5. YALIN ÜRETİM UYGULAMASI ile İLGİLİ KAVRAMLAR
5.2. Görsel Kontrol
357 BARTH, Karl. Reformation als Entscheidung. Theologische Existens Heute. München, Christian Kaiser,
Verlag, 3:5-24, 1933, traduzido por Walter Schlupp, publicado pela Sinodal em artigos selecionados com o título de Dádiva e Louvor, op.cit, p.178.
O primeiro elemento fundamental de releitura da teologia da criação em Barth sobre a teologia da criação em Calvino é, sem dúvida alguma, o chamado “conhecimento do Deus Criador”. Tanto para Calvino quanto para Barth, o conhecimento de Deus como Criador e do homem como criatura sua e, portanto, a infinita diferença entre Deus e o homem estabelece o eixo de similaridade, pois, para ambos, o homem deve não somente reconhecer mas também se curvar perante seu Criador. Em Calvino essa idéia sobre o conhecimento de Deus, permeará toda a sua teologia; ele desenvolveu a tese de que Deus dotou o homem com a semente da religião, imprimindo-lhe o conhecimento inato. Como vimos no primeiro capítulo, Calvino afirma que Deus imprimiu em todos um certo conhecimento de sua divindade, desde o menor até o maior de modo que todos entendam que há um Deus criador. Não há povo tão bárbaro, não há gente tão brutal e selvagem que não tenha arraigada em si a convicção de que há Deus. Calvino recorre a essa idéia do conhecimento inato de Deus para que o homem viesse contemplar a Deus e fluir seus benefícios. Esta idéia do conhecimento inato é ponto chave na teologia de Calvino sobre a glória de Deus. Calvino procurou enfatizar demasiadamente a glória de Deus presente na Criação e especialmente no homem que foi chamado por ele e repetido por Barth de “coroa da criação”, e com isso deixou muito evidente em sua teologia a figura de um Deus estritamente soberano. Barth segue relendo a teologia de Calvino e afirmando que a glória de Deus pode ser contemplada à medida que admiramos a própria criação de Deus. Entretanto, e por isso é releitura e não simplesmente repetição teológica, na teologia de Barth podemos perceber a sua enfática atitude de apresentar um Deus amoroso, cheio de graça e que quer sempre amar. Podemos dizer que para Calvino Deus é o “Todo poderoso, Soberano”; para Barth Deus é o “Todo amoroso, cheio de graça”; nesse período, Barth já havia abandonado a idéia do “totaliter alter ” defendido por Kierkegaard. É claro que essas posições diferentes não são excludentes em si mesmas. A forma acaba sendo diferente porque para Calvino o Deus soberano aplacará a sua ira sobre o homem pecador; e essa posição de Calvino acabou levando-o à propagação da doutrina da predestinação. Para Barth, o Deus amoroso revela-se como tal por meio do pacto da graça em Jesus Cristo. A ira não deixa de ser aplacada, porém, em virtude do pacto eterno, a graça de Deus é estendida a todos por meio de Jesus Cristo. Entretanto, o elemento de releitura teológica de Barth sobre a doutrina da criação em Calvino continua válido, pois, apesar do enfoque diferente, o que fica claro para ambos é que o homem precisa conhecer esse Deus Criador. Para falar disso Calvino precisou destacar a idéia de que o homem possuía conhecimento inato de Deus e que por
causa do pecado tal conhecimento ficou obscuro. Para Barth nada disso foi preciso; ele mesmo afirmou que nós nada conhecemos do homem ideal e nem a própria Bíblia conhece tal homem, sem pecado, quem sabe até com capacidade para conhecer a Deus. Novamente, apesar do enfoque diferente, ambos querem preparar o campo para dizer que o homem por si só e ainda desviado por causa do pecado não dispunha de meios para contemplar a Deus como Criador. Deus então proveria o meio para que pudesse se revelar à sua criação, e especialmente ao homem. Portanto, como vimos, em Barth a doutrina da criação assume a característica de “lugar” da revelação do pacto do Deus Criador em Cristo. É aquilo que Barth chamou de conexão entre opus ad intra e opus ad extra. Já em Calvino, a doutrina da criação assume a característica da revelação do Deus que, em sua livre soberania, decidiu criar todas as coisas. Outro ponto que Calvino e semelhantemente Barth utilizaram e que podemos destacar é chamado de “a criação como teatro da glória de Deus”. Esse elemento ainda dentro do conceito sobre o “conhecimento de Deus” é importante pelo fato de poder justificar a minha idéia de que mesmo partindo de enfoques diferentes, é perfeitamente possível enxergar na teologia de Barth a presença da releitura teológica da criação em Calvino.
