a serem ensinadas nos cinco primeiros anos do Ensino Fundamental, além de dominar as técnicas da transposição didática para poder, assim, compartilhar os referidos conhecimentos com seus alunos e alunas com a devida competência e, idealmente, com o compromisso de atuar na formação de indivíduos autônomos e emancipados.

Libâneo (1998) aponta que o capitalismo trouxe mudanças no modo de produção afetando a organização do trabalho e o perfil do trabalhador e que a educação deve, na

superação da proletarização do trabalho docente e na busca de preparar pessoas emancipadas e com conhecimentos sólidos e significativos, ser compreendida em suas especificidades e, consequentemente, valorizada como dispositivo orientativo para as construções sociais, humanas e profissionais:

Com as transformações técnicas (informatização, sistemas de comunicação, maior automação), modificam-se as profissões, reduz-se o trabalho manual, aumenta-se a necessidade de trabalhadores com mais conhecimento e melhor preparo técnico, de um trabalhador com mais cultura, mais polivalente, mais flexível. É evidente que tudo isso implica em valorizar a educação geral, propiciar novas habilidades cognitivas e competências sociais e pessoais. É esse tipo de escola que o capitalismo está precisando, uma escola com objetivos mais compatíveis com os interesses do mercado. No meu entender, os trabalhadores também precisam de novas bases para o ensino, inclusive levando em conta essas mudanças de que estou falando, mas de um ensino orientado por uma pedagogia da emancipação. (LIBÂNIO, 1998, p.2). Todavia, o que hoje se percebe, especialmente na educação dos anos iniciais da vida do sujeito, está distante disso. Ao contrário, como afirmam as professoras participantes desta pesquisa, a educação dos anos iniciais do Ensino Fundamental está essencialmente ocupada com o ensino das capacidades de ler, escrever e contar das crianças, na maioria das vezes num ensino descontextualizado e que não reverbera na vida social destes sujeitos, mas que são checadas frequentemente pelas inúmeras avaliações institucionais oficiais.

É possível perceber, ainda a partir da análise do conteúdo das falas das participantes do presente estudo, que essa realidade quase nunca espelha o compromisso de trabalho das professoras polivalentes que, além de manifestarem o real desejo de oferecer uma educação de qualidade que seja libertadora, emancipadora e significativa para seus alunos e alunas, sentem-se despreparadas para sua função, especialmente quando declaram-se responsáveis pelo ensino das diversas disciplinas e sob a ótica da necessária interdisciplinaridade.

Oliveira (2007) demonstrou que as produções científicas sobre o trabalho das professoras polivalentes ainda são pequenas frente às necessidades e desafios que se colocam para essas profissionais cotidianamente. O autor aponta que no bojo das publicações que se ocupam do referido tema a questão da polivalência, embora sempre venha marcada como característica da docência dos Anos Iniciais, ainda é pouco discutida e fragilmente questionada, o que demonstra a carência em aprofundamento dos conceitos e concepções concernentes à profissionalidade polivalente.

Pelo foco da presente pesquisa verifica-se que, de fato, essa realidade ainda persiste: poucas produções são encontradas sobre a perspectiva polivalente da docência nos cinco anos

iniciais do Ensino Fundamental e, sobretudo, ainda há poucas discussões sobre o que está aí implicado.

Importantes indagações necessitam ser feitas a respeito da profissionalidade polivalente, tais como: a diferenciação entre especialização e monodocência13; a interdisciplinaridade como requisito do trabalho polivalente abordando, inclusive, se este prescinde ou não da questão disciplinar; a polivalência enquanto formação humana e como modo de organização do trabalho docente; a necessidade do trabalho coletivo nas unidades escolares para afastar a atividade docente do caminho solitário, além de outras questões que se colocam, especialmente na ordem da formação das professoras polivalentes.

As participantes, professoras polivalentes, nitidamente ficam divididas entre conseguir ensinar os variados conteúdos que lhes competem e, ainda, atender às políticas e projetos oficiais. Além de produzir e obrigar caminhos homogeneizadores do trabalho docente sem, contudo, considerar os diferentes contextos num estado de grandes proporções, como é o caso do Estado de São Paulo, ainda demonstram claramente a valorização de algumas áreas do conhecimento em detrimento de outras (especificamente, valorização da Língua Portuguesa e da Matemática em detrimento das demais disciplinas). Essa realidade torna o trabalho da professora polivalente ainda mais desafiador e aponta, mais profundamente, para a necessidade de uma formação inicial de qualidade, contextualizada e que atenda aos anseios da realidade de quem trabalha nas salas de aula das escolas públicas, com suas demandas e suas singularidades.

Assim, a questão da polivalência e seus desdobramentos e, especialmente, as dificuldades na formação inicial das professoras polivalentes que assumem demandas diversas sem, contudo, terem sido instrumentalizadas ou bem preparadas para assumir a formação humana de seus alunos necessita ser trazida à pauta das discussões que envolvem a educação básica pública, com imperativa seriedade.

13

  Para efeitos de explicação conceitual, entende-se por monodocência a responsabilização de um/a único/a professor/a pela gestão de todo o currículo de uma turma. O termo é utilizado em documentos oficiais portugueses (Lei de Bases do Sistema Educativo – LBSE, de 1986) e opõe-se ao vocábulo “pluridocência”, algo semelhante à noção de professor especialista da realidade brasileira. Monodocência refere-se, enfim, ao professor que atua nos anos iniciais do ensino fundamental, em Portugal, aproximando-se da noção de professor polivalente e enfrentando debates da mesma natureza daqueles vivenciados no Brasil acerca dos professores especialistas versus professores polivalentes, e a necessidade ou não de especialização destes últimos. Vale anotar que o termo monodocência também foi encontrado em documentos oficiais de Angola (Lei de Bases do Sistema de Educação, de 31 de dezembro de 2001).

1.5.2 A Profissionalidade Polivalente dos professores e professoras dos Anos

Benzer Belgeler