Como referido, anteriormente, de forma a se investigar o modo como a matriz sócio-histórica se concretiza em uma dada situação, definiu-se pela realização do estudo a partir de um recorte temático. Este envolveu casos ligados ao ingresso de bebês na creche e à ocorrência de episódios de doença durante essa freqüência10.
De maneira a se obter os episódios, definiu-se pela seleção dos casos a partir de eventos de doença. No entanto, essa seleção representou somente uma forma de se definir os casos e compor o corpus para investigação. O foco de análise, no entanto, não ficaria centrado nos episódios de doença em si, mas em todo o processo relacionado às pessoas envolvidas, desde o ingresso na creche.
Procurando traçar critérios para a seleção dos eventos de doença, definiu-se que não colocaríamos qualquer restrição ao tipo de episódio. Assim, este poderia tanto ser um quadro agudo (otite, pneumonia, desidratação), como crônico (hipotonia muscular, alergia a leite de vaca, refluxo gastro-esofágico). Poderia, ainda, envolver uma doença que havia sido diagnosticada antes do ingresso do bebê na creche, como também ter sido detectada após o início da freqüência à mesma. Finalmente, poderia ser um quadro patológico que independesse do ambiente da creche (uma cardiopatia ou quadro de hipotonia muscular, por exemplo), como poderia estar mais ligada à permanência do bebê no Módulo “Rosa” (gripe, conjuntivite, otite, etc.). Essa opção por abarcar diferentes tipos de quadros deveu-se ao pressuposto de que as características que os envolvem poderiam estar relacionadas a diferentes significados sócio–culturais, permitindo uma exploração mais ampla do objeto de estudo, através de uma maior diversidade de elementos mediadores das práticas de cuidados.
Definido isso, passamos a verificar quais, dentre os 21 bebês, preenchiam o requisito de adoecimento. Entretanto, verificou-se que todas as 21 crianças adoeceram várias vezes ao longo do ano e, potencialmente, todas poderiam ser
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investigadas. De modo a tornar o projeto factível, optou-se por delimitar o número de episódios estudados.
Como uma primeira delimitação, definiu-se que os episódios de doenças selecionados seriam restritos ao primeiro semestre de 1994, pois as gravações em vídeo estavam restritas a esse período e elas seriam um recurso importante a ser utilizado na análise.
Além disso, considerou-se adequado, se possível, dar prioridade às crianças “sujeitos focais”, pela existência de um registro mais rico das mesmas. No entanto, este critério mostrou-se de certa forma não definitivo, já que uma abordagem do material empírico revelou que as educadoras trataram, nas entrevistas, de questões ligadas às intercorrências de saúde da maioria das crianças. Além disso, dada à forma como as gravações em vídeo foram feitas, todas as 21 crianças tiveram seu registro realizado ao longo do semestre. Frente a isso, considerou-se possível ampliar o espectro de crianças a alçarem o lugar de sujeito no estudo.
De modo a procedermos à identificação e à seleção dos casos, inicialmente, lemos todas as Entrevistas de Matrícula, com o objetivo de determinar aquelas crianças que já tinham algum diagnóstico de patologia, anterior ao ingresso na creche. Depois, recorremos às Fichas de Saúde e de Intercorrências de Saúde, relativas ao primeiro semestre de 1994, em busca da identificação de episódios de doenças e do diagnóstico dado pelo médico. Esse procedimento levou à estruturação de uma ficha individual para cada uma das 21 crianças (vide modelo, em ANEXO 6), registrando os dados gerais do bebê (condições da gravidez e nascimento; eventos de doença anteriores ao ingresso na creche; práticas e rotinas de alimentação anteriores ao início da freqüência na creche), dados da família (antecedentes familiares relacionados a doenças), dados ligados à freqüência à creche, além dos episódios de doença registrados após o ingresso na creche.
Com esse material, traçamos um quadro de todos os episódios de doenças registrados e, a seguir, analisamos o material com relação às características das doenças. Desse conjunto, destacamos episódios que tiveram diagnóstico de doenças crônicas ou congênitas (como refluxo gastro esofágico ou geno-valvo); ou que resultaram no desligamento da criança da creche (como no caso de Vera); ou, ainda, relacionados a quadros infecciosos mais graves que tenham exigido uma internação
(como nos casos de Iraídes e Vívian). Do conjunto de crianças com doenças corriqueiras ou menos graves, foi realizado um sorteio, para encerrar a seleção dos episódios do estudo. Além disso, apesar do foco ter sido dado em episódios de “doença”, foi incluído um caso de “acidente” (mordida) dada à gravidade da lesão na criança mordida e da extensão que o episódio assumiu dentro do grupo.
Ao longo do estudo, vários episódios selecionados tiveram que ser eliminados e substituídos por outros, diante da verificação de que alguns dos casos selecionados não possuíam razoável material empírico para a análise, ou porque não tinham sido comentados pela educadora e/ou mãe ou, ainda, por não ser possível parear as falas das entrevistas com as cenas de vídeo. Assim, após várias abordagens dos diferentes casos, definiu-se por sete episódios, os quais se encontram listados abaixo.
Quadro 7 - Episódios selecionados
Criança Sexo Idade ao ingresso na creche Episódio de doença ou acidente Data Educadoras responsáveis
Nisete Feminino 5 meses
6 dias Refluxo gastro- esofágico Primeiro semestre Zilda Marcela
Túlio Masculino 6 meses Hipotonia muscular,
com atraso neuromotor Diagnosticado em maio Zilda Marcela
Linda Feminino 9 meses
12 dias
Gripe 18/03/94 Mirtes
Branca
Iraídes Feminino 9 meses
15 dias
Gripe 10-11/05/94 Mirtes
Branca
Vera Feminino 10 meses Resfriado, otite,
conjuntivite
04 – 26/04/94 Mirtes
Branca Vitor Masculino 12 meses Episódio de mordida,
com lesão em face de Armando
21/06/94 Mirtes Branca
Guido Masculino 12 meses
5 dias
Resfriado 11/03/94 Milena