A América Latina é um continente repleto de características próprias e especiais. Sua colonização foi fruto de muitas disputas entre as potências mundiais da época, portugueses, espanhóis, franceses, holandeses e ingleses, empreenderam vários conflitos pela posse e domínio da nova terra, com ingleses e holandeses sendo os grandes perdedores. O novo continente estava repleto de riquezas, porém a maior delas, não interessava aos colonizadores. Suas inúmeras religiões detinham tamanho conhecimento dos astros, que dominavam completamente a agricultura pelo conhecimento dos ciclos lunares e solares e suas influências sobre as plantações.
As religiões pré-colombianas detinham também conhecimento matemático e científico que lhes proporcionou a construção de grandes templos e megacidades que abrigavam milhares de pessoas, bem como a compreensão da anatomia humana, realizando grandes intervenções cirúrgicas como trepanações e amputações, (ANDRADE, 2011) curando pacientes que ainda hoje, possuem expectativas de cura pequenas, tudo isso muito antes do Velho Continente começar a entendê-las. Grande parte desse conhecimento, senão todo ele,
foi perdido para sempre, porque o Novo Continente era visto pelos colonizadores como impregnado de “falsas religiões”, que deveriam a todo custo ser exterminadas para que o Cristianismo reinasse soberano. À época das grandes navegações, a Igreja Católica detinha não somente grande poder religioso, mas muita influência sobre as coroas portuguesa e espanhola, e possuir terras em nome de seus reis e rainhas, significava forçosamente empreender esforços para exterminar toda e qualquer religião que não estivesse de acordo com os preceitos cristãos.
Os ideais cristãos foram impostos sobre os povos do novo continente como elemento fundamental para sua socialização e “evolução”, pois não importava o quanto estivessem à frente do povo europeu, eram considerados bárbaros por seus usos e costumes, dentre eles o “desperdício” de bens tão valiosos, como ouro, prata e pedras preciosas, oferecidos em holocaustos a “deuses pagãos”. Contudo, os conquistadores falando em nome da Santa Sé, utilizavam como argumentos para validar seus atos genocidas, o combate às práticas de sacrifícios humanos, ainda que as práticas de torturas e mortes realizadas em nome da Igreja se diferenciavam das indígenas somente por serem realizados sob “a vontade do Deus cristão”. A força e capacidade da Igreja Católica de influenciar as coroas portuguesa e espanhola lhe garantiu não somente a “plena posse” das almas dos indígenas, mas também, o direito de levar adiante suas estratégias de colocar sob sua tutela, os interesses políticos estatais, uma vez que, detinha o “status” de religião oficial dos impérios português e espanhol. Essa parceria entre Estado e Igreja Católica como “sócios-colonizadores” permitiu à Igreja não somente a expansão de suas ideias e de sua religião, como a elevou à categoria de religião mundial. Essa parceria entre Estado e Igreja não chegou ao fim, ao menos imediatamente, quando as colônias conseguiram suas respectivas independências.
A América Latina, como se sabe, "nasceu" católica. [...] Portanto, a expansão ibérica significou também a expansão do catolicismo na América Latina, mediante a união da cruz e da espada, do trono e do altar, fato este que não mudou durante as décadas e os séculos, mesmo com a constituição dos Estados-Nações no continente, posto que muitos países adotaram legalmente o catolicismo como religião oficial, com a consequente ausência ou limitação da liberdade religiosa na região. (ORO e URETA, 2007, p. 281).
Formado por inúmeras raças e etnias com um número infinito de religiões, o continente Latino Americano não era tão diferente de outras colônias, como as africanas por exemplo. Sua característica particular e peculiar não está centralizada em suas lutas pela independência, mas sim no fato de que as independências proclamadas, não extinguiram completamente todo o ciclo do domínio europeu. A permanência como religião oficial dos Estados-Nações por um longo período de tempo confirma a imensa força que a Igreja Católica
possuía naquele momento. Sobreviver como religião oficial da nova ordem política, demonstra que ela havia conquistado de modo quase sobrenatural, a confiança dos povos, passando da posição de algoz para sua defensora. Essa simbiose com os novos Estados- Nações, fez do novo continente um novo celeiro para a implementação dos ideais da Igreja Católica, de modo mais incisivo. Nessa nova realidade ela possui não somente grande poder e influência sobre os Estados e sim, faz parte integrante de sua formação, pois são estados confessionais católicos. Com essa posição privilegiada lançou raízes profundas que fomentaram cada vez mais, a formação de interesses comuns entre Igreja e Estado, o que resultou em uma grande “era mágica” para a Igreja Católica, que teve à sua disposição e “sem concorrência”, todo um continente.
