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São muitos os discursos que se organizam em torno da criança e sobre ela. Os “adultos da relação” sempre dizem a “verdade” sobre elas e o que acham que as crianças pensam, porém raramente se perguntam se o que eles escrevem ou dizem correspondem às ações ou pensamentos das crianças, e mais, se isso que fazem está realmente de acordo com as necessidades específicas delas.

Com prontidão falamos sobre os sentimentos das crianças (ou o que supomos que elas estão sentindo), julgamos suas atitudes, estabelecemos padrões de certo ou errado e assim por diante. Talvez, como já mencionado anteriormente, a etimologia ajude a explicar este fato.

A palavra infante contém o prefixo in, que indica negação, e o verbo latino fante que significa falar ou dizer. Nesse sentido, ser um infante é ser alguém sem voz diante do mundo adulto. Camargo e Ribeiro problematizam justamente essa proposição:

A noção de infância carrega consigo a ideia daquele que não fala e, por não falar, a criança ocupa a terceira pessoa nos discursos que dela falam. O que vigora é a perspectiva adulta, que desconsidera as especificidades da

criança, procurando nela o adulto e submetendo-a às suas necessidades (CAMARGO,RIBEIRO. 1999, p.17).

Para estas pesquisadoras, devemos considerar não apenas a unilateralidade dos discursos sobre a criança, mas também o pressuposto de que tudo o que é dito sobre ela se baseia em suas necessidades, pois na realidade nem sempre é o que ocorre. Perceber isso certamente envolve um posicionamento crítico em relação ao próprio modo como compreendemos a infância, concebendo a dinâmica histórica e social que a transforma continuamente.

Por muito tempo o conceito de infância ou criança foi a de um adulto em miniatura, não sendo vista como um ser em desenvolvimento, com características e necessidades próprias. Philippe Ariès, em História social da Criança e da Família, propõe que é ao longo da história e vagarosamente que o conceito de infância se constrói.

Mediante uma análise da arte e da iconografia religiosa e leiga da Idade Média, Ariès aponta que a construção do sentimento de amor pelas crianças foi durante muitos séculos, algo despercebido e sufocado, chegando até mesmo a não existir. O autor comenta que: “no mundo das fórmulas românticas, e até o fim do século XIII, não existem crianças caracterizadas por uma expressão particular, e sim homens de tamanho reduzido” (ARIÈS. 1981.p. 51). Sua tese indica o surgimento da noção de infância apenas a partir do século XVII, junto com as transformações da sociedade moderna.

Outra característica predominante no séc. XIII, diz respeito à vestimenta oferecida para as crianças, que descaracterizavam a figura infantil. Tal prática comprovava o quanto a noção de criança era desconhecida neste contexto: “assim que a criança deixava os cueiros, ou seja, a faixa de tecidos que era enrolada em torno do seu corpo, ela era vestida como os outros homens e mulheres de sua condição” (ARIÉS, 1981.p.32).

A não atribuição de compreensões positivas em relação à infância era visível até mesmo nas pinturas dos iluministas da época, pois em muitas delas se visualizavam as crianças como miniaturas, ou homenzinhos, isto é, com estatura de crianças e aspecto de adulto:

Uma miniatura do século XI nos da uma idéia impressionante da deformação que o artista impunha então aos corpos das crianças, num sentido que nos parece muito distante de nosso sentimento e de nossa visão. O tema era a cena do Evangelho em que Jesus pede que se deixe vir as criançinhas, sendo o texto latino claro: parvuli. Ora, o miniaturista

agrupou em torno de Jesus oito verdadeiros homens, sem nenhuma das características da infância: eles foram simplesmente reproduzidos numa escala menor. Apenas seu tamanho os distingue dos adultos (ARIÉS, 1981. p50).

Na história da construção do sentimento de infância, retratada por Ariès, percebe-se também que a trajetória da criança é marcada pela discriminação, marginalização e exploração. Elementos que caracterizavam aquele contexto específico, com todas as necessidades e valores próprios daquele período:

Não nos devemos surpreender diante desta insensibilidade, pois ela era absolutamente natural nas condições demográficas da época. Por outro lado, devemos nos surpreender sim com a precocidade do sentimento da infância, enquanto as condições demográficas continuavam a lhe ser ainda tão pouco favoráveis (ARIES. 1981, p. 22 ).

Com isso, é possível constatar que o conceito de infância sofre os mesmos processos de transformação histórica, como a maioria dos conceitos, e se encontra atravessado por elementos históricos e sociais:

Até por volta do século XII, a arte medieval desconhecia a infância ou não tentava representá-la. É difícil crer que essa ausência se devesse à incompetência ou a falta de habilidade. É mais provável que não houvesse lugar para a infância neste mundo (ARIÈS. 1981, p.17).