A figura do “teatro” utilizada por Calvino nos dá o sentido de um ator que está em constante atuação. Encontramos na teologia da criação em Calvino a estreita ligação com as outras doutrinas conhecidas como providência e justificação. As muitas formas das atuações, revelações e intervenções de Deus na história da criação, com certeza, nos ajudam compreender a razão da figura do “teatro” usada por Calvino. Mas, ao nos reportarmos à figura do teatro, necessariamente precisamos também ligá-la àquilo que Calvino exaustivamente chamou de “conhecimento de Deus”; ou, poderíamos dizer, conhecimento do ator. Para Calvino, o homem caído não possui meios suficientes para poder contemplar seu criador. Essa condição de pecador impede o homem de discernir entre aquilo que é criado e o próprio criador. Falando disso, Calvino até combateu a idéia panteísta aristotélica que confundia a obra da criação com o seu ator. Para não cair nessa idéia especulativa, Calvino introduz outro elemento fundamental nessa atuação teatral do criador; trata-se da palavra de Deus. Ou seja, se em princípio a criação era o teatro mudo da glória de Deus, agora, a próxima cena contempla a noção da linguagem falada. Barth apreciou e até confirmou essa repulsa de Calvino às idéias panteístas. Barth disse que a escola de Calvino mostrou que é possível compreender, por um lado, a realidade autêntica do mundo criado, sem contudo, por
outro lado, enaltecê-lo como um deus ao lado de Deus358. Calvino ligou a noção do “teatro da
glória de Deus” à do “conhecimento de Deus”. A idéia de que só o “teatro mudo da natureza” não pode revelar a glória de Deus, justifica a importância que Calvino dá para as chamadas “Escrituras Sagradas” em sua teologia. Esse destaque às Escrituras é semelhantemente comum na teologia de Barth. Como já temos destacado, Barth cita por várias vezes em sua dogmática a figura do “teatro da glória de Deus” utilizada por Calvino. Ainda com a idéia de teatro, Barth diz que a criação é o “palco” onde Deus, o ator, realiza as cenas de suas obras, atuações. A criação como “lugar” da revelação de Deus, assume característica peculiar nas teologias de Calvino e de Barth. E o princípio de releitura que encontramos em Barth está na idéia do “pacto da graça” de Deus. Trata-se de releitura porque para Barth, e aqui diferente de Calvino, a criação não é mera realidade do desejo soberano e majestoso de Deus; antes, a criação e todas as demais “cenas do autor”, ou seja, as obras de Deus, revelam o amor do Deus que quer sempre amar. Como vimos no segundo capítulo, a noção do “pacto interno da graça” por meio de Cristo e também em Cristo a revelação deste pacto na história e no tempo, mostra que Barth reinterpreta a doutrina da criação de Calvino, não com o enfoque da pura “soberania” e sim pelo enfoque do puro “amor”. Portanto, podemos dizer que é impossível reler a doutrina da criação de Calvino sem o enfoque da soberania e majestade de Deus. Como também é impossível reler a doutrina da criação de Barth sem o enfoque do pacto da graça. O segundo ponto que Calvino destaca logo depois da criação, ou seja, a segunda cena do ator, é a sua revelação pela palavra. E essa é mais uma peculiaridade também encontrada em Barth. Mas, vale lembrar que a idéia da soberania de Deus continuará fortemente marcando a doutrina de Calvino. E em Barth, ao falar desse segundo passo da revelação, a idéia do pacto da graça também continuará presente em sua doutrina. No próximo tópico vou mencionar especificamente as características comuns entre Calvino e Barth no que diz respeito à importância da palavra de Deus na fundamentação da doutrina da criação.