A Igreja Católica soube aproveitar sua supremacia religiosa impondo padrões muito bem estabelecidos de domínio eclesiástico, sobre os mais importantes elementos e grupos sociais, em especial os índios, que poderiam se tornar uma ameaça à Igreja, se não fossem convertidos. Estabelecendo um processo de alfabetização de “mão dupla”, onde a necessidade de compreender e ser compreendido, levou à Igreja Católica a assumir a catequese como elemento fundamental de implementação de suas ideias e convicções no novo continente, ampliando sua influência, recenseando os povos, com a implantação do batismo e casamento religioso, como formas de estabelecer documentalmente o alcance de sua influência. Desta forma, a América Latina é dotada de várias configurações laicas que compreendem distintos universos, onde as relações Estado/Igreja são permeadas por ingerências mútuas e frequentes.
O Estado é laico, afirmam os defensores da separação, da neutralidade e da imparcialidade entre Estado e Religião, tendo como paradigma o modelo europeu, em especial o francês. Entretanto, se esquecem de que a estrutura social existente na América Latina à época do “descobrimento” nega categoricamente essa afirmação. As nações latino americanas possuíam um sistema de hierarquia sócio-política, com predominância das questões religiosas na vida particular e pública. Deste modo, Estado e Religião na América pré-colombiana estavam intimamente ligados com as questões e fatores religiosos, sempre em evidência e destaque. Então, analisar a laicidade latino americana, sem considerar esses elementos essenciais e tão distantes da realidade francesa, cria um abismo intransponível na compreensão de sua formação e entendimento de suas formas típicas e peculiares. As laicidades latino-americanas, ao contrário da francesa, colocam em destaque o direito real e irrestrito do indivíduo possuir sua confissão de fé e as religiões de oferecê-las. Esse direito é inalienável e não pode ser suprimido por simples interesse estatal, talvez por essa razão, a América Latina seja campo tão fértil para o debate sobre a laicidade. O ser humano moderno,
ao contrário de seus antepassados, possui entendimento sobre os mais diversos elementos que compõem o cosmos, e desse modo, ao se engajar em “uma cruzada de fé”, detém o pleno direito de não ser impedido ou questionado sobre suas decisões, pois se ele não possui o pleno conhecimento da ciência evolutiva, ao menos compreende que o sagrado e o sobrenatural estão em áreas de atuação distintas, onde o Estado exerce sua atuação.
¿ es posible que alguien sea una persona racional, responsable de sus actos, um ciudadano confiable y que además tenga convicciones religiosas, o eso es una anomalia que debemos intentar sanear? Si lo vemos como una anomalia que necesita sanear, em primer lugar esta discusión no tiene sentido; en segundo lugar, creo que salimos por fuera del Estado de derecho y caímos en una especie jacobinismo rampante, muy incompatible con lo que puede ser el pluralismo y la diversidade de las sociedades contemporáneas19. (Silveira, 2006, p. 67).
No mundo ultramoderno e democrático não deveria existir mais espaço para ações de grupos extremistas, sejam eles religiosos ou políticos, que fossem legitimados socialmente a impor sobre os demais atores sociais sua vontade, crença ou opinião política. Estado e Igreja possuem áreas de atuação que se complementam, quando estão envolvidos os exercícios e garantias de direitos fundamentais do cidadão. Sob esse aspecto, as laicidades praticadas na América Latina, de modo geral, têm causado grandes transformações sociais, que permitem não somente a compreensão do direito ao exercício da religião, mas da manutenção de seus usos e costumes.