Embora o texto esteja usando a arte para traçar o desenvolvimento do conceito, de fato, não se tratava apenas do âmbito estético. É somente a partir do século XIII que surgiu na representação artística, e por consequência nos demais domínios da vida, a noção de infância, algo um pouco mais próximo do que viemos a compreender a partir da modernidade, ou seja, como uma consciência particular e distinta do adulto.

Na esteira das análises de Ariès, as pesquisadoras Camargo e Ribeiro também explicam que são poucos os relatos antigos que mencionam a infância de maneira mais específica. Segundo elas, a maior parte a trata com representações genéricas (1999, p.19). No catolicismo medieval iniciou-se uma crença popular em torno da perfeição espiritual suscitada pela imagem “inocente” da criança, um contraste da alma pecadora do homem adulto. Segundo Camargo e Ribeiro:

A criança venerada pela religião era o “anjo” e circulava assim vestida em todos os acontecimentos e assim transvestida em todos os recantos da vida

cultural. O culto à criança morta – o “anjinho” – merecia uma devoção especial da cultura familiar (1999, p. 19).

Mesmo a história da educação não estabelece uma delimitação precisa do conceito de infância, que durante muito tempo foi vista como uma fase bastante curta da vida humana. Toda Paideia grega, por exemplo, privilegiava o homem-adulto como objetivo final da educação (RIBEIRO. 1996. p.18).

A autora Mary Del Priore, ao tratar sobre o assunto em seu livro História da Criança no Brasil, traz vários relatos sobre o processo de escolarização das crianças. Em primeiro lugar trata-se de algo que se iniciou muito tardiamente, além disso, a oferta de uma educação pública só teve início no século XX. Isso aponta para a ausência e a desvalorização da educação no país, junto com o abandono das crianças e a exploração do trabalho infantil (PRIORE. 1995, p.22).

No caso específico do Brasil, as concepções em torno da criança levantam uma série de dilemas ainda mais complexos, pois, se conforme indica os estudos de Ariès, a marginalização, a exploração e a descriminalização da criança é algo que começa a mudar na Europa a partir do século XVII e XVIII, veja, por exemplo, toda atitude filantrópica que se cria para acolher os órfãos, no Brasil o sistema de “Roda”, em que as crianças eram abandonadas perdurou até meados do século XX, sem falar na grande disparidade de medidas de saúde que eram aplicadas apenas às crianças brancas enquanto os negros e índios nada tinham a receber. Mesmo nesses espaços de acolhimento a criança era pouco valorizada e muitas delas morriam, dada a falta de condições sanitárias, baixa alimentação, entre outros motivos.

Ainda pensando em educação, mas segundo uma reflexão histórica, é escasso o número de literatura que traz o “ser criança” como pauta para discussão, ou ainda, que trate de seu desenvolvimento infantil. Nunes e Silva relatam isso considerando a história de maneira mais global:

O mundo antigo tem representações genéricas sobre a condição infantil. Não há muitos registros que denotem ser a criança um tema próprio. A história da educação não registra uma delimitação especializada sobre a criança. Encontramos textos esparsos em autores que pontificam na Filosofia e áreas afins, mesmo a Religião e a Mitologia privilegiam a temática do homem-adulto, deixando sobre a condição de criança um profundo silêncio (NUNES; SILVA. 2006, p.18).

Hoje esse silêncio é visto como algo aterrador, mas no passado era algo natural e não se constituía como um problema. Ainda assim, devemos considerar o fato de que a infância é um construto social, permeado pelas épocas e suas especificidades, sendo paulatinamente transformada e acompanhando a transformação das sociedades e que ainda têm muitas situações para serem mudadas:

Mais de duas décadas depois da aprovação da Constituição Federal de 1988 e do Estatuto da Criança e do Adolescente, a realização dos princípios da proteção integral e da prioridade absoluta ainda é um caminho em construção. Muitos avanços foram conquistados, principalmente na implementação de políticas públicas voltadas para a infância e a adolescência. O fortalecimento dos canais de controle social, inclusive com a participação direta de meninas e meninos, é uma das principais conquistas nessa caminhada. No entanto, entre as normas legais e a realidade da maioria da população de até 17 anos, ainda há uma enorme distância cuja transposição depende da associação de mudanças estruturais com a construção de uma cultura de respeito aos direitos. Tal situação é mais grave em determinadas regiões do país, como o semiárido, onde se encontram alguns dos mais frágeis indicadores sociais do Brasil: mais de 70% dos 13 milhões de crianças e adolescentes vivem na pobreza (UNICEF. 2011.p.7).

