5. ABD’DE VERGİ İNDİRİMLERİ VE 1980 SONRASI TÜRK VERGİ
5.1 ABD’de Vergi İndirimleri
A peça Caetana (2003) de autoria de Moncho Rodrigues e Weydson Barros, com Fabiana Pirro e Lívia Falcão no elenco, bebe da estética do movimento Armorial, criado por Ariano Suassuna por volta de 1970.152 Moncho Rodrigues, espanhol natural de Vigo, na região da Galícia, desenvolveu, ao longo de três décadas, diversos projetos de pesquisa no teatro espanhol, português e brasileiro. Nos últimos quinze anos, vem se
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Carlos Rodrigues BRANDÃO. Memória do sagrado: estudos de religião e ritual. São Paulo: Paulinas,1985.
150
Idem, ibidem, p. 31.
151 Carlos Rodrigues BRANDÃO. , Op. cit., p. 34. 152
O Movimento Armorial tinha por objetivo valorizar a cultura popular do Nordeste brasileiro, pretendendo realizar uma arte brasileira erudita a partir das raízes populares da cultura do País.
dedicando à dramaturgia e à pesquisa do teatro ibérico no Nordeste brasileiro.153 Suas investigações o fizeram buscar a relação entre a arte popular e a erudita, recorrendo a questionamentos sobre a morte tanto na filosofia quanto nas crenças populares. Acreditamos, porém, que todos esses temas, por traduzirem o modelo religioso dominante para uma linguagem popular, são agregados com naturalidade e pertinência à peça.154
Figura5 – Caetana ralhando com Benta Fonte: http://www.caetana.com.br
No livro Uma história do teatro pernambucano daqui pr’ali e de lá pra cá, em que encontramos o texto integral da história e da peça Caetana, Rodrigues se refere ao teatro da seguinte maneira:
O teatro que vem do imaginário do povo, parece tomar as dimensões de uma grande ópera e ao mesmo tempo não abandona o circo pobre, como altar que se levanta numa beira de estrada, na poeira do meio-dia entre mandacarus e xique- xique, feito de simplicidade e pobreza é protegido pelo silêncio que reverencia todos seus significados míticos e mágicos.155
Em Caetana, Lívia Falcão é Benta, uma rezadeira “encomendadora” de almas. Após indicar o caminho do além a tantas outras, ela se vê diante do próprio encontro com Caetana, a morte. No outro mundo, as almas anteriormente encomendadas por Benta reaparecem em divertidos diálogos com a rezadeira, mostrando que a existência além-túmulo pode ser até melhor e mais divertida que a vida real. Benta, ao refletir
153
Disponível em <http://www.antaprofana.com.br/mensagem_antamail.asp?col=26&men=12> Acesso em 22/08/2008.
154
Disponível em <http://www.nordesteweb.com/not07_0904/ne_not_20040722b.htm> Acesso em 22/08/2008.
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Lívia FALCÃO (org). Uma história do teatro pernambucano daqui pr’ali e de lá pra cá: o texto na íntegra da história e da peça Caetana. Recife: Gráfica Santa Marta, 2007, p. 4.
sobre isso, diz a si mesma: “Ai minha Nossa Senhora das Virgens Arrependidas! Eu atravesso a porteira da morte, chego nessa tapera onde tudo que é vivo já foi vivo e quem é morto não ta morto...”.156 A título de curiosidade, vale reproduzir as palavras de Moncho Rodrigues:157 “a encenação pretende resgatar elementos do teatro das tradições populares e transformá-los em linguagens renovadas de contemporaneidade. Um teatro de celebração, de encantamento e diversão”.
A primeira característica que se faz notar nessas imagens é que tanto Benta como Caetana usam nariz de palhaço. Isso reflete a maneira bem-humorada de lidar com a morte e seus assuntos. Lembramos a afirmação de Phillipe Ariès158 de que na Idade Média o ser humano estava familiarizado com a morte e os mortos. Portanto, a morte era um acontecimento público, sendo assistida por parentes, amigos e às vezes até por estranhos, pois ao verem o padre com o viático se dirigindo à casa de alguém, seguiam-no até o quarto do moribundo. Crianças também podiam presenciar o falecimento dessa pessoa. Nesse sentido, embora Caetana trate de um tema normalmente escondido das crianças, foi apresentada ao público adulto e infantil, conforme o relatado no diário de bordo da peça.159
, Constatamos empiricamente que algo semelhante acontece na cultura popular. Certa feita, tivemos a oportunidade de trabalhar com crianças de um bairro pobre de Campinas e percebemos, pelos seus desenhos e falas, a familiaridade que tinham com “os fatos da vida” e inclusive com a morte. Concluímos que isso se dava porque tais temas faziam parte do cotidiano dessas crianças. Ora, por morarem no mesmo cômodo que os pais, algumas lhes testemunhavam a vida sexual, lidando ao mesmo tempo com a morte violenta de amigos e parentes, muitas vezes assassinados diante de seus olhos ou “desovados” nos locais em que elas costumavam brincar ou pelos quais costumavam passar . Enfim, presenciar a morte de um parente, fosse “matada ou morrida”, ou ver um corpo morto, não era, de forma alguma fato raro para tais crianças.
