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Outra abordagem artística sobre a morte e os ritos católicos na cultura popular vem da poesia Morte e vida Severina.166 Embora não verse especificamente sobre rituais mortuários, ela se mostra importante para o estudo das concepções a respeito da morte e do lugar que esta ocupa na religiosidade popular nordestina, por referir-se a ela como metáfora de um tipo específico de vida. Assim, nessa poesia o humor não tem lugar. Também podemos dizer que o poema não trata da “vida em morte” como Caetana, mas da “morte em vida”. Esta obra de Mello Neto é uma crítica social, em que o autor defende o homem pobre do Nordeste, que leva uma “vida severina” tal como a de muitos nordestinos despossuídos. A poesia fala sobre a viagem de um retirante que foge

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Lívia FALCÃO, op. cit., p. 104-105.

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Stephen Silva SIMIM. A benzeção...p. 29. UMESP, São Bernardo do Campo, 2001. (dissertação)

166 João Cabral de MELLO NETO. Morte e Vida Severina. Disponível em

http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraDownload.do?select_action=&co_obra=16664 &co_midia=2. Acesso em 20/10/2008.

da seca da caatinga e busca o mar. A condição anônima do personagem ganha ênfase no começo quando o retirante explica ao leitor quem é e a que vai, e conclui a explicação dizendo:

Somos muitos Severinos / iguais em tudo na vida: / na mesma cabeça grande / que a custo é que se equilibra, / no mesmo ventre crescido / sobre as mesmas pernas finas / e iguais também porque o sangue, / que usamos tem pouca tinta. / E se somos Severinos / iguais em tudo na vida, / morremos de morte igual, / mesma morte severina:

Para Mello Neto, a “morte severina” é aquela em que “se morre de velhice antes dos trinta, ou de emboscada antes dos vinte” e que pode acontecer lentamente “de fome um pouco por dia”, ou seja, de fraqueza ou doença. A “morte severina”, enfim, “ataca em qualquer idade/e até gente não nascida” e combina com a vida dos milhares de Severinos. Uma vida dura que se resume à faina diária de arar a terra seca com muito esforço e suor, para “[...] arrancar/algum roçado da cinza.”

Na sua caminhada, o retirante encontra dois homens que carregam um defunto em uma rede, aos gritos de "ó irmãos das almas! irmãos das almas!” Ora, enterrar um defunto pobre em uma rede não constitui um hábito apenas do sertanejo nordestino. Empiricamente observamos que também se encontra em outras regiões do Brasil, como por exemplo, no interior de São Paulo. Talvez a pobreza não seja o único motivo que o justifique, embora famílias com certa posse levem seus mortos ao cemitério em carros fúnebres e famílias de classe econômica equiparável o tenham feito no passado em carruagens.

Chamar o defunto de “irmão das almas” e acompanhar o cortejo fúnebre com esse canto, grito ou choro ilustra a forma profundamente devocional e respeitosa pela qual o sertanejo trata a morte, os mortos e, por extensão, os mistérios. Aliás, essa atitude será percebida em outros pontos do texto. Embora o autor nordestino tenha escolhido temática da morte como reflexo de uma situação social, parece-nos que ela também se harmoniza com a atitude do sertanejo de estar próximo das coisas ligadas a ela. E, por fim, a necessidade de fazer o cortejo a pé, embora se deva à falta de posses, constitui uma forma de procissão vista com freqüência entre os lavradores humildes do Brasil. Mais uma vez aqui podemos verificar a atitude solene com que o sertanejo se aproxima do sagrado e das coisas do outro mundo.

Prosseguindo viagem, o retirante chega a uma casa em que estão “cantando excelências” para um defunto. Esse tipo de cantiga monótona, solene e triste, própria de velório, é entoada em uníssono e sem acompanhamento. Um refrão, neste caso, “Finado Severino”, é repetido entre as estrofes de uma letra que se refere àquilo que o defunto deverá fazer para ser admitido no reino dos mortos.

— Finado Severino, / quando passares o Jordão / e os demônios te atalharem / perguntando o que é que levas... / — Dize que levas somente / coisas de não: / fome, sede, privação.

Cansado da viagem, o retirante pensa em interrompê-la temporariamente e procurar trabalho ali onde se encontra. Segundo ele, desde o início de sua jornada, só a morte ele vê ativa e só com ela vem-se deparando. “E o pouco que não foi morte/foi de vida severina”. Pergunta, então, a uma mulher sobre trabalho e, apesar dos inúmeros ofícios que ele já tivera na vida, ela lhe responde dizendo que por a morte ser tanta ali “só é possível trabalhar nessas profissões que fazem da morte ofício ou bazar”. Ou seja, “só os roçados da morte compensam ali cultivar”

Ao chegar à zona da mata, Severino acredita que ali, por a terra ser mais fofa e haver água, as pessoas e as plantas não morrem de sede, ao contrário do que ocorre na caatinga.

— Bem me diziam que a terra / se faz mais branda e macia / quando mais do litoral / a viagem se aproxima. / Agora afinal cheguei / nesta terra que diziam. / Como ela é uma terra doce / para os pés e para a vista. / Os rios que correm aqui / têm água vitalícia. / Cacimbas por todo lado; / cavando o chão, água mina. / Vejo agora que é verdade / o que pensei ser mentira / Quem sabe se nesta terra / não plantarei minha sina?

