2.1. Tradução de Malaquias 2,17-3,5
17Vós fizestes cansado Javé com vossas palavras. Vós dissestes:
Com o que fazemos cansado? Com o vosso dizer:
Todo o que executa o mal é bom aos olhos de Javé e a esses ele quer bem.
Ou
1Eis que
enviarei meu mensageiro que aplaina o caminho para mim; repentinamente virá a seu templo o Senhor o qual vós buscais; e o mensageiro da aliança o qual vos é desejável;
Eis que
Virá, disse Javé dos exércitos!
2E quem é aquele que resiste o dia de sua vinda? E quem é aquele que permanece diante de seu olhar? Atentem!
Ele é como fogo do fundidor
e como produto de limpeza do lavador.
3Assentou-se o que funde e o que purifica a prata e purifica os filhos de Levi
e refina como o ouro e como a prata Serão para Javé aqueles que trazem oferta em justiça.
4Fez agradável para Javé a oferta de Judá e de Jerusalém
como em dias antigos e como em anos passados. 5Chego para vós para justiça
E sou testemunha apressada
entre aqueles que praticam a feitiçaria entre aqueles que cometem o adultério entre aqueles que juram para o engano entre aqueles que extorquem
o salário da viúva e do órfão
e aqueles que submetem o estrangeiro Não verão a mim, disse Javé dos exércitos!
2.2. Delimitação da perícope
Uma das tarefas da exegese em textos proféticos é a delimitação dos oráculos. Esta delimitação toma por base a estrutura final dada no Texto Massorético. A partir de uma análise deste busca-se identificar, na forma e no conteúdo dos oráculos, uma idéia completa que se constitua autônoma dentro do compêndio literário.
A realização desta tarefa no livro de Malaquias é, de uma certa forma, mais facilitada. Isto se deve à forma do texto de Malaquias. O livro de Malaquias possui um texto bastante uniforme que segue um padrão comum para a construção de seus oráculos.
O livro de Malaquias é subdividido consensualmente em seis oráculos (1,2-5; 1,6-2,9; 2,10-16; 2,17-3,5; 3,6-12; 3,13-21), uma breve introdução (1,1) e dois
apêndices (3,22 e 23-24).84 Os oráculos podem ser delimitados com certa clareza por causa de sua estrutura marcante desenvolvida em três partes: declaração, refutação e réplica85.
A delimitação das perícopes no livro de Malaquias tem seguido uma linha comum pela maioria dos/as comentaristas. Como afirma Samuel Amsler:
“A forma literária de ‘palavras de disputa’ é um bom critério para definir onde começa e onde termina cada uma das pregações”.86
Mas no quarto oráculo, não há plena concordância na delimitação final. A maioria dos/as comentaristas se posicionam pela divisão do oráculo em 2,17-3,587. Outros/as comentaristas, no entanto, subdividem esse oráculo estendendo-o até o verso seis88.
A dúvida da extensão se deve ao início do quinto oráculo que não se faz tão específico na construção das afirmações e das perguntas comuns nos outros oráculos do livro. Os que se posicionam na divisão 2,17-3,5 firmam-se no argumento dos padrões quiásticos estabelecidos nesta estrutura como característica do estilo retórico da disputa89 e dispensa, portanto, o conteúdo do verso seis para o fechamento da mensagem proposta. Parece que a partícula enclítica
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“eis que”, no início do verso seis, inaugura uma nova mensagem quanto a fidelidade e o julgamento.Este trabalho de pesquisa delimita o quarto o oráculo em 2,17-3,5 como uma unidade literária que possui uma estrutura própria-autônoma, similar aos outros oráculos do livro de Malaquias. Este oráculo segue a subdivisão literária do autor do livro (ou redator final): uma afirmação que se faz, uma objeção levantada pelo
84 Confira em SELLIN, Ernst e FOHRER, Georg, Introdução ao Antigo Testamento, vol. 2, São
Paulo: Paulinas, 1977, p. 710; GOTTWALD, Norman Kaiser, Introdução Socioliterária à Bíblia Hebraica, São Paulo: Paulinas, 1988, p.473-474; ALONSO SCHÖKEL, Luís, Profetas II, São Paulo: Paulinas, 1991, p. 1241-1243; MENDOZA, Claudia, Malaquias: El profeta de la honra de Dios em Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, vol.35-36, Quito-Ecuador, 2000, p. 225-226.
