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Dos desdobramentos que se seguiram ao longo da história do cristianismo, no que diz respeito à abordagem do tema da sexualidade, houve uma série de pontos problemáticos que estão intimamente ligados à perspectiva moralista que se criou em torno do assunto. Ora, tudo isso foi paulatinamente se intensificando, e hoje, muitas de nossas tentativas de ressignificação do assunto no contexto religioso ainda são podadas por conta disso.

Fatos como: a inexistência de propostas de orientação sexual; a falta de materiais adequados para a abordagem do tema; uma elevada angústia por parte dos responsáveis pela educação cristã no que concerne a sua práxis; a própria falta de reconhecimento do despreparo; pré-conceitos ou mitos e tabus que a sociedade e a igreja reforçam parecem encontrar sua gênese nesses elementos historicamente datados.

Ao especificar esse problema a partir do modo como as pessoas lidam com o próprio corpo, por exemplo, Gomes (2006) irá mostrar, justamente, a ocultação do caráter histórico que circunscreve a questão, ou seja, que o corpo humano é um constructo social e

historicamente determinado, tem uma história e conta uma história. Para este pesquisador, a história do corpo confunde-se com a história do desenvolvimento da espécie, refletindo-se mediante a história social da humanidade:

Neste sentido, repercutem também sobre o corpo as contribuições das representações sociais construídas a partir das crenças e ideias religiosas. Esta assertiva é absolutamente válida quanto às representações do corpo no Cristianismo, que foram edificadas a partir da teologia cristã. Já a história contada pelo corpo, na ontogênese, no desenvolvimento do indivíduo, reproduz de certo modo a história da filogênese e incorpora o repertório de representações coletivas oriundas de uma determinada cultura num determinado intervalo de tempo, isto é: o corpo é histórico (GOMES,2006).

É possível ver refletir nas palavras de Gomes o fato de o ser humano exercer sua sexualidade num espaço de tempo determinado e perpassado pela economia, política e, também pela religião – algo que durante todo esse capítulo tentei expor – determinando assim, suas crenças sobre o corpo humano, a sexualidade e sua práxis sexual.

No caso específico de nosso contexto e das religiões protestantes brasileiras, as concepções sobre a sexualidade estão muito ligadas à tradição puritana da América do Norte e com toda a sua carga de legalismo e ascetismo religioso. O puritanismo tem sua origem na reforma protestante da Inglaterra a partir do século XVI. Protestantes mais radicais viram no ritualismo e na relação entre a Igreja Anglicana e o Estado, alguns elementos que precisavam ser contestados. Pensavam poder “purificar” a igreja, mas acabaram sendo perseguidos pela política da Rainha Elizabete I.

Muitos desses cristãos encontraram na América do Norte uma terra onde pudessem exercer a sua fé e prosperar. Ali, também, desenvolveram plenamente sua moralidade, que quase sempre perpassava a negação de qualquer elemento sensual, isto é, ligado ao corpo e a sexualidade, a luta contra o mal e o pecado, a elevação espiritual a partir da mortificação dos desejos humanos, o autocontrole e assim por diante.

Ora, será justamente esta a versão protestante que mais irá influenciar a evangelização no Brasil e, por isso mesmo, a religião protestante em terras brasileiras se reconhecerá por um ideal que se baseia na afirmação daquilo que seus fiéis não fazem: não bebem, não fumam, não dançam etc., numa relação de rejeição da cultura brasileira, e especialmente a tradição católica (GOMES, 2006).

Nisto também se vincula o estereótipo e a condenação das expressões corporais, vendo o corpo como habitação do mal e do pecado. Dessa forma, as intenções visando o controle são profundamente instigadas. No caso dos primeiros pentecostais que chegaram ao Brasil, por exemplo, a sua literatura demonstra como característica fundamental a rígida moral sexual de seus grupos e o controle dos mesmos por parte de sua liderança.