Não há que se negar que na América Latina a laicidade orbitava em torno das questões e conflitos entre Estado e a Igreja Católica, reconhecida como religião oficial em muitos dos países latino americanos, razão pela qual em pleno século XXI, a maioria da população se declara adepta do catolicismo romano, com países ultrapassando a percentagem de 70% (setenta por cento) da população declarando seu vínculo religioso com a Igreja Católica. Tabela 3. Quadro religioso dos países latino-americanos
País Católicos(%) Evangélicos(%) Outros(%) Não religiosos(%)
Argentina 92 2 6 -
Bolívia 95 5 - -
Brasil 73,6 15,4 3,6 7,4
Chile 89 11 - -
19 Tradução livre do autor: é possível que alguém seja uma pessoa racional, responsável por seus atos, um cidadão confiável e que ainda tenha convicções religiosas, ou isso é uma anomalia que devemos tentar reestruturar? Se vemos como uma anomalia que necessita reestruturação, em primeiro lugar esta discussão não tem sentido; em segundo lugar, creio que saímos do Estado de direito e caímos em uma espécie de jacobinismo rampante, muito incompatível com o que pode ser o pluralismo e a diversidade das sociedades contemporâneas.
Colômbia 81,7 15 1,4 1,9 Costa Rica 76,3 15,7 4,8 3,2 Cuba 40 3 7 50 El Salvador 83 17 - - Equador 94 3 3 - Guatemala 60 39 1 - Haiti 80 16 3 1 Honduras 60,3 28,7 11 - México 88 7 5 - Nicarágua 72,9 16,7 1,9 8,5 Panamá 85 15 - - Paraguai 90 10 - - Peru 88 8-10 1-2 - República Dominicana 95 - 5 - Uruguai 52 16 19 13 Venezuela 96 2 2 - (ORO e URETA, 2007, p. 285).
A tabela apresentada, apesar de passados sete anos desde sua pesquisa, demonstra a força de uma religião milenar, que tem na América Latina um de seus “mercados” mais proeminentes. A América Latina Católica, não está presente e disseminada somente no cotidiano da sociedade, seu alcance vai muito além do perdão dos pecados, das festas devocionais aos santos, sua influência está presente também nas esferas estatais. Os espaços e administrações públicas repletos de símbolos católicos, também são elementos de estudos (GIUMBELLI, 2008; FISHMANN, 2012; RANQUETAT, 2012), fundamentais na compreensão dessa laicidade voltada para a interação entre Estado e Religião, sagrado e secular. Os crucifixos nos tribunais, as imagens de santos (as) nas escolas e prisões, a figura do Cristo como guardião de muitas cidades e estátuas de Iemanjá em várias cidades litorâneas “protegendo” as colônias de pescadores, demonstram que a laicidade abaixo da linha do Equador, possui dimensões tão vastas e próprias que renovam o conceito e o entendimento desse elemento vital para a sociedade moderna, porém a figura religiosa não permeia somente os espaços físicos onde atua o Estado. Elemento constante em preâmbulos constitucionais, a
figura de Deus é invocada para “abençoar” os novos poderes constituídos, sendo eles democráticos ou não.
Tabela I. Regimes de relações Igreja-Estado na América Latina20
País Deus na
Constituição
Igrejas de Estado Laicidade com privilégios para Igreja Católica
Laicidade com igualdade para todos os cultos
Argentina Sim Sim Não Não
Bolívia Sim Sim Não Não
Brasil Sim Não Não Sim
Chile Não Não Não Sim
Colômbia Não Não Não Sim
Costa Rica Sim Sim Não Não
Cuba Não Não Não Sim
El Salvador Sim Não Sim Não
Equador Sim Não Não Sim
Guatemala Sim Não Sim Não
Haiti Não Não Não Sim
Honduras Sim Não Não Sim
México Não Não Não Sim
Nicarágua Sim Não Não Sim
Panamá Sim Não Sim Não
Paraguai Sim Não Sim Não
Peru Sim Não Sim Não
República Dominicana
Não Não Sim Não
Uruguai Não Não Sim Não
Venezuela Sim Não Não Sim
(ORO, 2008, p.6).