Acreditamos que algo semelhante ocorre nas comunidades rurais. Ali, as condições de existência são outras e não há, por exemplo, a violência urbana como a conhecemos. No entanto, o contato diário com a natureza e com os aspectos de vida e morte ligados a ela, como com os animais, fazem da morte um tema familiar para as
156
Ibidem, p. 33.
157
Disponível em <http://www.nordesteweb.com/not07_0904/ne_not_20040722b.htm> Acesso em 22/08/2008.
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Philippe ARIÈS, op. cit., p. 21.
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crianças da roça. Em outras palavras, crianças do campo e de bairros de periferia convivem com a morte com mais naturalidade do que as crianças da classe média urbana.
Weydson Barros, ao comentar sobre a criação de Caetana,160 refere-se à personagem que dá nome à peça como “ao mesmo tempo séria, confusa, firme, indecisa, trágica patética e às vezes lírica em suas dúvidas existenciais, quando refletia sobre seu ‘ofício de matar’”. Reporta-se igualmente à Benta, “que com sua graça e esperteza, seus medos e coragem, teria que compor todo um arsenal de truques e trapaças para este e para o ‘outro mundo’”. Dessa forma, “Caetana, a imponderável, a ‘indesejada das gentes’, teria pela primeira vez um interlocutor com a sabedoria que nem a filosofia de todas as leituras nem o tempo de sua eternidade lhe ensina”.161 Do embate entre as duas estava armada a dramaturgia, isto é, uma situação ou seqüência de acontecimentos em que predomina o conflito de forças.
Perguntamo-nos, contudo, por que o interesse pela morte? Por que, como consta do texto de Caetana, “pensando a morte, vivendo a morte, [o ser humano se sujeita a ser,] de todos os seres, o único mortal”?162 Vemos uma resposta parcial para essa questão nas diversas faces, por vezes contraditórias, com as quais o ser humano representa a morte, pois nelas podemos ver, como nas figuras 2 e 3, que essas facetas opostas unem, simultaneamente, o trágico e o lírico, o engraçado e o severo. Cremos que essa abordagem clownesca 163 da morte ilustra o sentimento único vivido na experiência religiosa, a experiência do sagrado, em que se fundem a fascinação e o terror. Em suma, a morte, aterroriza e fascina ao mesmo tempo, tal como o palhaço que faz rir e chorar.
160 Idem,ibidem, p. 6-7. 161 Idem, p. 6. 162 Idem, p. 11. 163
Clown é palhaço em inglês. Em teatro usa-se por vezes o termo em inglês ou seus derivados
aportuguesados para se referir a personagens com características de palhaço, sobretudo pelo uso do nariz. A utilização do termo também acentua o fato de que o palhaço dramático, ou clown, e o palhaço circense têm comportamentos cênicos distintos
Se por um lado não queremos falar da morte nem vivenciá-la, por outro, não podemos viver sem falar dela nem viver a vida sem ela. Assim como Benta e Caetana reconhecem no final da peça, “sozinhas ou sozinhos não somos ninguém”164.
Figura 6 – Caetana atrás de Benta. Fonte: http://www.caetana.com.br>
Figura7 – Benta predendo a respiração. Fonte: http://www.caetana.com.br>
Cabe ressaltar que, como rezadeira ou benzedeira, Benta representa uma figura que, segundo Stephen Silva Simim é muito freqüente na religiosidade popular, pois “A doença e a morte colocam o indivíduo diante da fragilidade humana.” 165 O papel de Benta é o de buscar um contato com o sagrado, o de auxiliar o ser humano a encontrar o transcendente, a entrar em contato com algo maior que si mesmo e está cercado pelo mistério.