Além de termos muitas crianças ainda em situações deploráveis, muitas também ainda não têm acesso à escolarização. A educação nesse processo, seja ela formal ou não, exerce um papel fundamental, pois é por meio dela que a sociedade transmite às futuras gerações os seus valores e constituição de identidades.

A própria identidade do ser “menino” ou “menina” é algo que se transmite às crianças desde o nascimento pela educação informal, estabelecendo assim as características da categoria às quais irão pertencer.

Da mesma forma, a religião também atua como um mecanismo social capaz de transmitir valores, perpetuando alguns determinismos sociais, mas legitimando-se a partir do sagrado. Segundo Nunes e Silva:

Os atuais tipos de vivência da sexualidade são explicáveis pelo recurso a uma suposta vontade de Deus ou a um desígnio da natureza e neste artifício ideológico que lhes esconde a razão histórica e política destas construções eximindo-os, ao mesmo tempo, do desafio de propor formas igualitárias de ação, apaziguando a violência real e desigual da condição apreendida de homem e de mulher numa suposta complementaridade espontânea e sabiamente articulada (NUNES; SILVA. 2006, p.115).

A infância, portanto, é construída e se transforma mediante uma série de mecanismos, algo que certamente mantém relação com outras dimensões da vida, igualmente construídas, seja através da educação, da família, da religião, do trabalho e assim por diante. Por isso mesmo, debater a noção de infância ou sexualidade segundo uma perspectiva histórica, pensando sobretudo em como isso refletirá em novas proposições para a educação sexual no contexto religioso é algo fundamental e legítimo.

Ainda neste mesmo sentido, uma análise dessas transformações podem afirmar não apenas as características mutáveis do conceito, mas também apontar para um processo contínuo e passível de ser ressignificado à luz de uma práxis mais coerente com os desafios atuais que envolvem tanto a infância quanto a sexualidade. Apreender esta tensão histórica parece ser algo essencial para aqueles/as que se dispõem a propor um trabalho segundo uma perspectiva inclusiva acerca das crianças.

Contribuir para o debate, investigação e os desafios postos para a ação de educadores que abordam o complexo e importante tema da sexualidade em ambiente eclesiástico, muitas vezes silenciado por nossa tradição religiosa, requer certo conhecimento dessa “população alvo” com quem estamos trabalhando. A condição da criança precisa estar clara para o (a) educador (a), o que faz-nos aprofundar ainda mais a discussão:

A condição da criança num país marcado por tantas contradições autoritárias, oriundas de sua tradição colonial e sua trajetória de dependência cultural e política, própria de dependências e estigmas culturais derivados de centros civilizatórios inspirados no imaginário medieval e colonial, bem como nas concepções mais retrogradas sobre a mesma não é tarefa fácil de ser produzida (NUNES; SILVA. 2006, p.3).

O Estatuto da Criança e Adolescente (ECA), datado de 13 de julho de 1990, documento que circula apenas a alguns anos em nosso país, é uma lei que surge em resposta a doutrina de proteção integral a criança e ao adolescente, adotada pela Constituição Federal, regulamentando os seus direitos e que passa a considerar o desenvolvimento da criança a partir de vários olhares:

Art. 3º. A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de (ECA. 1990).

De fato, não por acaso, todo e qualquer avanço no processo de conscientização do lugar da criança, de sua dignidade e valorização só ocorrem mediante a reflexão crítica, assim como, lutas e embates políticos e sociais. Ainda segundo Nunes e Silva:

Somente agora na década de 1990 vimos constituir um núcleo jurídico, resultado de uma longa empreitada de debates e heróicas apologias da cidadania da criança, consubstanciada no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA. 1990).

Esse processo também está entrelaçado àquilo que herdamos culturalmente, positiva ou negativamente falando. As crianças, do mesmo modo, desde que nascem estão mergulhadas nesse sistema de significações sociais. Na interação com o outro, constroem seus conhecimentos e ao mesmo tempo são construídas por significados produzidos e acumulados historicamente.

O que é ser criança? Quem é ela hoje e em que difere do passado? Quais são as concepções que se têm a respeito delas e o que regulam tudo aquilo que se faz com elas e por elas? A infância/criança deve ser tomada como um fim em si mesmo ou visando o seu futuro? Seriam elas um adulto em miniatura? A disparidade de visões sobre cada uma dessas questões é imensa. O certo é que tentar respondê-las sem a consideração de que a infância envolve uma identidade socialmente construída e em contínuo processo seria no mínimo temeroso.

Benzer Belgeler