Como se pode notar, a laicidade praticada na América Latina apresenta uma interação entre Estado e Religião muito forte. Em um total de vinte países, apenas em sete a figura de Deus não está presente na Constituição nacional. Em todos os países, as religiões são reconhecidas como elementos importantes na formação do estado, sendo que em três deles, a
Igreja Católica ainda mantém a hegemonia religiosa, reconhecida como religião oficial. E esse reconhecimento de uma entidade religiosa como Igreja Oficial do Estado, quebra o paradigma de laicidade conhecida e reconhecida como a separação entre Estado e Religião, bem como desconstrói todo um sistema erigido sobre a necessária neutralidade e imparcialidade do Estado em relação às religiões. O Estado confessional não pode, e não deve, ser confundido com o Estado teocrático. O primeiro é um Estado que declara uma determinada religião como oficial, porém que não se confunde com ela. No Estado confessional a religião oficial pode influenciar nos rumos políticos e jurídicos e possui tratamento especial negado às demais religiões (RANQUETAT, 2012). No segundo, Estado e Religião se fundem e quem determina os rumos da nação é a religião que não é oficial porque é única, não permitindo outras (FISCHMANN, 2012). Sob esse aspecto pode então existir Estado Confessional Laico?
Inicialmente se afirmaria que o Estado Confessional jamais poderia ser considerado laico. Entretanto, retomando um pouco o caso francês, pode-se notar que as regras que valem para um estado, devem valer para o outro. O caso francês é bem semelhante ao caso argentino, por exemplo. Naquele o estado possui direitos que lhe garantem intervir, e até mesmo, proibir atos religiosos, sempre que houver necessidade para a garantia dos direitos individuais e coletivos, sob o enfoque do Poder Público. Neste, não há o direito da religião oficial intervir nos interesses do Estado e sim, uma possibilidade de conduzir as discussões de acordo com suas necessidades e vontades, inclusive retirando ou impedindo que outras religiões usufruam de benefícios estatais. Em ambos os casos, a neutralidade e a imparcialidade que deveriam ser elementos indissociáveis da laicidade estão à margem dos interesses estatais, de uma forma ou de outra. Dizer que a França não é um país laico soa como “heresia”, todavia, por que não reconhecer que a laicidade está muito além de conceitos e modelos paradigmáticos e estáticos, onde todos devem se encaixar.
O caso argentino, o costa-riquenho e o boliviano devem ser analisados sob quais aspectos e esquemas, para se adequarem aos conceitos e discussões sobre laicidade e, quem detém esse poder soberano de limitar e indicar os elementos constitutivos da laicidade? Essa diversidade de entendimento e aplicação dos princípios laicos, sobre as relações entre Estado e Religiões, ultrapassa os limites acadêmicos. Uma análise de amplo alcance deve considerar elementos sociais, psicológicos, religiosos, jurídicos, políticos, enfim, tudo o que envolve a vida em comunidade. A laicidade à argentina demonstra claramente que a busca de uma laicidade compartimentada não resolve os problemas que a afligem, pelo contrário só aumenta a compreensão de que não se pode criar modelos prontos quando as questões envolvem poder, religião e direitos sociais.
Las oposiciones se dan entre liberdad de consciência y verdade católica; entre derechos universales y mercado desbocado, y entre Estado que garantiza libertades ciudadanas a todo nível y la Iglesia Católica que reclama el monopolio moral. Se vive una laicidade desregulada que busca salir de la hegemonia católica, donde prima la discussión sobre la ampliación de derechos individuales y sociales y la construcción de un espacio público plura21l. (MALLIMACI, 2006, p. 76).
Não compreender esse posicionamento do Estado argentino, que reconhece a Igreja Católica como a religião oficial argentina, porém que busca também conceder ao cidadão o direito de se expressar religiosamente e legitimamente fora da hegemonia católica é no mínimo temerário para os estudos sociais. A construção de um Estado Confessional de Direito, que não obriga ou limita seus cidadãos a professarem a religião reconhecida por ele, pode ser vista como um avanço no conceito da laicidade, que busca oferecer soluções para questões que envolvem o direito à liberdade religiosa e a implantação de Estado preocupado com os direitos humanos de seu povo.
A laicidade latino americana, fundamentada sobre o dever do Estado em garantir direitos e deveres individuais e coletivos, dentre eles o livre exercício de consciência política, social, jurídica e religiosa, é prova de que não se pode mais fundamentar as análises acadêmicas em modelos preestabelecidos, sem a liberdade para ampliar sua compreensão. O conceito de laicidade, há muito tem dado lugar a outras interpretações, razão pela qual, atualmente o conceito mais empregado, entende laicidade como elemento inicial para o entendimento das inúmeras espécies de relações e interações, entre Estado e Religião, em especial, como essas interações influenciam de forma negativa ou positiva o dia a dia da sociedade.