Porém, ele não tarda a ver o enterro de um trabalhador rural. Os amigos do defunto dizem durante o funeral:

— Essa cova em que estás, / com palmos medida, / é a cota menor / que tiraste em vida. / — É de bom tamanho, / nem largo nem fundo, / é a parte que te cabe / neste latifúndio. / — Não é cova grande. / é cova medida, / é a terra que querias / ver dividida. / — É uma cova grande / para teu pouco defunto, / mas estarás mais ancho / que estavas no mundo. / — É uma cova grande / para teu defunto parco, / porém mais que no mundo / te sentirás largo. / — É uma cova grande / para tua carne pouca, / mas a terra dada / não se abre a boca. / — Viverás, e para sempre / na terra que aqui aforas: / e terás enfim tua roça. / — Aí ficarás para sempre, / livre do sol e da chuva, / criando tuas saúvas. / — Agora trabalharás / só para ti, não a meias, / como antes em terra alheia. / — Trabalharás uma terra /

da qual, além de senhor, / serás homem de eito e trator. / — Trabalhando nessa terra, / tu sozinho tudo empreitas: / serás semente, adubo, colheita. / — Trabalharás numa terra / que também te abriga e te veste: / embora com o brim do Nordeste. / — Será de terra / tua derradeira camisa: / te veste, como nunca em vida. / — Será de terra / a tua melhor camisa: / te veste e ninguém cobiça. / — Terás de terra / completo agora o teu fato: / e pela primeira vez, sapato. / — Como és homem, / a terra te dará chapéu: / fosses mulher, xale ou véu. / — Tua roupa melhor / será de terra e não de fazenda: / não se rasga nem se remenda. / — Tua roupa melhor / e te ficará bem cingida: /

O texto ainda faz referência a um rosário que o morto tem na mão direita e na fala dos atores é comparado a uma espiga seca. Finalmente, comparam o chão que abriga o cadáver ao lençol que ele não teve em vida, e o chão que o envolve à mulher com quem se dorme. O retirante conclui, então, que a diferença entre o agreste e as outras terras pelas quais passou “está apenas no pavio, / ou melhor, na lamparina: / pois é igual o querosene / que em toda parte ilumina, / e quer nesta terra gorda / quer na serra, de caliça, / a vida arde sempre com / a mesma chama mortiça.”

Ao chegar ao Recife, o retirante acaba dando com pessoas que moram nos mangues. Um dos moradores dos mocambos existentes entre o cais e a água do rio, dele se aproxima. É Seu José, mestre carpina, sendo carpina um termo que designa uma espécie de carpinteiro naval. Ali, Severino começa uma conversa com José, o carpinteiro, ou mestre carpina, e lhe pergunta se, já que a vida do mestre é tão severina quanto a dele, por que merece ser vivida? Severino levanta essa questão diversas vezes. E a resposta do mestre nunca muda: ele jamais tenta invalidar as conclusões de Severino, mas insiste em dizer que seja como for, a vida merece ser vivida. No auge do desespero, o retirante pergunta ao mestre que diferença faria a ele, Severino, tomar o caminho mais fácil e “saltar da ponte da vida”, isto é, suicidar-se. Porém, antes de ouvir a resposta, uma vizinha o chama dizendo:

— Compadre José, compadre, / que na relva estais deitado: / conversais e não sabeis / que vosso filho é chegado? / Estais aí conversando / em vossa prosa entretida: / não sabeis que vosso filho / saltou para dentro da vida?

Então mestre José, embora admita que “é difícil defender, / só com palavras, a vida, / ainda mais quando ela é / esta que vê, severina”, ele sente que “vale a pena insistir na vida ao vê-la desafiar a si mesma com a explosão da nova vida.” Explosão significativa nem que seja a “explosão franzina de uma vida severina.” Ou seja, Severino

pobre. O redentor de Severino é o filho de José, o carpinteiro. Daí o nome da poesia dramática escrita por Mello Neto, “um auto de natal pernambucano.”

Qualquer semelhança com a história da Natividade não é mera coincidência, pois este e outros textos épicos da literatura nordestina falam da esperança na vida a despeito da presença da morte. A relação que Mello Neto faz da sua poesia com a história da Natividade ainda pode ser deduzida pela acorrida de vizinhos e amigos à casa onde está a criança que nasceu. A frase do poema “todo o céu e a terra lhe cantam louvor” confirma essa nossa inferência, bem como a manifestação da natureza narrada em verso como este: “Foi por ele que a maré / esta noite não baixou.”. O fato de as pessoas levarem presentes à criança reafirma nossa conclusão na existência de uma conexão entre o poema de Mello Neto e a história da Natividade. O mesmo ocorre com a presença das duas ciganas do Egito que liam a sorte futura, pois exatamente isso se verifica no nascimento de Jesus com a chegada dos Reis Magos do Oriente. É ISSO? Por fim, a formosura da criança e a esperança no que de novo ela encerra também se comparam ao Advento de Jesus Cristo. E, reportando-nos a Peter Berguer,167 poderíamos dizer que assim como o advento de Cristo trouxe significado para várias situações, o nascimento da criança revestiu de significado a vida severina do retirante da saga e a de tantos outros miseráveis.

Caetana e Morte e Vida Severina: embora tenham estilos totalmente diferentes, encerram poesia, conflitos e esperanças. Ambas tratam da religiosidade e da fé do povo do Nordeste brasileiro, e são inteiramente baseadas em seus costumes. Enfim, nesses dois exemplos aparecem as representações da morte e as referências aos ritos funerários dos camponeses daquela região, bem como a esperança que vence o medo de viver e morrer.

Benzer Belgeler