85HILL, Andrew E., Malachi: A New Translation with Introduction and Commentary, New York:
Dubleday, 1998, p.259 [The Anchor Bible].
86 AMSLER, Samuel, Os últimos profetas: Ageu, Zacarias, Malaquias e alguns outros, São Paulo:
Paulus, 1998 [Cadernos Bíblicos vol. 72], p. 51
87 Confira BALDWIN, Joyce, Ageu,Zacarias, Malaquias: introdução e comentário, São Paulo: Vida
Nova/Mundo Cristão, 1986, p. 202; GLAZIER, Beth McDonald, Malachi: The Divine Messenger, Atlanta: Scholars, 1987, [SBL dissertation series 98] p.123; HILL, Andrew E., Malachi: A New tranlation, p.259; entre outros.
88 Confira KEIL, C.F., Commentary on the Old Testament in Ten Volumes: Minor Prophets,
Michigan: William B. Eedmans Publishing Company, Vol. 10, reimpressão 1982, p. 454; WOLF, Herbert, Ageu e Malaquias, São Paulo: Vida, 1986, p.101; HILL, Andrew E., ainda cita outros autores que concordam com essa divisão. São eles: Packard, Smith e Kaiser, p. 260.
interlocutor, uma explicação mais detalhada da afirmação que exige uma conclusão90.
O oráculo 2,17-3,5 relaciona-se com os outros oráculos do livro de Malaquias. A seguir serão expostas as opiniões de alguns/algumas comentaristas que entendem o vínculo do quarto oráculo de Malaquias como uma fonte de compreensão para as disputas no livro.
C.F. Keil entende essa relação a partir da divisão dos oráculos em três seções: 1,6-2,9; 2,10-16 e 2,17-4,6 (3,21)91. Para Keil a seção 2,17-4,6 (3,21) relaciona-se com os demais oráculos apresentando o “dia do Senhor” que confronta o descontentamento e a murmuração dos que perderam a fé.92
Para Keil, 2,17 é a abertura da seção que expressa o desejo da vinda de Javé e este tema direciona toda a seção (ou os oráculos que se seguem). Assim, em 3,1a, o Senhor envia o mensageiro; em 3,1-6 há o anúncio repentino da vinda do Senhor para refinar e exterminar os pecadores; em 3,7-12 a salvação é retardada pela deslealdade; em 3,13-18 o julgamento é anunciado e chegará sem clemência distinguindo entre o íntegro e o mau; em 4,1-3 (3,19-21) o julgamento traz salvação para o religioso-íntegro e destruição para o mau; o encerramento da seção se dá nos apêndices 4,4-6 (3,22-24) onde há a advertência para colocar o coração na lei de Moisés e atentar no anúncio de Elias.93
Em relação aos outros oráculos, Andrew E. Hill afirma que o quarto oráculo constitui, pela paragrafação do Texto Massorético, uma sub-unidade (2,13-3,21). Nesta sub-unidade se considera os oráculos como um tratado no relacionamento do povo da aliança com Javé.94
Hill ainda afirma que, o quarto oráculo apresenta a ameaça do julgamento divino. E este julgamento está estreitamente ligado aos terceiro (2,10-16) e quinto oráculos (3,6-12), que se constituem como pivôs que atraem o julgamento do Senhor95. Assim, os motivos do julgamento devem ser apreendidos a partir dos conteúdos dos terceiro e quinto oráculos.
90 SELLIN, Ernst e FOHRER. Georg, Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo: Paulinas, Vol.2,
1977, p. 710.
91 KEIL, C.F., Commentary on the Old Testament in Tem Volumes: Minor Prophets, Michigan:
William B Eerdmans Publishing Company, Vol.10, reimpressão, 1982, p. 428.
92 Idem, p. 454. 93 Idem, p. 454.
94 HILL, Andrew E., Malachi: A New Translation, p. 259. 95 Idem, p. 261.
Por sua vez Beth McDonald Glazier, sobre a relação do quarto oráculo com os outros, afirma que 2,17 não apenas introduz o quarto oráculo, como também dá base para o restante da profecia de Malaquias (3,6-24). Pois ao longo do texto está em debate a justiça de Deus.96 Glazier ainda afirma que o sexto oráculo (3,13-19) dá respostas às perguntas feitas no quarto oráculo (2,17-3,5) e o quinto oráculo (3,6-12) aponta para a ação de Deus quando tudo estiver reconciliado (o sacerdócio e o povo) produzindo uma vida de bênção e fertilidade.97 Desta forma, também vê o quarto oráculo estreitamente ligado aos demais oráculos do livro.
