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5.1. A Indústria Começa a Agonizar

A cidade de Pesqueira, que descende da antiga Vila de Cimbres, uma das mais importantes localidades do interior do Estado desde o século XVII e em cujas terras nasceram ou residiram importantes figuras da história pernambucana, conheceu o sucesso desde cedo, quando ainda nem era cidade. O povoado, que nasceu às margens do caminho de tropeiros e viajantes, contribuindo na ligação entre o Litoral e o Sertão, subitamente cresceu, alavancado pelas transações comerciais ali estabelecidas.

Ao se tornar cidade, em 1880, Pesqueira já era um proeminente centro comercial da região e quando esta atividade mercantil, por razões já mencionadas, mostrou-se em iminente declínio, outra atividade a substituiria ainda com maior força econômica, a industrial. O município, então, passou por uma perceptível transição de atividades econômicas, deixando para trás o ciclo do comércio e entrando no seu novo período, o de industrialização.

As indústrias alimentícias geraram resultados econômicos tão bons para o município, que a ascensão fabril foi refletida em vários setores, como no educacional, religioso, desportivo, literário e, sem dúvida, na cultura de um povo que se acostumara a respirar o cheiro exalado pelas chaminés das fábricas, que perfumava toda a cidade.

Pesqueira, por meio de sua produção industrial e da visão e perspicácia de seus empresários, conquistou no interior pernambucano um papel de destaque, sendo respeitada e admirada em todo o Estado, por ter tornado uma iniciativa despretensiosa de fabricação caseira de doces em um dos empreendimentos mais bem sucedidos da Região Agreste.

O período áureo do município esteve totalmente ligado a sua industrialização, que fazia pulsar a economia e a vida social da cidade. No relato que segue, vê-se como Pesqueira dependia e se orgulhava de sua atividade fabril:

“Não basta que Pesqueira exiba aos que dela se aproximam, como marca da principal atividade de seus moradores, erguidos em maior número na área de “cidade baixa”, os enormes boeiros de importantes fábricas a manchar de fumo um céu quase sempre vazio de nuvens.

Não é preciso, por outro lado, que o visitante chegue à cidade, durante os meses das safras, quando, por exemplo, os caminhões abarrotados de caixotes de frutas e de tomates fazem filas diante dos portões dos estabelecimentos fabris ou enquanto paira no ar o cheiro da goiaba em processo de cosinhamento ou o odor acre dos tomates fermentados atraindo enxames de impertinentes moscas, afim de que esse alguém se certifique de estar conhecendo um aglomerado urbano de desenvolvida função industrial.

Sim, ao lado e em torno das compridas chaminés fumegantes, aparecem os grandes e inconfundíveis casarões (...) cumprindo a finalidade de abrigar os escritórios, os depósitos, as várias outras dependências fabris (...)” 139.

O município de Pesqueira vivia em função do setor industrial, do qual dependiam direta e indiretamente milhares de pessoas e até as atividades rurais foram modificadas para suprir as necessidades da agroindústria do doce e do tomate.

A paisagem urbana da cidade também sofreu mudanças. Além dos grandes prédios das indústrias e dos casarões de seus proprietários, vários bairros proletários foram criados para servirem de moradia aos operários das fábricas. Assim surgiram os bairros do Prado, do Salgado, da Pitanga, da Mandioca, de São Sebastião e, muitos destes, que ainda permanecem com o mesmo nome, conservam na arquitetura de suas residências as marcas de uma época em que além de moradia seus habitantes possuíam, mesmo com os salários insatisfatórios pagos pelas fábricas, a segurança de um emprego.

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139

O destino promissor da cidade, contudo, esbarrou em fatores que levariam à indústria pesqueirense uma agonizante decadência. A partir da década de 1930 houve o primeiro prenúncio de uma crise que, inevitavelmente, consolidar-se-ia nos anos de 1950 na indústria nordestina e, conseqüentemente, nas indústrias alimentícias pesqueirenses.

Até a década de 1930 houve pouca atuação dos governos brasileiros na economia e no desenvolvimento do país 140. A indústria nacional até a referida década, por sua

vez, desenvolveu-se por competência e esforço principalmente de pequenos e médios empreendedores que investiram o capital acumulado em outras atividades, com os recursos advindos do comércio e da agricultura de exportação, no setor industrial.

Após a revolução de 1930, o Estado irá então participar diretamente do planejamento econômico do país, contudo, como será analisado mais adiante, a interferência estatal trará bons resultados para o processo industrial do Centro-Sul, em detrimento da indústria nordestina, que ficou por algumas décadas distanciada da integração econômica nacional proposta pelos governos federais.