A pedagogia sexual no Brasil e no contexto do protestantismo, de maneira muito grotesca, procurava imitar as formas apresentadas pelo protestantismo norte-americano, sobretudo as vertentes puritanas, em que a sexualidade era regida por normas e o sujeito era desconhecido e o prazer indeferido.

O ascetismo sexual, que como tentei demonstrar é algo construído ao longo da história, se junta a uma funcionalidade mecânica, típica da modernidade, cujo objetivo central é a funcionalidade do matrimônio e a geração de filhos. Para Gomes:

A dimensão do corpo, nesta expressão sexual, é aquele da máquina que deve funcionar apenas para atingir os objetivos propostos sem nenhuma consideração pela liberdade, autodeterminação e criatividade do sujeito envolvido. O corpo é tratado como um objeto que não tem existência em si mesmo; ele deve funcionar a partir de princípios externos e alheios ao sujeito (GOMES, 2006).

Tais proposições quanto ao sexo são legitimadas por uma leitura fundamentalista da Bíblia, vista como um compêndio de orientações e de pedagogia sexual, mas com a ressalva de que suas principais orientações são dadas quanto ao que não se deve fazer, como por exemplo, a ideia de que a única posição aceitável em um ato sexual é a de um homem sobre a mulher, pois esta deve se sujeitar ao marido e nunca se colocar sobre ele.

Segundo Gomes, a partir dessa leitura legalista todas as demais publicações em matéria de orientações irão se guiar e firmar uma ética sexual profundamente negativa: “excluem todas as formas de manifestação corporais: o vestuário, a dança, a prática de esportes, o teatro, a coreografia nos cultos etc” (GOMES, 2006).

A sexualidade torna-se descaracterizada e desprezada. Todas as suas manifestações viram sinônimo de promiscuidade e pecado. As consciências dos indivíduos, ao assimilarem isso de maneira acrítica, perpetuam uma visão sobre o corpo e sobre a sexualidade extremamente ambígua e confusa, útil para a procriação, mas ao mesmo tempo carregada de mal e pecado.

Tendo que lidar com essas contradições, o contexto religioso cristão no Brasil transformou-se em um mecanismo perpetuador de antigas perspectivas que negam o corpo e a sexualidade, não compreendendo os seus atributos numa relação interdependente com a integralidade do ser humano.

O silêncio e a omissão quanto a essa parte essencial da vida encontra nesse rastro histórico a sua ancoragem, algo que ainda parece imperar nas igrejas. A sexualidade, consequentemente, torna-se algo reduzido e vinculado apenas ao sexo entre macho e fêmea, perdendo toda sua amplitude, como a formação da personalidade, a identidade dos sujeitos e suas consequências para a relação interpessoal e, também, com o transcendente. Segundo Farris:

A sexualidade humana vai além dos comportamentos específicos, das atitudes e dos desejos porque ela é parte integrante da personalidade, ou do senso de identidade e de como nós nos relacionamos com o mundo. A personalidade, ou o senso de identidade é o espaço no qual o mundo interior da pessoa, ou consciência, interage com o social e o transcendente. Assim, a sexualidade é mais que uma lista de atitudes, sentimentos e comportamentos. Ela é uma parte integrante de como os seres humanos existem no mundo. É parte integrante do ser (FARRIS. 2006, p.919).

De fato, ao longo da história, as relações genitais são sempre os elementos mais associados à sexualidade humana, mas isso é uma redução extremada e perpetuam elementos que não respondem aos nossos dilemas e problemas contemporâneos, como aqueles ligados ao gênero ou ao reconhecimento da identidade.

Os fiéis, por sua vez, ao não encontrarem nas igrejas uma educação pertinente, acabam internalizando informações que nem sempre tratam do assunto de forma clara e significativa para o seu desenvolvimento, permanecendo a falta de esclarecimento e a impossibilidade de expressões autônomas e saudáveis. Neste deficiente processo, a problemática se intensifica ainda mais quando se delimita o tema à educação sexual infantil, praticamente inexistente, pois requer uma concepção de sexualidade muito mais ampla do que as relações genitais, assunto que abordaremos no próximo capítulo.

Benzer Belgeler