Claudia Mendoza afirma que o oráculo 2,17-3,5 constitui-se o centro do livro de Malaquias. Ela advoga que os oráculos foram organizados propositadamente na forma concêntrica. Para ela, o centro do livro é a justiça divina através da obra purificadora no templo-sacerdócio e na vinda do Mal’aki
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“meu mensageiro”.98 Outrossim, Shigeyuki Nakanose e Enilda de Paula Pedro afirmam que os oráculos “não têm uma ordem especial” e que deixa entrever que foram pronunciados em diversos momentos da vida da comunidade.99O quarto oráculo (2,17-3,5) está relacionado com os demais oráculos. Observando a relação entre os oráculos, pode-se dizer que suas relações parecem ser estreitas, constituindo até mesmo um nível de dependência, no formato final do livro. Suas relações parecem apontar que o julgamento próximo tem relação com as outras acusações do livro de Malaquias.
No entanto, o quarto oráculo também precisa ser estudado e compreendido a partir de sua própria independência estrutural.
2.3. A estrutura da perícope
O oráculo pode ser subdivido em quatro partes principais: a controvérsia ou disputa (2,17); o anúncio do processo para a vinda de Javé (3,1) e o dia de Javé distinguido para dois fóruns: a purificação para os filhos de Levi (3,2-4) e o julgamento sobre o povo, mais enfaticamente, aos que praticam males sociais (3,5).
96 GLAZIER, Beth McDonald, Malachi: The Divine Messenger, p.124. 97 Idem, p.124.
98 MENDOZA, Claudia, Malaquias: El profeta de la honra de Dios em Revista de Interpretação
Bíblica Latino-Americana Vol.35-36, Quito-Ecuador, 2000, p.226.
99 NAKANOSE, Shigeyuki e PEDRO, Enilda de Paula, Como ler o livro de Malaquias: defender a
A primeira seção do oráculo apresenta um aparente diálogo (2,17). Esta seção é marcada em dois momentos: um primeiro marcado pela construção com verbos
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“ fez cansar”, “fez enfadado” (na 2ª pessoa masculina plural e 1ª pessoa comum plural respectivamente) que apresentam o cansaço de Javé diante das palavras/dos discursos das pessoas; o segundo momento é marcado por uma afirmação a cerca da compreensão teológica do povo
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“todo o que executa o mal é bom aos olhos de Javé e a estes ele quer bem” e um questionamento que confronta a ação de Deus e de, uma certa forma,desacredita da justiça divina
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“Onde está o Deus da justiça?” talvez pela decepção da realidade.
A segunda seção do oráculo (3,1) inicia e encerra com a interjeição demonstrativa
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“eis”. A primeira interjeição seguida de um particípio foi utilizada para indicar um futuro próximo e imediato100 do mensageiro e a segunda utilização pode ser explicada como uma contribuição ao estilo exortativo da seção101.Nesta seção há, pelo menos, dois momentos marcados sintaticamente: O primeiro refere-se ao envio de
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“meu mensageiro” utilizando os sufixos que indicam a primeira pessoa do singular (y i
“meu/minha”) sendo o verbo um particípio qal singular e o segundo momento construído com verbos na terceira pessoa do singular sendo direcionados para os interlocutores na segunda pessoa masculina plural (!T,a'
“vós”).
100 KELLEY, Page H., Hebraico Bíblico: uma gramática introdutória, São Leopoldo: Sinodal, 1998,
p.237.
Esta seção aponta para o agir de Javé e parece indicar agentes ou um agente de transformação da realidade. O desafio desta seção é identificar quem são os agentes (ou o agente) do agir divino e em que dimensões atuarão na história?
Estes agentes (ou agente) de transformação da realidade intervirão (á) na história? As duas seções seguintes apontam para as duas esferas que devem ser transformadas: o sacerdócio levítico e a restauração da justiça nas relações cotidianas do povo em Jerusalém (re-orientação da aliança com Javé na obediência às leis).
A seção 3,2-4 é iniciada com duas perguntas retóricas caracterizadas pela partícula interrogativa
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“e quem?”: “Quem é aquele que resiste o dia de sua vinda? E quem é aquele que permanece diante de seu olhar?” (3,2a).O seguimento desta seção é marcada pela partícula enclítica