A indústria pesqueirense, todavia, à parte desses primeiros planejamentos político-econômicos do país, atingiu seu auge de crescimento justamente na década de 1930, período no qual a Fábrica Peixe estendeu suas atividades fabris ao Sudeste, instalando importantes estabelecimentos nessa região, investiu em outras indústrias alimentícias no interior de Pernambuco e conquistou o mercado nacional de extrato de tomate.

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140 A partir da década de 1930 o país começou a adotar políticas de desenvolvimento econômico, mas se observa que essas

medidas eram direcionadas principalmente ao Sudeste, tendo São Paulo como principal foco desse desenvolvimento. “Nas décadas de 1930 e 1940, a realização de análises sistemáticas e avaliações da estrutura econômica brasileira visando influenciar o rumo do desenvolvimento do país, conduzidas por estrangeiros e brasileiros, tornou-se mais freqüente. O primeiro relatório a surgir na década de 1930 foi o Niemeyer Report, publicado em 1931”. Esse relatório declarava que o país não podia ter a sua base econômica dependendo da exportação de uma ou duas lavouras, como era o caso da lavoura do café em São Paulo, que após a Depressão passou por uma severa crise. Em 1942 e 1943 um grupo de técnicos americanos realizou a chamada Missão Cooke, que consistia em avaliar a economia do Brasil: “Uma das conclusões importantes que a missão chegou foi a de que deveria ser realizado um esforço para desenvolver o Sul do país, visto que essa região tinha as melhores condições para um rápido desenvolvimento econômico”. BAER, Werner. Op. Cit., pp. 62-63.

O município de Pesqueira, até fins da década de 1950, nem de longe poderia imaginar que seu império fabril estava ameaçado. A sua principal indústria, a Peixe, no período de 1930 a 1950, continuava em ascensão, diferentemente das demais indústrias regionais que já demonstravam sinais de enfraquecimento. Nessa fase a Fábrica Peixe adquire uma frota de caminhão, com a qual diminui os custos de transporte e passa a ter um controle quase que exclusivo na compra da matéria-prima. Na parte de maquinário é instalada uma extraordinária caldeira em suas instalações, capaz de produzir até cinco mil quilos de vapor por hora, aumentando significativamente a produção da fábrica, além da inserção de novas máquinas automáticas de encher e fechar latas 141.

O crescimento do setor industrial pesqueirense gerou resultados econômicos que foram sentidos na urbanização e nas obras públicas do município, destarte, com o aumento da população da cidade novos bairros foram sendo criados, serviços essenciais foram surgindo, como a instalação de uma central telefônica que interligava a cidade de Pesqueira aos seus distritos, o assentamento do calçamento de várias ruas, criação de um campo de aviação que possibilitou a visita de importantes personalidades ao município, construção de necessários prédios para abrigar serviços públicos, entre eles o dos Correios e Telégrafos e do Hospital Regional 142, assim como a determinação de regras de trânsito dentro do perímetro

urbano, além de tantas outras realizações que fizeram do município de Pesqueira um exemplo de êxito e modernidade.

A atividade industrial tornou Pesqueira uma das cidades mais conhecidas e relevantes de Pernambuco, atraindo pessoas dos mais variados municípios e até de outros estados, que se mudavam em busca de novas oportunidades de trabalho e embora a maior disponibilidade de vagas fosse para trabalhar como operário nas fábricas, a cidade, devido a sua dinâmica, também oferecia labor em jornais, serviços públicos, escritórios, estabelecimentos comerciais e em serviços ligados à produção industrial.

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141 CAVALCANTI, Célia Maria de Lira. Op. Cit. pp. 60-61.

142 Foi realizada no Hospital Regional de Pesqueira, em 1942, a primeira operação cesariana do interior nordestino. A

parturiente foi a Senhora Maria Teresa Galindo, que registrou a sua filha com o nome de Cesarina. O acontecimento teve grande repercussão na impressa local, estadual, estendendo-se até à imprensa do Rio de Janeiro. A criança foi batizada na própria Capela do Hospital pelo Bispo de Pesqueira, cujos padrinhos foram o Prefeito Dr. Arruda Marinho e sua esposa. CAVALCANTI, Bartolomeu. Op. Cit., p. 131.

Em um recenseamento do município realizado em 1937, pode-se verificar que havia uma boa diversificação de profissões, algumas até inexistentes em outras cidades do interior, como chaufeurs, agrônomos, funileiros, tipógrafos, o que demonstra o desenvolvimento de Pesqueira na época. Conforme se percebe na Tabela abaixo.

TABELA XXVI

RECENSEAMENTO DO MUNICÍPIO DE PESQUEIRA (1937)

Benzer Belgeler